Apresentação

A Sociedade Brasileira de Estudos em Teologia tem o prazer de apresentar O Livro Roxo da Teologia Sistemática, uma obra para todos. Ele vem preencher um vazio nas publicações sobre teologia devido à sua singularidade ao adotar perspectivas incomuns e reveladoras e ao abordar de forma profunda temas que outras obras apenas tangenciam. O descortinar feito diante de nós a cada capítulo deste livro pode até nos perturbar, mas com certeza suas palavras contundentes nos inspiram à mudança.

A ousadia dos autores impressiona pela proposta inovadora dos textos, feitos em linguagem clara, em tom familiar e amigável que busca emular o estilo de uma conversa com o leitor, com exemplos cotidianos e o auxílio de gravuras e gráficos que facilitam o acesso aos conceitos teológicos apresentados. A lógica e a leitura crítica da história são ferramentas bem manuseadas nesse processo. Não se pretende falar sobre tudo, mas abordar o que não é falado na teologia atual ou aquilo que é falado de forma equivocada, o que é uma grande ousadia.

O projeto abrange 3 volumes: A Base, O Cenário e O Fluxo, uma organização diferente da tradicional. Ele abordará os principais temas de Teologia Sistemática com a intenção de falar sobre os assuntos que não são abordados, ou de forma diferente do entendimento exposto aqui. Não se pretende que a obra seja exaustiva ou a única fonte de consulta para um estudante de teologia, mas que seja complementar e confrontadora.

Seguem abaixo os temas a serem abordados em cada volume:

1 A Base2 O Cenário3 O Fluxo
Deus Pecado Morte Igreja CeiaInimigo Cosmologia Cronologia Salvação RitosEscatologia Gigantes Caim e Canaã Impérios Mitologias

Com O Livro Roxo da Teologia Sistemática, esperamos contribuir para um melhor entendimento de Deus e de Sua obra nesses dias do fim. Nosso desejo é que este conteúdo o abençoe e o faça se aproximar mais de Deus. Então, prepare-se para uma grande aventura.

Boa leitura!

SBET

Sociedade Brasileira de Estudos em Teologia

Prefácio à Segunda Edição

Gostaríamos de agradecer aos leitores da nossa primeira edição, o que nos incentivou a expandir a disponibilização dessa obra para os leitores de outras línguas.

Esta segunda edição do O Livro Roxo da Teologia Sistemática trouxe alterações necessárias para deixar o texto mais fácil de ser traduzido para outros idiomas, não que o texto original não pudesse ser traduzido diretamente, mas os regionalismos que usávamos exigiria mais contorcionismos de nosso tradutor para a plenitude da compreensão das nossas percepções teológicas. Simplificamos alguns exemplos, expandimos alguns trechos que estavam muito concisos, tiramos umas vírgulas aqui e ali, harmonizamos o uso de maiúsculas para alguns termos, uma ampliação no Glossário, a eliminação do Índice Remissivo, a inclusão de elementos estilísticos etc. Uma revisão também foi feita nas imagens para deixá-las mais harmônicas entre si.

Nenhuma alteração, entretanto, tocou no desafio do texto original: alterar sua percepção, caro leitor, do mundo e do seu Criador. Mas não se trata de uma percepção nova, no sentido de ser algo novo em si, mas de algo novo para você. Um chamado para ver o que já está lá, só que de um lugar mais alto, de outro ponto de vista, de cima do monte e ao lado do nosso Pai. Uma percepção nova, mas não uma realidade nova, pois o que o Senhor nos deu já foi dado há muito tempo. Você tem em mãos um texto mais fácil de ler.

Nosso desejo é que nossos olhos possam ser iluminados para vermos o que já está na sua frente.

Os autores

setembro de 25

Prefácio à Primeira Edição

O Livro Roxo da Teologia Sistemática é um convite para pensarmos além das respostas dadas pela Teologia Corrente (aqui entendida como a teologia atual, tradicional ou convencional, que sistematicamente analisamos e, em muitos casos, criticamos as falhas e propomos interpretações que julgamos serem mais adequadas) sobre aspectos de Deus e de Sua obra. Entender nossa posição no plano maior de Deus é um aspecto por vezes preterido nas publicações de Teologia Sistemática, o que pretendemos suprir em parte. Sem a percepção do motivo, as coisas ficam postas como se fossem verdades em si e não por oferecerem um caminho aos propósitos maiores. Isso acontece se escolhermos um carro baixo e frágil para levar-nos a uma linda praia, ou a uma montanha acessível apenas por uma estrada de terra em más condições: o carro não deixa de ter valor em si, mas não serve a esses propósitos.

Por vezes a teologia se comporta desse jeito. E por conta disso muitos a usam para desmerecer o Deus ao qual ela se refere, esquecendo-se completamente, para não dizer convenientemente, de que a teologia é um instrumento criado por nós, os homens, para tentarmos entender melhor nossa relação com Ele. A teologia é o carro que usamos, não a linda praia que curtimos em um dia de verão ou a casa da montanha. Se usarmos a teologia errada, ficaremos pelo caminho.

Não se trata de irmos além do que Ele revelou e muito menos de ir contra, mas de obter a integridade, a inteireza do que Ele nos falou, de não deixar passar nada do que Ele falou, e trata-se, por fim, de impedir que conceitos que estão realmente fora de Sua Palavra continuem a imperar.

Como são muitos os pontos em que a Teologia Corrente deixa a desejar, esta obra foi preparada em 3 volumes que tratam de assuntos minimamente isolados, A Base, O Cenário e O Fluxo. Ainda que possam ser lidos de forma independente, recomendamos que os volumes sejam lidos nessa ordem. O mesmo vale para as Unidades de cada volume.

Neste volume 1 – A Base, apresentaremos 5 Unidades: Deus, Pecado, Morte, Igreja e Ceia.

Começaremos com o tema sobre o conhecimento de Deus, depois passaremos ao tema de Cristo, à salvação, ao pecado, à morte, e à Igreja e suas práticas. De posse da visão geral, qualquer outro assunto será de entendimento mais fácil porque você terá em mãos o veículo certo para acessar as mais lindas praias do vasto conhecimento de Deus.

Vamos discutir várias ideias durante o texto, mas seguem aqui alguns tópicos que vão ajudá-lo a aproveitar melhor o livro:

  • A nova aliança começa com a morte do Senhor Jesus na cruz, não com o Seu nascimento;
  • A origem da Igreja é em Cristo, assim como a origem de Eva foi em Adão; Eva não veio do barro, assim como a Igreja não veio do mundo;
  • Deus não nos pode tornar onisciente como Ele mesmo o é, então Ele se tornou homem como somos para que a identificação fosse completa, uma necessidade para a expressão completa do Seu amor. E feito isso, agora Ele nos recebe em Seu Corpo;
  • Os trabalhos de Deus e Suas alianças com o homem são progressivos como escamas de peixe, ou as penas das aves, e juntas apontam para Jesus Cristo, o homem perfeito, o Deus visível. A partir dEle há uma nova aliança de ordem diferente das demais, uma e única aliança em Seu Sangue, a qual está acima de todas as outras e não é sujeita à sequência anterior de alianças. Por quê? Porque a natureza dela é diferente, é uma aliança espiritual de criação do Seu Corpo na terra, a Igreja.

Veja: não se trata de uma busca pela certeza das coisas, não, mas uma busca pela verdade. Este sentimento de querer ter certezas está por trás das muitas mentiras aceitas como verdades durante a nossa vida. E de nada adianta basear nossa certeza em mentiras porque ainda que fiquemos muito confortáveis acalentando nossas certezas, a verdade ri de nossa situação. Não somos chamados para caminharmos baseados em nossas certezas, mas somos chamados para seguir a verdade, uma pequena verdade suficiente apenas para termos confiança em Quem nos fala e crescermos em uma caminhada baseados na verdade de Quem nos guia.

Nossa fé não está em coisas, mas em uma Pessoa. A certeza não é um fim em si mesmo, mas o resultado de acreditar em uma proposta. Se esta proposta for verdade, podemos chamar a certeza nela de fé; se for mentira, podemos chamá-la de tolice. A verdade muitas vezes é desconfortável. As certezas que não estão baseadas na Pessoa certa, mas são deste mundo, são tolices no fim das contas porque se fundamentam em mentiras, por mais bonitas que sejam. E isso se aplica totalmente à área religiosa.

Atenção: este livro não pretende substituir escritos relevantes sobre teologia, mas sim apresentar novos pontos de vista em linguagem acessível. Você vai precisar dessas obras para fazer suas pesquisas independentes e incentivamos você, nosso curioso leitor, a consultar as seguintes obras de referência sobre a Teologia Sistemática:

  • “Teologia Sistemática” de Wayne Grudem, livro popular entre evangélicos, conhecido por sua clareza e abordagem prática;
  • “Institutas da Religião Cristã” de João Calvino, um marco reformado, denso e teologicamente rigoroso;
  • “Systematic Theology” de Louis Berkhof, um clássico reformado, conciso e acadêmico;
  • “Christian Theology” de Millard Erickson, usado em seminários, com enfoque contemporâneo.

Também não é nossa intenção fazer mais uma versão do que já foi feito, então tenha essas fontes perto de você porque falaremos de coisas que não foram abordadas nessas obras, ou o foram sob outras perspectivas.

O motivo de todo esse esforço é que, ao entendermos melhor quem é Deus, vamos poder entender melhor a Sua criação e a parte que tomamos nisso tudo. Que o Senhor abra nossos olhos para que possamos vê-Lo da forma que Ele se mostrou.

As introduções serão muitas neste livro porque os assuntos são difíceis, não tanto por eles em si, mas por nós, por nossa falta de costume com as luzes de fora da caverna[1]. Introduções são uma parte importante porque nos preparam para os conteúdos mais fortes.

Para facilitar o estudo, a cada Unidade apresentamos recursos auxiliares:

  1. resumo no início;
  2. recapitulação no fim;
  3. pontos de atenção;
  4. perguntas e respostas;
  5. apêndices com:
  6. resumo do tema sob a perspectiva da teologia tradicional;
  7. as críticas internas que o modelo da teologia tradicional possui;
  8. as nossas considerações ou complementos; e,
  9. textos complementares em algumas das Unidades.

Você também notará que falamos da perspectiva de uma conversa franca entre pessoas crentes em Deus. Não é propósito deste livro fazer levantamentos de posicionamentos teológicos, ou revisões bibliográficas. O objetivo, caríssimo leitor, é levá-lo a um ponto um pouco mais alto, de onde você terá uma visão melhor do horizonte.

Quanto à escrita, costumamos grafar os pronomes que se referem a Deus com letras maiúsculas. Também preferimos o nós ao eu, ou à impessoalidade. Grafamos entre colchetes as nossas intervenções nos textos alheios.

O livro está em suas mãos. Seria um prazer continuarmos juntos nessa jornada. Vale lembrar que toda verdade que denuncia uma mentira (posta no lugar da verdade) é rotulada de heresia pelos protetores das mentiras, os mesmos que ganham benefícios por conta delas. Elias, por exemplo, era um herege para os sacerdotes de Jezabel; Paulo era o herege perante os judeus de sua época, bem como Jesus Cristo o é até hoje; e muitas, muitas verdades são chamadas de heresia pelos católicos, pelos protestantes, pelos espíritas, pelos judeus, etc. Então, cuidado para não se encontrar no lugar de porcos que pisam as pérolas, estes tesouros moldados pelas feridas das conchas e levantados da escuridão dos mares à luz do dia[2].

Agradecemos à Sociedade Brasileira de Estudos em Teologia por nos proporcionar um ambiente saudável para desenvolvermos este trabalho tão desafiador quanto necessário à Igreja do Senhor Jesus nesses dias. Agradecemos também a todos os envolvidos nessa obra e aos que a lerão, porque você, caro leitor, é o motivo dessas linhas.

No mais, desejamos a você, nosso caríssimo leitor, uma boa leitura, um bom passeio, e um bom despertar!

Os autores

Maio de 2025


[1] Nota do Editor: Esta é uma alusão à ‘Alegoria da Caverna’ de Platão, sugerindo que o livro visa libertar o leitor de compreensões limitadas ou distorcidas, guiando-o para uma verdade mais plena e reveladora.

[2] A expressão ‘porcos que pisam as pérolas’ alude a Mateus 7:6 (‘Não lanceis as vossas pérolas aos porcos…’). Expandimos essa metáfora descrevendo as pérolas como ‘tesouros moldados pelas feridas das conchas e levantados da escuridão dos mares à luz do dia’, realçando o valor precioso e muitas vezes obtido com sofrimento das verdades teológicas que não devem ser desprezadas ou desvalorizadas.”

Resumo

Neste primeiro capítulo, buscamos responder à pergunta sobre a identidade de DEUS por meio de uma conversa direta entre crentes visando uma compreensão mais profunda. Acreditamos que entender quem Deus é permitirá uma melhor compreensão da criação e do nosso papel no plano Dele. Introduzimos a ideia da encarnação de Deus por Jesus, não em Jesus ou através dEle, mas por meio dEle e utilizamos a analogia de um ponto para descrever a natureza imaterial e fundamental de Deus.

Apresentamos uma crítica à influência da teologia não-cristã na cristandade, como a Trindade no Concílio de Niceia, e enfatizamos a importância de interpretar a Bíblia em seu contexto para evitarmos as heresias, por mais encantadoras que sejam.

Estabelecemos neste capítulo princípios de nossa abordagem teológica e conceitos-chave sobre a natureza de Deus e a interpretação bíblica contextualizada. Em suma, o capítulo inicial prepara você, caro leitor, para uma jornada de entendimento sobre Deus e Seu plano.

Introdução

Deus quer se expandir. Antes de qualquer coisa, antes de haver tempo ou espaço, antes de Ele se mover, Ele quis. É a Sua natureza porque Ele é amor, e o amor sempre pensa além de si mesmo. Então criou tudo para colocar o Homem no centro e testá-lo para ver se haveria nele um caráter semelhante ao dEle antes de se expandir para dentro do Homem. Teve de fazer isso por causa do Seu amor, que faz parte de Sua essência tanto quanto a justiça. A justiça só tem seu cumprimento pleno quando o réu concorda com o veredito, e dessa condição surge a necessidade da execução de todas as coisas, ainda que Ele saiba desde o início quem passaria no teste. A existência eterna ou a inexistência eterna precisam ser reconhecidas como destinos justos por seus herdeiros, e por isso cada um será julgado de acordo com suas escolhas tendo como base seu próprio ponto de vista. Eis o motivo pelo qual vivemos.

Deus quer se dar a conhecer. Desde o início Ele tem essa vontade de ser conhecido para que o Homem passe na prova. Ele se importa com isso. Sua revelação para a humanidade foi progressiva na história, contudo, cada um que viveu teve o tanto de revelação suficiente para reconhecer o chamado de Deus para si, mesmo dentro das diferentes culturas. Ele vai julgar o resultado do teste em função do nível de conhecimento disponível para cada um. Por isso, nos Evangelhos, Jesus revela que haverá menos rigor com os moradores de Sodoma do que com os de Jerusalém. Somos chamados para fazermos o melhor que podemos com o que temos, com a intenção clara de fazermos melhor ainda quando tivermos mais.

Deus quer ser ouvido. A primeira coisa depois que criou Adão foi falar com ele. Todas as coisas foram criadas por sua palavra, mas nenhuma delas ouviu; apenas o Homem ouviu. Em seguida Ele incentiva Adão a falar também ao dar os nomes a cada animal que Ele havia criado. Na formação da mulher, Adão já estava hábil em falar e fez uma poesia em homenagem a ela, mas cujo destinatário era Deus. Nos dias que se seguiram os três conversaram muitas vezes. Assim como Adão nomeou os animais, Deus nomeou as estrelas e constelações e as ensinou a Adão. Esse mapa do evangelho continua até hoje falando com todos. Depois da queda, Deus falou com Caim antes de ele matar o seu irmão e falou também depois de matar seu irmão. Falou com Noé antes e depois do dilúvio. Falou com Abraão antes e depois do nascimento de Isaque. Falou com Moisés sem valer-se de figuras, mas diretamente. Falou ao povo por figuras da lei escrita. Falou pelos profetas. E por último, se encarnou e veio falar como homem: Jesus. Ao discutirmos a encarnação, utilizamos a expressão ‘por meio dEle’ ou ‘por Jesus’, em vez de ‘em Jesus’ ou ‘através dEle’, para que fique enfatizada a ideia de que Jesus é a manifestação direta e visível de Deus, e não apenas um canal ou veículo, um aspecto importante na nossa visão. E agora que falou tudo o que tinha para falar, está em silêncio quanto ao assunto principal, a salvação, aguardando o tempo de cumprir-se tudo o que havia planejado. Suas palavras ressoam em nossos ouvidos e Ele mesmo nos faz lembrá-las por meio do Seu Espírito. Não há mais nenhum nível a ser revelado porque o fato de Ele ter tomado a forma de homem (vamos ver isso mais de perto em breve) foi o máximo que pôde fazer para se comunicar com o homem.

O motivo da Criação

E em busca da verdade nos voltamos para o motivo da criação de todas as coisas. O que fez o Ser Inicial, Deus, agir? Ele era completo como sempre foi e não tinha necessidade de fazer nada, não lhe faltava nada. Temos visto que agimos baseados no que cremos, e planejamos em função do que queremos. E o que Deus quis, e ainda quer, que O motivou a tudo criar? O amor. E a natureza do amor é de expansão. O amor quer para o outro. E para se expressar, Deus planejou expandir seu amor, expandir a Si mesmo em outro, que somos nós. Não um nós individual, mas um nós coletivo que seria a expansão de Si mesmo um dia, uma expansão na matéria. Então ele criou todas as condições para a nossa vida e coroou a criação com a formação do Homem.

Seu plano dEle é expressar-Se no Homem, amá-lo e torná-lo parte de Si para que Seu amor flua para os seus filhos e entre eles. Mas de que ser humano estamos falando? Dos que apresentam o mesmo caráter de Deus, que também têm a mesma natureza de amor. A forma de Deus estabelecer a diferenciação entre os que podem passar para a eternidade com Ele se dá nesse curto período de nossa vida, que Ele nos faz viver para que Sua justiça seja plena, pois precisaremos concordar com o Seu juízo no fim. Se assim não fosse, Ele poderia simplesmente levar à eternidade os Seus escolhidos sem que tivessem de viver sobre a terra. Isso não ocorre desse jeito por nossa causa e não por causa dEle, porque nós precisamos nos convencer de que o juízo dEle a nosso respeito está correto.

Somos então colocados neste mundo para sermos testados, provados, crivados, para vivermos uma vida. Não por causa dEle, pois Ele já sabe de tudo, mas por nossa causa porque nós não sabemos. Só uma coisa nos impede de alcançar a eternidade com Ele: nós mesmos. Enquanto aqui vivemos estamos num ambiente que nos testa entre o bem e o mal, entre o eu e o outro, entre o amor verdadeiro – o que se manifesta a favor do outro – e o amor próprio. Esse ambiente de duas possibilidades é o que chamamos de dualidade.

A dualidade e o juízo perfeito

Deus criou a dualidade para ser o teste. Quem foge do mal encontra Deus. Precisamos distinguir aqui entre Dualidadee Dualismo, coisa que não existe. No primeiro temos Deus testando o homem com o Bem e o Mal (verdade); no segundo, teríamos dois ou mais deuses bons ou ruins em luta pelo domínio universal representado pelo domínio do homem (engano).

A dualidade prova no fim das contas quem é de Deus e quem não é, mas prova para quem? Prova para a própria pessoa, mas só no fim, no julgamento final. Para Deus isso não é tão importante porque todo o mal já foi perdoado e todo o bem não faz dele um Deus melhor do que já é. O teste todo é para que o juízo de Deus seja perfeito.

A dualidade aponta Deus como fonte de todas as coisas, e o responsável por elas. Mas no dualismo há um deus que se exime da responsabilidade que lhe cabe pelas coisas ruins, cabendo essa parte indesejável a outro deus, um deus mau. E eles ficam brigando para ver quem ganha a atenção dos humanos. Isso não está de acordo com a revelação de Deus nas Escrituras.

A dualidade, por outro lado, não é apenas uma ideia, ela é uma condição sine qua non[1] para entendermos Deus, Seus planos, e o que estamos fazendo aqui na Terra. É mais do que uma condição lógica, é uma condição dialética. E por falar em dialética, vamos ouvir o que Ele mesmo disse sobre o mal:

Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas. (Isaías 45:7)

Se não entendermos que Deus criou todas as coisas para o teste do Homem, inclusive o mal, e que o Homem é o centro de Sua atenção, permaneceremos em divagações tentando tirar de Deus a responsabilidade pelo mal para podermos nos deliciar com um deus que não existe. A falta de visão completa nos leva a achar que o professor que não permite desonestidades na prova é rígido todo o tempo, quando somente o é no momento da prova. Assim também é o nosso Deus: Ele é um professor amoroso, mas na hora da prova Ele é rígido. Sim, Deus fez o mal[2] por causa do Seu plano de crivo. E para não haver dúvidas sobre Seus métodos, Ele mesmo se sujeitou ao Seu plano de crivo, Ele mesmo fez a prova na sala regida por Suas regras. As opções erradas de uma questão numa prova são feitas pelo mesmo professor que quer que acertemos a opção correta. Não existe um professor mau que faz as questões erradas… O professor é um só. Um dia o mal será desnecessário, será vencido, será destruído pelo Mesmo que o construiu.

Tendo em vista esse pano de fundo, vamos agora nos debruçar sobre coisas que fazemos pensando que estamos certos, mas estão baseadas em mitos e não na Verdade Absoluta que é Cristo, e vamos entender melhor essa expressão em breve. Mas cabe antecipar que toda comunicação se faz por símbolos que contêm significados e se referem a uma coisa real, o referente, a realidade ou verdade à qual um símbolo aponta. Toda mentira é uma tentativa de esconder ou alterar o referente, e o referente absoluto é Cristo, Cristo é a verdade última e o ponto de referência final para todo significado. A sentença contra Ananias e Safira tem essa verdade estampada: “não mentiste aos homens, mas a Deus” (Atos 5:4b).

Alguns desses assuntos terão grande impacto na forma como vivemos, o que é um sinal de quão longe temos andado do nosso Salvador. Outros terão pouco impacto, e corremos o risco de apontarmos os dedos para os irmãos com o sentimento em nós de que estamos mais avançados ou evoluídos do que eles, o que também será um sinal de quão longe temos andado do nosso Salvador.

Neste tempo consideraremos sobre a singularidade de Deus, assunto que contém muitos mitos e visões místicas. O jeito de entendermos Deus interfere diretamente na forma como nos relacionamos com Ele, e esses assuntos estão intimamente ligados.

Antes de avançarmos, não confunda a dualidade de que estamos falando com o conceito do agnosticismo que afirma que Cristo trouxe conhecimento secreto de dualismo entre espírito e matéria para libertar o espírito humano da matéria, negando a verdadeira humanidade de Jesus e afirmando que tal conhecimento secreto era necessário para a salvação, separando o divino e o material.

Deus, só há um

O conceito de Deus

A palavra deus é usada hoje para designar algo sobre-humano que tenha poder criativo, podendo ser uma força/energia impessoal como a natureza, uma classe de seres como os deuses das mitologias, uma pessoa especial como um atleta a quem chamam de o deus do esporte que pratica, ou, por fim, uma referência ao divino, à deidade, como um ser pessoal. Nessa última acepção da palavra, normalmente escrita em maiúscula, está a concepção religiosa e para a qual há os maiores problemas.

O ser pessoal de que estamos falando precisa ser, por definição, um ser não-criado. Se ele tiver sido criado, então deus seria quem o criou e ele seria uma criatura, e não uma origem não-criada. Ele precisa ser eterno, infinito para frente e para trás.

Um conjunto de três características é normalmente requerida: onisciência (saber tudo), onipresença (estar em todos os lugares ao mesmo tempo) e onipotência (ter todo o poder). Essas características foram pensadas sobre Deus a partir do ambiente humano, dentro do tempo, da matéria e do espaço. Inevitavelmente elas têm as limitações do próprio ambiente em que foram concebidas e não podem ser levadas aos limites porque falhariam. Poderíamos propor, por exemplo, a questão se um ser onipotente poderia criar algo que não conseguisse segurar; ou se, por ser onisciente, conseguiria saber o que ainda não teria pensado; ou, sobre a onipresença, se estaria dentro ou fora das moléculas que compõem uma substância.

Essas charadas não nos interessam porque militam sob bases que estão erradas, como veremos. E esse laborar sobre bases equivocadas gera muitas das teologias desvirtuadas que temos hoje.

Onde Deus está

O Deus de Quem estamos falando criou em algum “ponto” da eternidade o tempo, o espaço e a matéria, como Ele nos conta em Gênesis 1: “No princípio [tempo] criou Deus os Céus [espaço] e a terra [matéria]”. Disso decorre que Ele não está sujeito ao que criou, o tempo, o espaço e a matéria, e por isso precariamente chamamos o “lugar” ou dimensão dEle de imaterial ou espiritual.

Isso ainda é inadequado porque Ele nos contou que existem coisas individualizadas nessa dimensão espiritual e, portanto, há uma criação espiritual também, como os anjos, por exemplo. Quando falamos em “dimensão” estamos nos referindo a uma forma de quantificar ou medir algo que EXiste, uma coisa, uma coisa cuja EXistência é real porque foi criado. Este prefixo EX indica algo colocado para fora, e neste caso, EX-istir é “estar fora”, é ter sido criado por Deus. Simplesmente não temos uma palavra para definir Deus porque até a palavra que usamos para algo real, palpável, sensível ou mensurável mostra que essas percepções são para coisas que “saíram” dEle, que estão “fora” dEle. Estritamente falando, Deus não EXiste, nem “INiste”. Ele apenas “iste”; apenas é. A declaração que Ele faz de si mesmo, Eu Sou, toma outro contorno agora.[3]

O que chamamos de mundo espiritual ocupa uma dimensão da criação de Deus, chamemos de 5ª dimensão, já que as primeiras são a altura, a largura, a profundidade e o tempo. Como estamos inseridos nesta construção, Ele se manifesta a nós dentro de nossa limitação qualificando a Si mesmo como espírito, como se estivesse nessa 5ª dimensão, mas na verdade Ele não cabe nela. E não teria como haver uma 6ª dimensão para colocarmos Ele porque dimensão está ligado ao que foi criado e Ele está fora das medidas de tamanho, fora das dimensões.

O tamanho de Deus

Nós estamos dentro do que Ele criou, e Ele nos colocou no centro do que criou, e como tudo saiu dEle, poderíamos dizer que Ele não cabe dentro da Sua criação. É um bom pensamento, mas está limitado pelas regras da criação em que estamos inseridos. Quando pensamos assim, fazemos da criação um esvaziamento do Criador, como se Ele tivesse ficado menor ao ter sido extraída dEle uma parte para moldar aquilo que criou. Não é de todo errado, e disso decorre o entendimento de que as coisas são Deus, ou Deus está em tudo… um pensamento válido, mais amplo que outros tantos, mas limitado por uma premissa não muito adequada devido a dois limitadores: primeiro, porque o tamanho é um atributo da criação, e, segundo, porque Ele se separou da Sua criação e se manifestou assim a ela. É uma abordagem válida para organizar nossos pensamentos em termos de proporcionalidade, mas não conseguimos aplicar isso diretamente a Ele porque Deus não tem tamanho. Isaías fez um esforço para mostrar isso e fala numa descrição impactante que todas as águas caberiam na mão dEle. É uma boa imagem que mostra a separação, que não tem como o que foi criado ser Deus.

Ele não tem tamanho e, por consequência, não se move. O mais próximo dessa realidade seria dizer que Ele é abstrato[4]. E como Ele se define?

Ele mesmo se revela a nós como espírito. Um anjo também é um espírito, mas por óbvio não é o mesmo tipo de espírito porque estes estão sujeitos ao tempo, e quanto ao espaço e à matéria, não podem estar em dois lugares ao mesmo tempo. Deus não está sujeito ao tempo, criação dEle, nem ao espaço e à matéria, criações dEle. Os espíritos, os nossos ou os dos anjos, possuem um contorno, um limite porque se não fosse assim, o nosso espírito seria do “tamanho” do espírito de Deus e estaríamos em todos os lugares ao mesmo tempo, e… bem, você, caro leitor, já entendeu: nosso espírito pode ter o tamanho de um feijão ou de um navio, mas tem limite. Os anjos podem se apresentar de várias formas, mas também possuem contornos, limites. O Tabernáculo foi dado a Moisés, por exemplo, por meio de imagens do que estava no mundo espiritual. Isso ocorre porque o “mundo espiritual” também foi criado e o momento em que isso ocorreu foi em Gênesis 1:1. E se nele existem limitações, estas são decorrentes de sua constituição. E ainda que não sejam compostos de carbono, como nós, são compostos de alguma coisa, mesmo que não conheçamos. Nem nos interessa conhecer isso, a química espiritual, mas nos interessam as declarações da Bíblia em falar que o Senhor Jesus é Deus, portanto maior do que toda a criação, incluindo a criação espiritual.

Deus se revela como espírito porque é o mais próximo do que podemos entender. E Deus se revela como pessoa porque é o mais próximo do que podemos entender. E Deus tomou a forma de homem porque é o mais próximo do que podemos entender, pois somos a imagem dEle.

Essa grandeza toda nos mostra que não “cabe” outro Deus, não tem como haver mais de um Deus. Entretanto, Jesus é Deus, totalmente Deus, a expressão exata de Deus na terra. Jesus, o Filho, é o Deus visível para nós, por nossa causa, em relação a nós, é a Imagem de Deus se movendo; o Pai é Ele mesmo invisível, imóvel, abstrato, como o originador da sua expressão material, como o genitor da sua ideia primordial. Jesus é o Deus completo em Sua Carne completa, o Deus perceptível para a criação. Veremos mais detalhes a seguir.

Como compatibilizar a coexistência entre o Pai e o Filho?

O Filho de Deus I

Jesus foi o modelo usado para fazer Adão

Quando Deus criou Adão, Ele o fez à Sua imagem e semelhança. Semelhança diz respeito às capacidades, ao modelo, à forma de ser, ao funcionamento, à constituição, à estrutura, à programação, ao propósito. Imagem diz respeito à aparência, à forma, à plasticidade. Por isso dizemos que um filho é igual à mãe na educação e tem a cara do pai, ou tem os olhos da mãe e a persistência do pai. Educação e persistência são semelhanças e a cara do pai e os olhos da mãe são imagens.

Ele usou um modelo para criar Adão. Quanto a semelhança Deus tinha a si mesmo, os Seus atributos, mas quanto à imagem, em Quem Ele se baseou? Não foi em nenhum animal e em nenhum anjo… Quem foi o modelo? O modelo foi o Senhor Jesus, a Sua Imagem visível dEle, que é invisível.

Adão foi moldado para ter a aparência de Jesus quando adulto, e Jesus quando adulto era a cara de Adão quando foi criado. Um homem saudável e comum daquela região da Palestina, moreno, olhos castanhos ou pretos, cabelos encaracolados. Não, Jesus não era caucasiano, louro dos olhos azuis. Adão era como Ele, da cor da terra da qual foi formado. Não é Jesus que tinha aparência humana, mas nós, humanos, que fomos formados à imagem dEle.

Mas se Deus é espírito, como Ele teria uma forma para ser usada como modelo para a criação do Homem?

E quem é Jesus?

Jesus estava lá na criação, e sabemos por João que Ele era a palavra de Deus. Antes de Gênesis 1, houve o João 1, o evangelho. Como compatibilizar a presença de Jesus na Eternidade, antes da criação, e a declaração que Deus faz de Si mesmo que Ele é o único Deus?

Há uma e única forma de conciliação. Ela é amplamente mostrada na Bíblia. Esfregada na nossa cara. Mas raramente reconhecida. Jesus é a expressão exata de Deus. Jesus é Ele se expressando. Jesus é Deus em “movimento”. Ele é a Imagem Visível de contornos definidos e em movimento da origem invisível, abstrata e imóvel. Sabemos que tudo o que existe é sustentado pelo poder da Sua Palavra, que sem Jesus “nada do que foi feito se fez” (João 1:3). Sabemos também que quem o viu, viu a Deus porque Eles, Jesus e o Pai, são um, mas distinguíveis. Estes são testemunhos dados por Moisés, Davi, Mateus, Paulo, Pedro, João…

Observem: “o Pai me enviou”. Não é “Deus me enviou” porque Ele é Deus, mas é “o Pai me enviou”. Por que Jesus falou dessa forma? Porque precisava que entendêssemos uma coisa importante: na relação com a criação, a imagem visível de Deus é Jesus. E quando Deus se torna visível para nós, essa imagem é gerada nesta criação por algo acima e além dessa criação. A imagem é o Filho de Deus para este contexto material do Pai que é Deus em qualquer contexto.

Voltemos à Eternidade passada, antes da Criação. Deus era tudo o que havia. Ele não era grande nem pequeno, porque não havia espaço a ser preenchido por Ele. Não dá para saber quanto tempo Ele ficou lá antes da criação, porque não havia o tempo. Sabemos que antes da criação o Senhor Jesus já estava com Deus. Não dá para determinar um momento ou ponto da Eternidade em que Jesus passou a estar lá, mas podemos fazer um exercício. Lembre-se, por favor, daquela frase “Penso, logo existo” de Descartes. Quando já somos adultos temos muita dificuldade em lembrar de quando éramos crianças, e quanto mais novas, menos são as lembranças.

Pense na lembrança mais antiga que você tenha. É como se antes desse tempo você não existisse porque não me lembro da minha existência. Tomemos uma lembrança, essa memória está gravada pelo meu ponto de vista: a visão de baixo para cima da fralda dentre outras peças de roupa indistinguíveis para mim secando no varal. Ela, a memória em si, é a expressão da nossa experiência, e levada ao limite, a expressão do que somos. Se alguém te conta uma memória, ela é a expressão de algo que faz parte daquela pessoa. Se você entende a memória, se identifica com ela, a compreende ou ela te inspira a também tentar lembrar de suas primeiras coisas, isso quer dizer que você aceita a pessoa neste aspecto dela que lhe foi revelado. Mas se você, nosso caro leitor, achasse que essa seria uma lembrança boba para ter o status de ser a primeira, e a usasse como chacota ou a desprezasse com o canto esquerdo da boca abaixado, o que isso significaria? Significaria que você não aceita a pessoa, o eu da pessoa, que te contou a memória no aspecto que te foi revelado. Rejeitar a imagem, a lembrança, é rejeitar o originador da imagem.

Antes de voltarmos à Eternidade, mais outra coisinha: uma ideia é uma imagem, e é impossível pensar sem imagens. Elefante azul listrado como zebras. É impossível não imaginar o que acabou de ler. Agora, vamos subir uma escada. Funciona para verbos também. E se a zebra tivesse tromba de elefante e estivesse subindo uma escada de bombeiros? Se conseguimos formular a imagem, entendemos a proposição. Essa é a dificuldade que as pessoas normalmente têm com matemática, não possuem a habilidade de formular a imagem correspondente a uma proposição matemática. Agora que estamos fortes, flexíveis e alertas, vamos sem demora à Eternidade.

Em dado momento sem marcação de tempo na eternidade, Deus pensou algo: “Hummm… é… sim… uma pessoa material!”. E Jesus foi gerado. Não, Ele não foi criado, mas gerado. Gerando ainda sem matéria, mas como uma imagem, uma ideia base na qual tudo o que foi criado se baseou, a medida, a régua da criação. Ele é uma imagem gerada por Deus de Si mesmo, a expressão dEle; não externo a Ele, mas “dentro” dEle. A partir desse ponto o resto é fácil entender porque já sabemos que toda a criação foi feita por Essa “pessoa”, que Ele foi o arquiteto de Deus em tudo o que foi feito e foi o modelo que usaram para fazer Adão. Por isso somos a imagem de Deus, porque somos a imagem de Jesus que é a ideia/imagem que Deus teve. É por isso também que o Imaginador é o Pai e a Imagem é o Filho, incriado, mas gerado antes de toda a criação.

E mais, toda a criação foi feita por Ele e para Ele.

E mais ainda, a cruz foi colocada neste cenário, muito antes de pecarmos, muito antes de Adão ser formado, antes dos anjos, antes de qualquer outro “movimento” de Deus. O nome de Deus é “Olhe atentamente para os pregos nas mãos”, como veremos à frente. Esse nome é antes que houvessem pregos ou mãos fisicamente.

Ele é a imagem visível do Deus invisível, é o próprio Deus em sua visibilidade, em movimento dentro do espaço que o Deus invisível criou em Si para fazer desenrolar toda a história de ampliação do Seu amor. Jesus é como a nossa imagem em um espelho: não existe sem o ente que é refletido e é a exata expressão no mundo do espelho do ser que está fora do espelho. Nós e nossa imagem no espelho somos um, mas nós somos “maiores” que a nossa imagem porque ela é decorrente de nós e não ao contrário. Nossa imagem no espelho é gerada por nós, mas não é algo que criamos com nossas mãos, não é algo que fazemos e então colocamos lá dentro do espelho, não é criado. Talvez agora faça mais sentido as afirmações do Senhor Jesus de que “Eu e o Pai somos um” e a outra que fala que “o Pai é maior do que eu”.

Essa imagem precisaria se manifestar um dia na mesma dimensão de toda a criação. Então Ele nasceu aqui pela mesma porta pela qual todos entram neste mundo. A identificação plena se daria quando Sua Carne tivesse chegado ao ponto em que representaria a imagem que Deus pensou de Si na eternidade. É por isso que antes dos 30 anos, só existem menções dEle em alguns pontos, como a luz do forno que acendemos para ver o andamento do bolo. Temos menção do nascimento, da ida ao Egito, do retorno para Nazaré, e da apresentação aos 12 anos no Templo. Era como um bolo que só tiramos do forno quando está pronto; um bolo que precisou de cerca de 30 anos para ficar pronto.

O Pai e o Filho

A primeira referência direta na Bíblia de alguém que amava é de Abraão para com Isaque, uma relação de pai para filho. A primeira citação de amor de marido é a de Isaque com Rebeca, e a da relação de amigos, é a de Davi para Jônatas. Aquela primeira citação é especial porque quem declara esse amor é Deus ao falar a Abraão: “toma teu filho, teu único filho, a quem amas, e oferece-o a mim em holocausto sobre o monte que te mostrarei”. Bem, parece que Deus estava olhando mais para si mesmo do que para Abraão porque esse evento foi um protótipo do que aconteceria no Calvário dois mil anos mais tarde.

Na Eternidade Deus pronunciou uma Palavra que expressa a imagem da Sua vontade. Essa Palavra que O expressa é Ele em um contexto, o contexto da execução da Sua ideia/propósito/vontade. Já vimos antes que tudo foi criado e tudo é mantido pelo poder da Palavra de Deus, e essa Palavra um dia tomou a forma de criatura dentro do contexto da criação e foi dada como oferta de holocausto aceitável ao Seu Pai.


Para entrar no mundo material, Ele veio de um lugar onde somente Ele e o Pai podem estar, além do 3º Céu em que Paulo esteve, além do que chamamos de dimensão espiritual em que estão os anjos. Então vamos fazer um desenho para ilustrar esses locais:

Figura 1 – A Criação de Deus

Descrição da Figura:

A figura ilustra uma visão hierárquica da Criação, representada por círculos concêntricos. No centro está o “Homem”, envolvido primeiro pelo “Mundo Material”, que por sua vez é circundado pelo “Mundo Espiritual”, e, finalmente, o anel mais externo representa a “Criação” como um todo. À esquerda, uma lupa destaca um pequeno ponto, identificado como “Deus (este ponto abaixo)”, sugerindo que Deus está presente de forma sutil e fundamental na totalidade da criação, apesar de ser imperceptível diretamente sem uma ampliação ou olhar mais atento. Essa imagem sugere a presença e a centralidade de Deus em todos os níveis da existência, do homem até o universo espiritual e material.

Nessa imagem representamos Deus como um ponto porque Ele está além da criação que fez. Mas mesmo assim Ele se reduz à condição mais próxima do que podemos entender e se mostra como um espírito. Vamos tomar emprestado alguns conceitos do livro Os Elementos, de Euclides. O ponto é um axioma matemático, uma proposição aceita sem demonstração, deduzida intuitivamente de outros conceitos, como o da reta: uma linha formada por infinitos pontos alinhados cujo traçado passa por dois pontos tomados como referência e segue ao infinito para os dois lados. A reta é imaginária, mas tem a dimensão do comprimento, ainda que seja infinito. O ponto é adimensional, é puramente imaginário. O ponto, a reta e o plano são noções geométricas, mas só o ponto poderia existir sem um espaço para contê-lo. Ele até pode ser materializado graficamente em uma folha pela marcação de um círculo preenchido, o menor que se consiga fazer para o propósito didático de evidenciar sua existência, mas o ponto é imaterial. Por óbvio Ele não é um espírito no sentido de pertencer ao mundo/dimensão espiritual da Sua criação, mas como um pai que se senta no chão para ficar na mesma altura do filho e brincar com ele: o pai continua grande, mas se colocou na altura do filho por causa do contexto da brincadeira.

Representamos toda a criação com o círculo maior. A dimensão espiritual envolvendo toda a dimensão física, e o Homem como o centro de toda a criação, tocado por todos os círculos.

O lugar de Deus e de Sua Palavra é “fora” da Criação, mas quando Ele teve a ideia primordial e a Palavra foi gerada e tomou a forma de uma imagem, o Homem Perfeito, um plano foi criado também: fazer toda uma criação centrada em um protótipo parecido com a forma da ideia primordial para que todos os que ali viessem a existir pudessem ser irmãos materiais do Seu Filho imaterial. E Ele, o Filho, pudesse no fim ser tudo em todos cumprindo a Sua vontade, e como a Sua Palavra sempre cumpre o Seu propósito e nunca “volta vazia”, isso se cumprirá no fim. Então, como nos mostra o fim de Apocalipse, Deus será a Luz e o Senhor Jesus Cristo será a candeia que manifesta a luz de Deus de forma plena, como foi proposto no plano original.

O “tudo em todos” no texto que vimos se refere aos que querem, naturalmente. Todos vivemos nossas vidas para que no julgamento final possamos concordar com a decisão de Deus de nos levar para a Eternidade com Ele ou nos deixar fora. Concordarmos é necessário para que a justiça seja completa; e para concordarmos, precisamos experienciar a vida pela qual seremos julgados, então aqui estamos.

A relação de Pai e Filho que há entre Deus e Jesus, Sua Palavra, é o que Ele quer ter conosco. Vamos ler o que Paulo nos fala em 1º Coríntios 1:9:

Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor. (1 Co 1:19)

Relendo: Nós fomos chamados por um Deus fiel em cumprir o chamado que fez de nos tornar participantes da comunhão que Ele tem com o Seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor, comunhão esta que é desde a Eternidade.

Essa comunhão é tão íntima que é maior que a que temos entre o que pensamos e o ato de falar o que pensamos, sabendo que a boca fala do que está cheio o coração. Essa comunhão é tão íntima que equivale à concordância entre o que falamos e o que queremos, sabendo que o nosso sim deve ser sim e o nosso não, não. Somos chamados para sermos como Jesus é, a expressão mais próxima da exata (Cristo) expressão de Deus. Ele quer que sejamos, no fim e desse ponto da história em diante, tão infinitos como Ele mesmo é[5]. Só não dá para sermos eternos porque tivemos um início, mas tirando isso, Ele quer que sejamos filhos dEle assim como Jesus é. Isso é muito além do que podemos pensar! Esse é o evangelho!

O Nome de Deus

Em Provérbios lemos:

Quem subiu ao céu e desceu? Quem encerrou os ventos nos seus punhos? Quem amarrou as águas numa roupa? Quem estabeleceu todas as extremidades da terra? Qual é o seu nome? E qual é o nome de seu filho, se é que o sabes? (Provérbios 30:4)

O nome de Deus em hebraico, cuja leitura é da direita para a esquerda, é formado por estas quatro letras, também conhecidas como tetragrama de Deus:

Figura 2 – O Nome de Deus

Descrição da Figura:

A figura apresenta uma explicação visual sobre a evolução gráfica e o significado do Nome de Deus, desde o hebraico clássico até o proto-cananita, comparando os diferentes alfabetos e suas representações dos caracteres de “YHWH”. A imagem mostra como, ao longo dos séculos (de 1.400 a.C. até 300 a.C.), os símbolos para “Olhar/Atentar”, “Prego” e “Mão/Braço” foram usados nas inscrições antigas, enfatizando que a palavra “YHWH” (ou “YAOHU”) pode ser decomposta nesses símbolos e significados, sugerindo uma relação com “Olhe atentamente para o prego nas mãos” e, por consequência, com o nome “YHWSHUA” (Jesus/Josué), que incorpora “Salvação, Prego, Olhe, Mão”.

Em hebraico as letras são usadas para grafar sons, números e pictogramas que guardam significados definidos.

Este é meu nome eternamente, e assim serei lembrado de geração em geração. Êxodo 3:15

Esta função de pictograma remonta à grafia antiga dos caracteres, do paleo-hebraico vindo do protocananita. Outras línguas também têm esse recurso, como o mandarim e o japonês.

O tetragrama de Deus em hebraico tem esta forma e suas letras (pictogramas), possuem estes significados, da direita para a esquerda: mão/braço, olhar/atentar, prego, olhar/atentar.

Hoje, sabendo a história da crucificação, é fácil deduzir que o significado pictográfico do nome de Deus se referia a Cristo:

Quando Pedro mostrou (Atos 2: 14-41) isso ao povo, que ouviam em seus próprios idiomas as maravilhas de Deus por meio dos iletrados discípulos de Jesus no evento ocorrido no dia de Pentecostes, seus olhos se abriram e de imediato aceitaram a verdade: o nome pelo qual seriam salvos é o nome do Deus que se fez carne, habitou entre nós, teve a morte executada conforme o significado das letras do Seu nome e ressurgiu da morte. Seu nome, Jesus, que é o equivalente a Josué em hebraico significa “O Poder de Deus para Salvar”. Quando viram isso, de imediato três mil pessoas creram porque seus olhos foram abertos para a realidade da mensagem do Seu Nome: Olhe para Aquele que teve as mãos/braços traspassados pelos pregos porque só nEle é em Quem há o poder para salvar.

Essas são as novas, as boas notícias, o evangelho: o único Deus, o Todo-Poderoso, o criador dos Céus e da terra, tomou a forma de uma criatura, um homem; viveu esta nossa vida sem pecar contra os princípios que Ele mesmo estabeleceu para todos os homens; foi morto por meio da cruz, que executou nele o significado pictográfico do Seu nome (Mão/Olhe/Prego/Olhe) e tornou pela ressurreição o Seu nome terreno, Yahushua, o nome que está acima de todo nome, e pelo qual importa que sejamos salvos.

Resumindo até aqui

Até aqui vimos que só há um e único Deus, que Ele criou tudo o que vemos e o que não vemos – o Reino físico e o Reino espiritual –, que Ele se encarnou para nos salvar (mas esse ponto precisa ser entendido melhor à frente), e que no Nome dEle há salvação.

Sabemos que faltam algumas coisas, mas é preciso ter calma. Vamos passar ainda juntos por algumas questões para termos o quadro completo, descobriremos juntos onde o Espírito de Deus se encaixa nessa história, vamos ver de um novo ângulo quem é o Senhor Jesus dentro da deidade e vamos entender melhor como foi a Sua encarnação e como isso interfere na pureza da nossa fé.

Perceba que Deus é um título de uma pessoa que tem um nome. Essa pessoa tem uma imagem de Si, assim como nós temos uma imagem nossa refletida no espelho. Dentro do ambiente do espelho de Deus há todo o Universo e lá dentro há a imagem dEle, Jesus. A teologia insiste com argumentos sob uma perspectiva equivocada, apresentando Jesus como outra pessoa, quando Ele é o próprio Deus dentro do mundo, o espelho. Assim como nós somos maiores que nossa imagem no espelho, o Pai é maior que o Filho, mas não somos duas pessoas pois, retirado o espelho, ainda continuamos a existir sem o nosso reflexo no espelho.

Não são duas pessoas isoladas, uma no céu e outra aqui, mas uma única pessoa cuja imagem visível esteve entre nós. Jesus foi Deus aqui assim como o Pai é Deus lá: Ele é a imagem do Pai. Eis a origem da designação Filho de Deus.

Figura 3 – Jesus, a Imagem Visível de Deus

Descrição da Figura:

Jesus aparece como o reflexo visível ao mundo material do Deus invisível ao mundo material, como se o mundo material e Jesus fossem a imagem de um espelho colocado sobre um ambiente sem matéria, caracterizado na figura como um chão coberto de fumaça sobre o qual está o espelho que contém em si tudo o que foi criado e Jesus, a Imagem Visível do Deus Invisível.

O Espírito de Deus

Deus é espírito. Isso é uma autodeclaração dEle. Então não há o que discutir. Ele é espírito e acabou. Mas o que seria um espírito?

A palavra espírito não existe em hebraico, ou melhor, não ocorre no Antigo Testamento em hebraico porque o que se traduz como espírito é uma palavra que significa sopro[6], “ruach”. A palavra espírito vem de outras culturas e era associada a experiências com seres não materiais, como demônios, assombrações, almas penadas e coisas desse tipo. Depois, por similaridade, foi a palavra encontrada para traduzir o sopro para outras línguas. Não é que não possamos usar o vocábulo espírito nem estamos falando que essa transposição foi errada, mas precisamos entender melhor isso porque não podemos pensar que Deus é um ser da dimensão espiritual do mesmo tipo que os outros seres dali, como os anjos. Aquele pecado imperdoável de atribuir as obras de Deus a demônios passa muito perto desses limites, perto demais para não nos atentarmos a isso.

Voltemos à Eternidade. Antes de tudo existir só havia Deus. Deus não se movia porque não haveria para onde ir, para ir e vir é necessário ter um espaço a ser percorrido, e o espaço não tinha sido criado ainda. Neste ponto da Eternidade Ele é um espírito, por definição, mas não é um espírito como outros que existem hoje: não está em uma dimensão espiritual, porque ela não foi criada ainda; não há limite de espaço e tempo, porque não foram criados ainda; não aparece e desaparece, porque não tinha onde fazer isso porque nada havia sido criado.

Então acontece a criação de Gênesis 1: “No princípio, criou Deus os Céus e a terra”. Em seguida somos informados de uma coisa estranha: o espírito (ruach) de Deus pairava/movia-se sobre a superfície/face das águas. Antes da criação Deus não conseguiria se mover, mas depois da criação o espírito de Deus passou a se mover. Na criação não foi falado que o espírito de Deus criou os Céus e a terra, mas depois da criação é que ele apareceu. A imagem que temos aqui é de um Todo Infinito (Deus) criando em si uma bolha de atuação, dentro da qual foi criado o Universo; então, Deus se infiltrou na criação se limitando a um formato, usando uma das dimensões criadas, a espiritual; e como espírito interagiu com a criação. Tomando a forma de um espírito Ele se deixou “vazar” como um sopro para dentro da bolha de criação que fez. Ele pôde se mover na criação. E estando aqui dentro continuou Sua obra pelos seis dias da criação. Aqui, dias e noites significam o dia e a noite literais de 24 horas, e não mil anos, como em 2 Pedro 3:8, ou eras, como em Salmo 90:4. Nada de mil anos ou eras aqui; aqui são dias feitos de ciclos de dia e noite, como na morte de Jonas ou na morte de Cristo, não pedaços de dias, mas dias e noites completos e inteiros. Foram seis dias de verdade, seis ciclos completos de luz e trevas; todos fechados com a observação de que teve “tarde e manhã”. Se não fossem dias como os nossos, não haveria como o mandamento da guarda do sábado ser cumprido pelas pessoas.

Ele é um espírito que se move, um sopro de vida, porque está em um cenário criado e está se relacionando com este ambiente. Antes da criação, Ele era vida, mas não era sopro; agora, é o sopro de vida, vida que Ele mesmo cria. Este espírito é qualificado/nomeado como sendo “Espírito de Deus”, ou “Espírito Santo”, até o dia de Pentecostes em Atos 2. Depois Ele começa a ser qualificado como o “Espírito de Cristo” e depois volta a ser nomeado como “Espírito Santo” com o passar do tempo. Seriam dois espíritos? Ora, quem é, então o Espírito de Deus?

O Espírito do Pai (Deus) ou do Filho (Cristo) é o mesmo. Não é outra pessoa, mas a manifestação no mundo criado da vida incriada, o Pai e o Filho. O Pai é a origem e o Filho é o Seu Plano perfeito, Sua idealização, Seu propósito, e por meio do Filho e para o Filho tudo foi feito. Talvez agora fique mais fácil entender o que Paulo disse repetidamente em 1º Coríntios 12, sobre os dons do Espírito para a Igreja: há um só Espírito. Não é que o Pai seja um espírito e o Filho seja um outro espírito, e muito menos que haja um terceiro espírito chamado de santo, não: há um único Deus, que interage com sua criação sob a forma de espírito.

Os que advogam que o Espírito é uma pessoa separada, uma terceira pessoa, mostram os textos em que Ele sente alegria ou tristeza, ordena, ensina, conduz, etc., para dizer que são atos atribuíveis a uma pessoa, e isto é verdade. Porém, não é uma outra pessoa, mas uma forma de uma pessoa, a forma espiritual dela. Se o meu espírito se alegra, quem está se alegrando, senão eu mesmo? O Espírito é DE Deus, ou DE Cristo: é dEle! Ele se entristece porque Deus se entristece; se Ele revela algo a alguém é porque Deus é que revela isso. O Espírito é Deus e o Espírito é Cristo por um motivo bem simples: mudou de forma. O “Santo” do nome Espírito Santo é um qualificador, um adjetivo, e não a designação de outra pessoa, não é sobrenome.

Acalme seus pensamentos… Talvez haja uma sensação de vazio agora em você, nosso atento leitor, porque uma pergunta acaba se impondo, ainda que já tenha sido respondida antes: se o Deus imaterial interage sob a forma de espírito com Sua criação, onde está Jesus, o Filho? Seria Ele também só uma forma, como já propuseram algumas heresias? Ele é bem mais que só uma forma…

O Filho de Deus II

Quem é Jesus? Quem é o Filho de Deus? Como antes da encarnação Ele não tinha matéria, era só espírito; então, não seria Ele o Santo Espírito de Deus? Onde se encaixa Jesus? Jesus tinha um espírito que não era o Espírito Santo? Bem, vamos reunir os fatos:

  1. Deus é único.
  2. Deus é um. Ele se revela por um conceito de unidade coletiva chamada em hebraico de “echad”, como um bloco, um conjunto inalterável, como uma unidade que tem partes, mas é indivisível em seu significado, como um relógio, ou como todos os seres vivos. Podemos distinguir as partes, mas não podemos separá-las de verdade. Temos cabeça e braços, mas somos uma única pessoa; temos voz e uma cor de cabelos, mas somos uma única pessoa.
  3. Deus é um espírito. Deus é espírito autodeclarado, mas sabemos que não é do mesmo tipo de outros espíritos, como os anjos ou demônios. Talvez seja como comparar uma ameba a um elefante: não são vegetais nem minerais, então, por exclusão (abstrai-se dos detalhes…), são animais. Mas são tão diferentes entre si que é até estranho falar que ambos são do mesmo tipo. Um anjo seria a ameba e Deus seria o elefante: ambos não são físicos/visíveis e ambos são vivos, então por exclusão, são espíritos…
  4. Deus tem uma imagem. Jesus é a exata imagem de Deus Pai. Quem vê Filho vê o Pai.
  5. Deus tem uma mão, a mão direita, para sermos mais exatos: Jesus é a mão direita de Deus.
  6. Deus tem um nome. Pelo Seu nome importa que os homens sejam salvos, como nos informa Joel. O Seu nome significa “Olhem atentamente para o prego na mão” (veremos isso mais adiante). E por Pedro e Paulo sabemos que esse nome é o nome do Seu Filho, Jesus.
  7. Deus é amor.

Estes 7 fatos sobre Deus já são suficientes para termos uma visão geral de Sua constituição. Deus é um porque não cabem dois; já que Ele é Todo-Poderoso; um segundo deus não poderia ser assim também. Ele é um espírito superior e além do mundo espiritual que fez na criação das coisas, e atua nessa criação como espírito. Antes do tempo, na Eternidade, Ele expressou uma imagem de Si, Jesus, à qual subordinou tudo o que viria a existir e pela qual toda a existência seria por ela redimida. Quando Ele se propôs a isso Ele também se limitou a nosso favor; a expansão do Seu amor está em Cristo/Messias.

Não, isso não é a heresia do Arianismo que falava que Jesus é um filho no sentido de ser o primeiro ser gerado, portanto inferior a Deus. Jesus é Deus expresso para a criação, especificamente para o homem, o qual foi criado à Sua imagem e semelhança. Jesus Cristo não é homem por ter nascido de maria, mas Adão era homem por ter sido feito à imagem de Jesus. Jesus é Deus em movimento, que no caso de Deus, é seu pensamento, sua ideia, sua palavra, sua expressão.

E como é impossível que Ele nos fizesse como Ele é, Ele se tornou como nós somos para nos promover à Sua comunhão por meio da participação em seu Corpo e assim ser tudo em todos.

Então temos um Deus que expressou algo de Si, um Filho, o alvo de todo o Seu amor. Eles são um da mesma forma que nós somos um com os nossos pensamentos. (No caso dEle, há um só pensamento para Ele: Jesus.) E alinhados ao que idealizamos, criamos o ambiente necessário para que toda a plenitude do que pensamos se torne realidade. E para isso acontecer, atuamos com nossa força, com nossas mãos. Nós é que recebemos os méritos pelo que nossas mãos fazem, assim como Cristo dava toda a glória ao Pai. A mão é o agente da ação que seu dono deseja, mas é indistinto desse dono; a mão revela o que está no coração do corpo a que está vinculado. Eles são um da mesma forma que nós somos um com as nossas mãos. Agora, imagine-se pegando um prato: quem pegou foi a mão, mas foi você também; o nome de quem pegou o prato é o seu nome, mas também é o nome da sua mão. E qual é o nome da sua mão? É o seu nome. A sua mão é a expressão da sua vontade no ato de pegar o prato.

Agora vamos tentar com o conceito de ponto que já vimos no item O Pai e O Filho. O ponto é um conceito abstrato, um axioma matemático. Quando pensamos em um ponto, criamos uma imagem para ele, mesmo antes de grafá-lo sobre o papel. Quando uma reta é criada, ela é criada por meio do ponto idealizado, uma construção espiritual, por assim dizer. Quando essa reta é grafada no papel, é uma criação física de algo imaterial. Todas as imagens possíveis de desenhar em um papel têm como fundamento o ponto, que é a imagem do conceito. A imagem do ponto é una (echad) com o conceito do ponto, são inseparáveis, e o ponto grafado é a exata imagem do conceito do ponto, e tudo o que pode ser desenhado é “feito por ele e para ele”. O ponto, a ideia do ponto e o ponto grafado em uma folha são “a coisa em si”, mas em ambientes diferentes. O conceito do ponto é Deus Pai, a ideia do Ponto é Deus Filho, a ideia da reta é o mundo espiritual e os desenhos grafados é o mundo físico. Um dia a ideia do ponto foi grafada na história dos desenhos, a encarnação do Senhor Jesus, a expressão exata do conceito imaterial do ponto. Só Deus pode salvar, e Ele faz isso por meio de Sua expressão: o ponto grafado, Jesus. A expressão de YAOHÚ (o nome de Deus) é YAOHÚ-SHUA (o nome de Jesus: Yaohu Salva).

Voltando à pergunta inicial, Jesus não era outro espírito, a Sua expressão visível, como a nossa imagem no espelho, cujo espelho, neste caso, é o universo.

O Corpo de Cristo

Entendemos que Deus é imaterial e criou tudo, inclusive o mundo que não vemos, o espiritual; que Ele tem uma expressão de Si, que é a sua imagem, Jesus; que Sua interação com a criação se dá na forma de espírito; e que um dia Sua imagem se materializou para consumar Seu propósito de salvação. Atentaremos agora para esta última parte, a Sua encarnação. Consideremos quatro coisas:

A primeira coisa que devemos considerar sobre a encarnação é que falar que Jesus assumiu a forma humana ao vir nos salvar não está certo, estritamente certo, porque é a humanidade que foi feita tendo Ele como molde. Quando Ele encarnou, apenas nasceu na forma da imagem que Ele é desde sempre. Isso O limitou porque Ele se restringiu à criação que fez e ao processo de crescimento que Ele desenvolveu para todo ser humano. Jesus não é um “extraterrestre” que assumiu a forma humana.

A segunda coisa é que antes de Adão pecar não havia morte porque esta é o resultado do pecado, e antes de Adão pecar não havia pecado. E depois, toda a sua descendência passou a nascer com essa característica e toda a criação está sujeita aos seus efeitos porque tudo estava sob sua autoridade ou foi feito para habilitar sua existência.

Em terceiro lugar, uma substituição pelo pecado SEMPRE é feita pela morte do substituto porque essa é a penalidade máxima do pecador, e sempre é feita por algo distinto da natureza do pecador. O primeiro sacrifício foi feito pelo próprio Deus a favor de Adão para cobri-lo com uma roupa. Abel entendeu claramente esse conceito e se dedicou a criar ovelhas para o holocausto. Sempre um espécime perfeito para morrer por um espécime imperfeito, mesmo porque se o substituído fosse perfeito, não haveria necessidade de substituição.

E por último, o sangue que há no corpo de um pintinho que acabou de sair do ovo não foi entregue a ele pela galinha, mas desenvolvido nele a partir do desenvolvimento natural do ovo. Isso é verdade também no desenvolvimento fetal do ser humano, não há comunhão de sangue entre o feto e a mãe, mas apenas trocas de materiais por meio da placenta. Esses materiais são coisas de que o feto precisa, mas ele não precisa de material genético porque já veio com isso pronto por meio da fecundação do óvulo. É por isso que é possível fazer a inseminação artificial em barrigas de aluguel.

Deus implantou no útero da Maria, uma barriga de aluguel especial por ser descendência de Davi, um óvulo, ou melhor, um ovo zigoto com um DNA perfeito para ser desenvolvido e que nasceria no tempo certo de desenvolvimento. Ele não recebeu em Si nenhuma contribuição de Adão, nenhum pecado. Por isso Ele pôde ser o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”.

Ele foi Deus encarnado integralmente. Não foi um homem normal que se tornou aceitável a Deus, não foi uma mistura entre Deus e Maria, não foi um semideus, e muito menos um homem com o mesmo DNA de Adão. Adão era a obra de arte criada a partir de um modelo e Jesus era o próprio modelo usado para criar Adão, era mais perfeito que Adão. Os sentimentos de Jesus eram mais perfeitos, o raciocínio e a memória dEle eram melhores, sua dor era mais profunda, Ele era o Ser Humano perfeito.

Provai os espíritos

AMADOS, não creiais em todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo. Nisto conhecereis o Espírito de Deus: Todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo o espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que já está no mundo. (I João 4:1-3)

Não se trata de colocar um espírito contra a parede e exigir dele que confesse se é ou não um espírito bom. Trata-se de ouvir uma ideia, uma proposta, um discurso, uma filosofia, uma conversa e identificar se o que está sendo proclamado ali, confessado ali, coincide com a verdade, com a essência da verdade: o Deus Todo-Poderoso veio em Sua própria carne, em Seu corpo, e habitou entre nós. Ele é o maná verdadeiro, o pão vivo que desceu do Céu. Não foi feito aqui.

Quando lemos em português muito se perde quanto ao nome do Senhor Jesus porque o nome deixa de guardar em si o significado da palavra e o valor das suas letras. Seu nome contém o nome de Deus, que se mostra como aquele para a quem deveríamos prestar atenção nos pregos e nos seus braços porque deles vem a salvação. O nome de Deus tem a ver com Sua manifestação a nós, a manifestação dEle mesmo, o próprio. Não um homem aceitável ou um homem ao qual foi atribuído um propósito de vida, não! Jesus não é um homem nascido de Adão, mas a própria manifestação em carne de Deus, o Salvador. A carne dEle, não a carne de Adão.

Um espírito que fala que Jesus era descendente de Adão, que tinha o DNA de Maria, que era um homem especial, um iluminado, ou qualquer outra coisa que não o próprio Deus Eterno que desceu do Céu e assumiu a forma humana em Sua própria carne incontaminada, esse espírito é contra Cristo, é o espírito do anticristo.

Encaixam-se como doutrinas do anticristo, dentre outras:

  • Docentismo: negava a humanidade de Jesus dizendo que não teve um corpo físico e seu sofrimento foi aparente.
  • Apoliniarismo: falava que a mente de Jesus era divina e não humana, que Ele não era plenamente humano.
  • Gnosticismo: afirmava que a natureza divina era boa e a natureza humana era má, então não podiam coexistir, e postulavam que Jesus não possuía um corpo físico de fato.
  • Eutiquianismo: dizia que o corpo de Jesus não era idêntico ao nosso e que foi especialmente criado para Ele possuindo uma natureza única deificada, um exemplar único, chamado de monofisismo.
  • Trinitarismo: proposto pelo Império Romano a partir do Concílio de Niceia em 325 d.C e modelado desde então, propõe que Maria nasceu sem pecado para que Jesus não fosse contaminado pelo pecado (doutrina da Imaculada Conceição de Maria, proclamada como dogma pelo Papa Pio IX em 1854), milagre necessário para explicar sua isenção do pecado mesmo sendo gerado com participação humana.

Todos eles negam o Corpo de Cristo. Seu corpo era físico, totalmente dEle, nascido de parto normal de Maria, e era plenamente humano porque a humanidade foi criada tendo Ele como modelo.

Barriga de aluguel

Maria foi uma mulher fiel a Deus, descendente de Davi, a quem Deus havia feito a promessa de que de seu ramo Ele traria o Salvador, e mantida incontaminada do sangue nefilin. Ela foi consultada pelo anjo sobre a gravidez pela qual passaria e aprovou a ideia. Em seu útero foi colocado um óvulo externo, não o dela, que cresceria até nascer no tempo devido.

Assim como o anjo anunciou a Zacarias o milagre que ocorreria com sua mulher estéril, (Lucas 1:5) o mesmo anjo anunciou a Maria o milagre que ocorreria com ela, uma mulher ainda virgem já comprometida em casamento com José (Lucas 1:27). As duas mulheres não podiam ter filhos naquele momento. Isabel era velha e estéril; Maria era nova e virgem. Em Isabel Deus restaurou seu útero velho para receber de Zacarias a semente de vida humana; em Maria Deus implantou em seu útero jovem uma vida divina totalmente humana, como mesmo tipo de DNA humano, um humano perfeito assim como Adão tinha sido.

A virgindade de Maria durou até depois do parto. Está escrito que José não a conheceu, no sentido bíblico da palavra, até que o menino nasceu. Depois a conheceu (Mateus 1:25). Considerando que Herodes mandou matar todas as crianças menores de dois anos, segundo o tempo que precisamente se informara com os reis do Oriente com base no aparecimento da estrela, a estrela de Belém, e considerando que eles já estavam devidamente instalados em uma casa quando os reis os visitaram, temos que pelo menos um ano e meio Jesus já tinha. Isso é um tempo suficiente para José e Maria terem consumado o casamento deles antes de fugirem para o Egito. Parece que as pessoas que advogam a virgindade eterna de Maria não pensam em José nem no cumprimento da Lei. No primeiro ano de casamento o homem era proibido de sair à guerra para poder dar à mulher toda a sua dedicação marital, tempo de descanso permitido por Deus à Maria. Não sei por que José pecaria descumprindo a Lei, cujo autor tinha nascido sob seus cuidados.

O Corpo de Jesus e o Espírito de Jesus

Na criação feita por Deus há duas palavras usadas: bará (בָּרָא), que significa criado do nada, traduzido como criado; e asah/assá (עָשָׂה), que significa criado a partir de uma matéria-prima, traduzido como feito. Nós temos um corpo formado do pó desta terra, feito a partir do que já existia, e temos um espírito criado do nada. Quando o espírito entrou no corpo, foi dado vida a ele, foi criada a partir desses elementos a alma. Então temos espírito, alma e corpo, coisas necessariamente diferentes entre si. No espírito reside nossa capacidade de comunhão com Deus, nossa intuição e consciência; e na nossa alma, a vontade, a mente e as emoções. Sabemos por uma declaração de Deus que a vida dos animais está no sangue, donde podemos deduzir que possuem uma alma ligada à sua fonte de vida, o sangue. Também fica clara a natureza de nossa alma, que está ligada à sua fonte de vida, o espírito. Disso decorre que nossa alma tem existência após a morte do corpo porque não está ligada a ele, mas ao espírito. E os animais não vão para o céu, por mais carinhoso que seja um cachorrinho, e nós vamos com todas as memórias que obtivemos em vida, as boas e as ruins.

Já vimos que Jesus é a imagem visível do Deus invisível, como o reflexo em um espelho, e vimos que Deus se manifesta com o mundo criado como espírito. Um dia o Deus imaterial se manifestou no mundo criado por meio do Seu Espírito criando do nada uma célula, um ovócito, e a implantando no útero da Maria. Desse milagre nasceu um menino que atingiria na idade adulta a representação material do que Ele era no plano imaterial, a imagem do próprio Deus, e Sua matéria essencial não foi tirada da matéria já criada, como o foi Adão. Ele era todo vindo do alto, do Céu: a imagem e a matéria.

O Sacrifício Perfeito

Assim como Abraão falou, Deus proveria para Si um cordeiro. Um sacrifício é necessário para substituir aquele sobre o qual há a penalidade perante o juízo. Como “todos pecaram e carecem da glória de Deus”, não há um único homem que possa nos substituir porque todos descendem de Adão, por quem entrou o pecado no mundo e por meio do qual entrou a morte.

Um sacrifício faz duas coisas ao mesmo tempo. Por um lado, ele nos substitui porque morre em nosso lugar; por outro, ele nos representa porque paga o nosso débito, a nossa conta, o custo. O crédito que pertence a ele, a inocência, passa a ser nosso para cobrir as nossas dívidas. Todos os sacrifícios do Antigo Pacto atendiam ao primeiro lado, o de substituir, mas não atendiam ao segundo lado completamente. Os débitos não eram pagos, mas suspensos. Os pecados não eram perdoados em sentido pleno, mas encobertos até o devido tempo em que seriam pagos pelo sacrifício perfeito que ainda haveria de ser feito.

O primeiro sacrifício expiatório foi feito por Deus a favor de Adão quando ainda estavam no Jardim do Éden. Ele pegou dois cordeiros perfeitos e os matou derramando o sangue deles sobre a terra. Depois tirou o couro deles e fez roupas para Adão e Eva. Essas roupas substituíram as tanguinhas de folhas que eles haviam feito para se cobrirem, o esforço de nossas próprias forças para cobrir os nossos pecados.

Assim ficamos sabendo que os animais mortos ali os substituíram porque a penalidade da morte não foi aplicada sobre Adão e Eva, mas sobre animais (outra fonte de vida) que não tinham nenhuma culpa em relação aos pecadores que eles estavam substituindo. Também ficamos sabendo que os cordeiros os representam porque o que era dos cordeiros passou a ser deles, a provisão de couro para as roupas que eficientemente os cobririam.

Vamos pensar mais um pouco sobre esse aspecto de representação. Quem vai sofrer o dano de perder a vida é o pecador que atentou contra o autor da sua vida, mas então outra vida se levanta e se coloca no lugar de punição. O lugar é do pecador, mas outro o ocupa; e quando isso ocorre, o pecador fica sem o seu lugar devido, e por falta de espaço assume o lugar original de seu substituto. Pensemos em uma forca: se o condenado sobe ao passadiço, mas na hora H outro tira a forca dele e a coloca em si, onde fica o condenado? Fica fora da forca que aplicaria sobre ele a penalidade da morte. A penalidade é aplicada, o pecador é morto por substituição, e está livre por ter sido representado no ato e tirado do lugar de condenação por seu representante. O representante ficou com a morte que cabia ao representado, e este ficou com a liberdade que cabia ao representante. O cordeiro ficou com a morte que cabia a Adão, e este ficou com o suprimento de couro, depois moldado em roupas, que cabia ao cordeiro.

Todos os sacrifícios sempre apontaram para O Sacrifício Perfeito, quando Deus providenciaria para Si O Cordeiro (Abraão) que tirasse o pecado do mundo (João, o Batista). Ele é perfeito porque foi examinado criteriosamente pelos oficiadores do sacrifício e não foi encontrada nenhuma mancha ou imperfeição, porque não é da mesma natureza dos pecadores pelos quais seria imolado, porque foi providenciado por Deus, que foi o alvo da transgressão, porque foi o cumprimento de todos sacrifícios anteriores, desde Adão, que para Ele apontavam, e porque somente este sacrifício daria ao Homem a posição que Deus sempre quis dar a ele, a posição de filhos de Deus.

Cristo é o sacrifício perfeito que nos substitui assumindo a nossa penalidade e nos representa assumindo a nossa culpa. Somente em Cristo a justiça de Deus é perfeita porque somente a Imagem de Deus pode concordar plenamente com o juízo de Deus.

Deus não aceita sacrifício humano

Não, não aceita, não. Na verdade, Ele abomina sacrifício humano. Os aceitos são estes:

Levítico 1: 2 – Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Quando algum de vós oferecer oferta ao SENHOR, oferecerá a sua oferta de (1) gado, isto é, de gado vacum e de ovelha.

v. 10 – E se a sua oferta for de (2) gado miúdo, de ovelhas ou de cabras, para holocausto, oferecerá macho sem defeito.

v. 14 – E se a sua oferta ao SENHOR for holocausto de (3) aves, oferecerá a sua oferta de rolas ou de pombinhos;

Levítico 2:1 – E QUANDO alguma pessoa oferecer oferta de (4) alimentos ao SENHOR, a sua oferta será de flor de farinha, e nela deitará azeite, e porá o incenso sobre ela;

v. 14 – E, se fizeres ao SENHOR oferta de (5) alimentos das primícias, oferecerás como oferta de alimentos das tuas primícias de espigas verdes, tostadas ao fogo; isto é, do grão trilhado de espigas verdes cheias.

Há também mais as ofertas complementares de (6) libações de vinho nos sacrifícios pelos pecados. Vemos que não há nessa relação de tipos de sacrifício o sacrifício humano. Então, como a morte do Senhor Jesus Cristo conseguiu ser um sacrifício aceito?

Jesus não é humano porque nasceu de Maria, mas nós é que somos humanos porque fomos formados a partir da imagem dele, o Homem Verdadeiro. Ele não teve herança genética de Maria; ela foi a barriga de aluguel[7] de um Ser já pronto. Ele é TODO celestial, o Homem perfeito, o Pão Vivo sem fermento que desceu do Céu, o Verdadeiro Maná. E por isso, por não pertencer à mesma espécie a ser redimida, é que Ele pode ser o nosso substituto perante a Justiça. Se ele fosse descendente de Adão, não poderia ser dado em sacrifício por nós porque Ele mesmo estaria dentro do mesmo fosso do pecado.

Talvez você deva fazer uma pausa antes do próximo tema.

O Filho de Deus III

A palavra filho é usada em muitas conotações, dentre as quais podemos lembrar que Jesus se declarava Filho do Homem, e por certo Ele não era filho de homem algum. Isaías se referia assim ao Messias, o Filho do Homem. Estaria Jesus mentindo?… Também temos Ele usando as expressões filhos da luz, filhos das trevas, e filhos de Abraão. Os anjos são chamados de filhos de Deus, a sabedoria tem filhos e chamar pessoas de raça de víboras equivale a chamá-los de filhos de serpentes, especificamente aquela lá do Éden. E acaso ela tinha filhos? Temos também noutros lugares as expressões filhos de Belial, filhos da promessa, filhos da perdição, filhos do Reino, filhos da ira. Ora, nenhum desses casos se trata de filhos genéticos. Mas quando falamos de Deus, a palavra filho na acepção “genética” parece tão apetitosa como o queijo de uma ratoeira para o rato. Talvez a Bíblia seja mesmo um tipo de ratoeira…

Essa vinculação é uma necessidade formada pela teologia não-cristã de vários deuses que foi incorporada à cristandade graças aos esforços de vários blasfemos, dentre os quais o Imperador Constantino I que, em 325 d.C., organizou o Concílio de Niceia, onde essa transformação foi colocada em prática. O pretexto era outro, claro, fazer calar o presbítero Ário que propagava um erro: que Jesus havia sido o primeiro ser criado. E na crise de corrigir um erro da igreja, tomado no sentido amplo da palavra, o imperador encontrou uma oportunidade de cristalizar uma religião, no sentido restrito da palavra, a seu favor. E de lá nasceu o primeiro documento trinitário, o Credo Niceno:

Creio em um só Deus, Pai Todo-Poderoso,

Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis.

E em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus,

Nascido do Pai antes de todos os séculos:

Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro;

Gerado, não criado, consubstancial ao Pai,

Por quem todas as coisas foram feitas.

E por nós, homens, e para nossa salvação, desceu dos Céus:

E se encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria,

E se fez homem.

Também por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos;

Padeceu e foi sepultado.

E ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras ;

E subiu aos Céus, onde está sentado à direita do Pai.

E de novo há de vir, com glória, para julgar os vivos e os mortos;

E o seu Reino não terá fim.

E no Espírito Santo, Senhor e fonte de vida,

Que procede do Pai e do Filho,

E com o Pai e o Filho é adorado e glorificado:

Ele que falou pelos profetas.

E na Igreja, una, santa, católica e apostólica.

Confesso um só batismo para a remissão dos pecados.

E espero a ressurreição dos mortos,

E a vida do mundo que há de vir.

Amém.

O termo “nascido do Pai” sempre foi usado como se fosse uma mitose, em que da separação das paredes celulares houvesse a emissão de uma energia com personalidade, o Espírito Santo[8]. O uso da palavra filho foi moldado para sempre significar filho no sentido genético ainda que haja muitas outras significações, como nas expressões Filho do Homem, ou filho de Satanás. Mas isso é uma proposta feita a partir de uma visão limitada de Deus, como estamos vendo, e foi útil ao Império Romano para ir moldando a substituição do domínio da força para o domínio pelo medo religioso.

E por que a Trindade é uma blasfêmia, uma ofensa a Deus? Porque é um insulto pensar que Deus se enganou a respeito de Si mesmo quando disse que era único e que não havia outro como Ele. Porque é um insulto pensar que caiba ou que haja outro além dEle, quando Ele mesmo declarou várias vezes que só há um Deus e ninguém é como Ele. É um insulto, mas considerando que Deus sabe se cuidar, o insulto real é contra a nossa inteligência!

E a Trindade, onde fica?

Não fica. A teologia da Trindade foi uma resposta à necessidade de domínio que o Império Romano tinha de unir seus territórios substituindo as religiões de crença politeístas em uma única religião. Para acomodar esses deuses, essa abordagem foi criada pelo Imperador Constantino no Concílio de Niceia em 325 d.C. Quem não cresse na Trindade seria excomungado, o que implicaria expropriação de todos os bens, coisa que ninguém quer… Com o tempo, tal determinação teológica foi se alastrando impulsionada pela força estatal até o que temos hoje, uma crença que Deus é um (por restrições teológicas), mas esse um é plural com três pessoas (por exigências das religiões não-cristãs) formando a deidade, coisa que os teólogos discutem até hoje e não conseguem se entender. E o motivo é simples: não tem como entender uma coisa que é um insulto à inteligência. Acabam atribuindo o assunto à vala comum da fé sem entendimento… não tão comum, na verdade, já que é destinada às coisas especiais a que se obrigam a crer.

Os livros de teologia sistemática normalmente começam com o tema de Deus e vão logo dando como definição a Trindade como verdade posta, coisa que nenhum patriarca, profeta ou evangelista jamais definiu dessa forma. É bem conveniente à religião a proibição do questionamento, conveniente aos lobos que colhem do rebanho o seu sustento.

Então podemos nos perguntar como o Deus Todo-Poderoso pode ser tão incompetente em fazer-se entender, a ponto de especialistas não se harmonizarem sobre o que Ele disse? Como Aquele que criou a linguagem não consegue mostrar-se por meio dela? Como Ele fala por Sua própria boca que é único, que não há outro além dEle, e os teólogos ousam dizer que Deus está errado a respeito de Si? Que forças fazem os estudiosos de Deus contradizê-Lo?! Somente forças do mal, contrárias à verdade, contrárias a Deus, poderiam ter a pretensão de fazer de Deus um mentiroso.

A única trindade que é possível abstrair da Bíblia seria a de formas de manifestação, ainda que isso fique meio impreciso, meio torto. Seria por meio do espírito no Antigo Testamento (o que não é de todo verdade porque temos O Anjo do Senhor manifestando-se), por meio de um corpo com Cristo (o que também não é totalmente verdade porque temos o Pai ressuscitando o corpo de Jesus) e novamente por meio do espírito depois do retorno dEle aos Céus. Como o número três aparece o tempo todo na criação, ficou fácil atribuí-lo a um deus também.

É importante destacar, só para constar, que não defendemos o Modalismo (doutrina em que Deus se manifesta em três formas diferentes) nem o Unicismo (doutrina em que Jesus é uma teofania de Deus). Por óbvio Jesus é distinto do Pai, mas não pelos motivos que os unicistas apresentam, como veremos[9].

Para suportar essa estrutura equivocada, são dados como “provas” alguns trechos da Bíblia e, convenientemente, esquecidos outros. Vamos passar pelos principais.

A Mágica da Alteração de Significado

Ler errado é uma forma de induzir ao erro, alterar o significado do que está escrito por meio de uma entonação errada de quem lê. Vamos ver um exemplo: antes da crucificação, o Senhor Jesus foi com seus discípulos para o Monte das Oliveiras e lá entrou em um jardim. Depois de orar, Ele voltou para perto de alguns discípulos e viu que estavam dormindo. Na terceira vez está escrito assim:

E, deixando-os de novo, foi orar pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras. Então chegou junto dos seus discípulos, e disse-lhes: Dormi agora, e repousai; eis que é chegada a hora, e o Filho do homem será entregue nas mãos dos pecadores. Levantai-vos, partamos; eis que é chegado o que me trai. (Mateus 26:44-46)

E, levantando-se da oração, veio para os seus discípulos, e achou-os dormindo de tristeza. E disse-lhes: Por que estais dormindo? Levantai-vos, e orai, para que não entreis em tentação. (Lucas 22:45-46)

Leia de novo as partes em negrito. Você leu como se Jesus estivesse bravo ou como se Ele estivesse acordando carinhosamente uma criança, como um pai amoroso faria com um filho cansado? Ele sabia que estavam cansados e tristes. Ele também estava voltando cansado da oração em que sofreu ao ponto de derramar suores de sangue. Outra coisa que causa uma certa aspereza na leitura é o modo imperativo dos verbos… Agora vamos ler de novo unindo os textos, remontando a cena, e amenizando a forma verbal:

“E, deixando-os de novo, foi orar pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras. E, [depois de orar até suar sangue] levantando-se [cansado] da oração, veio [andando devagar] para os seus discípulos, e achou-os dormindo de tristeza [no mesmo lugar em que os havia deixado esperando por Ele]. E [agachando-se ao lado deles] disse-lhes: Dormi [Durmam] agora [mais um pouco], e repousai [repousem mais um pouco] [porque as próximas horas serão difíceis] [agora aguarde um minutinho para eles descansarem…]; eis que é chegada a hora, e o Filho do homem será entregue nas mãos dos pecadores. [e após ter tomado um fôlego, limpado o suor e se recuperado do cansaço da oração, levantou-se e disse aos discípulos acordando-os:] Levantai-vos, [Levantem-se e] partamos; eis que é chegado o que me trai. Por que estais [vocês ainda estão] dormindo? [agora acabou o tempo] Levantai-vos, Levantem-se e orai [orem], para que [vocês] não entreis [entrem] em tentação”

Ficou melhor nesta nova leitura? Sabia que os acidentes com picada de cobra normalmente são seguidos de uma grande surpresa? É que nossos olhos simplesmente não conseguem ver o que a nossa mente ainda não concebeu. Se não conseguimos imaginar o contorno de uma cobra disfarçada sobre as folhas secas, nossos olhos não conseguem fazer essa delimitação, mesmo que esteja olhando bem de perto. E como no caso dos números de mágica, quanto mais perto olhamos, menos percebemos a mecânica da ilusão.

A solução é olhar mais de longe, olhar para o modelo de explicação da realidade e perceber os movimentos, ou a imobilidade dos componentes da cena analisada. Devemos ter a visão do todo, e não apenas das partes. O modelo mental de que dispomos modela o jeito como entendemos as coisas que vemos, e modela até as próprias coisas que vemos, ou melhor, como vemos as coisas que vemos. O exemplo anterior do mimetismo da cobra mostra este fenômeno. Esses óculos coloridos impedem-nos de ver as cores reais porque tudo fica com tons derivados da cor dos óculos. Vamos ver isso em ação em outro texto, e entre colchetes você terá a visão com e sem os óculos da teologia trinitária:

Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor [Pai/Deus Único], somos transformados de glória em glória na mesma imagem [Filho/Imagem de Deus: Senhor Jesus Cristo], como pelo Espírito do Senhor [Espírito Santo/Espírito de Cristo, o Senhor que acabou de ser indicado]. (II Coríntios 3:18)

Agora, vamos para uma versão mais expandida, a King James um pouco mais atrás neste texto de II Coríntios 3, a partir do verso 14, com comentários em itálico entre parênteses:

E, por isso, a mente dos israelitas se fechou, pois até mesmo hoje o mesmo véu permanece quando é lida a Antiga Aliança. Não foi retirado, porquanto é somente em Cristo que ele pode ser removido. De fato, até nossos dias, quando Moisés é lido, um véu cobre seus corações! Contudo, quando alguém se converte ao Senhor, o véu é retirado. O Senhor é o Espírito (o que tem autoridade para tirar o véu e dar liberdade, Cristo); e onde quer que o Espírito esteja, ali há liberdade.

Mas todos nós (nós, os que tivemos a mente destravada), que com a face descoberta (por Cristo, porque só Ele pode tirar o véu e dar essa liberdade) contemplamos, como por meio de um material espelhado, a glória do Senhor [Deus], conforme a sua imagem [Cristo] (o Senhor Jesus é a exata expressão da imagem do Deus invisível) estamos sendo transformados com glória crescente, na mesma imagem que vem do Senhor [Cristo] (a imagem que vem do Senhor Deus é o Senhor Jesus Cristo – lembre-se de que só há um e único Senhor. Estamos sendo transformados na imagem de Cristo), que é o Espírito [Espírito de Cristo] (o único espírito é o dEle).

O que seria para a mente com a lente colorida do modelo trinitário uma prova de Trindade é uma declaração de unidade/unicidade/echad pessoal de Deus.

Vamos ver outro exemplo. Paulo, em I Coríntios 1:9 diz assim: “Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor”. O Deus invisível nos chamou para dentro da comunhão que há entre Ele e sua expressão visível que é o Seu Filho para que participando dessa comunhão possamos ser também Seus filhos, Suas imagens. Mas a mente habituada a pensar sob a perspectiva trinitária vai deduzir que fomos chamados em Cristo para a comunhão que a Trindade tem eternamente, o que seria impossível por natureza.

Texto 1: Batismo de Jesus

Vamos ver os textos sobre o batismo de Jesus, o de João primeiro:

(João 1:29-34)

29 – No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. 30 – Este é aquele do qual eu disse: Após mim vem um homem que é antes de mim, porque foi primeiro do que eu. 31 – E eu não o conhecia; mas para que ele fosse manifestado a Israel, vim eu, por isso, batizando com água. 32 – E João testificou, dizendo: Eu vi o Espírito descer do céu como pomba, e repousar sobre ele. 33 – E eu não o conhecia, mas o que me mandou a batizar com água, esse me disse: Sobre aquele que vires descer o Espírito, e sobre ele repousar, esse é o que batiza com o Espírito Santo. 34 – E eu vi, e tenho testificado que este é o Filho de Deus. (João 1:35-43) 35 – No dia seguinte João estava outra vez ali, e dois dos seus discípulos; […] 39 – Ele lhes disse: Vinde, e vede. Foram, e viram onde morava, e ficaram com ele aquele dia; e era já quase a hora décima. […] 43 – No dia seguinte quis Jesus ir à Galileia, e achou Filipe, e disse-lhe: Segue-me.

  1. Vemos que o Espírito de Deus vindo sobre Jesus era um sinal para João Batista saber quem era o Messias, e isso foi falado a Ele pelo próprio Espírito de Deus. Então temos Jesus e temos o Espírito de Deus falando com João e depois se manifestando em uma forma corpórea parecida com uma ave.
  2. João não fala da voz vinda do céu.

(Mateus 3:13-17, 4:1)

13 – Então veio Jesus da Galileia ter com João, junto do Jordão, para ser batizado por ele. 14 – Mas João opunha-se-lhe, dizendo: Eu careço de ser batizado por ti, e vens tu a mim? 15 – Jesus, porém, respondendo, disse-lhe: Deixa por agora, porque assim nos convém cumprir toda a justiça. Então ele o permitiu. 16 – E, sendo Jesus batizado, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os Céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba e vindo sobre ele. 17 – E eis que uma voz dos Céus dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo. 1 – ENTÃO foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo.

  1. Vemos que os Céus se abriram para João ver o Espírito de Deus vindo sobre Jesus.
  2. Vemos a declaração da voz dos Céus apontando a filiação de Jesus, a voz de Deus.
  3. Vemos que Jesus foi conduzido ao deserto após esses acontecimentos e como consequência.

(Marcos 1:9-12)

9 – E aconteceu naqueles dias que Jesus, tendo ido de Nazaré da Galileia, foi batizado por João, no Jordão. 10 – E, logo que saiu da água, viu os Céus abertos, e o Espírito, que como pomba descia sobre ele. 11 – E ouviu-se uma voz dos Céus, que dizia: Tu és o meu Filho amado em quem me comprazo. 12 – E logo o Espírito o impeliu para o deserto.

  1. Vemos que os Céus estavam abertos para João e para Jesus.

(Lucas 3:21-22, 4:1)

21 – E aconteceu que, como todo o povo se batizava, sendo batizado também Jesus, orando ele, o céu se abriu; 22 – E o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corpórea, como pomba; e ouviu-se uma voz do céu, que dizia: Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo. 1 – E JESUS, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto.

  • Vemos que o céu se abriu em função da oração de Jesus.
  • Vemos que o Espírito de Deus que veio sobre Jesus em forma corpórea para ser visto por João passou a enchê-Lo a partir desse momento em que o Seu ministério público teve início, aos moldes do que ocorria no Velho Testamento para os servos de Deus.

Agora vamos juntar as informações.

Quando chegou a hora de Jesus se manifestar Ele precisou se conformar com a mensagem de arrependimento de João Batista, o profeta que o antecederia e prepararia o caminho dEle. João sabia que Jesus não precisava ser batizado, mas foi convencido por Jesus de que era necessário cumprir todo o plano. E Jesus tinha razão porque foi depois do batismo, e por causa do batismo, é que João soube que Jesus era o Cristo, o Filho de Deus. E só a partir desse ponto é que João começou a identificar Jesus como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

Como João soube? Porque viu o sinal que Deus havia anunciado a ele para que soubesse quem seria o Cristo. Ele veria de forma visível em Cristo o que acontecia de forma invisível a todos os que são revestidos do poder sobrenatural para o serviço de Deus, a unção com azeite sobre os sacerdotes, reis e profetas antes de começarem seus ministérios. Aliás, Jesus é o único que detém esses três ministérios juntos. E por que ele viu? Porque Jesus soube o momento certo para ele ver o sinal. Então os Céus se abriram e João viu descer de lá uma forma corpórea parecida com uma ave, que pairou sobre Jesus cobrindo-O (a mesma cena ocorrida com Maria uns 30 anos antes, quando a Sombra do Altíssimo a envolveu) e depois se dissolveu no ar.

Sumiu porque (1) não é dito que a forma corpórea do Espírito de Deus voltou para o céu e (2) porque não ficou visível sobre Jesus no tempo que ele gastou para se dirigir ao deserto e ficar lá. A presença visível do Espírito de Deus não ficou visível o tempo todo porque isso seria digno de nota por qualquer que o visse, e em especial por João, a quem foi dado o sinal. Ele não reportou o sinal do Espírito de Deus quando viu Jesus no batismo, mas reportou depois quando anunciou que “este é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Então, foi só naquele momento mesmo.

Como os outros souberam? Pela voz do céu. A voz de Deus é relatada como sendo parecida com trovões, como o som de ondas se quebrando na praia, e em Apocalipse há uma comparação dela a muitas harpas tocando juntas. Ela aparece quando Ele quer falar alguma coisa para todos, como ocorreu no Monte Sinai. Deus usou essa forma de falar no batismo[10], para os discípulos no monte da transfiguração[11] e perante todo o povo quando Jesus estava orando[12]. Neste último evento Jesus explica que a declaração do céu veio não por causa dEle, mas por causa das pessoas que ali estavam.

Os que acreditam na Trindade veem três pessoas aqui: Jesus, o Espírito de Deus, e Deus Pai. Para isso é necessário ter algumas premissas… que o Espírito de Deus é uma pessoa e o próprio Deus Pai é outra pessoa. Para forçar esse entendimento, normalmente se referem ao Espírito de Deus como Espírito Santo facilitando o esquecimento de Quem é o Espírito sobre o qual se fala.

Vamos fazer uns exercícios. Se trocarmos a palavra espírito por chapéu talvez fique mais fácil: existe Deus, o chapéu de Deus e Jesus. Em Atos os discípulos começam a tratar o chapéu de Deus de chapéu de Cristo. Ora, se o chapéu fosse uma pessoa, teríamos então quatro pessoas: o Pai, o Filho, o chapéu do Pai e o chapéu do filho.

Agora, vamos aplicar isso a nós mesmos: temos um corpo, uma alma e um espírito. O seu espírito é seu ou é outra pessoa além de você? Por óbvio ele não se constitui noutra pessoa, mas noutra forma de você mesmo ainda que não seja você todo porque não estaria sendo considerado o seu corpo. Vamos supor que você saísse agora do seu corpo e viesse nos visitar para falar que está lendo este livro. Vemos seu espírito e ouvimos sua mensagem, então podemos falar que você esteve aqui, mesmo que seu corpo não tenha vindo tomar um café conosco. Tomamos a parte pelo todo, uma parte de você, o seu espírito, por você todo. Quando fôssemos contar esse evento, falaríamos que o espírito do nosso leitor veio nos visitar e quando disséssemos sobre a sua mensagem, falaríamos que você disse isso e aquilo.

Vamos voltar ao texto. O Espírito de Deus (com esse “de” em negrito, para mostrar que é a forma pela qual Ele está atuando, já que não é pelo corpo, mas pelo espírito) desceu do céu que estava aberto e pairou sobre Jesus. Isso já havia ocorrido antes? Uma boa pergunta porque, se sim nos mostra um padrão…

Em Gênesis 1 temos o Espírito de Deus pairando sobre a face das águas, se aproximando da matéria criada para transferir-lhe energia para então proporcionar o seu “salto quântico” dos 6 dias seguintes. Em Juízes temos o Espírito de Deus vindo sobre os juízes, como Sansão e Débora, capacitando-os para um serviço para o qual não teriam energia suficiente, recebendo poder para um fim específico. O mesmo acontece em Samuel com o rei Saul e mais tarde com Davi, que fizeram coisas extraordinárias. Ambos foram ungidos com óleo para representar fisicamente o que ocorreu espiritualmente: o espírito pairou sobre eles e os capacitou e autorizou a atuarem em Seu Nome para um fim específico. Saul não correspondeu à unção dada e a cobertura foi tirada dele, foi rasgada, nas palavras de Samuel.

Em I Reis vemos a vida de consagração de Elias e mais tarde vemos que ao ser levado aos Céus ele deixou cair para Eliseu a sua capa, como sinal da transferência da unção e, por consequência, do poder de Deus. A capa veio caindo do céu; pairando seria uma boa palavra para descrever a queda no ar livre dessa roupa, uma cobertura. A imagem é muito próxima da que estamos vendo no batismo de Jesus para simplesmente desprezá-la: descendo do céu aberto veio pairando um revestimento para envolver o usuário dando a João a visão do poder e da autoridade dada ao Messias.

E antes que nos esqueçamos, anos antes temos Maria sendo envolvida pelo Espírito de Deus para receber o poder de ser usada por Ele para um fim específico, envolvida por algo vindo dos Céus. Se fosse João relatando esse episódio ao invés de Mateus, talvez ele tivesse usado a mesma expressão.

Em Jesus a cobertura foi máxima porque Ele é o Verdadeiro Profeta de Deus que nos traz as palavras de vida eterna, o Verdadeiro Sacerdote que nos representa como Advogado perante o Pai e o Verdadeiro Rei que reinará para sempre. Os símbolos físicos da unção espiritual da cobertura do Espírito de Deus, como o óleo ou a capa, foram insuficientes para Ele e o próprio Espírito de Deus tomou uma forma corpórea para aquele momento. Aquele foi o ápice desse tipo de unção.

Hoje em dia a atuação do Espírito é diferente porque Jesus O soprou sobre os discípulos quando ainda estava com eles e mais tarde, quando já não estava com eles, fez vir um som de vento impetuoso sobre o local de reunião deles e a unção passou a se parecer como chamas de fogo sobre a cabeça deles. A unção, o poder e a autoridade de atuar em nome de Deus, deixou de se parecer com uma coisa externa colocada SOBRE a pessoa, como um óleo ou uma capa, e passou a se parecer com uma chama de fogo ou uma fonte de água que saía de DENTRO deles. Eles começaram a se parecer com o Candelabro do Templo, como velas: o pavio conduz o combustível para ser queimado sem que ele mesmo o seja, e a reserva de combustível está dentro do recipiente. Não existe mais unção externa.

Mas ainda falta um pedaço, que só é visível se você estiver observando sob o prisma correto. Vamos rever o diagrama que mostramos antes. No diagrama, Ele seria aquele pontinho fora da criação, mas na verdade Ele nem estaria no diagrama porque não pode ser medido pelos elementos usados para fazer o diagrama. Ele atua como um espírito em relação à Sua criação, que criou para a Sua Imagem, o Seu Filho. Quando Jesus saiu das águas, o Pai falou dos Céus declarando que aquele era o Seu Filho ao mesmo tempo em que o Espírito dEle pousava sobre a Sua Imagem autorizando-o a atuar em Seu Nome perante a criação.

Antes disso Jesus não fez qualquer milagre porque não tinha a autorização para fazer, nada ensinou porque não tinha a autorização para ensinar, nenhuma libertação Ele promoveu porque não tinha a autorização para fazer, a ninguém salvou porque não tinha a autorização para salvar. Antes de receber a autorização para atuar como a Imagem, como o Filho do Pai, Ele ficou quieto. Por trinta anos.

Resumindo: somente existe um e único Deus. Ele idealizou um plano cujo centro é a Sua Imagem, o Seu Filho. Toda a atuação que faz na criação é por meio de uma forma espiritual, por isso a designação de Espírito de Deus. Jesus é a encarnação da Imagem de Deus, é a encarnação de Deus e por isso podia (e deve) ser adorado. Espírito é a forma de atuação: Espírito de Deus é igual a Espírito de Cristo. A relação entre eles é de Pai para Filho, porque só existe isso: um Deus que gerou um Filho, um contorno limitado do que é ilimitado por nossa causa, por causa da nossa necessária limitação.

Texto 2: A Grande Comissão

Antes de subir aos Céus, Jesus deixou uma missão aos discípulos, normalmente chamada de Grande Comissão. Hoje esse trecho está formulado de um jeito trinitário e vamos analisá-lo:

Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; (Mateus 28:19)

Nesse versículo, é fácil mostrar que não existe Trindade porque esse pedaço grifado simplesmente foi um acréscimo da Igreja Católica Apostólica Romana, como explicado por ela mesma:

A primeira inclusão desse formato foi feita mais de um século depois de Mateus, conforme nos informa o site Em Defesa da Restauração[13], citando o Compêndio da História da Igreja de autoria de Frei Dagoberto Romag, volume I, intitulado A Antiguidade Cristã, Editora Vozes, uma editora católica, é bom lembrar, (pág. 90-93 e 143-145), que diz que a ordem do batismo escrita em Mateus 28:19 (O batismo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo), saiu da pena de Tertuliano no ano 197. Para uma crítica textual, o artigo do site Em Defesa da Restauração é um bom estudo. Porém cabe lembrar que ele se baseia na crítica dos textos que foram harmonizados, guardados e compilados pela própria ICAR, que se esforça para esconder as alterações que fez[14].

O Catecismo do Vaticano confessa que o texto foi mudado:

Em Cristo. A Bíblia nos diz que os Cristãos foram batizados em Cristo. (n°6) Eles pertencem a Cristo. Em Atos dos Apóstolos (2:36–8:16–10:48–19:5) diz: “batizando em nome [pessoa] de Jesus”. Uma melhor tradução diria: “para o nome [pessoa] de Jesus” Unicamente no 4° Século, a fórmula “Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” tornou-se uma prática costumeira. (grifo nosso)

(http://emdefesadarestauracao.blogspot.com/2015/06/verdade-sobre-mateus-2819.html, citando o Catecismo do Vaticano, página 164).

Texto 3: A Bênção Apostólica

Este texto é conhecido como Bênção Apostólica, na qual se presume que esteja a formulação da Trindade em que teríamos três pessoas, cada qual com uma bênção: Jesus, com a graça; Deus, com o amor; e o Espírito Santo, com a comunhão. Vejamos:

A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo seja com todos vós. Amém. (II Coríntios 13:13)

São três bênçãos, são três desejos, são três aspectos de Deus, ou três obras que Ele realiza, mas não são três pessoas. Essas três bênçãos respondem às necessidades da igreja de Corinto, às quais Paulo estava acabando de responder. Tinham problemas em entender a graça de Deus manifesta pelo amor de Deus por nós por meio do ministério de Sua Imagem, Jesus, que nasceu, morreu e ressuscitou, e que habilitou todos os que creem a participar de uma mesma comunhão por meio de um mesmo Espírito, o Espírito de Cristo que sela todos os crentes, sem diferenças entre gregos e bárbaros, judeus e gentios. É o encerramento da carta, e não a declaração de existência de três deuses.

Agora vamos olhar cada parte do versículo. Paulo deseja que três coisas estejam com todos os irmãos de Corinto. Primeiro ele quer que entendam que Jesus, o Filho de Deus, cumpriu para nós todas as promessas feitas a Seu respeito e por isso podemos ter esperança, pois assim como Ele venceu a morte, eles (e nós) também vencerão. Essa é a graça, o presente, o favor imerecido.

Em segundo lugar, Paulo quer que entendam que tudo isso ocorreu para manifestar o amor de Deus pelos homens e que esse amor deve estar sempre vivo na mente e no coração de cada irmão. Deus se autodefiniu como amor. Uma característica do amor é buscar o benefício do outro. E se entendessem isso, cada um não buscaria os seus próprios interesses e isso resolveria grande parte dos problemas da igreja.

E por último, Paulo deseja que eles entendam que cada um dos irmãos está ligado ao outro por um vínculo, uma comunhão, o Espírito de Deus que é o Espírito de Cristo que passa a morar em cada um que crê em Jesus, o Filho de Deus. Antes de Cristo isso não acontecia porque Ele não morava em nós, ainda que pudesse nos revestir como uma capa. Agora, Cristo habita em nós. Veja: não é Jesus, mas Cristo por meio do Espírito dEle; não é Ele em carne, mas em espírito. Isso iguala todos os crentes por todos terem o mesmo Espírito habitando dentro, todos têm o mesmo selo. Essa semelhança entre os crentes deve ser sempre lembrada para que não haja lugar para os nicolaítas, os que querem posições de autoridade dentre o povo, nem para qualquer discriminação. O desejo de Paulo é que a comunhão com o Espírito de Cristo, ou de Deus, ou Santo, seja um diferencial entre eles para uni-los em um só propósito, em um só espírito.

Só há um Deus.

Texto 4: As Três Testemunhas

Na primeira carta do apóstolo João temos o seguinte verso:

Porque três são os que testificam [no céu: o Pai, a Palavra, e o Espírito Santo; e estes três são um. E três são os que testificam na terra:] o Espírito, e a água e o sangue; e estes três concordam num. (I João 5:7,8 – colchetes nossos)

Você, nosso atento leitor, vai se lembrar do que falamos sobre a mágica da alteração dos significados há algumas páginas. Quando pegamos um texto fora do seu contexto acabamos por ter um pretexto para uma heresia. Antes que façamos a leitura do texto completo, releia o verso identificando a palavra mais importante. A palavra mais importante é “testificam” ou “concordam”. O testemunho dado é o centro, motivo pelo qual há três que o fazem. E o que esses três fazem os une, os torna um no objetivo que têm. Sim, os três são um no testemunho que prestam. E se fossem dez testemunhos? Os dez seriam um também!

No verso 8 diz: “E três são os que testificam na terra: o Espírito, e a água e o sangue; e estes três concordam num” Estas três coisas, a água, o sangue e o Espírito concordam em um testemunho, mas qual é esse testemunho? Lembre-se de que João viu água separada do sangue saindo do peito de Jesus na cruz quando Ele foi perfurado pela lança. Aquela água dá testemunho de que Ele morreu, bem como o sangue. E o Espírito de Cristo em nós também dá o testemunho de que Ele morreu e ressuscitou, já que não seria possível a um corpo único agir como o Espírito dEle. Aqui temos três testemunhos da morte física de Jesus o Filho de Deus, o Deus em carne, na carne que é dEle mesmo.

O raciocínio completo de João[15], que começa no início da carta, é sobre o testemunho de que Jesus é Deus em carne:

O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida (Porque a vida foi manifestada, e nós a vimos, e testificamos dela, e vos anunciamos a vida eterna, que estava com o Pai, e nos foi manifestada); O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também tenhais comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo. Estas coisas vos escrevemos, para que o vosso gozo se cumpra. (I João 1:1-4) (grifos nossos)

E qual é o fim do testemunho dado na carta? Que Jesus é Deus:

E sabemos que já o Filho de Deus é vindo, e nos deu entendimento para conhecermos o que é verdadeiro; e no que é verdadeiro estamos, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna. (I João 5:20) (grifos nossos)

Qual é o foco de toda a carta? O testemunho. Agora vamos voltar ao verso usado para “confirmar” a Trindade. Bem… acontece que o verso 8 existe, mas o verso 7 não existe. O verso que fala da Trindade… sim, ele não existe, ou melhor, a parte que está entre colchetes é que não existe. Vamos revê-lo:

Porque três são os que testificam [no céu: o Pai, a Palavra, e o Espírito Santo; e estes três são um. E três são os que testificam na terra:] o Espírito, e a água e o sangue; e estes três concordam num. (I João 5:7,8 – colchetes nossos)

Foi uma interpolação feita no Século XVI. O texto simplesmente não existe! Ora, assim fica fácil! Toda vez que quiser usar a Bíblia a seu favor, basta inserir nela um texto para torná-la compatível com a sua teologia. Vamos deixá-lo agora com um artigo de um católico sobre o assunto, sobre o qual pouco teremos a acrescentar e que pode ser consultado no endereço http://emdefesadarestauracao.blogspot.com/2015/05/ textos-com- erros-de-traducao-do-nt-2.html.

As três testemunhas de I João 5:7-8.

(Comma Joanina)


I. Definição

Os comentaristas católicos, apreciadores da terminologia latina, denominaram Comma Johanneum o inciso ou interpolação, que aparece em I João 5:7-8, mas que a Crítica Textual, através de notáveis comentaristas (Comentário Bíblico Adventista) e insignes exegetas têm provado que não são de autoria do apóstolo João.

Estas palavras acrescidas ao texto sagrado são também denominadas “as três testemunhas celestiais”.

II. O Texto

I João 5:7 e 8 é assim no original:


7. oti treis eisin oi martirountes

8. to pneuma kai to udwr kai to“ aima kai“ oi“ treis eis en eisin “Hoti treis eisin hoi martirountes”, “to pneuma kái to hidor kaito haima, kai hoi treis eis heneisin”.


Sua tradução literal seria:

“Porque três são os que testificam: o espírito, a água e o sangue e os três para um são”.

Algumas traduções da Bíblia trazem um acréscimo a este texto, que tem sido denominado – “as três testemunhas celestiais”, por aparecer da seguinte maneira: “no céu: o Pai, a Palavra e Espírito Santo; e estes três são um. E três são os que testificam na terra”.

Por isso, a Almeida antiga rezava assim: “Porque três são os que testificam [no céu o Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um. E três são os que testificam na terra] – o espírito, e a água e o sangue; e estes três concordam num”.

Traduções modernas fiéis ao original não consignam as palavras, que aparecem entre parênteses[16] na citação acima.

“Pois há três que dão testemunho: o Espírito, a água e o sangue, e os três são unânimes num só propósito”. – Almeida Edição Revista e Atualizada no Brasil.

“Há três testemunhas: o Espírito, a água e o sangue. E os três estão de pleno acordo”. – A Bíblia na Linguagem de Hoje.

A Bíblia de Jerusalém assim traduz: “Porque três são os que testemunham: o Espírito, a água e o sangue, e os três tendem ao mesmo fim” Com as seguintes notas explicativas:

O texto dos vv. 7-8 está acrescido na Vulgata de um inciso ausente nos antigos manuscritos gregos, nas antigas versões e nos melhores manuscritos da Vulgata, e que parece ser uma glosa marginal introduzida posteriormente no texto.


Os três testemunhos convergem. O sangue e a água se unem ao Espírito (I João 2:20, 27; João 3:5; 4:1) para testemunhar (conf. João 3: 11) em favor da missão do Filho que dá a vida (I João 5:11; João 3:15).


III. O Problema

Embora a passagem tenha suscitado polêmicas e tenha sugerido longas discussões, aqui se encontra o essencial para nossa orientação.

O SDABC, Vol. 7, pág. 675 tem o seguinte comentário sobre este problema:

“A evidência textual atesta a omissão da passagem ‘no céu, o Pai, o Verbo, e o Espírito Santo: e estes três são um. E três são os que dão testemunhos na terra…’ A passagem tal como aparece na KJV não se encontra em nenhum manuscrito grego anterior aos Séculos XV e XVI. As palavras controvertidas acharam seu caminho para a KJV através do texto grego de Erasmo. Diz-se que Erasmo se ofereceu para incluir as palavras duvidosas em seu Testamento Grego se lhe mostrassem um manuscrito que as contivesse. Uma biblioteca em Dublin produziu tal manuscrito (conhecido como 34) e Erasmo incluiu a passagem em seu texto. Crê-se agora que as edições posteriores da Vulgata adquiriram a passagem por erro de um copista, que inseriu um comentário exegético marginal no texto bíblico que estava copiando. As palavras em questão têm sido amplamente usadas em defesa da doutrina da Trindade, mas em virtude de tal evidência esmagadora contra sua autenticidade, elas não devem ser usadas com este objetivo”

Bruce Metzger, em seu livro – The Text of the New Testament, págs. 101 e 102 esclarece-nos mais:

“Erasmo ao publicar o Novo Testamento Grego, em 1516, foi criticado pelos defensores do Cardeal Ximenes, por não haver colocado estas palavras no seu trabalho. Erasmo replicou que não tinha achado qualquer manuscrito grego contendo estas palavras, e descuidadamente prometeu que inseriria a Comma Joanina, como era chamada, em futuras edições se um único manuscrito grego pudesse ser achado que a contivesse. Esta cópia lhe foi apresentada. Segundo os estudiosos, parece que este manuscrito grego foi escrito, em 1520, por um frade franciscano chamado Froy, que tirou estas palavras da Vulgata Latina. Erasmo cumpriu a promessa e colocou estas palavras em sua terceira edição (1522), mas em longa nota ao pé da página explicou sua suspeita de que o manuscrito tinha sido preparado para confundi-lo”.

Como sabemos que estas palavras não foram escritas por João?

Além dos pensamentos já apresentados pode-se acrescentar:

1º) A passagem não se encontra em nenhum manuscrito grego dos primeiros séculos.

Apenas aparece em 4 manuscritos gregos posteriores e da seguinte maneira:

a) O manuscrito 61, que hoje se encontra na biblioteca de Dublin, o mesmo apresentado a Erasmo e que tem causado tantos dissabores aos estudiosos do Texto Bíblico.

b) Um manuscrito do Século XII, Nº 88, está em Nápoles, com a passagem escrita na margem.

c) O de número 629, dos Séculos XV ou XVI, pertencente à biblioteca do Vaticano.

d) Um manuscrito do Século XI de número 635, cuja passagem se encontra registrada na margem.

2º) Ela não foi traduzida para as versões antigas da Bíblia, como nos atestam a siríaca, a armênia, copta, árabe, etíope e outras.

3º) Não foi citada pelos Pais da Igreja.

Esta é uma prova concludente de que não se achava nas Escrituras. Se eles a conhecessem, sem dúvida, a teriam usado profusamente para condenar o arianismo vicejante naqueles dias.

4º) Pelo princípio da Crítica textual, denominado – Probabilidade Intrínseca – conclui-se que foi uma introdução indevida, por quebrar o fluxo do pensamento do apóstolo João.

Conclusão

Embora esta declaração sobre as “três testemunhas celestiais” esteja em plena harmonia com a teologia bíblica sobre a Trindade, ela não deve ser usada para prová-la, pelas razões que acabam de ser expostas.

Os comentaristas são unânimes em afirmar que João não escreveu a passagem em apreço, mas que teve sua origem na anotação ou nota marginal que um copista fizera no texto que estava copiando. Um outro copista, achando-as inspiradoras e oportunas, as introduziu num manuscrito posterior.

Nada melhor para condenar [o uso dessa passagem em defesa da Trindade] e concluir este estudo do que as sintéticas palavras de Vincent ao comentar I João 5:7-8:

“Estas palavras são rejeitadas pelo veredicto geral de autoridade da Crítica Textual”.


Informação sobre a Comma Joanina:

“Cipriano – Bispo de Cartago (que morreu em 258) escreveu as palavras na margem do versículo, como simples anotação sua. Mais tarde foram acrescentadas aos manuscritos posteriores da Vulgata de S. Jerônimo”.

ENCICLOPÉDIA DE RELIGIÃO E ÉTICA, James Hastings, pg. 384. “Não existe evidência [na história da igreja primitiva] do uso dos três nomes”. Rev. Steve Winter. Atos 4:12 “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos”.

De nossa parte, tomamos como concluída essa parte sem fazer quaisquer acréscimos ao estudo apresentado, já que é um estudo de pessoas que acreditam na Trindade e que mostram que este texto não pode ser usado a favor da Trindade.

Vários textos

Vários textos perdem a profundidade que deveriam ter por lermos a Bíblia com os óculos trinitários. Vamos passar por alguns deles para exercitarmos nossa nova visão sem esses óculos.

Comecemos pelos mais “difíceis”! Tenha em mente duas coisas: Deus, só há um e Ele nunca deixa de ser Deus.

Por que me abandonaste?

E desde a hora sexta houve trevas sobre toda a terra, até à hora nona. E perto da hora nona exclamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactâni; isto é, Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? E alguns dos que ali estavam, ouvindo isto, diziam: Este chama por Elias, e logo um deles, correndo, tomou uma esponja, e embebeu-a em vinagre, e, pondo-a numa cana, dava-lhe de beber. Os outros, porém, diziam: Deixa, vejamos se Elias vem livrá-lo. E Jesus, clamando outra vez com grande voz, rendeu o espírito. (Mateus 27:45-50)

O Senhor Jesus fez essa pergunta quando estava pregado na cruz, um pouco antes de morrer. Não tem como nós falarmos uma frase dessa para nós mesmos, então, reduzindo Deus às nossas limitações, deduzimos que o Senhor Jesus e o Pai são duas pessoas separadas da mesma forma que nós somos separados uns dos outros. Eles são, sim, separados, mas não é da mesma forma. O Pai é o Deus invisível dentro do Qual tudo tem sua existência; o Filho é a Imagem visível do Pai, a régua que o Pai usou para criar todas as coisas para que tudo lhe fosse proporcional.

Neste momento da cruz o Senhor Jesus está recebendo em Si toda a nossa culpa; neste momento, Ele, a Imagem visível do Deus invisível, se torna a materialização de tudo aquilo que o Pai (e Ele também) abomina. Neste momento a concentração de todo antagonismo a Deus está em um ponto, na Sua Imagem visível na terra. Está tudo concentrado em uma pessoa, entretanto, não em outra pessoa, mas nEle mesmo, ou melhor, na Imagem dEle. Neste momento o Pai não tem condições de Se reconhecer na Sua Imagem porque a associação Dela com o mal foi tão perfeita que se tornou indistinguível. Neste momento o Senhor Jesus cumpre (voltaremos a isso) a profecia de Davi, do Salmo 22:1 e fala “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”.

Não se trata, como poderíamos crer no início, de um diálogo entre um pai e um filho. Trata-se da declaração do cumprimento da sentença executada no Filho (com o entendimento correto neste ponto para a palavra filho, claro), a Imagem visível que o Deus invisível produziu de si na criação.

Não é que uma pessoa está falando para outra pessoa, mas que a Imagem visível de Deus está declarando que o plano foi executado, que o desamparo geral manifestado pelo obscurecimento da luz do Sol desde o meio-dia chegou ao seu ápice com o obscurecimento da verdadeira Luz deste mundo, Cristo.

Voltando ao cumprimento da profecia, agora vamos ouvir aquela vozinha falando assim: “Mas como Ele, padecendo de tão grande suplício, iria lembrar-se de citar um Salmo?”. Veja: Ele não se “lembrou”, por assim dizer. Ele apenas disse. Davi é que registrou por inspiração o que Ele disse, ou melhor, iria dizer. Ele profetizou o que iria acontecer uns 1.000 anos depois. Deus é o maior dos spoilers. Ele já se antecipou em tudo, e até escreveu sobre as coisas do fim muito antes de acontecerem. E isso aconteceu muitas vezes na vida de Jesus: disse e fez coisas já anunciadas por revelação aos profetas.

Chamados em Cristo à comunhão de Deus

Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor. I Coríntios 1:9

Deus nos chama para termos comunhão com Ele, o mesmo nível de comunhão que Ele tem com Seu Filho, o nosso Senhor Jesus Cristo. Então poderíamos dizer que são pelo menos três pessoas aqui, o Pai, o Filho e nós? E se nos lembrarmos de que a vontade dEle em nós é ministrada pelo Seu Espírito, teríamos quatro pessoas aqui?

Atento leitor, lembre-se dos números de mágica: quanto mais perto, menos você consegue perceber a ilusão. Precisamos nos afastar e ver o quadro geral porque muitas vezes a mágica é feita nos bastidores, fora do nosso alcance. No início deste livro mostramos o propósito de Deus em criar todas as coisas e que a primeira ideia que Ele teve foi o motivo e a medida pela qual tudo foi feito, Cristo. Ele quer expandir o Seu amor, a essência do seu Ser. A comunhão plena é necessária para a manifestação plena do amor, e é por isso que Ele nos chama para uma comunhão. E que tipo de comunhão seria esse? Do tipo mais próximo possível, o tipo que Ele tem com sua Imagem visível. Somos chamados para termos com o Deus Pai invisível a mesma comunhão que Ele tem com sua Imagem visível.

O motivo de podermos adorar o Deus visível, o nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, é que os dois são a mesma pessoa, como a interface visível deste programa de computador que estamos usando agora para escrever estas palavras e a parte invisível dele, inacessível para quem não tem a mesma natureza eletrônica dele.

O chamado que Ele nos faz tem um aspecto imediato e um aspecto longínquo. O imediato é cumprido em nosso dia a dia por meio da comunhão que temos na Igreja, o Corpo de Cristo. Por meio desse processo somos edificados de forma conjunta como uma casa para Ele; nos limpamos, nos enfeitamos, nos tornamos úteis para os outros.

O chamado longínquo será cumprido quanto estivermos em Seu Reino eterno. E lá, como podemos ver em Apocalipse, o propósito de expansão do Amor dEle a nós será tão grande que a Imagem visível dEle, o Cordeiro, ocupa o mesmo trono. E então veremos o Seu rosto. A própria luz inacessível em que Deus habita hoje será o nosso ambiente de existência.

E mostrou-me o rio puro da água da vida, claro como cristal, que procedia do trono de Deus e do Cordeiro.[…] E verão o seu rosto, e nas suas testas estará o seu nome. E ali não haverá mais noite, e não necessitarão de lâmpada nem de luz do sol, porque o Senhor Deus os ilumina; e reinarão para todo o sempre. Apocalipse 22:1, 4-5

Só há um jeito de chegarmos ao Deus invisível: por meio do Deus visível, a Sua Imagem, o Seu Filho. O texto de I Coríntios 1:9 não está falando de duas pessoas, mas de um processo de aproximação, do visível para o invisível.

Cristo em nós, a esperança da glória

Aos quais Deus quis fazer conhecer quais são as riquezas da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vós, esperança da glória; (Colossenses 1:27)

Aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Salvador Jesus Cristo; (Tito 2:13)

Em quem [Cristo] também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa. O qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória. (Efésios 1:13-14)

Deus quis que Cristo dentro da gente, o que também é chamado de “Espírito Santo da promessa”, fosse a esperança que podemos ter de que um dia Ele vai voltar em glória. Ele quem? Ele, o “grande Deus e nosso Salvador Jesus Cristo”.

Vamos ver com a lente trinitária: Deus Pai colocou em nós o Deus Espírito Santo como selo de que um dia o Deus Jesus Cristo voltaria e nos reconheceria por termos o selo. Ter o selo é a esperança de ir para a glória de Deus Pai. Quem está dentro de nós é o Espírito Santo, mas como os três são um, então isso é equivalente a Cristo estar dentro de nós, apesar de haver uma resistência em falar que o Pai também estaria.

Agora, vamos tirar a lente trinitária, e vamos colocar a lente desenvolvida até aqui: o Deus invisível quis que Sua Imagem visível, Cristo, fosse desenvolvida em nós por meio da Sua atuação direta em nós pelo Seu Espírito, o qual é o selo dEle, o Pai, em nós para o dia da revelação da Sua Imagem, Cristo, em glória. Por meio da atuação do Espírito de Deus em nós – ou Espírito Santo ou Espírito de Cristo: pelo espírito dEle e não pela carne dEle – o caráter da Imagem de Deus, Cristo, vai sendo desenvolvido em nós. Quem está dentro de nós é Cristo, a Imagem/Filho de Deus em espírito porque em carne não daria para fazer isso, estar dentro das pessoas fisicamente, então temos a necessidade de Ele ser assunto aos Céus.

Tudo o que pedirdes em meu nome

Para sabermos o que seria esse “tudo” vamos precisar olhar alguns textos, e depois olharemos o que é o “pedir em meu nome”:

E tudo quanto pedirdes em meu nome eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho. (João 14:13)

Pedis, e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites. (Tiago 4:3)

Existem pedidos que agradam a Deus e pedidos que agradam a nós sem agradá-Lo. O Senhor promete dar coisas úteis para glorificá-Lo em Cristo. O objetivo é a glória dEle, e não a nossa. O “tudo” está dentro desse contexto, dentro dessa limitação.

E de todos sereis odiados por causa do meu nome. (Lucas 21:17)

Existe uma oposição entre o mundo e Deus. Ser associado a Deus é equivalente a ser um opositor do mundo, em menor ou em maior grau. Mas quando a identificação é com Cristo na totalidade do significado do Seu Nome, que já abordamos no item “O Nome de Deus”, então a briga fica feia. O nome declara quem Ele é, declara a Sua missão: Mão-Olhe-Prego-Salvador. E essa declaração é odiável pelo mundo. E seus representantes também.

E é nesse nome, odiado pelo mundo, que podemos pedir as coisas que agradam a Deus. Pedir coisas para nosso exclusivo benefício neste mundo é um contrassenso. Vamos olhar mais de perto agora o fundamento da relação pedir-receber:

Conheceu, pois, Jesus que o queriam interrogar, e disse-lhes: Indagais entre vós acerca disto que disse: Um pouco, e não me vereis, e outra vez um pouco, e ver-me-eis? 20 – Na verdade, na verdade vos digo que vós chorareis e vos lamentareis, e o mundo se alegrará, e vós estareis tristes, mas a vossa tristeza se converterá em alegria. 21 – (…) 22 – Assim também vós agora, na verdade, tendes tristeza; mas outra vez vos verei, e o vosso coração se alegrará, e a vossa alegria ninguém vo-la tirará. 23 – E naquele dia nada me perguntareis. Na verdade, na verdade vos digo que tudo quanto pedirdes a meu Pai, em meu nome, ele vo-lo há de dar. 24 – Até agora nada pedistes em meu nome; pedi, e recebereis, para que o vosso gozo [alegria muito grande] se cumpra.

Disse-vos isto por parábolas; chega, porém, a hora em que não vos falarei mais por parábolas, mas abertamente vos falarei acerca do Pai. 26 – Naquele dia pedireis em meu nome, e não vos digo que eu rogarei por vós ao Pai; 27 – Pois o mesmo Pai vos ama, visto como vós me amastes, e crestes que saí de Deus. 28 – Saí do Pai, e vim ao mundo; outra vez deixo o mundo, e vou para o Pai.

29 – Disseram-lhe os seus discípulos: Eis que agora falas abertamente, e não dizes parábola alguma. 30 – Agora conhecemos que sabes tudo, e não precisas de que alguém te interrogue. Por isso cremos que saíste de Deus. (João 16:19-30)

O pedir alguma coisa está relacionado ao cumprimento completo da alegria da ressurreição de Cristo, o que prova que Ele saiu do Pai, o Deus Invisível. O pedido se relaciona com a manifestação dessa alegria, coisa que os discípulos ainda não tinham como pedir porque o Senhor ainda não tinha morrido nem ressuscitado. Em Atos vemos eles pedindo. E o que pediram? Coragem para que com ousadia proclamassem ser Jesus o Cristo, o Deus visível saído do Deus Invisível, o Filho de Deus saído do Pai.

Agora, pois, ó Senhor, olha para as suas ameaças, e concede aos teus servos que falem com toda a ousadia a tua palavra; (Atos 4:29)

Por fim, pedir “em nome” significa que o que se pede é a própria pessoa nomeada que está pedindo. Imagine-se trabalhando em um escritório de uma empresa e recebendo uma ligação de um colega pedindo que você entregue certo documento em uma sala. Tudo bem, você vai levar logo depois de acabar o serviço que está fazendo agora, ou depois de tomar seu cafezinho. Agora imagine que o colega diga em sua ligação que quem está pedindo o tal documento é o seu chefe. A voz ao telefone é do colega, mas você quase consegue ouvir a voz do chefe falando! Então você prontamente coloca essa ordem como prioridade e leva o documento. E se agora o seu colega fale assim: “O nosso chefe te mandou trazer um cafezinho para mim, e rápido!” Será que isso faria sentido? Claro que não porque seria um uso inadequado da autoridade do chefe, um uso que não está alinhado aos propósitos e forma de proceder do chefe. O nosso pedido precisa estar alinhado aos propósitos de quem tomamos o nome para pedir.

E o que isso tem a ver com Deus ser um ou não? Tem tudo! É que não se trata de nós pedindo para uma pessoa, o Pai, em nome de um terceiro, o Filho. Ele não vai fazer isso! Ele mesmo declara que “e não vos digo que eu rogarei por vós ao Pai”. Por que Ele não vai fazer isso? Porque o Deus Invisível nos conhece e nos ama. Você, atento leitor, deve estar se perguntando: “Como assim, se o próprio Cristo falou que deveríamos pedir em Seu Nome coisas ao Pai?!” É que a nossa identificação é com o Deus em Carne, o Deus visível, o nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, e quando oramos estamos nos dirigindo a Ele mesmo, mas agora invisível; então, quando o fazemos em nome dEle, o Nome que carrega a sua identidade de “Mão-Olhe-Prego é o Salvador” estamos nos identificando com Quem nos substituiu e nos representou e é por isso que nosso pedido é aceito, porque é a manifestação do desejo dEle! Pedir algo em Seu Nome não é como um carimbo autenticador na oração; não se trata de uma fórmula mágica, mas de uma relação de identificação nossa com Ele. É pedir estando “dentro” do Seu nome. É por isso que em Atos temos o seguinte caso:

E alguns dos exorcistas judeus ambulantes tentavam invocar o nome do Senhor Jesus sobre os que tinham espíritos malignos, dizendo: Esconjuro-vos por Jesus a quem Paulo prega. (…) Respondendo, porém, o espírito maligno, disse: Conheço a Jesus, e bem sei quem é Paulo; mas vós quem sois?”. (Atos 19:13-15)

Pedir ou orar em nome de Jesus não é um jargão para simplesmente colocar no fim da fala, mas uma identificação espiritual com Ele.

O Credo da Igreja Primitiva

A história da teologia nos conta que os credos eram formulações da essência da fé cristã e que foram sendo aperfeiçoados com o passar do tempo. Então não faz mal pegar um credo que está escrito por Paulo para nos conduzir nessa jornada de leituras sem as lentes trinitárias:

E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória. (I Timóteo 3:16)

A leitura rápida vai te levar a pensar por condicionamento. Talvez você diga: “Deus Pai se manifestou por meio de Jesus e foi justificado no Espírito Santo. Está aí a Trindade!”. Vamos ver isso mais de perto…

O que seria “justificado em espírito”? Justificado é aquele que foi tornado justo, em conformidade com algum senso de justiça normalmente evidenciado por um enunciado, uma lei. Realmente Jesus Cristo cumpriu em Si toda a condenação que o havia levado à morte, da qual ressurgiu. Isso fala dele, o Senhor Jesus, mas o que seria “justificado em espírito” ou “Espírito”, que seja? Significa que a obra completa da cruz se tornou acessível a nós por ter o Senhor Jesus voltado para o mundo espiritual para que por meio da sua forma espiritual Ele pudesse entrar em cada um que cresse nEle. Se Ele continuasse em Sua Carne não poderia entrar em ninguém; precisava ser espírito para isso. Agora, então, podemos reler o texto com a visão desobstruída:

Deus [Invisível] se manifestou [Ele mesmo] em carne [a Imagem visível do Deus Invisível], foi justificado [teve conclusão da Sua obra] no Espírito [o espírito dEle].

Só há Ele neste credo. Deus, só há um.

Observe que depois da ressurreição as menções a Jesus são acompanhadas das palavras Cristo ou Senhor, como Cristo Jesus, Jesus Cristo, Senhor Jesus, ou Senhor Jesus Cristo. Haveria, por acaso, lugar para dois senhores?

Palavras Finais

O primeiro capítulo da carta de Paulo aos Colossenses é uma aula de teologia que agora, no término desta Unidade poderemos desfrutar melhor. Vejamos o texto com comentários e grifos nossos:

Colossenses 1:9-29

9 – Por esta razão, nós também, desde o dia em que o ouvimos, [o que Efratas contou a Paulo] não cessamos de orar por vós, e de pedir que sejais cheios do conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e inteligência espiritual; 10 – para que possais andar dignamente diante do Senhor [Jesus], agradando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra, e crescendo no conhecimento de Deus; 11 – corroborados em toda a fortaleza, segundo a força da sua glória, em toda a paciência, e longanimidade com gozo; 12 – dando graças ao Pai que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz; 13 – o qual [o Pai] nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o Reino do Filho do seu amor [Jesus]; 14 – em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados; 15 – o qual [Jesus] é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; 16 – porque nele foram criadas todas as coisas que há nos Céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. (Ele é o centro e o motivo de tudo)

17 – E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele. 18 – E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência. 19 – Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse, 20 – e que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos Céus.

21 – A vós também, que noutro tempo éreis estranhos, e inimigos no entendimento pelas vossas obras más, agora contudo vos reconciliou [equilibrou] 22 – no corpo da sua carne, pela morte, para perante ele vos apresentar santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis, 23 – se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé, e não vos moverdes da esperança do evangelho que tendes ouvido, o qual foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, estou feito ministro.

24 – Regozijo-me agora no que padeço por vós, e na minha carne cumpro o resto das aflições de Cristo, pelo seu corpo, que é a igreja; 25 – da qual eu estou feito ministro segundo a dispensação de Deus, que me foi concedida para convosco, para cumprir a palavra de Deus; 26 – o mistério que esteve oculto desde todos os séculos, e em todas as gerações, e que agora foi manifesto aos seus santos; 27 – aos quais Deus quis fazer conhecer quais são as riquezas da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vós, esperança da glória; 28 – a quem anunciamos, admoestando a todo o homem, e ensinando a todo o homem em toda a sabedoria; para que apresentemos todo o homem perfeito em Jesus Cristo; 29 – e para isto também trabalho, combatendo segundo a sua eficácia, que opera em mim poderosamente.

Paulo ora para que tenhamos mais conhecimento de Deus, o qual projetou de Si uma imagem visível, o Filho, imagem do Deus invisível, o Pai, para a Sua criação. E o Filho, Jesus Cristo, o Deus visível, preparou para Si um corpo com todos os que lhe pertencem para que no fim Ele fosse tudo em todos os seus, a Igreja, e estes, perfeitos em Jesus Cristo. Não há Trindade. Deus, só há um, mesmo.

Recapitulando

Revisão dos principais pontos abordados

Buscamos estabelecer os fundamentos para a compreensão de Deus, abordando Sua natureza singular e o motivo por trás da Criação.

1. O Motivo da Criação e a Natureza de Deus: A discussão inicial explora o propósito divino ao criar, introduzindo o conceito da dualidade inerente ao plano de Deus e a necessidade de um juízo perfeito. Enfatiza-se que Deus é único, explorando Seu conceito, Sua onipresença e Sua magnitude para além da compreensão humana finita.

2. O Filho de Deus – Jesus Cristo: Uma parte substancial do capítulo é dedicada a Jesus Cristo, o Filho de Deus, a Imagem Visível do Deus Invisível. Argumenta-se que Jesus foi o modelo para a criação de Adão e explora-se Sua identidade, Sua relação intrínseca com o Pai e a importância do Seu Nome. A encarnação, o Corpo de Cristo e o significado do Seu sacrifício perfeito são detalhados, com uma ênfase particular na rejeição divina a sacrifícios humanos como tradicionalmente entendidos em algumas culturas, ressaltando a singularidade do sacrifício de Cristo.

3. O Espírito de Deus: A atuação e a natureza do Espírito de Deus são introduzidas, complementando a compreensão da Divindade e Sua interação com a Criação e com a humanidade.

4. A Questão da Trindade: O capítulo aborda de forma crítica a doutrina da Trindade. Sugere-se uma “Mágica da Alteração de Significado” em textos bíblicos tradicionalmente usados para sustentar essa doutrina. São analisados textos específicos como o Batismo de Jesus, a Grande Comissão, a Bênção Apostólica e a passagem das Três Testemunhas (I João 5:7-8), propondo interpretações que desafiam a formulação trinitária clássica. A intenção parece ser a de resgatar um entendimento que, na perspectiva dos autores, seria mais fiel às Escrituras originais antes de supostas alterações ou interpretações posteriores.

5. Interpretação de Textos Bíblicos Chave: Diversos outros textos bíblicos são examinados para sustentar os argumentos apresentados, incluindo reflexões sobre o clamor de Jesus na cruz (“Por que me abandonaste?”), o chamado à comunhão com Deus em Cristo, a esperança da glória e o poder do nome de Jesus na oração. Também se menciona o Credo da Igreja Primitiva como um possível contraponto a formulações doutrinárias posteriores.

Pontos de Atenção

Ao refletir sobre este capítulo, você é convidado a considerar:

  • A unicidade de Deus em contraste com interpretações que possam diluir Sua soberania ou natureza.
  • A centralidade de Jesus Cristo como o Filho de Deus, Seu papel na Criação, Sua identidade e a natureza singular de Seu sacrifício.
  • A necessidade de um exame crítico das formulações doutrinárias tradicionais, como a da Trindade, à luz de uma análise textual rigorosa das Escrituras.
  • A importância de compreender o Espírito de Deus em harmonia com a revelação do Pai e do Filho.

Este capítulo estabeleceu uma base teológica que pode desafiar algumas compreensões convencionais, e buscou aprofundar o entendimento sobre quem é Deus, incentivando uma fé fundamentada.

Os apêndices no fim oferecem: uma relação das principais heresias sobre este tema (Apêndice 1), um contraponto com a descrição do tema sob o olhar da Teologia Corrente (Apêndice 2 e 3), e uma Crítica Interna dessa teologia com nossas considerações que convidam ao diálogo e ao estudo comparativo (Apêndice 4).

Perguntas e Respostas

Elaboramos algumas questões e suas respostas para ajudar na compreensão do tema exposto nesta Unidade:

❶. Considerando a discussão sobre o “motivo da Criação”, como se explica o desejo intrínseco de Deus de expandir e a relação disso com a criação do ser humano e o subsequente teste de seu caráter?

O texto explica que o motivo da Criação está relacionado ao desejo intrínseco de Deus de se expandir, não por necessidade, mas por Sua própria natureza. Deus, sendo amor, desejou compartilhar esse amor com alguém que criaria. O livro argumenta que Deus criou o ser humano como um recipiente para Sua expansão, dotando-o de livre-arbítrio para que pudesse escolher livremente amar e receber a Deus. O teste do caráter humano, representado pela árvore do conhecimento do bem e do mal no Jardim do Éden, foi estabelecido para verificar se o homem escolheria confiar em Deus ou seguir seu próprio caminho. Este teste não foi para benefício de Deus, que já conhecia o resultado, mas para estabelecer um juízo perfeito e justificável perante toda a criação.

❷. O capítulo introduz o conceito de “dualidade” como um teste estabelecido por Deus. De que forma essa dualidade, que abrange o bem e o mal, se diferencia do dualismo e qual o seu propósito fundamental no plano divino para que o juízo seja considerado perfeito?

O texto diferencia claramente a “dualidade” do “dualismo”. Enquanto o dualismo propõe duas forças opostas e igualmente poderosas (bem e mal) em constante conflito, a dualidade apresentada no livro é um teste temporário estabelecido por Deus. Nesta dualidade, Deus permanece soberano e o mal existe apenas como força transitória e dependente, e não como poder independente. O propósito fundamental desta dualidade é permitir um juízo perfeito, em que cada ser humano tem a oportunidade de escolher entre o bem e o mal, entre confiar em Deus ou seguir seu próprio caminho. Isso garante que o julgamento divino seja completamente justo e transparente, pois cada pessoa teve a liberdade de escolha. O texto enfatiza que esta dualidade é temporária e será eliminada quando o propósito divino for cumprido.

❸. Ao abordar “O conceito de Deus”, o texto explora as limitações para defini-Lo completamente dentro das nossas concepções de tempo, espaço e matéria. Como o capítulo descreve a natureza imaterial de Deus e Sua relação com a criação, e por que as características tradicionais como onisciência e onipotência podem ser problemáticas se não compreendidas nesse contexto mais amplo?

O capítulo descreve Deus como um ser imaterial, que existe fora das dimensões de tempo, espaço e matéria que Ele mesmo criou. Argumenta que Deus não está limitado por estas dimensões, mas as transcende completamente. Quanto à Sua relação com a criação, o livro explica que Deus está simultaneamente presente em toda parte (onipresente), mas não é parte da criação material (panteísmo). As características tradicionais como onisciência e onipotência podem ser problemáticas quando interpretadas dentro de nossas limitações conceituais humanas. Por exemplo, a onisciência não significa que Deus está constantemente monitorando cada pensamento, mas que Ele tem acesso a todo conhecimento quando deseja. Da mesma forma, a onipotência não significa que Deus pode fazer qualquer coisa (como criar uma pedra que Ele mesmo não possa levantar), mas que Ele tem todo o poder necessário para cumprir Seus propósitos. O texto enfatiza que essas características devem ser compreendidas no contexto da natureza de Deus, que transcende nossas categorias limitadas. Mas o mais importante é que Ele não pode criar outros seres que lhe sejam iguais, então Ele se identificou plenamente com a Sua criação ao nascer como homem para nos levar a sermos parte dEle, como Seu Corpo coletivamente tomado.

❹. O capítulo dedica seções importantes ao “Filho de Deus”. Como o texto articula a relação entre Deus Pai e Jesus Cristo, especialmente no que tange à ideia de Jesus ser o “modelo usado para fazer Adão” e a sua natureza simultaneamente divina e humana, incluindo a discussão sobre sua concepção e nascimento?

O capítulo articula a relação entre Deus Pai e Jesus Cristo de forma distinta da teologia tradicional. O texto propõe que Jesus foi o “modelo usado para fazer Adão”, sugerindo que quando Deus disse “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”, Ele estava se referindo a Jesus como o modelo. Quanto à natureza de Jesus, o livro argumenta que ele possui simultaneamente natureza divina e humana, mas não da forma como tradicionalmente entendido. Jesus é apresentado como o Filho de Deus no sentido mais literal: gerado diretamente por Deus, com Maria servindo como “barriga de aluguel”. O texto explica que o corpo físico de Jesus foi formado no ventre de Maria, sem participação genética dela. Esta concepção milagrosa garantiu que Jesus não herdasse a natureza pecaminosa de Adão, permitindo que ele fosse simultaneamente plenamente divino (em sua origem e essência) e plenamente humano (em sua forma física e experiência), mas não por ter herdado algo de Adão, mas porque Adão foi feito tendo Ele como modelo, como Imagem. Ainda sobre a Imagem, Jesus é o único Deus, o único visível a nós.

❺. Uma crítica central no capítulo é direcionada à doutrina da “Trindade”. Quais são os principais argumentos apresentados para questionar essa doutrina, incluindo a menção ao Concílio de Niceia e a acusação de “mágica da alteração de significado” de textos bíblicos?

O capítulo apresenta vários argumentos contra a doutrina da Trindade. Primeiramente, questiona sua origem histórica, apontando que foi formalizada no Concílio de Niceia (325 d.C.) sob influência política de Constantino, e não nos primeiros ensinamentos apostólicos. O texto acusa os defensores da Trindade de praticarem a “Mágica da Alteração de Significado”, em que textos bíblicos são reinterpretados para apoiar a doutrina trinitária, mesmo quando seu contexto original não sugere tal interpretação. O livro analisa textos frequentemente usados para defender a Trindade (como o batismo de Jesus, a Grande Comissão, a Bênção Apostólica e as Três Testemunhas) e argumenta que nenhum deles estabelece a doutrina trinitária como entendida hoje. Outro argumento apresentado é que a Trindade introduz complexidades desnecessárias e contradições lógicas na compreensão de Deus, enquanto o texto defende uma visão mais direta da relação entre Pai e Filho, em que Jesus é verdadeiramente o Filho de Deus, a Sua Imagem para a criação. E enquanto Imagem, é subordinado ao Pai, que é espírito, por autodefinição. Só há um e único Deus, o Senhor Jesus Cristo.

❻. O tema do “Sacrifício Perfeito” é explorado em detalhe. Como o capítulo diferencia o sacrifício de Jesus dos sacrifícios do Antigo Testamento, e qual a argumentação para sustentar que Deus, embora abominando o sacrifício humano, pôde aceitar o sacrifício de Jesus como perfeito e redentor?

O capítulo diferencia o sacrifício de Jesus dos sacrifícios do Antigo Testamento em vários aspectos fundamentais. Enquanto os sacrifícios antigos eram temporários, repetitivos e apenas simbólicos, o sacrifício de Jesus é apresentado como definitivo, único e eficaz. O texto explica que os sacrifícios animais do Antigo Testamento serviam apenas como tipos e sombras, apontando para o verdadeiro sacrifício que viria. Quanto à aparente contradição de Deus abominar sacrifícios humanos mas aceitar o de Jesus, o livro apresenta uma explicação original: Jesus era totalmente fora desse mundo e nasceu aqui sem herdar o DNA de Adão porque Maria foi uma barriga de aluguel e sua humanidade não veio dela, mas somos humanos porque temos a forma dEle, Adão foi criado tendo Ele como modelo. Por isso Ele é um humano que pôde se colocar como substituto perfeito porque a identificação é perfeita. Se Ele fosse descendente de Adão em alguma medida, estaria no mesmo fosso do pecado e não teria como ser aceito, e pelo contrário, seu sacrifício seria uma abominação. O texto enfatiza que o sacrifício de Jesus foi perfeito e teve o poder para realmente remover o pecado, não apenas cobri-lo simbolicamente como nos sacrifícios de animais.

❼. O capítulo enfatiza a importância de uma “interpretação bíblica contextualizada”. Por que essa abordagem é considerada crucial e como ela se contrapõe a interpretações que, segundo o texto, levaram a distorções teológicas ao longo da história da Igreja?

O capítulo considera a interpretação bíblica contextualizada crucial porque permite compreender as Escrituras conforme seu significado original, dentro do contexto histórico, cultural e literário em que foram escritas. O texto argumenta que muitas distorções teológicas ao longo da história da Igreja resultaram de interpretações descontextualizadas, em que versículos isolados foram usados para construir doutrinas complexas sem considerar o contexto mais amplo. Especificamente, o livro critica a tendência de ler conceitos teológicos posteriores (como a Trindade) em textos que originalmente não os continham, chamando isso de “Mágica da Alteração de Significado”. A abordagem contextualizada se contrapõe a essas interpretações ao insistir que os textos bíblicos devem ser entendidos primeiro em seu contexto original, considerando o público-alvo, o propósito do autor, o gênero literário e o contexto histórico-cultural. O texto sugere que muitas controvérsias teológicas poderiam ser evitadas se essa abordagem fosse consistentemente aplicada, permitindo que a Bíblia fale por si mesma em vez de ser forçada a conformar-se a sistemas teológicos pré-estabelecidos.

Apêndices

1 – Heresias sobre Deus

A história do cristianismo é marcada por uma série de debates teológicos e heresias que moldaram a compreensão da natureza de Cristo e da relação entre Deus e a humanidade. Entre as doutrinas que emergiram nos primeiros séculos da Igreja, o adocionismo, o apollinarianismo, o arianismo, o docetismo, o ebionismo, o gnosticismo, o monarquianismo, o monofisismo, o monotelitismo, o nestorianismo, o pelagianismo, o sabellianismo (ou modalismo), o antinomianismo, e o trinitarismo representam diferentes interpretações sobre a divindade e a humanidade de Jesus Cristo. Cada uma dessas doutrinas oferece uma perspectiva única que reflete as tensões entre a fé cristã e as influências culturais e filosóficas.

Segue abaixo uma breve descrição de cada uma dessas heresias. Sabendo que a maioria foi condenada tendo como base a visão trinitária, vamos adicionar a cada uma o motivo real pelo qual entendemos que elas foram consideradas heresias.

Adocionismo

Descrição: Defendia que Jesus era um homem adotado por Deus como seu Filho no momento do batismo ou ressurreição. Argumento Principal: Os defensores do adocionismo argumentavam que Jesus foi escolhido por Deus por causa de sua vida virtuosa e obediência perfeita. Época e Local: Surgiu no Século II, associado a Paulo de Samósata, bispo de Antioquia. Ações Contra: Foi condenado no Concílio de Antioquia em 268 d.C., onde se reafirmou a divindade de Cristo.

Motivo real: Em certa medida é o que os judeus acreditavam e ainda esperam que vai acontecer: um homem será aceito por Deus como seu enviado. Mas Jesus é a Imagem Visível de Deus que nasceu sem ser descendente de Adão, um ser humano pleno porque Adão é que foi criado à imagem do Senhor Jesus. Não houve um ‘momento de aceitação” porque Ele é o Pão Vivo que desceu do céu. O alerta de João cabe muito bem aqui: aquele que nega que Jesus veio em carne, pleno, completo, é contra Ele.

Apollinarianismo

Descrição: Acreditava que Jesus tinha um corpo humano, mas uma mente divina, negando assim sua plena humanidade. Argumento Principal: Apolinário de Laodiceia defendia que Cristo, para ser impecável, não podia ter uma mente humana suscetível ao pecado. Época e Local: Desenvolvido por Apolinário de Laodiceia no Século IV. Ações Contra: Condenado no Primeiro Concílio de Constantinopla em 381 d.C., que definiu Cristo como totalmente homem e totalmente Deus.

Motivo real: É uma tentativa de olhar para o Senhor Jesus a partir da nossa experiência caída, na qual a mente está corrompida. Assim como no anterior, despreza a carne de Cristo como um componente essencial de sua capacidade salvadora. Foi julgado herético pela Igreja Católica, mas pelo motivo errado, pois Cristo não é totalmente homem e totalmente Deus da forma em que se crê na teologia trinitária, mas totalmente Deus Visível e nós é que somos a forma dEle, de forma que nós é que somos humanos por termos a Sua imagem, e não ao contrário. Nem a mente nem o Corpo de Cristo estavam ligados a Adão, não havia nEle a herança genética de Maria e muito menos de José.

Arianismo

Descrição: Defendido por Ário, afirmava que Cristo não era coeterno com Deus Pai e era uma criatura superior criada por Deus. Argumento Principal: Ário acreditava que, como filho, Cristo foi criado pelo Pai e, portanto, tinha um início no tempo, sendo subordinado ao Pai. Época e Local: Iniciado no início do Século IV por Ário, um presbítero de Alexandria. Ações Contra: Condenado no Concílio de Niceia em 325 d.C., que estabeleceu o Credo Niceno afirmando a coeternidade do Filho com o Pai

Motivo real: Foi uma tentativa de explicar a relação Pai-Filho pelo viés de entendimento de que Jesus é o Filho de Deus tomado no sentido natural, genético, de o pai existir primeiro que o filho. O raciocínio não é válido, mas não pelo motivo trinitário de coeternidade, mas porque labuta sobre uma base equivocada: Jesus é o Filho porque é a Imagem Visível perfeita do Deus Invisível nesta criação, assim como Ele é chamado de Filho do Homem por ser a imagem perfeita do homem perfeito. Deus tem nos ideogramas do Seu nome o significado de Olhem Atentamente para os Pregos nas Mãos, o que mostra que Jesus é o próprio Deus realizando em Si o significado do Seu nome. A relação de filho como descendente sempre foi incutida pela Igreja Católica desde o início porque isso atende a seus propósitos de servir ao Império Romano, coisa que discutiremos mais longamente no próximo volume deste livro. Então, sim, é um erro de raciocínio (heresia) pensar que Jesus é menor quando Ele é o próprio Deus.

Docetismo

Descrição: Afirmava que Jesus só parecia ter uma natureza humana, mas era totalmente divino, não tendo uma natureza física real, negando assim sua verdadeira encarnação. Argumento Principal: Os docetas defendiam que, como divino, Jesus não poderia sofrer realmente; sua humanidade era uma ilusão. Época e Local: Presente desde o Século I, associado ao gnosticismo. Ações Contra: Condenado em vários concílios, incluindo o Concílio de Niceia, que reafirmou a verdadeira humanidade de Cristo.

Motivo real: Jesus é totalmente divino e plenamente real fisicamente, tendo nascido, crescido, trabalhado, suado, sentido frio e tudo o mais. Sua origem não provém de Adão, mas diretamente do Céu para dentro da barriga de Maria, sem participação genética desta, de onde nasceu.

Ebionismo

Descrição: Ensinava que Jesus era um ser humano normal que se tornou o Messias devido à sua justiça excepcional. Argumento Principal: Os ebionitas argumentavam que Jesus foi um profeta humano cumprindo a Lei Mosaica, enfatizando a necessidade de seguir a Lei judaica. Época e Local: Surgiu no Século I, entre os judeus cristãos. Ações Contra: Condenado por diversos Pais da Igreja como Irineu e Tertuliano, que defenderam a divindade de Cristo.

Motivo real: É decorrente do entendimento judeu de que o Messias será um homem normal que será aceito por sua justiça, mas Jesus é um homem diferente por ser a Imagem Visível de Deus, que é invisível. Isaías profetizou “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Isaías 9:6). Ele é o próprio Deus Forte nascido entre nós. E João orientou explicitamente que “nisto conhecereis o Espírito de Deus: Todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo o espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que já está no mundo” (I João 4:2-3). Aquele menino que viria e seria o Deus Forte veio em carne, na carne dEle.

Gnosticismo

Descrição: Afirma que Cristo trouxe conhecimento secreto de dualismo entre espírito e matéria para libertar o espírito humano da matéria, negando a verdadeira humanidade de Jesus. Argumento Principal: Os gnósticos defendiam que o conhecimento secreto era necessário para a salvação, separando o divino e o material. Época e Local: Desenvolveu-se nos Séculos I e II. Ações Contra: Condenado em várias cartas apostólicas e pela Igreja primitiva, que enfatizou a encarnação e a ressurreição de Cristo.

Motivo real: O gnosticismo parte de pressuposições erradas em vários níveis e é de se estranhar que adotem o nome de conhecimento para suas doutrinas, mas isso acontece porque se referem a um conhecimento fora de Deus e contra Deus. O fato de ele falar qualquer coisa errada a respeito de Deus não é de se espantar, mas apenas confirma sua natureza opositora a Deus e à humanidade. Não, Jesus não trouxe conhecimentos secretos entre o espírito e a matéria; trouxe-nos a salvação por meio da Sua morte e da Sua ressurreição, ambos eventos bem materiais e palpáveis.

Monarquianismo

Descrição: Crença de que Deus não é uma Trindade, mas um único ser que se manifesta de diferentes formas. Argumento Principal: Os monarquianistas argumentavam que a unidade de Deus precisava ser mantida sem dividir Sua essência em três pessoas distintas. Época e Local: Surgiu no Século II. Ações Contra: Condenado por Tertuliano e outros Pais da Igreja, que defenderam a doutrina da Trindade.

Motivo real: Foi condenado mais por atentar contra a doutrina da Trindade, como uma necessidade de manutenção do poderio do Império Romano, do que por ser um erro. Deus não se manifesta de três formas diferentes, como quiseram crer os monarquistas e muito menos em três pessoas diferentes, como querem hoje crer e nos fazer crer os trinitários. Deus é espírito, sempre o foi, e sua Imagem para identificação plena com os homens nasceu aqui conosco, o Emanuel, o Deus Conosco. Quando age, é o Espírito Santo agindo, ou Espírito de Cristo, é o Espírito de Deus porque Ele é Espírito. Se falarmos de formas, só há duas: ou é Jesus Cristo, o Filho, agindo, Deus quando em Sua Carne ou se referenciando a ela, fisicamente dentro da matéria, ou o Pai, Deus em espírito.

Monofisismo

Descrição: Afirma que Jesus tinha uma única natureza divina, após a união do divino e do humano. Argumento Principal: Os monofisitas acreditavam que a natureza divina de Cristo absorveu a humana, resultando em uma única natureza após a encarnação. Época e Local: Desenvolvido no Século V por Eutíquio. Ações Contra: Condenado no Quarto Concílio Ecumênico de Calcedônia em 451 d.C., que definiu a dualidade da natureza de Cristo.

Motivo real: A Igreja Católica precisa que Jesus seja filho biológico de Maria e o monofisismo criava uma dificuldade natural em relação a isso. A próxima pergunta seria sobre em que momento o amálgama seria perfeito e o correr do raciocínio colocaria em risco o projeto de mistura de sementes, a humana de Maria e a divina de Deus, porque a corrupção ou mistura de sementes sempre foi rejeitada pelo Senhor. Não há dualidade de natureza em Cristo porque Ele é o Pão Vivo que desceu dos Céus e foi implantado completo no ventre de Maria, sem a contribuição genética dela. Depois, nasceu como homem perfeito que é, não por ser descendente de Adão, mas porque toda a humanidade foi criada tendo a Sua imagem como referência. Não houve absorção de natureza porque ela a natureza de Jesus nunca foi a herdada de Adão.

Monotelitismo

Descrição: Ensinava que Jesus tinha duas naturezas, mas uma única vontade divina. Argumento Principal: Os monotelitas defendiam que, para preservar a unidade de Cristo, Ele tinha duas naturezas, mas uma só vontade. Época e Local: Surgiu no Século VII. Ações Contra: Condenado no Concílio de Constantinopla III em 681 d.C., que afirmou que Cristo tinha duas vontades.

Motivo real: A Igreja Católica precisa atribuir duas vontades porque para ela há duas naturezas, a humana e a divina, enquanto os monoteliticistas tinham uma obrigação lógica de admitir uma única vontade para um ser único, mas erraram, porém, ao atribuir a Jesus as duas naturezas que Ele não tem e por isso perderam a batalha. Ficaram firmados em uma base errada para atingir uma conclusão certa. A base errada precisa, por necessidade lógica, levar a uma conclusão errada como vemos no catolicismo, uma conclusão coerentemente errada! Porém, Jesus tem uma única natureza, e uma única vontade porque não é descendente de Adão. Cristo foi implantado completamente pronto no útero de Maria, sem a participação genética desta: não há duas naturezas nEle. Como disse o Senhor, “errais por não conhecer as Escrituras nem o poder de Deus”.

Nestorianismo

Descrição: Proposto por Nestório, ensinava que Jesus tinha duas naturezas distintas, uma divina e outra humana, em vez de uma união das duas. Argumento Principal: Nestório defendia a distinção das naturezas de Cristo para preservar sua plena humanidade e plena divindade. Época e Local: Fundado por Nestório, arcebispo de Constantinopla no Século V. Ações Contra: Condenado no Concílio de Éfeso em 431 d.C., que reafirmou a união das duas naturezas em Cristo.

Motivo real: veja monotelitismo.

Sabellianismo (ou Modalismo)

Descrição: Alegava que as três pessoas da Trindade são modos diferentes de uma única entidade divina, negando a distinção entre Pai, Filho e Espírito Santo. Sabélio defendia que Deus se revelava em modos diferentes em tempos diferentes, preservando a unidade divina sem divisão. Surgiu no Século III. Ações Contra: Condenado por Tertuliano, que defendeu a distinção entre as pessoas da Trindade.

Motivo real: veja monarquianismo.

Trinitarismo

Descrição: Alega que Deus é um consórcio de três pessoas igualmente divinos e em plena harmonia, um sendo chamado de Pai, o outro de Filho, e o terceiro, de Espírito Santo. Isso harmoniza com várias Trindades dos panteões mundo afora, todos com raízes na antiga Babel de Ninrode. Surgiu por ação direta do Imperador Romano que ajuntou em Niceia, em 325 d.C, vários líderes cristãos e os fez sair de lá com uma declaração trinitária que acomodasse o panteão de deuses das nações que ele tinha sob seu domínio decadente.

Então, impulsionada pelos rigores das leis romanas, os templos das diversas crenças foram transformados em igrejas estatais, os sacerdotes das diversas religiões foram constituídos em líderes da nova religião, e quem se levantasse contra esse movimento seria morto, preso ou expropriado. Pela força da espada Roma silenciou os dissidentes, queimou registros, alterou a história, mudou os tempos, criou um novo Império Romano. Em 1917 as duas longas pernas de ferro da estátua do sonho de Nabucodonosor, que representavam o Império Romano, terminaram: o Kaiser (Alemanha) e o Czar (Rússia). Os pés e os dedos, na sequência, ainda são feitos em parte de ferro: o espírito do Império Romano ainda viverá entre nós até o fim.

Essa doutrina da Trindade é a predominante hoje na cristandade, e tem permitido e justificado que as tradições dos homens sejam mais fortes do que as revelações diretas de Deus. Essa é a doutrina mais perniciosa que foi criada porque esconde a verdade de quem a busca atribuindo a Deus a incompetência por não se fazer conhecido ou a maldade por falhar na comunicação. Ela engana e atribui a culpa pela não compreensão dos seus mistérios aos seus fiéis, nos perfeitos moldes dos gnósticos sobre os quais diz repudiar. Age como uma raposa que coloca nas galinhas a culpa por ele ter atacado o galinheiro. E ainda abre caminho para abominações como atribuir a Jesus Cristo uma genética adâmica, fazendo que a morte dEle na cruz fosse um sacrifício que Deus disse que era abominável, o sacrifício humano, de um filho de Adão.

Motivo real: esconder em roupagens cristãs os conceitos anticristãos e, assim como o fermento na vasilha de trigo, criar uma contaminação completa e indistinguível para que continue tendo pleno espaço para as atividades de domínio e poder que não quer abrir mão. Por meio dessa manipulação bem-sucedida a tradição dos pontífices permanece até hoje.

2 – O Tema Deus para a Teologia Corrente

No coração da fé cristã protestante reside a convicção monoteísta da existência de um único Deus vivo e verdadeiro. Este Deus não é uma mera abstração filosófica, mas o Criador soberano de todo o Universo, tanto visível quanto invisível. Ele é transcendente, infinitamente superior à sua criação, mas também imanente, pessoalmente envolvido na história e na vida de sua criação, especialmente na vida de seu povo.

As tradições, embora com ênfases distintas em alguns pontos, compartilham uma profunda reverência pela Escritura como a revelação especial e infalível de Deus. É nas páginas da Bíblia que encontramos o testemunho primário sobre sua natureza, seus atributos e seus atos redentores.

No que concerne aos atributos divinos, Deus é eterno, onipotente, onisciente e onipresente. Ele é santo, justo, bom, misericordioso e cheio de graça. Estas não são apenas qualidades separadas, mas aspectos interconectados de seu ser perfeito.

As correntes Calvinistas e Arminianas, por sua vez, oferecem perspectivas distintas sobre a maneira como a soberania de Deus se relaciona com a liberdade humana, especialmente no que diz respeito à salvação. O calvinismo enfatiza a soberania absoluta de Deus na eleição e predestinação, defendendo que a salvação é um ato da graça divina irresistível. Já o arminianismo, embora reconhecendo a primazia da graça de Deus, enfatiza a liberdade do ser humano em responder ao chamado divino, com a possibilidade de resistir à graça. Apesar dessas diferentes ênfases, ambas as tradições concordam que a iniciativa da salvação reside em Deus. Ele é o Deus que se revela, que chama e que capacita o ser humano a responder em fé. Através da sua Palavra e, de forma culminante, através da pessoa e obra de seu Filho Jesus Cristo, Deus se manifesta plenamente.

Em resumo, Deus é o Ser supremo, o Criador, Sustentador e Redentor. Ele é pessoal, relacional e se revela a nós para que o conheçamos e desfrutemos de comunhão com Ele. A compreensão de sua natureza e seus atos é um mistério profundo que nos convida à humildade, à adoração e a uma busca contínua por conhecê-lo mais intimamente através das Escrituras e da experiência da fé.

3 – Trindade: católica e protestante

Caro leitor, apresentamos abaixo resumos das visões católica e protestante do assunto Trindade. Nosso objetivo é fornecer um material de apoio a quem desejar fazer estudos aprofundados sobre o tema nessas visões. Para evitar que nossa compreensão afetasse a construção desse material de apoio, optamos por não escrever o material diretamente e usamos os recursos de IA para gerar os resumos, já que na nossa visão todo o assunto está sendo trabalhado em bases erradas, e, como diria o Senhor Jesus, “Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus” (Mateus 22:29). Como metodologia e para nos isentarmos de vieses, demos a esta IA alguns livros de teologia sistemática e pedimos a explicação dos conceitos.

Também não apontamos na resposta da IA os locais em que já mostramos anteriormente os erros ou fragilidades dos pensamentos da Teologia Corrente. Limitamo-nos a modelar o texto para a apresentação neste livro, então você está diante de um texto puro, na medida do possível. Boa pesquisa!

A Trindade por teólogos católicos (texto via IA)

CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II. Dei Verbum: constituição dogmática sobre a revelação divina. São Paulo: Paulinas, 1998.

RATZINGER, Joseph. Introdução ao cristianismo. São Paulo: Loyola, 2005.

SESBOÜÉ, Bernard. História dos dogmas. São Paulo: Loyola, 2002. v. 1: O Deus da salvação.

BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002. (Referência geral às Escrituras, especialmente passagens como Mt 3,16-17; 28,19; Jo 1,1-18; 10,30; 14,16-17; II Co 13,13).


A doutrina da Santíssima Trindade afirma que há um só Deus em três Pessoas distintas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

  • Um só Deus: Não cremos em três deuses, mas em um único Deus que possui uma única natureza divina.
  • Três Pessoas: O Pai não é o Filho, o Filho não é o Espírito Santo, e o Espírito Santo não é o Pai. Cada Pessoa é completamente Deus, mas cada uma é distinta na sua relação com as outras. O Pai gera, o Filho é gerado, e o Espírito Santo procede do Pai e do Filho.

É um mistério central da nossa fé, revelado por Jesus Cristo, e que buscamos compreender cada vez mais profundamente. Em resumo: Uma essência divina em três Pessoas divinas. É um mistério porque transcende a plena capacidade da razão humana de compreender completamente. Nossa mente finita encontra limites ao tentar abarcar a natureza infinita de Deus.

Especificamente, a Trindade apresenta uma unidade na essência e uma distinção nas pessoas que a compõem, estrutura para a qual não se encontram analogias perfeitas no mundo criado. Como pode haver um único “ser” que é simultaneamente três seres distintos? Não, não pode.

A revelação divina nos apresenta essa verdade e a fé nos permite acolhê-la, mesmo que não a compreendamos em sua totalidade. A teologia busca articular essa fé da melhor maneira possível, mas sempre reconhecendo o caráter misterioso da Santíssima Trindade.

A revelação de Deus como Trindade não ocorreu em um único momento específico, mas se deu de forma progressiva ao longo da história da salvação, culminando na vinda de Jesus Cristo e na efusão do Espírito Santo. Podemos identificar momentos chaves:

No Antigo Testamento:

  • Há sugestões e prefigurações da pluralidade em Deus, como o uso de pronomes plurais (“Façamos o homem à nossa imagem”, Gênesis 1:26) e a distinção entre o “Senhor” que envia e o “Anjo do Senhor”. No entanto, a ênfase é a unicidade de Deus.

No Novo Testamento:

  • Encarnação do Filho: A vinda de Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado, é um momento crucial. Jesus se refere a Deus como seu Pai de uma maneira única e íntima, e suas palavras e ações revelam sua filiação divina e sua unidade com o Pai (“Eu e o Pai somos um”, João 10:30).
  • Batismo de Jesus (Mateus 3:16-17): Esta cena é frequentemente vista como uma manifestação explícita da Trindade. O Espírito Santo desce como uma pomba sobre Jesus, enquanto a voz do Pai se ouve dos Céus, declarando Jesus como seu Filho amado.
  • Ensinamentos de Jesus: Jesus fala do Pai, de si mesmo como Filho e do Espírito Santo (o Paráclito) que seria enviado. Ele os distingue, mas também os relaciona intimamente.
  • A Grande Comissão (Mateus 28:19): Jesus instrui seus discípulos a batizarem “em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”, colocando as três Pessoas em igualdade no ato fundamental da iniciação cristã.
  • As Cartas Apostólicas: Os apóstolos, como São Paulo, frequentemente invocam a graça de Jesus Cristo, o amor de Deus (o Pai) e a comunhão do Espírito Santo (II Coríntios 13:13).

Como se revelou:

Deus se revelou como Trindade através de suas ações na história:

  • Pelo Pai: Como o Criador e aquele que envia o Filho e o Espírito.
  • Pelo Filho: Encarnando-se, vivendo entre nós, ensinando, morrendo e ressuscitando para a nossa salvação, e enviando o Espírito Santo.
  • Pelo Espírito Santo: Descendo sobre Jesus no batismo, sendo prometido e enviado aos Apóstolos para capacitá-los e guiar a Igreja.

A revelação da Trindade foi progressiva, com sugestões no Antigo Testamento e uma manifestação mais plena e explícita no Novo Testamento, através da vida, palavras e ações de Jesus Cristo e do envio do Espírito Santo.

Essa insistência na acepção de “Filho” como algo mais do que uma mera figura de linguagem é crucial para a doutrina da Trindade por várias razões fundamentais:

  1. Revelação de Jesus: O próprio Jesus se referiu consistentemente a Deus como seu “Pai” de uma maneira única e íntima. Ele não apenas falou de Deus como o Pai de toda a criação, mas estabeleceu uma relação filial singular consigo mesmo. Essa filiação é central para sua identidade e missão. Se “Filho” fosse apenas uma metáfora, diminuiria a profundidade dessa relação especial que Jesus reivindicou.
  2. Natureza Divina Compartilhada: A doutrina da Trindade afirma que Jesus, o Filho, é da mesma natureza divina que o Pai (“consubstancial ao Pai”, como professamos no Credo Niceno). Se a filiação fosse apenas figurativa, seria difícil sustentar essa igualdade na divindade. Uma filiação genética ou familiar implica uma participação na mesma natureza.
  3. Relação Eterna: A relação entre o Pai e o Filho na Trindade não é algo que começou na encarnação. A teologia católica ensina que o Filho é eternamente gerado pelo Pai. Essa geração eterna implica uma relação intrínseca e necessária dentro da própria essência divina, e não apenas uma designação funcional ou metafórica.
  4. Distinção das Pessoas: A utilização do termo “Filho” ajuda a distinguir a segunda Pessoa da Trindade da primeira (o Pai) e da terceira (o Espírito Santo). Embora compartilhem a mesma natureza divina, as Pessoas são distintas em suas relações de origem. O Pai gera, o Filho é gerado. Essa distinção é vital para evitar o modalismo, uma heresia que via as três Pessoas como meros “modos” ou manifestações de um único Deus.

A insistência na acepção mais plena e real de “Filho” não é arbitrária. Ela deriva da forma como Jesus se revelou, das implicações para a sua natureza divina e da necessidade de articular a distinção entre as Pessoas dentro da unidade divina. A linguagem de filiação genética e familiar ajuda a expressar essa relação única, eterna e intrínseca entre o Pai e o Filho dentro da Santíssima Trindade.

A Trindade por teólogos protestantes (texto via IA)

LANGSTON, A. B. Esboço de Teologia Sistemática.1-2.

BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura Cristã, 1990.

GRUDEM, Wayne A. Manual de Teologia Sistemática: uma introdução aos princípios da fé cristã. São Paulo: Editora Vida, 2001.

CHEUNG, Vincent. Teologia Sistemática. [s.l.]: Reformation Ministries International, 2003.

O entendimento sobre a doutrina da Trindade pode ser resumido da seguinte forma:

A doutrina da Trindade Divina ensina que a Divindade, embora Una em Sua essência, subsiste nas Pessoas do Pai, do Filho e do Espírito Santo. As três Pessoas são distintas, eternas e iguais na substância e atributos…. Elas são transcendentes e imanentes. Deus é único, formando uma Trindade na unidade e uma unidade na Trindade, sendo Triúno. O Pai, o Filho e o Espírito Santo são Deus e é Deus. Cada uma das três Pessoas tem Suas atividades, visando à realização dos decretos divinos e à concretização do Plano de Salvação em Cristo Jesus. O texto de Gênesis 1:26 (“Façamos o homem à nossa imagem”) denota a dinâmica atuação da Trindade Divina.

Os textos distinguem entre “Trindade” e “Triunidade”. A palavra Trindade significa a tríplice manifestação de Deus ou a Sua manifestação no Pai, no Filho e no Espírito Santo. O termo Triunidade significa o tríplice modo da existência de Deus, que é a existência de três em um. A doutrina da Trindade é obtida pelo fato de Deus ter-Se revelado como Pai, Filho e Espírito Santo. Existe uma tríplice manifestação porque há um modo tríplice de existir. A teologia afirma que a Triunidade foi conhecida por causa da Trindade. Se não houvesse uma tríplice manifestação de Deus, a Triunidade de Sua existência jamais seria revelada aos homens.

A doutrina da Trindade é uma doutrina revelada. Nosso conhecimento dela baseia-se no que aprouve a Deus revelar de Si mesmo. O homem, por si só, jamais poderia chegar a um conhecimento perfeito da Trindade Divina. A revelação ocorreu ao longo dos tempos, em etapas. A prova nas Escrituras dessa doutrina é de suma importância. O Novo Testamento ensina a existência de três Pessoas divinas, distintas, eternas e iguais, subsistindo numa só essência. A doutrina da Trindade é histórica, fundamentada na tríplice manifestação de Deus e nos eventos registrados no Novo Testamento. Embora o Velho Testamento contenha pelo menos o “germe” da doutrina, as Escrituras, antes da vinda de Jesus, não tinham uma doutrina da Trindade claramente formulada; é no Novo Testamento que a encontramos plenamente desenvolvida. Reunindo o que há no Velho Testamento e no Novo sobre a Triunidade, essa doutrina fica claramente estabelecida. A doutrina da Triunidade não é tão clara na Bíblia quanto a da Trindade. As Escrituras ensinam tanto a doutrina da Triunidade quanto a da Trindade.

O termo “Trindade” não se encontra literalmente no texto canônico4; ele foi utilizado pela primeira vez por Tertuliano (155-220 d.C.). A doutrina bíblica da Trindade é distinta e de suma importância para quem deseja conhecer a Deus plenamente. A doutrina da Triunidade está intimamente relacionada com a experiência cristã; o crente verdadeiro experimenta a Triunidade (três em um), sabendo que o Espírito Santo convence, e o Pai perdoa e recebe.

A doutrina da Triunidade é essencial para uma verdadeira compreensão de Deus e para a doutrina verdadeira e sã do monoteísmo. Ela é essencial para a verdadeira doutrina da revelação, pois se Deus fosse somente UM, não poderia revelar-Se como revelou em Jesus Cristo. Finalmente, ela é essencial para uma verdadeira doutrina de redenção, pois a salvação do homem reclama a doutrina da Triunidade, uma unidade tríplice.

A formulação doutrinária histórica da Trindade (“Deus é um em essência e três em pessoa”) não acarreta contradição, pois afirma que Deus é um em um sentido (essência) e três em um outro sentido (pessoa). Afirmar que Deus é um e três (não um) ao mesmo tempo e no mesmo sentido seria autocontraditório. A doutrina não se torna triteísmo, pois há um único Deus. No entanto, compreender a maneira de Deus existir, três em um e um em três, é um problema difícil e permanece sob certo mistério; ninguém jamais conseguiu compreender perfeitamente e explicar com clareza a Triunidade de Deus. Embora permaneça inescrutável em alguns aspectos, a verdade da Trindade dá crédito à revelação divina.

A Trindade – diferenças entre católicos e protestantes (texto via IA)

Existem algumas nuances na forma como a doutrina da Trindade é vista entre católicos e protestantes, embora a crença fundamental em um só Deus em três Pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo) seja compartilhada pela grande maioria das tradições protestantes históricas.

As principais diferenças geralmente não residem na essência da doutrina em si, mas sim em questões relacionadas à autoridade e à ênfase dentro da teologia mais ampla:

  1. Fonte de Autoridade:
    • Católicos: Acreditam que a doutrina da Trindade é firmemente estabelecida pela Sagrada Escritura e pela Sagrada Tradição, interpretada pelo Magistério da Igreja (o corpo de ensino da Igreja, liderado pelo Papa e pelos bispos em comunhão com ele). A Tradição desempenha um papel importante na compreensão e no desenvolvimento da doutrina.

O Concílio Vaticano II (1962-1965) permitiu aos católicos consultar as Escrituras para sua base de fé a partir da Constituição Dogmática Dei Verbum (“A Palavra de Deus”), promulgada em 18 de novembro de 1965. Este documento enfatizou a importância da Sagrada Escritura na vida da Igreja e para todos os fiéis, encorajando sua leitura, estudo e difusão. Antes do Vaticano II, embora a Bíblia sempre fosse considerada Palavra de Deus, a ênfase para os leigos muitas vezes estava mais centrada no ensino catequético e na tradição da Igreja. A Dei Verbum promoveu um maior acesso e apreço pelas Escrituras como fonte primária da fé católica, em diálogo com a Tradição e o Magistério.

  1. Protestantes: Em geral, enfatizam a “Sola Scriptura” (somente a Escritura) como a autoridade final em matéria de fé e doutrina. Embora reconheçam a importância dos concílios ecumênicos antigos (como o de Niceia) que definiram a doutrina da Trindade, sua compreensão se baseia primariamente na interpretação das Escrituras.
  2. Ênfase Teológica:
    • Católicos: Tendem a abordar a Trindade dentro de um quadro mais amplo da teologia sacramental e da vida da Igreja, vendo a ação das três Pessoas divinas em todos os aspectos da salvação e da liturgia. Há uma forte ênfase na unidade da Trindade e como ela se manifesta na Igreja.
    • Protestantes: As ênfases podem variar entre as diferentes denominações. Algumas podem focar mais na obra específica de cada Pessoa (por exemplo, a obra redentora do Filho, a obra santificadora do Espírito Santo), enquanto outras podem enfatizar a soberania do Pai.
  3. A “Filioque”: Historicamente, houve uma diferença teológica notável em relação à процессуальном (processão) do Espírito Santo. O Credo Niceno-Constantinopolitano original afirmava que o Espírito Santo “procede do Pai”. A Igreja Católica adicionou posteriormente a cláusula “e do Filho” (“Filioque”). A maioria das tradições protestantes ocidentais também adotou o “Filioque”, enquanto a Igreja Ortodoxa Oriental o rejeita. Embora isso seja mais uma diferença entre o Ocidente (católicos e muitos protestantes) e o Oriente, pode haver algumas nuances na forma como diferentes tradições protestantes entendem essa questão.

Em resumo:

  • Concordância Fundamental: A crença essencial em um único Deus em três Pessoas é compartilhada.
  • Diferenças: As principais diferenças residem na fonte de autoridade para a interpretação da doutrina (Escritura e Tradição vs. Sola Scriptura) e nas ênfases teológicas dentro de seus sistemas mais amplos de crença. A questão do “Filioque” também representa uma divergência histórica com implicações teológicas.

Apesar dessas diferenças, é importante notar que a doutrina da Trindade permanece um dogma central e unificador para a grande maioria dos cristãos, sejam eles católicos ou protestantes.

4 – Crítica Interna da Teologia Corrente

Diante da vastidão insondável de Deus e dos mistérios profundos de sua obra, a teologia inevitavelmente esbarra em seus limites. Há questões que persistem, áreas em que a certeza nos escapa e em que a fé, nutrida pela Escritura, nos convida a abraçar o mistério.

Seguem abaixo algumas dessas críticas internas do arcabouço teológico corrente e as respectivas respostas a elas que nossa abordagem traz.

•  A natureza de Deus em si mesmo: Como conciliar os atributos divinos que parecem, à primeira vista, paradoxais? Por exemplo, a soberania absoluta de Deus e a liberdade humana (tema que divide Calvinistas e Arminianos). Como Deus pode ser totalmente transcendente e, ao mesmo tempo, intimamente imanente? A natureza da Trindade – um Deus em três pessoas – permanece um mistério fundamental, expresso em fórmulas dogmáticas que buscam descrever o indescritível.

Nossas considerações:

Quanto à soberania de Deus e a nossa liberdade, recomendamos a leitura do capítulo Começando do Começo desta Unidade e o capítulo Predestinação e Livre Arbítrio da Unidade Igreja. Resumidamente, lá mostramos que viver e fazer escolhas é uma necessidade que Deus tem para que possamos concordar com o juízo de Deus a nosso respeito. Na visão geral, Ele sabe de tudo, mas isso não satisfaz à condição da justiça em que o réu também deve concordar com o juízo. E ao réu não pode ser imputada culpa sobre o que não teve responsabilidade, sobre o que não fez, não viveu. A predestinação precisa se referir a Deus e não ao homem porque se for colocada para o homem, como de fato o é na Teologia Corrente, leva, no limite, à atribuição da responsabilidade dos nossos atos a Deus.

A solução é afastar o foco e deixar a predestinação a cargo de Deus e o livre arbítrio a cargo do homem. Deus sempre saberá o que vamos comer amanhã, sempre seremos “predestinados” nesse sentido, mas Ele não nos conta para que possamos escolher livremente.

Quanto à permanência do mistério da Trindade, novamente precisamos usar o mesmo recurso de afastar o foco: não há mistério a ser resolvido porque não há Trindade em Deus. Também nunca chegaremos a um conhecimento pleno das Fadas dos Dentes pelo mesmo motivo: não há Fadas dos Dentes. Aceitar por fé a Trindade é equivalente a aceitar por fé a Fada do Dente. Não se trata de um mistério teológico, mas de uma inexistência do mistério. Dito isso, o capítulo “Deus, só Tem Um” trata dessas questões de forma mais extensiva.

O resumo: Deus quis expandir o seu amor e idealizou uma forma de fazer isso: criar seres além de Si mesmo que seriam criados em um mundo além de Si mesmo a partir da Sua Imagem Visível dEle nesse mundo. E para tal criou todo o mundo com seus desequilíbrios para que fossem vencidos pela fé no invisível. Aos vencedores da matéria, Ele compartilhará eternamente a sua multiforme sabedoria tornando-os unidos pela ligação de um só espírito em um corpo coletivo. O motivo: a expansão do Seu amor, expansão de Si mesmo. O processo: a identificação completa do criador com a criatura. O objetivo: criar para Si mesmo movimento por meio de um corpo livre para o qual e por meio do qual Ele possa dar expressão de Si mesmo, Seu amor.

•  O “como” da criação ex nihilo: A Escritura afirma que Deus criou o Universo do nada. A teologia explora as implicações filosóficas e metafísicas dessa afirmação, mas o processo exato pelo qual Deus realizou essa criação transcende a nossa compreensão empírica e científica. Aceitamos pela fé o poder criador da Palavra de Deus.

Nossa resposta:

Talvez nas eras vindouras, quando o Senhor mostrar mais plenamente sua multiforme sabedoria possamos aprender como Ele fez todas as coisas, mas hoje isso é irrelevante em comparação com o plano maior. Todavia, podemos deixar aqui um pensamento: como a matéria é uma expressão do espírito, podemos dizer que tudo o que existe é uma extensão da energia de Deus, ou o pensamento dEle. Quanto à forma de apresentação desse problema, e de outros problemas da teologia, temos um incômodo a compartilhar: parece sempre algo explicado com uma saída de emergência dizendo “aceitamos isso pela fé”, seguido de um suspiro de desânimo. É verdade que a aceitação é por fé, mas a forma parece mais uma rendição sob a espada do inimigo do que um avanço em direção de uma proximidade com Deus. Sim, é por fé, mesmo! Aleluia! O mesmo tipo de fé que temos que Ele nos salva é a fé gloriosa e triunfante de que Ele fez todas as coisas. Não é uma fé direciona ao processo de criação, o como Ele fez, mas direcionada a Ele. Saber que Ele fez tudo do nada aumenta a nossa fé porque Ele fez o impossível para nós com o objetivo de nos cativar, nos chamar a atenção, para nos amar. A mesma fé que olhar para o passado e vê Deus fazendo tudo do nada é a que olha para o futuro e vê Deus sendo tudo em todos. Vemos por meio da fé através da matéria visível o Deus Invisível que nos amou e tudo fez para que no fim estivesse para sempre conosco. Aceitamos, sim, e de bom grado, que Ele fez tudo o que precisava ser feito para a expansão do Seu Amor em nós, Cristo em nós, a esperança da Glória.


[1] Nota do Editor: Os autores empregam estes termos filosóficos para enfatizar que a dualidade (espírito e matéria, bem e mal) é uma condição absolutamente essencial (‘sine qua non’) e interativa (‘dialética’) para a compreensão de Deus, Seus planos e a existência humana, inclusive na forma como o mal é inerente ao propósito do teste humano.

[2] Abordaremos o assunto do mal no volume 2 – O Cenário, juntamente com a cosmologia e a cronologia.

[3] Nota do Editor: É crucial entender que os autores utilizam a etimologia da palavra “existir” para construir um argumento teológico central. Ele explora o prefixo latino “EX”, que significa “para fora”, para argumentar que a existência é uma condição de algo que foi “colocado para fora”, ou seja, criado por Deus. Consequentemente, Deus, que não foi criado, não “existe”. O autor então cunha o neologismo “INistir” e a palavra “iste” para criar um contraste, sugerindo que Deus apenas “é” em sua essência. O cerne do argumento depende da compreensão de que o prefixo “EX” em “existir” implica um estado de ser separado do Criador, uma intencionalidade da argumentação.

[4] O termo ‘abstrato’ aqui é empregado para descrever a natureza não física e não espacial de Deus, enfatizando que Ele transcende as limitações de tamanho e movimento humanas. Não implica que Deus seja meramente um conceito ou destituído de atributos pessoais, mas sim que Ele está além da realidade material criada por Ele.

[5]  A afirmação de que os seres humanos podem se tornar ‘tão infinitos como Ele mesmo é’ apresenta uma reivindicação teológica forte e incomum em muitas tradições teológicas de língua inglesa, que geralmente reservam o termo ‘infinito’ exclusivamente para Deus. Sugere uma partilha profunda da natureza ilimitada de Deus, além da mera imortalidade (ser sem fim), implicando uma compreensão singular da filiação divina. Trata-se da profunda identificação de Cristo conosco nos levando “dentro” dEle para estarmos eternamente em Cristo.

[6]  O termo hebraico ‘ruach’ (רוּחַ) no Antigo Testamento é frequentemente traduzido como ‘espírito’, mas significa fundamentalmente ‘sopro’, ‘vento’ ou ‘fôlego’. Alertamos que a palavra ‘espírito’, vinda de outras culturas, pode carregar conotações associadas a seres não-materiais de um tipo que não se aplica a Deus, que é ‘Espírito’ em um sentido único e incriado.

[7] Nota do Editor: “Os autores utilizam a expressão ‘barriga de aluguel’ (‘surrogate mother’) para enfatizar sua visão da concepção de Jesus como um ato puramente divino, sem contribuição genética de Maria, sublinhando que Ele é ‘TODO celestial’ e não descendente de Adão. Esta é uma linguagem forte e não convencional.

[8] Nota do Editor: Os autores criticam a interpretação de ‘nascido do Pai’ (referente a Jesus) como um processo semelhante à ‘mitose’ (divisão celular), que implicaria uma divisão ou emanação que os Trinitaristas usam para tentar explicar o ‘nascendo da personalidade do Espírito Santo’.

[9] Nota do Editor: Os autores fazem uma distinção crucial aqui, afirmando que suas críticas à Trindade não significam adesão ao Modalismo (Deus se manifesta em diferentes ‘modos’ em diferentes tempos) ou ao Unicismo (Jesus é meramente uma teofania, ou manifestação divina, e não um ser distinto do Pai). Eles buscam uma compreensão que preserve a unicidade de Deus e a identidade distinta de Jesus.

[10] E ouviu-se uma voz dos Céus, que dizia: Tu és o meu Filho amado em quem me comprazo. (Marcos 1:11)

[11] E, estando ele ainda a falar, eis que uma nuvem luminosa os cobriu. E da nuvem saiu uma voz que dizia: Este é o meu amado Filho, em quem me comprazo; escutai-o. (Mateus 17:5)

[12] Pai, glorifica o teu nome. Então veio uma voz do céu que dizia: Já o tenho glorificado, e outra vez o glorificarei. (João 12:28)

[13] http://emdefesadarestauracao.blogspot.com/2015/06/verdade-sobre-mateus-2819.html

[14] http://www.e-ristianismo.com.br/teologia/apologetica/mateus-28-19-uma-investigacao-critica-textual.html

[15] Sugerimos que você leia a carta toda pelo menos dez vezes. Nas primeiras cinco vezes, leia na mesma versão.

[16] Eu me sinto bem à vontade de usar as explicações deste autor porque ele tem a sinceridade de apontar o erro mesmo crendo na Trindade.

Resumo

Neste capítulo convidamos você a pensar além das explicações convencionais sobre a origem e o significado do PECADO, buscando uma compreensão mais profunda do plano maior de Deus.

Veremos como entender o lugar do pecado no plano geral de Deus, analisando o inevitável desequilíbrio na criação do homem. Discutiremos a originalidade do Pecado Original propondo uma perspectiva que pode surpreendê-lo. Em seguida, examinaremos o plano específico de Deus para restaurar o equilíbrio, mostrando que o pecado não é um erro aleatório, mas se encaixa no propósito divino. Abordaremos como a velha natureza é confrontada pela nova natureza de Cristo da qual podemos usufruir por meio dEle.

Os assuntos podem ser complexos e desafiar nossas noções pré-estabelecidas. Nosso desejo é que esta jornada pelo tema do pecado o leve a uma apreciação ainda maior da solução divina em Cristo.

Introdução

Antes de falarmos da morte, o próximo capítulo, precisamos entender um pouco sobre o pecado, sua origem, sua necessidade, sua inevitabilidade.

Por que pecamos? Por que já nascemos com essa herança, o Pecado Original? Como se dá essa transmissão? O que teria acontecido se Adão não tivesse pecado? Nós conseguiríamos não pecar? Cada pergunta dessa tem a capacidade perturbadora de nos deixar dias sem dormir, então, para evitarmos esse desconforto, chutamos cada uma delas para debaixo da cama antes de deitarmos. E lá ficam escondidas por anos até que um dia alguém ou alguma coisa te faz lembrar delas… E eis-nos aqui a fazer esse trabalho de buscar por respostas!

Como são perguntas difíceis de serem respondidas e a Teologia Corrente não apresenta respostas suficientemente claras, pedimos sua mais dedicada paciência ao ler. Não se apresse. Veja o quadro completo, depois a solução criativa de Deus e os resultados finais.

Nas poucas páginas que se seguem teremos a oportunidade de meditar sobre vários destes pontos e outros tantos tão perturbadores como estes.

Que o Senhor nos ilumine!

A originalidade do Pecado Original

O Plano Geral de Deus

Somos formados da natureza terrena, material, e da natureza celeste, espiritual. Essas duas dimensões coexistem em nós e formam nossa alma. A alma humana está ligada ao espírito, que é a fonte da vida material que possuímos. A alma humana não se desfaz com a morte física, pois a origem da vida, a fonte de energia, é o espírito, e não o corpo. Nos animais, tanto o corpo quanto a alma estão ligados à matéria, o que faz com que a almas deles se dissipem com a morte dos corpos.

Essa vida, que possui duas naturezas, carrega no espírito uma fome pelo sua origem celestial e vivemos com essa fome interna que Deus colocou em nós. Temos a nossa consciência, a nossa intuição e a nossa comunhão como funções do espírito. Ao olharmos para o mundo ao nosso redor, frequentemente não temos uma visão do espiritual, mas apenas da matéria que nos cerca e da qual nosso corpo foi formado. Se nos deixarmos consumir, acomodar, amoldar pela matéria, o nosso corpo, que é matéria, desejará voltar ao pó que é a sua origem. Assim, não conseguimos alcançar o espiritual. No entanto, o Senhor nos colocou essa fome pela fonte espiritual, que é o próprio Deus. Quando olhamos para o horizonte e percebemos por nossa intuição que além do céu visível existe algo mais, algo que compreendemos somente por fé, então nosso espírito é salvo por Aquele que lá está, Jesus Cristo, e restaura nossa comunhão com Ele. A fé em algo além da visão material nos conecta com o divino, e é por meio dessa fé que somos salvos porque não há nada neste mundo que possa nos salvar dele, nem mesmo uma grande torre de Babel que pretenda ter os Céus no topo não seria capaz de salvar nosso espírito.

A partir do momento em que o espírito é salvo, e por conseguinte nossa comunhão com Ele é restaurada, a inimizade entre as duas naturezas se intensifica. Se não há conflito entre o espírito e o corpo, existe uma falsa paz, a paz da morte. Nesse caso, a pessoa caminha em “paz” para a separação eterna da sua fonte de vida original que é Deus. Porém, ao ter certeza da ligação com o espiritual, essa paz desaparece, pois o corpo, que um dia se converterá em um corpo espiritual, vive em constante tensão com a natureza espiritual, buscando um retorno à sua origem, um retorno ao pó. As duas naturezas, a espiritual e a terrena, embora compostas de energia, se manifestam de maneiras diferentes.

Neste ponto precisamos de um comentário: as religiões são esforços para buscar o espiritual por meio da intuição do nosso espírito, sim, mas estamos usando essa palavra de forma estrita para Deus. É nítido que no Reino animal temos animais como a formiga e o elefante; do mesmo modo no Reino espiritual temos anjos, demônios e Deus, e todos estes são espíritos, mas a diferença entre eles é como a diferença entre a formiga e o elefante. Então, quando falamos que nosso ser busca o espiritual estamos nos referindo a Deus, ainda que muitos sejam enganados nesse processo e se tornam vítimas de demônios e anjos caídos.

Compreender esse plano geral é libertador, pois ao sabermos que o objetivo final é a salvação total, tanto do corpo quanto do espírito, a alma também é redimida no processo. Isso dá sentido à longa jornada que nos leva ao cumprimento do propósito inicial de concordar com o julgamento que Deus fará a nosso respeito.

O Inevitável Desequilíbrio

O desequilíbrio que caracteriza a condição humana é a origem de nossas dores. Fomos criados para viver e sofrer este desequilíbrio, para que, ao fim, possamos testemunhar a nossa fé no Senhor, mesmo sem vê-lo diretamente. Aqueles que atenderam ao chamado para olhar para cima, para além do visível, serão salvos e passarão a eternidade com Cristo porque sempre O desejaram, mesmo quando não podiam vê-lo fisicamente. Os que viveram antes dEle creram que no futuro Ele viria, como prometido, e nós, os que vivemos depois do cumprimento da promessa de sua vinda, olhamos para o passado e cremos que Ele veio. Aqueles que se perderão, por outro lado, dirão: “Eu nunca quis mais do que a materialidade terrena”.

Deus não poderia criar seres humanos já no dia do Juízo Final apontando quem vai para o céu e quem vai para o Inferno, sem que a pessoa soubesse por que foi condenada. Para ser perfeito em Sua justiça e amor, Deus permite – não, Ele exige – que vivamos nossas vidas e escolhamos nosso destino. Ele conhece as intenções de nossos corações, mas nós precisamos passar por essa experiência de autoconhecimento para que no fim também possamos nos conhecer e concordar com Ele. Seria um julgamento injusto se não concordássemos com o veredito. Esse desequilíbrio é necessário para revelar o que há dentro de nós, revelar para nós pois Ele mesmo já o sabe.

Por isso vivemos: para, no fim, concordarmos com o juízo de Deus sobre nós. Se Ele nos enviar para o Inferno, aceitamos, pois ninguém irá para lá com a ilusão de merecer o céu. Os salvos, por sua vez, reconhecerão que não mereciam a salvação, mas aceitam com gratidão a misericórdia de Deus. Fomos criados para validar o juízo divino, atendendo à necessidade de Deus ser amoroso e justo ao mesmo tempo. Sim, mas mais ainda do que isso: fomos criados para participar de Deus como Seu Corpo já que Ele não nos podia criar como Ele mesmo o é. O amor de Deus é infinitamente maior por nós que o nosso por Ele, nem poderia ser diferente já que Ele é infinito e nós, finitos. Então Ele se amoldou a nós para que lhe fôssemos correspondentes.

Nosso corpo nunca desejará ir para o céu, pois essa ânsia pertence ao nosso espírito. Ao lutar contra o espírito, a carne segue sua própria estratégia de retorno à origem, buscando a destruição. O espírito, por outro lado, anseia pela paz e pelo seu retorno à origem celeste.

A Originalidade do Pecado Original

O erro de Adão não foi uma falha acidental, foi parte do plano divino. Ele foi colocado no jardim do Éden para falhar, para que, no fim, fosse possível demonstrar que o material prevaleceria sobre a visão espiritual e a fé. Mesmo falando com Deus diariamente, Adão não conseguiu superar esse desequilíbrio porque é impossível. Nem você nem qualquer outra pessoa conseguiria. Vamos deixar bem claro logo no início: é impossível vencer o desequilíbrio.

Caro leitor, tenha calma ao ler as próximas linhas! O Pecado Original pode ser entendido como um desequilíbrio intrínseco, algo que nem Adão nem Deus poderiam evitar. De fato, Adão errou, mas ele foi criado para errar. Esse “para pecar” ficou muito forte… Vamos suavizar: ele foi criado e pecaria, mesmo não tendo sido criado para pecar, no sentido de objetivo final, pecaria porque é impossível vencer o desequilíbrio, é impossível não pecar. Sim, mas tenha calma. Vamos mostrar o porquê.

Antes de continuarmos, é bom lapidar esses pensamentos. Em primeiro lugar, não é que Deus tenha planejado no sentido da teologia da predestinação, como um engenheiro planeja uma casa. Ele também não resolveu fazer toda essa bagunça, desordem ou complexidade da vida, só para não ficar ocioso na eternidade. Não! Ele viu as inumeráveis possibilidades de criação, por assim dizer, e encontrou essa única em que estamos como a viável para realizar o Seu plano de expansão de amor. Este é o melhor jeito que Ele encontrou, não existe outro caminho.

Em segundo lugar, somente Deus tem todo o conhecimento, onisciência, e é impossível para Ele fazer outros seres que sejam igualmente oniscientes; é uma impossibilidade. Daí, o homem, e qualquer outra criatura e até mesmos os anjos, são insuficientes, e por definição, dependentes de Deus.

Os anjos têm uma natureza, a celestial; os animais têm outra natureza, a material; mas Adão, foi criado com duas naturezas e inevitavelmente experimentaria o conflito da oposição entre elas. São dois conflitos: o da antagonia das naturezas e da falta de termos o conhecimento pleno. Sem conhecimento, caberia a ele ter fé – o desafio de todos nós hoje e sempre.

Às vezes criticamos Adão, mas ele agiu movido por amor; um amor desfocado, sem discernimento, um amor pelo que saiu dele, pelo que era ele em outra forma, a mulher; de certa forma, um amor por si mesmo. O pecado de Adão não foi comer o fruto proibido, mas dar mais valor a Eva do que à palavra de Deus, agir por vista e não por fé. Comer foi o ato externo do que estava dentro, um misto entre o amor ao que veio dele com o orgulho da imagem de si mesmo na mulher e o baixar dos olhos dos Céus para a terra. Ele quis agradar Eva, a sua igual material, e não a Deus, seu igual imaterial. O erro de Adão foi idolatrar Eva, e em parte a si mesmo, colocando-a no lugar de Deus. A palavra de Deus foi negligenciada em favor da idolatria, um erro que todos cometemos, em maior ou menor grau, todos os dias.

Observe que não foi Eva que pecou no sentido em que estamos tratando aqui. Ela errou, mas seu erro não teve efeito até que Adão fizesse a escolha a favor dela, e não a favor de Deus. Ainda que todo pecado seja um erro, aspecto presente na própria definição de pecado, nem todo erro se constitui em pecado, propriamente dito: uma diferença sutil. O pecado é um erro com o efeito de colocar outra coisa no lugar de Deus, mas sem a intenção de fazê-lo, o que se constitui em uma culpa, ou um erro com o efeito e a intenção efetiva de substituir Deus, um dolo. Estamos tratando aqui do primeiro tipo, o do Pecado Original, isto é, o da culpa, do desequilíbrio. Voltemos.

Deus não foi surpreendido com o pecado de Adão, como se Ele não o soubesse, como se isso atrapalhasse os seus planos. Deus os havia colocado em um lugar sem distrações, com o conhecimento do ambiente e com a liberdade para fazer tudo ali, e cabe lembrar que eles eram inteligentíssimos. Ele soube que o pecado era inevitável desde o momento em que se “moveu” na Eternidade com a vontade de expandir o seu amor além de Si. O pecado sempre foi inevitável e sempre fez parte do plano de introjetar-se na criação que Ele iria fazer.

O pecado é ruim, mas faz parte do cenário e é indissociável dele. É irrelevante neste contexto (estritamente nele), a questão do tentador em si, de como ele conseguiu entrar no jardim, etc. Agora, respire um pouco.

Outra perspectiva pode contribuir para a nossa compreensão: sem o pecado não haveria morte, e sem morte não haveria cruz nem motivo para a vinda de Cristo, e sem isso, não haveria a entronização do Senhor na Sua criação e o plano de expansão do Seu amor seria imperfeito, pois Ele estaria incapacitado de se identificar plenamente com sua imagem material (o homem) e, sem isso, Ele não nos teria como parte dEle na Igreja. João nos revela que a cruz já estava nos planos de Deus desde a criação do mundo (Ap 13:8).

Então, sim: Deus preparou todo o cenário para que o pecado, a manifestação do desequilíbrio intrínsseco do ser humano, tivesse sua expressão. Não, não foi Deus que pecou; mas sim, Ele é responsável pelo plano que criou e por isso mesmo agiu para salvar cada um que o busca, e Ele mesmo providenciou o impensável: nasceu para passar pela morte, porque é responsável por ela, e levar todos os Seus para dentro do Seu Corpo, o estado de equilíbrio perfeito. Ele fez melhor do que nos criar como deuses, seus iguais: Ele vai nos incorporar a Seu Corpo e seremos um com Cristo assim como o Filho é um com o Pai. Um plano bem original!

O Plano Específico de Deus

A compreensão do Pecado Original como desequilíbrio entre as naturezas terrena e celeste e entre o conhecimento e a fé, nos ajuda a perceber o conflito interior que nos define como seres humanos. Somos criados para viver com essa fome espiritual, mas também somos atraídos pela matéria. O corpo, como matéria, busca retornar ao pó, enquanto o espírito anseia por algo maior, por uma realidade que transcende o físico, e só pode ser obtida por algo que não seja igualmente material, somente pelo caminho não material da fé, a certeza das coisas que se esperam, a convicção de fatos que não se veem (Hb11:1).

A fé é o que nos salva, pois ela nos permite ver além do que é tangível e nos conecta com o divino. A verdadeira salvação acontece quando reconhecemos esse anseio e aceitamos a intervenção de Deus em nossa vida. Quando o espírito é salvo, o conflito entre o corpo e o espírito se torna mais evidente, pois o corpo quer voltar à sua origem material, enquanto o espírito deseja agora mais ainda avançar para o seu destino celestial. Ainda que não tenha como o material vencer o espiritual, ele vai usar todos os meios para fazê-lo porque é sua natureza lutar para se amoldar ao pó.

Observe que uma criação é insuficiente porque somente em uma nova criação Ele pode ser tudo em todos, não por ela ser ruim, mas por ser material, restrita ao material. Só o que passa pela morte pode chegar ao outro lado, à vida verdadeira. E como Ele não pode criar outros que lhe sejam iguais, Ele se tornou um homem para ter a identificação perfeita e, todo o que nEle crê é imerso (batizado) em Seu corpo na terra, sendo Ele próprio a cabeça por ser o primeiro a entrar na morte e sair do outro lado, o “primogênito dos mortos”. A cada nova criação, a cada novo espírito, a cada salvação dada, a cada pessoa que recebe o Espírito de Deus dentro do seu espírito, Ele está conseguindo o que queria: fazer de nós parte dEle mesmo ainda aqui neste mundo de forma a antecipar aquilo que será quando todos os que creem tiverem o mesmo corpo espiritual que Ele tem.

Ao nos unirmos a Deus, nosso corpo também será transformado, assim como nosso espírito e o desequilíbrio findará. O desejo da carne é a busca pelo equilíbrio levando o espírito à morte para poder retornar ao pó, sua natureza, sua origem. A solução divina é diferente: é transformar o corpo em energia espiritual criando uma nova realidade de vida eterna, um corpo reescrito, traduzido para a mesma natureza do Corpo de Cristo ressuscitado. O desejo de Deus é submeter o corpo ao espírito e o desejo da carne é submeter o espírito à matéria.

Para os crentes, a luta será constante até o corpo ser transformado em corpo espiritual. Sem o peso da morte física, por já tê-la sofrido ou por ter saído deste mundo sem passar pela morte, o corpo passará a servir ao espírito de forma plena, sem mais aquele desejo de retornar ao pó, porque sua matéria será reescrita, assim como aconteceu com Enoque. O corpo espiritual é uma entidade que transcende a matéria, capaz de se transmutar entre matéria e espírito, sem sofrimento, sem desequilíbrio.

Quando nascemos, não somos culpados por ações erradas (atos dolosos), mas sim por nossa condição de desequilíbrio que herdamos, o Pecado Original, uma culpa. Essa condição é herdada de Adão e não há um só homem nascido de Adão que não herde dele essa característica que nos faz reconhecer-nos humanos. Sobre as condições especiais do nascimento do Senhor Jesus, consulte a Unidade Deus, por favor.

Antes de encerrarmos, muitos lutam entre conceitos de perda da salvação e o da salvação eterna, e seria prudente alinharmos isso. A vivificação do nosso espírito não pode ser retirada por Deus depois que Ele nos ligou a Ele, que nos imergiu no Seu Corpo. A salvação não pode ser perdida. Mas o Reino, os mil anos em que o Senhor Jesus vai reinar na terra, pode ser perdido, e daí vêm os versículos que falam da punição dos servos inúteis. Os servos são inúteis, as virgens são tolas, e os convidados não quiseram vestir as roupas dadas a eles para entrarem na festa, mas todos estes continuam sendo servos, virgens e convidados. Esaú não achou em Isaque lugar de arrependimento, ainda que o tenha buscado com lágrimas, mas não deixou de ser filho dele. A salvação é para sempre, mas participar do Reino é para os que vencem essa vida, para os filhos maduros, aqueles por quem a criação geme até que sejam manifestos.

A salvação é de graça, mas o Reino é por esforço; o espírito é salvo em um momento e a alma é salva por toda uma vida de caminhada; o primeiro é um ato e o segundo é um processo. É aqui que nascem as dificuldades encontradas na interpretação de alguns textos. Alguns deles parecem indicar um esforço para a salvação enquanto outros parecem indicar uma salvação sem custos.

Os Destinos

Este assunto é discutido na próxima Unidade, mas seguem aqui algumas palavras para fecharmos o raciocínio do Pecado Original e para nos conectarmos à solução de Cristo para o Velho Homem.

Aqueles que rejeitam o Senhor encontram “paz” no desejo de voltar ao pó, e o destino deles será a destruição total, a transformação naquilo que se deseja, pela qual a natureza material anseia. O corpo e o espírito que buscam a destruição serão aquecidos até a desintegração e conversão conclusiva em energia, o estado primordial da matéria. Coisa que só acontecerá no Lago de Fogo de Apocalipse, em que tudo o que foi reprovado será jogado.

Uma pessoa ficará no Lago de Fogo por quanto tempo? Antes, é necessário lembrar que é um lugar criado para o diabo e seus anjos, e não para o ser humano. Então, uma pessoa ficará no mínimo pelo tempo de vida que roubou dos outros. Um empregado ficará lá pelo tempo que não trabalhou apesar de ter sido pago para isso; um chefe ficará lá pelas horas extras que não pagou; um assassino ficará o tempo de vida que a sua vítima teria que viver e o quanto de vida foi subtraído das pessoas que sofreram pela perda; um político ficará pela soma dos tempos de vida que diminuiu às pessoas por conta do hospital que não foi construído, da avenida não consertada, dos engarrafamentos que poderia ter evitado; e uma pessoa “boa” ficaria lá o tempo da soma de vida que suas pequenas irritações tiraram das pessoas: 5 minutos do motorista do sinal de trânsito, mais 2 minutos do trocador do ônibus, mais 8 horas de um professor de matemática, mais 10 dias dos pais, e assim vai…

Quando a retribuição for total, acaba a punição do fogo e dos vermes porque depois que a pessoa “morrer” o tanto de vida que ele fez “morrer” na vida dos outros, que ele gastou, não teria mais nada a retribuir, e se Deus o continuasse a castigar além da medida, a pessoa começaria a ter créditos. Qualquer tempo nesse lugar é uma eternidade.

No caso dos anjos condenados, deve ser a mesma coisa, mas como eles influenciaram a humanidade toda, é muita vida perdida para ser retribuída na mesma medida de morte. Então, isso será muito tempo, o que para nós será uma eternidade.

Deus criou Adão com um desequilíbrio intrínseco, que se manifestou inevitavelmente. Esse desequilíbrio foi parte de um plano divino, e Adão, assim como nós, foi criado para não ser independente de Deus. Podemos aceitar nossa limitação e encontrar liberdade no reconhecimento de nossa dependência de Deus. A não aceitação de nossa dependência nos leva a tentarmos o impossível, sermos independentes e daí a queda inevitável a cada tentativa.

No limite, a tentativa de uma vida de independência impossível é a realização desse desejo, a separação completa, eterna e definitiva. No limite, a aceitação de nossa origem, e por consequência de nossa dependência, nos leva por Cristo à realização desse desejo, a união completa, eterna e definitiva. Jesus Cristo fez por nós como que um redemoinho que começa lentamente e vai acelerando até que no vórtex há a criação de uma nova vida por conta do acúmulo de toda energia dispensada por Deus nesse movimento. E o destino é estar com Ele para sempre com comunhão plena e novas coisas ilimitadas para fazer pois “nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou no coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que O amam” (I Co 2:9).

Mas se fomos criados em desequilíbrio, como aproveitar os benefícios de estar em Cristo ainda nesta vida?

O Velho Homem de Romanos

Paulo desvendou em Romanos 6 o mecanismo que nos permite aproveitar os benefícios de estar em Cristo ainda nesta vida por meio do que Ele fez na cruz por nós ao nos representar e ao nos substituir.

O que é o Velho Homem?

O velho homem é apresentado por Paulo em Romanos 6 e mais resumidamente em outras de suas cartas. A teologia identifica o velho homem à natureza caída da humanidade, a força que a incapacita de obedecer a Deus. Pensando dessa forma, o Senhor Jesus não teria o velho homem porque se o tivesse, teria pecado, uma dedução necessária das premissas apresentadas. Mas e se as premissas estiverem incompletas ou equivocadas?

Precisaremos agora de toda a sua concentração, caro leitor. Paulo nos apresenta o velho homem como a estrutura pela qual o pecado tem lugar em nossa vida, e em seguida apresenta a solução para não cedermos mais aos pecados e para inviabilizar essa estrutura: a morte do Senhor Jesus na cruz. Paulo não afirma que o velho homem é a natureza caída do homem; isso é uma postulação da teologia. Paulo fala que tem algo em nós que nos habilita a pecar, algo com uma força maior que a nossa simples vontade, algo que está em nossa essência por sermos o que somos, humanos, desequilibrados.

Não se trata de uma parte de nós no sentido de um pedaço, como um órgão ou como o espírito, com suas atividades de intuição, comunhão e consciência, nem a alma com suas atividades de mente, emoção e vontade, ou o corpo no todo ou em parte. O velho homem não é um componente nosso, não é um pedaço de nós que pudéssemos extrair, mas uma condição de nossa existência. É a nossa constituição. Nascemos com ele porque ser homem é ter essa natureza dupla, a espiritual e a material.

Uma pessoa sem corpo está morta para esse mundo, não pode reagir a ele, de forma que para estamos vivos aqui é necessário estarmos vestidos desse corpo material. Essa condição é própria do ser humano e é chamada de velho homem por Paulo para se contrapor ao novo homem da nova criação: Cristo, o crucificado e ressuscitado. Antes de Cristo só havia homem, mas agora há o velho homem e o novo homem. O primeiro é filho de Adão pelo corpo e o último é filho de Deus pelo espírito, motivo pelo qual é chamado de novo.

A Teologia Corrente tende a nos induzir a pensar que o velho homem começou a existir após o pecado de Adão e que agora somos forçados a pecar porque no velho homem que está em nós e que herdamos de Adão (já em sua condição pecaminosa)  nos faz pecar. Bem, essa construção apresenta alguns erros lógicos que destrincharemos. Talvez você diga: “E acaso precisa ter lógica? Não vivemos por fé?”. A fé é a confiança em alguém, no caso, em Deus; essa confiança é alcançada porque Ele age com lógica e assim o fez para criar tudo o que existe e por isso Ele é confiável. Se Ele não agisse com lógica, não seria confiável e não poderíamos ter fé nEle. A prova disso é que nos raros momentos em que uma regra é obliterada pelo poder de Deus, como quando Pedro andou sobre as águas, é um milagre, pois o normal – a regra, a lógica – seria afundar. É necessário que haja ordem, que haja lógica. Sim, precisa ter lógica. Vamos continuar.

Segundo a Teologia Corrente, nossa natureza pecaminosa é igual ao velho homem, em linhas gerais. O problema aqui é que se o velho homem passou a existir depois do pecado, então por qual força, por qual razão Adão pecou se não tinha velho homem antes? Se a estrutura, a força, a identificação com o pecado não existia antes do pecado, então por que ele resolveu colocar seu amor pela mulher acima do seu amor por Deus? Se é o velho homem que nos faz pecar, inexoravelmente, então como Adão conseguiu pecar sem o velho homem previamente “instalado”?

Por outro lado, se o velho homem não existia em Jesus, Ele não teve mérito algum em não pecar; “não fez mais do que a obrigação!”, no fim das contas. E se esse foi o caso, Ele sofreu à toa aqueles quarenta dias de jejum no deserto, pois nEle não haveria a capacidade de pecar. Sem falar que a tentação não foi apenas sem efeito, mas foi sem propósito, uma perda de tempo do tentador. As contas não fecham.

Ora, se o velho homem veio de Adão, Jesus não tinha velho homem, já que nasceu sem participação do DNA humano. Consequentemente não conseguiria pecar nem faria sentido para Ele uma tentação. Respire… Talvez seja útil reler este parágrafo antes seguirmos.

Vamos à solução: em primeiro lugar precisamos entender que Jesus não é humano por causa de Adão, mas Adão é humano por causa de Jesus, por ter sido feito à imagem de Jesus. Sim, sabemos que Adão foi feito à imagem de Deus, mas Quem é a Imagem Visível do Deus invisível? Jesus. Jesus é o padrão, o original, o primogênito, e Adão é a cópia. Assim como Adão quis pecar, também o Senhor Jesus poderia ter querido preferir o mundo material e ter declarado ser impossível servir ao Deus imaterial estando preso aqui na matéria como nós estamos. Ele teria que admitir que a semente da Eternidade que Ele plantou no nosso espírito não é suficientemente forte para elevar nossos olhos aos Céus. Por isso, não podemos falar que Adão podia pecar e Jesus não podia pecar, mesmo porque quem pode mais, pode menos. E como Jesus pode mais, infinitamente mais que Adão, sim, Ele podia ter pecado. Os dois podiam pecar porque sem a percepção disso não faz sentido a declaração de que o Senhor Jesus é o Último Adão.

Disso concluímos que o velho homem não está em nós por causa do pecado de Adão, mas que estava com ele antes de ele pecar, e estava com Jesus também, porque a tentação não teria sentido de ser se não houvesse o risco real de pecado. O velho homem é a condição de desequilíbrio inevitável entre o material e o espiritual.

Em segundo lugar, temos uma premissa errada na Teologia Corrente: o velho homem não é a natureza caída do homem – é apenas a natureza humana. Nós temos uma natureza composta de dois elementos, o material e o espiritual. Os anjos têm a natureza espiritual e podem se materializar como desejarem porque o espiritual está acima e controla o material. Os animais têm uma natureza material e a alma deles está ligada à sua força de vida que é a matéria, ou o seu sangue, motivo pelo qual ao morrerem suas almas desvanecem. Nos temos a natureza material e a espiritual ao mesmo tempo, uma coisa especial, sendo nossa alma, diferentemente das dos animais, advinda da sua força de vida que é o espírito, motivo pelo qual nossas almas permanecem depois de mortos os nossos corpos. Paulo chama essa natureza de velha para se contrapor à nova natureza de Cristo, que passou pela morte, a que todos estão sujeitos, para alcançar uma nova vida, um novo tipo de vida, uma vida dominada pelo espírito e não mais pela matéria. O velho homem nos liga ao material e o novo homem nos liga ao espiritual em Cristo, sendo o caminho para sair do velho e chegar ao novo é a morte.

Disso concluímos que Jesus deu fim por sua morte ao domínio da capa de matéria sobre seu espírito e agora vive livre da restrição dessa capa, do corpo físico. Ele nos convida a termos ainda aqui nesse mundo material esse mesmo tipo de vida que Ele tem hoje, a que vence por meio dEle a dicotomia matéria-espírito. Assim, ao vermos que Ele encerrou na sua morte o desequilíbrio terreno que Ele tinha, somos convidados a entender o que Ele fez e nos aproveitarmos da conquista dEle a nosso favor, pois Ele é o Primogênito dos Mortos, o primerio nascido da morte. E esse é o caminho que seguiremos, ou passando pela nossa morte a seu tempo e também a seu tempo ressurgindo da morte com um novo corpo espitirual ou, antecipamos em vida essa força da ressureição de Cristo.

Sim, Jesus tinha um velho homem a quem Ele nunca “deu ouvidos”, nunca se sujeitou, mas ele estava lá, uma condição de desquilíbrio necessário para sua plena identificação conosco. E o Senhor Jesus consumou tudo na cruz, inclusive o seu velho homem, o que a todos nós beneficiou. O desequilíbrio, o velho homem, é o caminho para a queda; o velho homem é o que habilita nosso corpo a ser um instrumento para o pecado. Mas agora, com Sua morte na cruz, somos livres para uma nova vida, uma nova vida sujeita ao novo homem em Cristo, uma nova vida em Cristo.

Como o Velho Homem Foi Crucificado?

Observe no trecho abaixo a ânfase em sabermos o que Jesus Cristo fez:

1 – Que diremos pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde? 2 – De modo nenhum. Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele? 3 – Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte? (Romanos 6:1-14)

O batismo aqui se refere à nossa imersão na morte do Senhor Jesus, não ao batismo judaico que João, o Batista, fazia. Somos imersos por nossa identificação por fé com o que Ele fez, por sabermos que fomos totalmente cobertos pela morte assim como Ele o foi.

4 – De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida. 5 – Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição; 6 – sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado. 7 – Porque aquele que está morto está justificado do pecado.

Paulo usa aqui a figura do velho homem em oposição ao pensamento do novo homem que se renova a cada dia no Senhor Jesus. Este velho homem foi cruficiado com Cristo na Cruz, e que temos um ponto muito importante: o que é o velho homem?

Ele não é o espírito em pecado, nem a alma corrompida e muito menos o corpo em degradação, como poderíamos pensar. Jesus não tinha nada disso para ser crucificado. Então, o que era o velho homem que Ele crucificou? O velho homem é a natureza humana, composta de elementos materiais e imateriais. O velho homem é o nosso desequilíbrio. Voltaremos a isso. Mas por ora, vamos concluir o texto.

8 – Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos; 9 – sabendo que, tendo sido Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre; a morte não mais tem domínio sobre ele. 10 – Pois, quanto a ter morrido, de uma vez morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus. 11 – Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor.

Este é o caminho para nos beneficiarmos do que o Senhor Jesus conquistou na cruz por nós: saber!

12 – Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, para lhe obedecerdes em suas concupiscências; 13 – nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniquidade; mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça. 14 – Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça.

Voltemos ao tema do desequilíbrio: Jesus encerrou o desequilíbrio entre o material e o imaterial ao morrer e iniciou uma nova concepção de vida ao ressuscitar com seu corpo transformado, sendo dominado completamente pelo espiritual. Ele é agora o avião dentro do qual nós que não voamos podemos voar. Porque Ele ressuscitou podemos nos identificar por fé com Sua morte na cruz e viver a vida material pelas leis o Reino de Deus, dominados pelo espiritual, dominados por Ele.

O velho homem foi pregado na cruz de Cristo e a aceitação por fé na obra do Senhor por nós abre caminho para a manifestação da nova natureza que nos deu quando Ele entrou dentro do nosso espírito, nos salvando e nos ligando (mergulhando, batizando) ao Seu Corpo. Sobre Ele caiu todo o pecado e toda a culpa, todo o desequilíbrio, para que por meio do que Ele fez, nós estivéssemos sem culpa diante do Pai por meio dEle, dentro do Seu Corpo. E sem culpa, temos liberdade mediante Cristo, o Cordeiro de Deus que nos substituiu e nos representou na cruz. Por ter nos substituído, levou a nossos pecados por suas feridas; por ter nos representado, cravou na cruz o nosso velho homem, a nossa culpa pela qual éramos escravos do pecado e a quem servíamos desde sempre. E agora somos livres do peso do pecado e da culpa do pecado; e somos escravos de Deus!

A Nova Vida

É necessário, caro leitor, que perceba que o Senhor Jesus foi o primeiro a passar pelo rio da morte e sair do outro lado porque todos os que até hoje ressuscitaram saíram das águas da morte na mesma margem pela qual entrou. Ao ter vencido esse obstáculo, não morre mais e a morte não tem mais poder sobre Ele. A morte encerra o desequilíbrio, o desequilíbrio necessário da constituição humana que existia em Adão antes mesmo que ele pecasse. No plano de Deus a cruz já existia desde a fundação do mundo.

Podemos usufruir desse benefício; e é para isso que Paulo nos chama a atenção. A natureza necessariamente desequilibrada entre o material e o espiritual nos inclina para o material, que por natureza se opõe ao espiritual. Mas agora podemos ter liberdade de não fazer o que o desequilíbrio, o velho homem, nos incita, pois ele, esse velho homem, está crucificado com Cristo. Não somos nós que crucificamos o nosso velho homem, não é um trabalho nosso porque não o poderíamos fazer, pois o desequilíbrio está em nós, é nossa constituição; foi em Cristo que nosso velho homem foi crucificado, porque o velho homem dEle foi crucificado e nós estamos nEle, fomos imersos (batizados) nEle.

Vencendo o Pecado

A forma de não estarmos mais sujeito às inclinações do velho homem é reconhecê-lo como crucificado em Cristo, incapaz de ser um veículo para o pecado, como pregado lá na cruz, inoperante. Devemos olhar para a cruz, e não para nós. Observe que isso é uma experiência objetiva: você sabe e age com base nesse conhecimento. A experiência subjetiva permanece porque nós ainda não morremos ou fomos transformados à imagem do Senhor. Então, enquanto permanecemos com nossos olhos firmados no que Cristo fez, estamos seguros; mas se desviarmos o olhar para as ondas deste mar, afundamos assim como Pedro no mar de Tiberíades. Vencemos na vitória do Senhor e não na nossa vitória.

E por que isso ocorre? A nova vida, a vida após a ressurreição, a vida espiritual, é uma vida de fé. A fé é a prova das coisas que não vemos, a certeza daquilo que esperamos. Ora, o justo (podemos definir isso como aquele que foi tido como justificado, como sem débitos) viverá (podemos definir isso como a vida promovida por Cristo) pela fé, pela certeza. É assim, porque o mundo espiritual é assim: a fé é uma regra do Reino. A consequência disso é que não estamos autorizados a morrer antes do tempo, antes de cumprir a missão que o Senhor nos deu para Seu Corpo, a Igreja.

Recomendamos para este ponto a leitura do livro O Homem Espiritual, de Watchman Nee, principalmente a terceira parte.

O Plano Perfeito

Quando Deus se “moveu” na eternidade, Ele pensou em um plano perfeito. É esse desequilíbrio (material e espiritual) que nos chama a viver por vista e não por fé. Todos nós fomos criados dessa forma porque o Senhor queria fazer uma coisa muito especial, totalmente impensada, surpreendente: ele quis fazer de nós o Seu corpo. Isso é mais do que Ele fazer a Sua Imagem material para ser compreendido pelos de matéria, é promover seu filhos de matéria a serem um com Ele, não apenas um corpo material, mas um corpo de múltiplas pessoas que sujeitam suas matérias aos seus espíritos, e seus espíritos à cabeça que é Cristo. O plano perfeito de Deus é ter muitos filhos que sejam um com Ele, que sejam semelhantes a Jesus Cristo, a Imagem visível de Si, sendo Ele mesmo o cabeça sobre todos.

E para quê? Para que Ele possa ser pleno em Sua natureza de amor, que dá de Si mesmo. Não o faz por necessidade no sentido de que a Ele faltava aguma coisa, mas pela força do amor que deseja alguém para o fluir de Sua vida, para dar de Si mesmo. E o que teremos depois disso? Uma eternidade para criarmos juntos com Ele tudo o que Ele quiser.

Quando alguém fala contra um irmão da Igreja, está falando contra o Corpo de Cristo, contra Deus.

A falta de discernimento do Corpo de Cristo, abordada em I Coríntios 11, é presumir que quem é da Igreja pode participar de coisas do judaísmo (como a Páscoa) ou dos gentios (como as oferendas). Não podemos participar de nenhum desses ritos porque fomos tirados dos judeus bem como fomos tirados dos gentios para nos tornarmos parte do Corpo de Cristo, a Igreja; os “tirados para fora”.

Explicando de outra forma

A teologia, tradicional ou corrente, entende, em resumo, que o velho homem é (1) a natureza pecadora do homem que foi vencida na cruz pelo Senhor Jesus e que (2) ela nos habilita a pecar e sem ela não pecaríamos. A forma, então, de andar sem pecar é nos firmarmos na obra objetiva de Cristo que (3) levou sobre si o nosso velho homem e o pregou na cruz para que pudéssemos ter a experiência subjetiva de nos considerarmos mortos para o pecado. Parece ser uma boa explicação, mas há uma falha com consequências devastadoras em nossa experiência de vida cristã.

O problema desse entendimento da Teologia Corrente é que não resolve todas as questões. Do jeito que está, temos dois grandes problemas. O primeiro diz respeito a Cristo em Sua tentação no deserto, coisa que não teria significado algum se Ele não pudesse pecar, em outras palavras, se Ele não tivesse o que Paulo chamou de velho homem. Aqui temos a percepção de que o velho homem que Paulo está falando é diferente do que a teologia atual define como velho homem. E esta é a chave para o entendimento do que Paulo estava explicando aos romanos. Por força da lógica somos obrigados a admitir que o Senhor Jesus tinha velho homem, ainda que por enquanto o termo não esteja claro o que realmente.

O segundo diz respeito a Sua obra na cruz. Se Ele não tinha velho homem, como Ele pode fazer pregar na cruz algo que Ele não tinha consigo? Como Ele colocou na cruz algo que não estava em Seu corpo? Se Ele tem, pode nos representar e nos substituir, mas se não tem, não há o que nos representar. Sim, Ele tinha, mas o velho homem, novamente, não é o que a teologia atual fala que é.

Então estamos no seguinte impasse: se Cristo não podia pecar, porque não tinha velho homem, então Ele não venceu nada, Ele só veio passear. Mas como Ele mesmo falou que veio para morrer na cruz, não estava a passeio, então Ele venceu de verdade; e se venceu, é porque houve luta de verdade e havia a possibilidade de perder a luta, tanto no deserto quanto no getsêmani. Sim, Ele podia pecar. Agora vamos precisar definir o que seria esse pecado que Ele podia cometer e o que seria esse velho homem que Ele tem, ambas as coisas não são como a teologia atual as apresenta.

E aqui temos o embrolho: a Teologia Corrente está tentando apertar um parafuso com um alicate: é uma ferramenta, está na caixa de ferramentas, é comprado na loja de ferramentas, mas não presta para apertar um parafuso! Precisamos dar um passo atrás para termos a visão do todo e para percebermos que o problema não está no alicate, mas na escolha que fizemos do alicate. Escolhemos a teologia errada para apertar esse parafuso. Vamos aos erros.

Jesus não possui material genético de Maria. Ele veio do céu, é o Pão que desceu do céu, o Maná. A necessidade que a teologia tem de apresentar Deus fazendo aquilo que condena é impressionante! Afinal, foi Deus que falou para não misturar sementes, então como Ele mesmo iria se misturar com Maria, assim como os anjos de Gênesis 6 fizeram? Por si só isso já seria uma blasfêmia. Não houve mistura.

Maria foi a barriga de aluguel e Jesus é humano porque Adão foi feito na forma de Jesus, não ao contrário. Jesus não é descendente de Adão, um pecador, mas nasceu como homem para a identificação perfeita conosco, perfeita em tudo, menos no pecado. E aqui temos a proximidade dos conceitos que levou a teologia a tomar o caminho errado: Jesus não tinha pecado, mas poderia pecar se quisesse, pois, assim como Adão antes do pecado, Ele também tinha o “velho homem”.

O termo velho homem de Paulo precisa ser entendido dentro da confrontação de ideias que ele, Paulo, faz. Ele chama Jesus de Último Adão em oposição ao primeiro Adão assim como fala do velho homem em oposição ao novo homem. Que novo homem? O primeiro a passar para o outro lado da margem do rio da morte, pois todos os que ressuscitaram antes dEle, como Lázaro, entraram nesse rio da morte e saíram na mesma margem. Jesus transformou o seu corpo material em celestial, o primeiro, o Primogênito dos Mortos. O velho homem não é a natureza caída, pois Adão também tinha velho homem antes de pecar; o que era velho em Jesus e se tornou novo foi uma característica do Seu corpo, que passou de material para celestial. O velho homem é o desiquilíbrio que há entre nossa origem da terra, matéria, e nossa origem do espírito.

Então, sim, Jesus nasceu com o Seu corpo material assim como Adão, em desequilíbrio, em limitação. Agora Ele já venceu isso porque levou sobre a cruz o Seu corpo em desequilíbrio. E como agora está no céu, não está mais em desequilíbrio, com seu velho homem, mas com seu novo homem. E por isso podemos saber que nós, os que estamos em Cristo, podemos nos beneficiar da vitória dEle sobre esta matéria à qual ainda estamos sujeitos. E sabendo isso, que com Ele foi crucificado nosso velho homem, não vivamos mais como sujeitos ao desequilíbrio, ao velho homem, mas o consideremos como crucificado, portanto, inoperante. E que isso significa?

Isso significa que nossas decisões podem ser tomadas de forma livre das coisas materiais porque nada temos mais aqui, pois nossa pátria é nos Céus. Não precisamos roubar porque as coisas daqui não têm valor; não precisamos mentir porque não há benefício algum aqui; não precisamos trapacear nem buscar os prazeres da carne porque eles não fazem mais sentido quando comparados com os benefícios do mundo vindouro, benefícios que podemos ir aproveitando nessa liberdade que Cristo conquistou por nós na cruz. Nos esforçamos aqui por sermos embaixadores, não por sermos escravos. Quanto ao pecado que Jesus poderia ter cometido no deserto, seria a escolha pelas coisas materiais, poderia ter cedido ao desequilíbrio.

Então temos que o Senhor fez dois papéis na sua morte e ressurreição:

1 – a substituição por ter feito uma coisa em nosso lugar, levado sobre si o nosso pecado. A substituição ocorre quando uma pessoa defende interesse alheio. O substituto é a parte visível, e não o substituído, nós. No entanto, o interesse material, o direito ou o dever, (no nosso caso o pecado) pertence a outra pessoa – a nós. Não era dEle, mas Ele entrou em nosso lugar. Por isso Ele nos substituiu, morreu no nosso lugar;

2 – a representação por ter feito uma coisa por Ele mesmo, coisa à qual nós podemos ter acesso. A representação ocorre quando uma pessoa age em nome de outra, mas os efeitos recaem diretamente sobre o representado. O representante atua como um “porta-voz” ou “agente” do representado. Era dEle o corpo em que estava, santo e ainda assim com limitações por ser material como o nosso corpo. Ele fez por Si a “evolução” do material para o celestial ao ressuscitar. Ninguém nunca e jamais tinha feito isso: vencido a morte. Lázaro não venceu a morte porque morreu novamente. Ele venceu porque a morte não tem mais domínio sobre Ele, pois agora Ele não pode mais morrer porque não há mais o desequilíbrio entre matéria e espírito: a sua matéria está sujeita ao espírito e não mais limitado por ela. Por isso Ele nos representou, porque abriu um caminho para acessarmos por meio dEle os poderes da Era vindoura.

Se o Senhor Jesus tivesse nos perdoado (substituição), mas não tivesse nos dado acesso ao poder da Sua vida (representação), somente uma parte da Sua obra teria sido feita, já que ainda estaríamos sujeitos às limitações do desequilíbrio. Mas agora, podemos viver para Ele estando “dentro” dEle, como passageiros em um avião. Podemos “voar” porque estamos dentro do ambiente que voa; podemos viver uma vida sem mais servir ao pecado porque estamos dentro de um ambiente, Cristo, que não está mais sujeito à morte, a consequência do pecado.

Ele pregou na cruz o nosso desequilíbrio porque agora temos equilíbrio na Vida dEle. Na nossa vida continuamos sujeitos ao desequilíbrio, continuamos desequilibrados com nosso velho homem, e não adianta lutar contra isso porque somente quando “tomamos posse” disso, ou na linguagem de Paulo em Rm 6:6, “sabendo isto”, é que acessamos por fé o que Ele fez. Nós nunca venceremos o nosso velho homem porque é impossível alterarmos nossa composição! Jesus Cristo criou outra solução: Ele venceu o velho homem dEle e habilitou para nós um caminho (Ele mesmo) para considerarmos o nosso velho homem crucificado em Cristo. Ele objetivamente venceu o desequilíbrio, Seu velho homem, para que nós pudéssemos subjetivamente usufruir de Suas conquistas.

Agora faz sentido: a teologia parte de pressupostos que nem sempre são os corretos. Agora as perguntas estão respondidas, as contas fecham!

Outras Referências

O conceito do “velho homem” elaborado por Paulo em Romanos 6 é um tema teológico que aparece em outros lugares da Bíblia, abordando a ideia da natureza pecaminosa do ser humano e da transformação pela Graça de Deus.

1. Efésios 4:20-24

20 – Mas vós não aprendestes assim a Cristo, 21 – Se é que o tendes ouvido, e nele fostes ensinados, como está a verdade em Jesus; 22 – Que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe pelas concupiscências do engano; 23 – E vos renoveis no espírito da vossa mente; 24 – E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade.

Paulo ensina o tema do “velho homem” exortando os crentes a despojarem-se da antiga natureza corrompida pelos desejos enganosos e a revestirem-se do “novo homem”, Jesus Cristo ressuscitado, criado à imagem de Deus em justiça e santidade. O velho é revestido pelo novo, esse é o segredo para vencer o que é impossível vencer. Há uma armadura a ser usada: Cristo, a vitória dEle na cruz, a força da Sua ressurreição.

2. Colossenses 3:9-11

9 – Não mintais uns aos outros, pois que já vos despistes do velho homem com os seus feitos, 10 – E vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou; 11 – Onde não há grego, nem judeu, circuncisão, nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre; mas Cristo é tudo em todos.

Paulo fala sobre deixar o “velho homem” com seus feitos e se revestir do “novo homem”, renovado no conhecimento à imagem do seu Criador. Essa linguagem reforça a transformação que ocorre na vida do crente por meio da revelação do que o Senhor Jesus fez.

3. Gálatas 5:24-25

24 – E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências. 25 – Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito.

Ainda que o termo “velho homem” não seja usado diretamente, Paulo aborda a crucificação da carne com suas paixões e desejos, o que está relacionado à ideia de morte em Cristo da velha natureza de Romanos 6.

4. Salmos 51:10

10 – Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto.

Davi expressa aqui o desejo por um coração puro e um espírito reto, clamando por transformação de coisas que somente Deus pode fazer – um conceito que dialoga com a renovação e abandono do “velho homem” de Paulo.

5. II Coríntios 5:17

17 – Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo.

Aqui novamente está apresentada a ideia do novo homem em Cristo em oposição à ideia do velho homem ligado a Adão. Quem está em Cristo é nova criatura porque Cristo é a nova criatura por ter vencido, pela morte e ressurreição, o velho homem. Essa passagem encapsula a ideia da renovação em Cristo.

Palavras Finais

Quando for pesquisar este tema nos livros de Teologia Sistemática que indicamos no prefácio você vai descobrir, curioso leitor, que o assunto é tratado da perspectiva do pecador olhando para trás e tentando descobrir o que aconteceu e como chegou no lugar em que está e, por consequência dessa abordagem, haverá duas perguntas no ar. A primeira pergunta é: de quem é a culpa? É da serpente? Da Eva? De Adão? E a segunda é: como isso passa para a gente? É pelo DNA? Pelo espírito? É a partir de certa idade? Seria pelo ar? Qual é o agente contaminante, o vetor?

Apresentamos uma perspectiva diferente, a da visão da inevitabilidade do pecado. Não fomos criados para pecar, assim como nossos filhos não nascem para cair ao começar a andar, mas em ambas as experiências a mesma inevitabilidade se apresenta. Faz parte da nossa essência que nos habilita a obtermos no fim uma vida, desta vida material, o nosso chamado de termos uma comunhão eterna com Deus não se baseando na matéria, mas na vida de Cristo por nós. Sim, a vida de Cristo é a mesma vida de Deus, mas há uma diferença, um acréscimo: a identificação plena de Deus conosco só se deu por conta de Ele ter se identifcado conosco na nossa fraqueza e nos salvado dessa nossa condição de desequilíbrio. Então a perspectiva não é para saber de quem é a culpa, mas sim qual é o propósito. E o propósito não somos nós, mas Cristo em nós: a centralidade está em Cristo.

Veja: não é em Jesus, como homem, apenas, mas como Jesus Cristo, O Cristo, O que venceu a morte de cruz, onde toda a vergonha e dor do pecado se concentraram. A centralidade é em Cristo, o crucificado e ressuscitado. Um dia Adão se serviu de folhas para cobrir a vergonha; na cruz Jesus foi pregado pelado, sem qualquer cobertura, totalmente exposto, para que todo o que nos aflinge tivesse materialização nEle. E nessa cruz Ele pregou o nosso velho homem para que hoje possamos nos revestir do novo homem e vivamos para Deus sem restrições, sem vergonha, sem nos escondermos dEle. Para que vivamos o ministério da reconciliação das pessoas com Deus.

Recapitulando

Revisão dos principais pontos abordados

Nesta Unidade, mergulhamos nas complexas questões que cercam o conceito de Pecado, buscando ir além das superfícies e explorar suas raízes e implicações mais profundas em relação ao plano de Deus e à experiência humana.

1. A Natureza e a Originalidade do Pecado Original: Iniciamos com uma introdução que nos convidou a repensar o Pecado não meramente como uma transgressão, mas como um desequilíbrio fundamental. Na discussão sobre a “Originalidade do Pecado Original” argumentamos que Adão foi criado com um “desequilíbrio intrínseco”, uma condição que, embora não o forçasse, tornava a escolha pela independência de Deus uma manifestação inevitável desse estado em algum momento, e Deus sabia desde antes da criação que isso aconteceria. Este desequilíbrio foi apresentado como parte do plano divino, essencial para o teste do caráter humano e para a subsequente obra redentora.

2. O Velho Homem de Romanos Reinterpretado: Uma porção significativa da Unidade foi dedicada a desvendar o conceito paulino do “velho homem”. Propusemos uma interpretação que se distingue da tradicional “natureza caída” herdada. Em nossa análise, o “velho homem” representa a própria condição humana fundamental – o desequilíbrio inerente entre o material e o espiritual em nós. Argumentamos que essa condição existia em Adão antes da queda e, de uma maneira única e sem ceder ao pecado, também esteve presente em Jesus, tornando Sua tentação e vitória plenamente significativas para nós. Sem essa percepção, a tentação de Jesus no deserto não teria sentido; teria sido só uma perda de tempo, porque não há vitória se não há confronto nem possibilidade de derrota.

3. A Crucificação do Velho Homem como Obra de Cristo: O clímax da nossa discussão sobre o pecado reside na solução divina: o “velho homem”, essa condição de desequilíbrio, foi objetivamente crucificado *com* Cristo na cruz. Enfatizamos que esta não é uma obra a ser realizada pelo crente, mas um fato consumado por Cristo, do qual nos apropriamos pela fé. Ao crer e saber disso, somos libertos do domínio dessa estrutura que nos inclinava ao pecado.

4. Implicações para a Nova Vida e a Vitória sobre o Pecado: A crucificação do velho homem em Cristo abre o caminho para que andemos em “novidade de vida”. A vitória sobre as manifestações do pecado, portanto, não se encontra em um esforço autônomo para suprimir uma natureza intrinsecamente má (como definido por Hobbes e Maquiavel), nem em promover uma natureza boa (como queria Rousseau), mas no constante reconhecimento e na fé aplicada ao que Cristo já realizou. Ao nos considerarmos mortos para o pecado e vivos para Deus em Cristo Jesus, experimentamos a liberdade que Ele conquistou.

Pontos de Atenção

Ao refletir sobre esta Unidade acerca do Pecado, você é convidado, caro leitor, a ponderar sobre:

  • A concepção do Pecado Original como um “desequilíbrio” inerente à condição humana e como isso se alinha com a soberania e o propósito de Deus.
  • A redefinição do “velho homem”, não como uma natureza pecaminosa adquirida, mas como a condição humana essencial que foi julgada e resolvida na cruz de Cristo.
  • A centralidade da obra consumada de Cristo na crucificação do velho homem como o fundamento para a santificação e a vida vitoriosa, deslocando o foco do esforço humano para a fé naquilo que Deus já proveu.
  • As implicações práticas dessa compreensão para a sua identidade em Cristo e para a maneira como você enfrenta as tentações e busca viver em retidão.

Esta Unidade sobre o Pecado buscou oferecer uma perspectiva que visa a magnificar a obra de Cristo e a prover uma base mais sólida para a liberdade e a santidade. Os apêndices no fim desta Unidade oferecerão uma visão da Teologia Corrente (Apêndice 1) e sua crítica interna (Apêndice 2) e, juntamente com nossas considerações, permitirão um aprofundamento que enriquecerá os seus estudos.

Perguntas e Respostas

Elaboramos algumas questões e suas respostas para ajudar na compreensão do tema exposto nesta Unidade:

❶. Argumentamos que Adão foi criado com um “desequilíbrio intrínseco”. Como essa ideia redefine a compreensão tradicional do Pecado Original e qual seria o propósito divino ao criar o ser humano nessa condição?

O texto redefine a compreensão tradicional do Pecado Original ao argumentar que Adão não foi criado em um estado de perfeição que foi corrompido depois do pecado, mas sim com um “desequilíbrio intrínseco”, proposital e necessário. Este desequilíbrio é descrito como uma inclinação natural para satisfazer os desejos da carne, que não era pecaminosa em si, embora tornasse o ser humano vulnerável à tentação. Segundo o livro, o propósito divino ao criar o homem nessa condição era duplo: primeiro, permitir um teste genuíno de obediência e confiança, no qual o ser humano teria de escolher conscientemente confiar em Deus apesar de suas inclinações naturais; segundo, estabelecer as condições necessárias para o plano redentor de Deus através de Cristo. O texto sugere que este desequilíbrio não foi um erro ou falha no design divino, mas uma característica intencional que permitiria ao ser humano experimentar genuinamente tanto a queda quanto a redenção, compreendendo assim o amor e a graça de Deus de maneira mais profunda. Deus já sabia de tudo desde o início, por isso, nos é dito no Apocalipse que o Cordeiro já havia sido morto desde a fundação do mundo. Ele já sabe; nós vivemos para que também saibamos e possamos concordar com o Seu juízo, o que torna a Sua justiça perfeita.

❷. Explique a distinção que fazemos entre o “velho homem” e a “natureza caída”. Por que, segundo o texto, é crucial entender que o “velho homem” não é simplesmente a herança pecaminosa de Adão?

O texto faz uma distinção fundamental entre o “velho homem” e a “natureza caída”. Enquanto a natureza caída refere-se à condição pecaminosa herdada de Adão após a queda, o “velho homem” é descrito como o desequilíbrio intrínseco com o qual todos os seres humanos são criados, incluindo Adão antes da queda. Esta distinção é crucial porque redefine nossa compreensão do problema fundamental do ser humano, pois, segundo o livro, o “velho homem” não é simplesmente a herança pecaminosa de Adão, mas uma condição original de desequilíbrio que precede a queda. Entender isso é importante porque mostra que o problema humano não é apenas comportamental (pecados específicos), nem apenas uma natureza corrompida herdada mas uma condição estrutural mais profunda que afeta todos os seres humanos desde a criação. Esta compreensão também esclarece o que Cristo veio resolver: não apenas perdoar pecados ou regenerar uma natureza corrompida, mas crucificar e substituir o “velho homem” desequilibrado por uma nova criação equilibrada em Cristo. Isso Ele conseguiu ao ressuscitar eliminando o desequilíbrio dEle, o velho homem dEle. E por estarmos em Cristo, o nosso velho homem também foi crucificado na cruz do Senhor Jesus e, por fé, nós podemos nos apropriar desse benefício antecipado da Era vindoura.

 ❸. Como o capítulo sustenta a afirmação de que Jesus também possuía o “velho homem” (a condição de desequilíbrio), e qual a importância disso para Sua obra redentora e para nossa identificação com Ele?

O capítulo sustenta que Jesus também possuía o “velho homem” (a condição de desequilíbrio) baseando-se na afirmação bíblica de que Ele foi “em tudo semelhante a nós, exceto no pecado”. O texto argumenta que Jesus, tendo nascido como ser humano genuíno, compartilhava da mesma estrutura humana básica, incluindo o desequilíbrio intrínseco. A diferença crucial é que, enquanto todos os outros humanos cedem a esse desequilíbrio e o fazem com a herança do pecado de Adão, Jesus nunca cedeu, mantendo-se perfeitamente obediente ao Pai. Que Ele tinha a possibilidade de pecar torna-se óbvia nas tentações do deserto: se não houvesse essa possibilidade (se não houvesse o desequilíbrio, o velho homem), a tentação teria sido inútil. A importância disso para Sua obra redentora é fundamental: para que Jesus pudesse verdadeiramente representar e substituir a humanidade, ele precisava compartilhar completamente da condição humana. Ao levar o “velho homem” à cruz, Jesus não estava apenas pagando pelos pecados individuais, mas crucificando a própria estrutura desequilibrada da humanidade. Para nossa identificação com Ele, isso significa que podemos genuinamente nos identificar com Cristo em sua humanidade, sabendo que ele enfrentou as mesmas lutas e tentações que nós, contudo, venceu onde falhamos, abrindo assim o caminho para nossa própria vitória através da identificação com Sua morte e ressurreição.

❹. Descreva o que significa, na perspectiva do capítulo, que “o nosso velho homem foi com ele crucificado” (Romanos 6:6). De que maneira essa verdade se torna eficaz na vida do crente?

A afirmação de que “o nosso velho homem foi com ele crucificado” (Romanos 6:6) significa que quando Cristo morreu na cruz, ele não apenas pagou a penalidade pelos nossos pecados, mas também levou consigo a estrutura desequilibrada da humanidade – o “velho homem”. Esta crucificação do velho homem representa uma ruptura fundamental com o padrão de vida centrado no eu e dominado pelos desejos da carne. O texto explica que esta verdade se torna eficaz na vida do crente através de um processo que envolve três elementos principais: primeiro, o “saber” (conhecimento e compreensão intelectual desta realidade espiritual); segundo, o “considerar-se” (apropriação pela fé desta verdade como realidade pessoal); e, terceiro, a submissão contínua ao Espírito Santo, que aplica esta realidade na experiência diária do crente. O livro enfatiza que esta não é uma transformação automática ou instantânea, mas um processo de santificação progressiva em que o crente, conhecendo sua identificação com Cristo na cruz, aprende a viver a partir da nova identidade em Cristo em vez do velho homem crucificado. É uma oportunidade de antecipação em Cristo que teremos quando nós mesmos tivermos o nosso desequilíbrio – o velho homem – vencido na ressurreição

❺. Se o “velho homem” foi crucificado com Cristo, por que os crentes ainda lutam contra o pecado? Como o capítulo aborda a relação entre essa obra objetiva de Cristo e a experiência subjetiva da santificação?

O capítulo explica que, embora o “velho homem” tenha sido objetivamente crucificado com Cristo, os crentes ainda lutam contra o pecado devido à distinção entre posição e experiência, ou entre a obra completa de Cristo e sua aplicação progressiva na vida do crente. O texto argumenta que a crucificação do velho homem é uma realidade espiritual objetiva e completa no plano divino, mas sua manifestação na experiência do crente é progressiva e depende da fé e da submissão contínua ao Espírito Santo. Sua plenitude será vivida quando passarmos pela ressurreição e tivermos os novos corpos espirituais. O livro compara isso a alguém que recebeu uma herança legalmente (posição), mas que precisa aprender a viver de acordo com sua nova condição (experiência). A relação entre a obra objetiva de Cristo e a experiência subjetiva da santificação é descrita como um processo de “considerar-se” morto para o pecado e vivo para Deus (Romanos 6:11), em que o crente, pela fé, apropria-se progressivamente da realidade já estabelecida em Cristo. O texto enfatiza que a santificação não é um esforço humano para crucificar o velho homem (isso já foi feito por Cristo), mas um processo de aprender a viver a partir da nova identidade em Cristo, permitindo que Seu Espírito em nós manifeste cada vez mais essa realidade na experiência diária, sendo isso uma antecipação dos poderes do mundo vindouro, como diria a carta aos Hebreus.

❻. Qual é o papel do “saber” e do “considerar-se” (Romanos 6:11) na apropriação da vitória sobre o pecado, conforme exposto nesta Unidade?

Conforme exposto na unidade, o “saber” e o “considerar-se” (Romanos 6:11) desempenham papéis fundamentais na apropriação da vitória sobre o pecado. O “saber” refere-se ao conhecimento e compreensão intelectual da verdade sobre nossa identificação com Cristo em Sua morte e ressurreição. O texto enfatiza que este não é um conhecimento meramente teórico, mas sim, é uma compreensão profunda da realidade espiritual de que nosso velho homem foi crucificado com Cristo. Este conhecimento forma a base necessária para a fé. O “considerar-se”, por sua vez, é o ato de fé pelo qual o crente se apropria pessoalmente dessa verdade, aceitando-a como realidade antecipada em sua própria vida. É um posicionamento deliberado da mente e do coração que diz: “O que é verdade sobre Cristo é verdade sobre mim, porque estou unido a Ele”. O capítulo explica que estes dois elementos trabalham juntos: o “saber” fornece o conteúdo da fé, enquanto o “considerar-se” é o exercício da fé que aplica esse conhecimento à experiência pessoal. Juntos, eles permitem que o crente viva a partir de sua nova identidade em Cristo, resistindo ao pecado não por esforço próprio, mas pela apropriação da vitória já conquistada por Cristo.

❼. Como a compreensão do Pecado e do “velho homem” apresentada neste capítulo impacta a forma como vemos a graça de Deus e a responsabilidade humana na vida cristã?

A compreensão do Pecado e do “velho homem” apresentada no capítulo transforma profundamente a forma como vemos tanto a graça de Deus quanto a responsabilidade humana na vida cristã. Quanto à graça de Deus, esta visão a magnifica, mostrando que o problema humano era muito mais profundo do que geralmente se pensa – não apenas atos pecaminosos ou mesmo uma natureza corrompida, mas uma estrutura humana fundamentalmente desequilibrada desde a criação. Consequentemente, a solução divina também é mais radical e abrangente: não apenas o perdão de pecados, mas a crucificação do velho homem e a criação de uma nova humanidade em Cristo. Quanto à responsabilidade humana, o texto redefine seu foco: em vez de concentrar-se primariamente em evitar pecados específicos, a responsabilidade do crente é apropriar-se pela fé da obra já completa de Cristo, “considerando-se” morto para o pecado e vivo para Deus. Isso não diminui a responsabilidade, mas a reorienta da luta contra o pecado mediante esforço próprio para a submissão ao Espírito de Cristo e à fé ativa na obra de Cristo. O capítulo sugere um equilíbrio em que a graça de Deus faz tudo o necessário para nossa salvação e santificação, enquanto nossa responsabilidade é responder a essa graça com fé ativa e obediência motivada pelo amor e gratidão, não pelo medo ou tentativa de ganhar favor divino.

Apêndices

1 – O Tema Pecado para a Teologia Corrente

O pecado é compreendido como toda falta de conformidade com a lei de Deus, seja em ato, em pensamento ou em disposição interior (Confissão de Fé de Westminster, Capítulo VI). Ele não é meramente uma falha ou um erro, mas uma transgressão contra a santidade e a justiça de um Deus santo. O Pecado Original, decorrente da queda de Adão e Eva, é a raiz da nossa natureza pecaminosa. Ele afeta toda a humanidade ao nos inclinar para o mal desde a concepção (Salmo 51:5; Romanos 5:12).

As tradições Batista e Presbiteriana concordam com a realidade e a universalidade do pecado. Ambas enfatizam que o pecado nos separa de Deus e nos sujeita à sua ira justa. A gravidade do pecado é vista à luz da santidade infinita de Deus e das consequências eternas que ele acarreta.

A metáfora do “velho homem”, encontrada principalmente nas epístolas de Paulo (Romanos 6:6; Efésios 4:22; Colossenses 3:9), refere-se à nossa natureza pecaminosa herdada, à nossa maneira de viver antes da conversão, dominada pelos desejos egoístas e contrários à vontade de Deus. O “velho homem” é caracterizado pela rebelião contra Deus, pela busca da autossatisfação em detrimento dos outros e pela escravidão ao pecado. Ele é a fonte dos nossos atos pecaminosos e a expressão da nossa alienação de Deus.

Os Calvinistas e os Arminianos oferecem perspectivas na compreensão da extensão da depravação humana, uma consequência do Pecado Original e a manifestação do “velho homem”. O Calvinismo clássico enfatiza a depravação total, significando que o pecado afeta todas as áreas da nossa natureza (intelecto, vontade, emoções), tornando-nos incapazes de, por nós mesmos, buscarmos a Deus ou realizarmos obras verdadeiramente agradáveis a Ele no âmbito espiritual. Já o arminianismo, embora reconhecendo a profundidade da queda e a nossa inclinação para o mal, geralmente sustenta que a graça preveniente de Deus restaura em alguma medida a capacidade humana de responder ao chamado divino.

Apesar dessas diferenças, ambas as tradições concordam que a transformação da nossa natureza pecaminosa e a mortificação do “velho homem” são obras da graça de Deus, operadas pelo Espírito Santo através da nossa união com Cristo. A fé em Jesus Cristo nos proporciona o perdão dos pecados e o poder para resistir às inclinações do “velho homem”, revestindo-nos do “novo homem”, criado à imagem de Deus em justiça e santidade (Efésios 4:24; Colossenses 3:10).

Em resumo, o pecado é a nossa rebelião contra Deus, uma condição universal que nos separa Dele e nos sujeita à Sua justiça. O “velho homem” é a expressão dessa natureza pecaminosa herdada, caracterizada pela escravidão ao pecado e pela oposição à vontade divina. A superação do “velho homem” e a vivência de uma nova vida em santidade são possíveis unicamente pela Graça de Deus em Cristo, através do poder do Espírito Santo, que nos capacita a viver de acordo com a nossa nova identidade em Cristo.

2 – Crítica interna da Teologia Corrente

Nos limites da teologia há questões que persistem. Seguem algumas críticas internas do arcabouço teológico corrente:

•  A origem do mal: Se Deus criou um mundo perfeito, de onde surgiu o mal? A narrativa da queda de Adão e Eva oferece uma explicação bíblica, mas o “como” da primeira transgressão e a natureza exata da tentação permanecem envoltos em mistério.

•  O problema do mal e do sofrimento (Teodiceia): Se Deus é todo-poderoso e todo-bondoso, por que o mal e o sofrimento existem no mundo? As tentativas de responder a essa questão são complexas e variadas, mas nenhuma oferece uma solução completa que satisfaça plenamente a razão humana. Em última análise, a fé confia na justiça e na sabedoria de Deus, mesmo quando seus caminhos nos são inescrutáveis (Romanos 11:33).

Nossa resposta:

Esta é outra rua sem saída da teologia atual. A solução é perceber que o mal e o sofrimento estão ligados a um propósito. Isso pode ser visto nos capítulos A Originalidade do Pecado Original (unidade Pecado) e A Morte (unidade Morte).

Resumidamente, temos que o mal, o pecado e sua consequência, a morte, são necessidades do plano geral de Deus para o cumprimento do Seu propósito de expansão de Sua natureza de amor. Ele precisava, e sabemos disso porque foi o que Ele fez, criar um mundo material em que Ele mesmo pudesse ficar oculto para que a busca de nossa alma por Ele no mundo espiritual não fosse tendenciosa, mas por fé. Neste ambiente material há um desequilíbrio necessário entre a natureza espiritual do homem e a natureza material. Adão foi a melhor versão da humanidade – não nos iludamos – e essa é a melhor versão do plano de identificação plena dEle conosco. Se houvesse outras possibilidades, Deus teria feito. No próximo volume, O Cenário, nos debruçaremos sobre a essência do mal, mas que fique registrado desde já que Deus nunca teve Seu poder sob ameaça do mal, que já este “nasceu” derrotado porque só há um vencedor, Cristo Jesus nosso único Deus e Senhor agora e para sempre, eternamente. Não há lugar para trevas diante da luz da presença de Deus.

Quanto à necessidade de nascermos, discutimos isso na Unidade Deus. Resumidamente, nascemos e vivemos uma única vida, mesmo que morramos e venhamos a ressuscitar como aconteceu com Lázaro, para que no fim possamos concordar com o juízo de Deus a nosso respeito, uma necessidade para que a justiça dEle seja completa, pura e perfeita.

Quanto à dor, ela é inevitável ao nos esbarrarmos em limitações no ambiente. Nós sofremos dor ao batermos contra uma parede; um anjo sofre dor ao ser limitado em suas ações por outro anjo, como na batalha descrita em Daniel. Tudo foi criado em um ambiente, seja material ou espiritual, tudo está sujeito à dor. No limite, Deus sente dor ao ser limitado por sua própria vontade de nos amar; na verdade, a maior dor é a dEle. A ausência de dor se dá quando não há limitações, quando há plenitude de propósito e funcionamento no ambiente em que se está, como uma célula saudável perto de outras células saudáveis de um organismo saudável; assim também ocorrerá com cada santo do Corpo de Cristo quando todos estiverem juntos com Ele em seus corpos celestiais.

•  A imputação do Pecado Original: Como a culpa do pecado de Adão é imputada a toda a humanidade? Diferentes tradições teológicas oferecem explicações (realismo, representação), mas o mecanismo exato dessa imputação continua sendo um ponto de debate e um mistério da justiça divina.

Nossa resposta:

Adão, o mais puro exemplar da humanidade escolheu, estando em situação ideal, agradar sua mulher a agradar a Deus. Esse desejo pelo material só pode ser suplantado pela força de um espírito renovado por Deus. Adão passou de inocência à consciência e nos legou esse processo pelo qual também passamos durante o nosso período de infância, coisa que Adão não teve. Somos criados com um “haja luz” na concepção e nascemos sendo expulsos do Paraíso uterino sentindo de imediato a dor e o desconforto do desequilíbrio (Pecado Original). Se para Adão foi uma escolha livre, para nós é uma escravidão porque não temos uma vida anterior; já nascemos sujeitos e imersos na matéria que nos cerca desde o nosso princípio. Só há uma forma de sair da matéria: morrendo para ela (pela morte ou pela transliteração do corpo para a linguagem espiritual, como Enoque). Graças à misericórdia de Deus, Ele nos concede a salvação do nosso espírito ainda com nosso corpo preso à matéria, um espelhamento do que aconteceu com Adão. Então, todos nascemos imersos no pecado assim como nascemos imersos na matéria porque estávamos em potência dentro de Adão no momento da queda e, em complemento, passamos individualmente pelo momento da queda em algum ponto da infância. O mecanismo exato de transferência do peso do pecado é parcialmente desconhecido, visto que, considerando que temos a feição humana natural recebida de Adão, é presumível que a condição espiritual também seja herdada pelo mesmo canal de transferência de informações: o DNA. Isso se alinha à santidade do nascimento do Senhor Jesus, o Pão Vivo que desceu dos Céus, cujo material genético foi implantado em Maria e por isso Ele não é descendente de Adão, apesar de ser chamado de Último Adão e de ser totalmente humano. Na verdade, Ele é o mais humano de todos nós, já que Adão foi criado tendo Ele como seu modelo.

•  A extensão da depravação humana: Como já mencionado, Calvinistas e Arminianos divergem sobre a extensão da depravação. Até que ponto a natureza humana foi corrompida pelo pecado? A capacidade remanescente para o bem e a resposta a Deus são pontos de discussão que, em última análise, repousam na interpretação de passagens bíblicas específicas e na aceitação de diferentes ênfases na graça divina e na liberdade humana.

Nossa resposta:

Antes de discutirmos o grau de depravação possível, precisamos ter claro em nossa mente que não são as coisas erradas que fazemos que nos condenam, nem as coisas certas que nos salvam, mas unicamente Deus. Agora precisamos distinguir pecado de depravação. O pecado é uma condição natural dos humanos, mas a depravação é um processo consciente e intencional de rejeição ao que se sabe ser certo. Essa aceleração do nível de maldade entre estar no caminho errado e passar a agir contra os que estão no caminho certo, os inocentes ou os frágeis e desprotegidos ocorreu na humanidade por meio de duas fontes principais. A primeira foi com a contaminação de Gênesis 6, a contaminação feita pela mistura de sementes, anjos e homens, coisa sempre proibida por Deus, e que proporcionou a escalada da depravação. A segunda fonte foi pela maldição de Noé sobre seu neto Canaã, filho de Cão. Iremos tratar desses dois momentos no volume 3. Mas resumidamente, a maldade humana pode ser tão grande quanto a de um demônio, e terá o mesmo destino.

Resumo

Neste capítulo, convidamos você a revisitar conceitos teológicos sobre a MORTE, desde sua origem como consequência do pecado de Adão até os destinos finais. Exploraremos a distinção entre a morte física e a segunda morte, o Lago de Fogo. Analisaremos o que acontece com o espírito após a morte, a quebra da sua ligação o corpo, e o lugar de espera pelo juízo, o Sheol ou Hades. Discutiremos a peculiaridade do Paraíso, sua criação e sua transferência para o céu após a ressurreição de Cristo.

Abordaremos também a questão do tempo na perspectiva pós-morte e o tratamento para diferentes grupos, incluindo crentes fiéis, crentes negligentes e descrentes. Veremos a importância do Tribunal de Cristo para os crentes e o Juízo Final para os demais.

Nosso objetivo é oferecer uma compreensão mais profunda e abrangente sobre este tema que tanto nos impacta, sempre à luz das Escrituras e buscando o quadro completo do plano de Deus. Prepare-se para questionar algumas noções pré-estabelecidas e para caminhar por trilhas teológicas que podem ser novas para você. Que esta exploração sobre a morte o conduza a uma maior apreciação da vida e da esperança que temos em Cristo.

Introdução

Relembremos alguns princípios já discutidos anteriormente.

Deus criou o homem para amá-lo. Para que o amor possa cumprir seu propósito de ter o outro como foco, ele deve ser recíproco, e então temos a criação deste mundo dual em que vivemos para provar a nós mesmos se essa reciprocidade de amor existe em nós. Não é provar para Deus porque Ele já sabe, mas para nós, que ainda não o sabemos, pois não vivemos a vida completa ainda para saber. Isso é fundamental porque o juízo somente é perfeito quando o réu concorda com a penalidade que lhe foi atribuída. Sem essa concordância sempre haverá na mente do réu uma sensação de injustiça.

Deus quer se expandir. Antes de qualquer coisa, antes de haver tempo ou espaço, antes de Ele se mover, Ele quis. É a sua natureza, porque Ele é amor, e o amor sempre pensa além de si mesmo. Então criou tudo para colocar o Homem no centro e testá-lo para ver se haveria nele um caráter semelhante ao dEle antes de se expandir para dentro do Homem. Teve de fazer isso por causa do Seu amor que, por fazer parte de Sua essência, O torna igualmente justo. Sabendo que a justiça só tem seu cumprimento pleno quando o réu concorda com o veredito, surge a necessidade da execução do ato a ser julgado, a vivência de todas as coisas por meio da vida do réu, do nascimento à morte, ainda que Ele mesmo saiba desde o início quem passará ou não passará no teste. A existência eterna ou a inexistência eterna precisam ser reconhecidas como destinos justos por seus herdeiros, e por isso cada um será julgado de acordo com suas escolhas tendo por base seu próprio ponto de vista. Eis o motivo pelo qual vivemos, o sentido primário da vida.

Deus quer se dar a conhecer. Desde o início Ele tem essa vontade de ser conhecido para que o Homem passe na prova. Ele se importa com isso. Sua revelação para a humanidade foi progressiva na história, contudo, cada um que viveu teve revelação suficiente para reconhecer o chamado de Deus para si, mesmo dentro de suas diferentes culturas. Ele vai julgar o resultado do teste em função do nível de conhecimento disponível para cada um. Por isso, Jesus revela nos Evangelhos que haverá menos rigor com os moradores de Sodoma do que com os de Jerusalém. Somos chamados para fazermos o melhor que podemos com o que temos, com a intenção de conseguirmos fazer melhor ainda quando tivermos mais.

Deus quer ser ouvido. A primeira coisa depois que criou Adão foi falar com ele. Todas as coisas foram criadas por sua palavra, mas nenhuma delas ouviu; apenas o Homem ouviu. Em seguida Ele incentiva Adão a falar também ao dar os nomes a cada animal que Ele havia criado. Na formação da mulher, Adão já estava hábil em falar e fez uma poesia em homenagem a ela, cujo destinatário, contudo, era Deus. Nos dias que se seguiram os três conversaram muitas vezes. Assim como Adão nomeou os animais, Deus nomeou as estrelas e constelações e as ensinou a Adão. Esse mapa do evangelho continua até hoje falando com todos. Deus falou com Caim antes de ele matar o seu irmão, e falou novamente depois que o matou. Falou com Noé antes e depois do dilúvio. Falou com Abraão antes do nascimento de Isaque e falou depois também. Falou com Moisés no deserto sem se utilizar de figuras. Falou por figuras na lei escrita. Falou pelos profetas.

E por último, veio em carne falar como homem, na Carne dEle, Jesus. E agora que falou tudo o que tinha para falar para a humanidade, está em silêncio quanto ao assunto principal, a salvação, aguardando o tempo do cumprimento de tudo o que planejou. Suas palavras ressoam em nossos ouvidos e Ele mesmo nos faz lembrar delas por meio do Seu Espírito. Não há mais nenhum nível a ser revelado, porque Ele ter tomado a forma (vamos ver isso mais de perto em breve) de homem é o máximo para se comunicar com o homem.

Temos diante de nós um tema que aflige toda a humanidade, a incerteza do futuro, que levada ao extremo é a incerteza do pós-morte. Nossa limitação em ver esse futuro implica tentativas de elucidar o que está encoberto nessa neblina. Várias dessas tentativas são misturadas com os desejos de obter lucros e privilégios hoje, o que gera inúmeras abordagens místicas do assunto.

Vamos soprar essa cerração e tornar o futuro mais claro. Um aviso, caro leitor: isso, porém, tem um preço: o preço de retirar de nós a muleta da religião, das crenças, das lendas, das coisas confortáveis em que críamos sem questionar por termos recebido por tradição. A clareza do que vai acontecer trará também mais luz sobre a sua responsabilidade pelo que você, caro leitor, está fazendo com a sua vida neste dia de hoje. Pense um pouco antes de continuar a ler…

Como ter certeza do pós-morte?

Mas como podemos ter certeza de que estamos vendo a realidade e não uma outra interpretação, apenas mais uma forma de ver o que se passa além da morte?! Essa não é uma pergunta de dúvida, mas uma pergunta legítima de um coração que quer se firmar sobre algo estável. Podemos vislumbrar dois princípios que nos nortearão nesta caminhada. Primeiro, o que está à frente deve guardar relação com a origem lá de trás, aquilo que foi mostrado por Deus a nós. Em segundo lugar, o entendimento deve nos aproximar de Deus e dos irmãos, e não nos afastar deles.

Por que não conseguimos ver além?

Se existe uma forma de saber hoje o que nos aguarda no pós-morte, por que Deus não deixou isso bem claro desde o início? Por que temos que nos basear no que já foi mostrado por Ele para delinear o que ainda está por vir?! Cá está outra questão legítima. Para entender o motivo da existência dessa nebulosidade precisamos considerar o lado interno e o lado externo de um mesmo princípio.

Internamente, Deus colocou em nós um anseio pela continuidade, uma semente da eternidade. Assim, inevitavelmente, todos queremos estender nossa existência para sempre. Como isso é impossível neste mundo em que toda vida tem um fim por conta do pecado, essa semente nos faz olhar para além daqui, para cima, para o que não é alcançável por nós pelos nossos esforços, por maiores que sejam. A nossa limitação nos faz buscar por Quem é o Ilimitado. E por definição, Deus e tudo o que Ele faz de caráter eterno precisa também estar ausente deste mundo limitado para que a busca tenha sentido. Por isso o pós-morte precisa, necessariamente, estar oculto de nós.

Externamente, temos como princípio que Deus é justo. E como já falamos, a justiça somente é perfeita com a concordância do réu sobre o julgamento. Como o julgamento sobre uma questão só tem lugar quando a questão está bem delimitada, assim também ocorre com a oportunidade do julgamento perfeito de Deus: só pode ter lugar quando a completude das ações tiver chegado quando a pessoa já morreu. Por um lado, o escopo sobre o qual haverá o julgamento está bem delimitado: a vida de cada um; por outro, essa delimitação não é alterada por novas ações do réu e nenhum fato novo sobre ele pode ser trazido a juízo para alterar o seu pronunciamento. Neste ponto podemos ver a inutilidade das ações dos vivos a favor dos que partiram, como preces, sacrifícios, velas acesas, procissões, etc.

Assim, essa incerteza, essa nuvem, contribui também para impedir a tentativa de manipulação das provas, pois ficamos livres da pressão que o conhecimento do processo de julgamento nos traria. Ficamos livres para um melhor julgamento do nosso coração.

Todos estamos dentro do ciclo de nascer e morrer. Todos já perdemos ou ainda perderemos pessoas para a morte. Para muitos, a primeira dor da morte é a de um animal de estimação, o que proporciona uma experiência inicial saudável porque a morte será uma companheira persistente em nossa caminhada levando nossos conhecidos, amigos, tios, primos, irmãos e pais, e, por fim, a nós mesmos. Entendê-la é uma necessidade. O morrer é essa etapa em que não mais reagimos permanentemente aos estímulos do ambiente, é uma não vida. Veremos também o que acontece após a morte, outra necessidade de entendimento.

Do início ao fim

Veremos o início da morte e o seu fim. Abordaremos os acontecimentos do pós-morte, como a separação do espírito e alma do corpo, a chegada ao Sheol/Hades ou ao Paraíso, a espera pelo Juízo Final ou pelo Tribunal de Cristo, a entrada na Cidade de Deus, a passagem pelo Milênio, a entrada na Eternidade. Falaremos sobre cada lugar, seus habitantes e seus acontecimentos no tempo. Falaremos sobre os destinos finais (o Inferno, a Cidade de Deus, ou a Terra) e os destinos intermediários (Sheol ou Hades), e sobre a mudança de lugar do Paraíso e o que isso nos revelou.

Falaremos sobre o destino no pós-morte dos que morreram crendo em Deus de forma fiel e dos que morreram crendo de forma desleixada – sim, eles têm tratamentos diferentes. Falaremos dos que morreram sem crer em Deus, no Deus revelado nas Escrituras, mas agindo como se cressem, e também dos que morreram após viverem uma vida contra Deus ou de forma independente dEle.

Falaremos também dos que morreram antes mesmo de terem tempo de viver, como os milhões assassinados anualmente por suas próprias mães, como executoras ou como mandantes. Outros milhões morrem antes dos dois anos de idade por causa dos ladrões que roubam os recursos que seriam aplicados para a melhoria das condições de saneamento básico. Outros milhões são mortos anualmente por fome e desnutrição. Outros milhares morrem em acidentes e guerras. Outro tanto de crianças morre e é dado como desaparecido. Ora, como fora da Cidade de Deus ficarão os assassinos[1], tanto os executores como seus mandantes, já sabemos os destinos destes. Então, resta-nos descobrir como o Senhor tratará estas vítimas inocentes no pós-morte.

Para nos ajudar nessa caminhada, fizemos gráficos e os distribuímos ao longo do texto à medida que se mostravam necessários.

Iremos do início ao fim, mas nem sempre o caminho é linear. Algumas vezes precisaremos fazer paradas para tomar fôlego e outras vezes, seguir por caminhos pouco trilhados. Talvez em um ou dois casos precisaremos abrir caminho nós mesmos. E como passaremos por caminhos escorregadios, precisaremos ir passo a passo. Um mapa é de grande ajuda nesse processo. Porém, lembre-se de que mapas são representações da realidade e não a própria realidade, então tê-los em mãos ajuda a caminhar, mas o esforço de caminhar sempre será do viajante.

Este assunto, a morte e o pós-morte, aflige todos nós e de certa forma tendemos a fugir dele. Um aspecto prático dessa fuga está na concentração dos mortos nos cemitérios, longe das nossas casas. Isso não é somente por questões de saúde pública. É também, e ousamos dizer que o é principalmente, para proporcionar o conforto do distanciamento da morte. Mas é ação que produz um resultado oposto ou prejudicial ao pretendido: o que é distanciado da experiência cotidiana toma ares de irreal e ao ser encontrado de cara logo ali virando a esquina, o impacto sobre os que ficam é maior e mais traumático do que deveria ser. É natural querer o inimigo longe, mas ele nos é mais perigoso lá do que quando está perto.

Enfim, peguemos rumo! E não se esqueça de consultar os apêndices.

A Morte

Por um entrou a morte no mundo

Vamos começar do início… Antes que Adão tivesse pecado não havia morte. A programação original era (e ainda é) de vida infinita. A morte é a consequência do pecado, e não a consequência de um erro. O pecado de Adão foi a intencionalidade de cometer o erro e por isso foi ele quem pecou e não a mulher, que começou a ser chamada de Eva depois desse tempo.

Sabemos que a morte demorou muitos anos para consumar sua obra na vida de Adão, quase mil anos. Mas então, inexoravelmente, ele morreu. E qualquer que tenha sido o motivo secundário, como um infarto, uma apendicite, uma queda ou uma gripe, o primário foi o pecado. E este pecado corrompeu Adão como um todo, desde cada DNA em cada célula. E isso passou a nós. Já nascemos com a programação da morte em nós, gerando como consequência a corrupção de nossos corpos pelo pecado do nosso ancestral.

Ainda bem que ele nos deixou também o seu exemplo de aceitar de Deus a salvação que somente Ele pode dar.

A origem da vida e da morte

Para entendermos a morte precisamos entender a vida, a sua origem. O corpo de Adão foi formado da terra como material pré-existente, mas o seu espírito foi criado do nada, e quando ele foi soprado nas narinas daquele corpo inerte houve vida nele e Adão, aquele corpo vivo pelo espírito, passou a ser uma alma. A alma está ligada à fonte de sua vida. Nos animais a alma está ligada a um componente material, o sangue, sua fonte de vida. Em nós, a alma está ligada ao espírito. E como esse não morre com o corpo, nossa alma também não morre com o corpo.

Aqui precisamos mencionar que não entendemos como correta a teoria da preexistência da alma ou do espírito. Alguns advogam que somos a encarnação de 1/3 dos anjos que ficaram neutros na revolta antes da reforma da terra, a partir do verso 2 de Gênesis 1, enquanto os anjos fiéis e os infiéis são as outras partes. Entendemos, sim, que a alma é gerada no contato do espírito dado por Deus com o corpo. Anjos são outra espécie de seres e sabemos que Deus não mistura espécies.

A alma durará enquanto durar o nosso espírito, a fonte de vida da alma. E qual é a fonte de vida do nosso espírito? É Deus, que o criou. Ora, a consequência do pecado é a morte que atua do corpo em direção ao espírito, e o resultado da fé em Cristo Jesus é a vida que atua no espírito em direção ao corpo. Então quando alguém crê em Deus o seu espírito se reconcilia com a sua fonte de vida e mesmo que seu corpo venha a morrer, um dia ele vai ressuscitar. Por outro lado, quando não há essa reconciliação, a morte avança implacavelmente até que a corrupção experimentada pelo corpo morto se instale na alma que ainda vive com a força do espírito. Mas como uma alma morta não tem utilidade, haverá um momento em que a vida dada a ela pelo espírito será retirada e voltará para a sua origem. Essa é a segunda morte, identificada como a destruição do Lago de Fogo, ou Inferno. Veremos isso mais tarde.

O “nascimento” do espírito

Em algum momento da concepção o espírito é dado ao corpo em formação. Vamos descobrir isso, mas por enquanto podemos pensar que talvez seja no nascimento, talvez quando o feto se move pela primeira vez, talvez mais cedo, quando o sangue é formado, ou mais cedo…

Em algum momento a vida que está no espermatozoide (masculino XY) e a vida que está no óvulo (feminino XX) realizam por si um encontro e iniciam um aumento da vida[2].

Somos tentados a pensar que a vida que está nos gametas se esvai com o tempo de distanciamento do corpo do indivíduo que lhe dá vida pelo seu espírito, e que o espírito irradia sua vida até certa distância. E de certa forma isso não estaria de todo errado, mas a conservação de gametas em refrigeração para posterior fecundação in vitro atesta contra essa ideia. Um DNA que tem a mesma reação a uma emoção sentida por seu dono, mesmo separados por mais de 500 Km de distância também atesta contra essa ideia[3].

A capacidade de iniciar o processo de mitoses é inerente à constituição do material genético, mesmo que seus doadores já estejam mortos há anos. Então não são os espíritos os responsáveis por este processo, mas é uma função da vida orgânica, como uma lei que rege os organismos criados a partir do terceiro dia da criação, plantas, peixes, aves, animais terrestres, antes mesmo da criação do Homem.

Só o homem foi criado com espírito; o espírito da mulher veio por outra lei, a que rege a criação do Homem. Nesta lei, nosso espírito vem à existência quando há um corpo para recebê-lo. Nosso espírito não está em nossos gametas – que nem foram usados na formação de Eva; nosso espírito não tem genética, não é resultado da união orgânica, da fecundação em si. Ele vem quando há um corpo em que possa habitar. Neste sentido estrito não somos filhos de nossos pais, mas filhos diretos de Deus. Mas quando o corpo está pronto para receber um espírito?

Sabemos que quando Isabel estava com seis meses de gravidez do João, o Batista, ele se moveu em sua barriga quando a voz de Maria foi escutada naquele dia. Bem, ele não teria reagido se não tivesse um espírito ali que sentisse a presença de Deus. Sabemos também que esse evento ocorreu porque Maria estava grávida do Salvador Jesus e que ela estava grávida havia poucos dias, talvez uma semana![4] João se agitou porque o Salvador já estava no ventre da Maria, de onde se conclui que o espírito já é presente antes da primeira semana da concepção, talvez nas primeiras divisões celulares. Então podemos dizer que o feto humano já tem um espírito aos seis meses de gestação, e podemos dizer que o feto de Jesus com uma ou duas semanas já estava com o Seu Espírito. Mas quando antes isso ocorre? Seria pelo menos no tempo entre a implantação do divino ovócito em Maria e o tempo que ela gastou para chegar na casa de Isabel, coisa de uma semana. Podemos presumir que o mesmo, ou algo parecido a isso, ocorre para uma gestação humana comum.

A única diferença é que o espírito que assumiu aquela estrutura celular perfeita dEle era o espírito da imagem incriada de Deus, era um espírito pré-existente à formação celular, o que no nosso caso não existe.

No nosso caso, o espírito passa a existir ou “nasce” em nós por força daquele primeiro vento que Deus soprou nas narinas de Adão e ele aparece no ponto do desenvolvimento celular em que ele “caiba” nessa estrutura. Um segundo vento foi soprado pelo Senhor Jesus sobre os discípulos dando a eles a capacidade de propagar a vida ressurrecta, mas isto seria outro capítulo. Quão cedo é isso, quão cedo o espírito se funde ao seu corpo?

De acordo com alguns estudos[5] feitos em Northwestern University, em Chicago, nos Estados Unidos, ocorre uma irradiação de luz (ondas eletromagnéticas) no momento da fecundação, o que talvez seja o exato momento em que o espírito é colocado no novo corpo em formação, tão cedo quanto isso. Isso torna qualquer interrupção voluntária da gravidez um assassinato, desde o seu primeiro dia de concepção.

Não se pode argumentar que o espírito de Jesus não era um espírito humano por não ter havido a concepção, pois não foi Ele que tomou, primariamente, a forma humana, mas a humanidade é que foi inspirada em Sua forma; nós é que somos cópias dEle, o nosso espírito é que é cópia do espírito dEle. E assim, nós é que seguimos por simetria o que acontece com Ele, e não o contrário. Nós somos humanos porque Ele é humano, e não ao contrário.

Veremos mais tarde que todos que morrem, saem deste mundo e vão para o interior da terra. Mas Jesus não fez esse mesmo caminho porque nós o fazemos, mas ao contrário: nós seguimos esse caminho porque Ele iria fazê-lo, e, efetivamente, o fez. Se entendermos que tudo foi feito PARA Ele, fica mais fácil entender o fluxo de vida e morte.

Clonagem humana

Um animal que for clonado viverá porque a vida dele tem origem no sangue e sua alma está ligada ao sangue. Mas um ser humano que for clonado só teria desenvolvimento pleno se um espírito, pelo menos um, vivificasse suas primeiras divisões celulares e esse corpo em formação fosse possuído por esse espírito, que no caso não poderia ser um espírito humano pela falta da atuação da regra geral de participação de um homem e uma mulher, um espermatozoide e um óvulo, no processo.

Nesse caso, como tal espírito não viria à existência pela concepção normal, outro espírito encarnaria naquele corpo já com uma alma para ele, uma alma desse espírito. Como todo espírito humano só pode encarnar em seu próprio corpo – motivo pelo qual no Juízo Final seremos “vestidos” novamente com nossos corpos –, o espírito que tal corpo clonado receberia não seria um espírito humano, não totalmente pelo menos; teria que ser um espírito misto, híbrido, mestiço. Os anjos são puros e não se encaixam nesse perfil, então sobram os demônios – espíritos híbridos, mestiços.

Anjos caídos e os demônios

Os demônios são espíritos impuros. Não apenas por serem maus, o que com certeza o são, mas por serem uma mistura, a ocorrida em Gênesis 6. Deus havia estabelecido como princípio que cada vida deveria se perpetuar sem se misturar com outra: “cada uma conforme a sua semente”, nas palavras de Gênesis 1. Naquela época alguns anjos se materializaram e tiveram relações com mulheres, cujos frutos se tornaram os gigantes ali relatados. Ao morrerem no juízo do dilúvio, seus corpos pereceram e seus espíritos e almas mestiços não tinham para onde ir, nem ao Paraíso, nem ao Sheol, então ficaram vagando no ar – as “potestades do ar” – como Paulo nos instrui. Os anjos foram presos naquela ocasião.

Os demônios têm inveja dos homens porque eles não podem participar do que Deus preparou para nós. Têm ódio dos anjos, que os trouxeram à existência. Não têm a possibilidade de terem vida eterna como os homens, e por consequência sabem que serão destruídos no fim. E se sentem injustiçados por Deus, ainda que sem base para isso, porque apesar de saberem que escolheram o erro de seus pais, que validaram esse caminho com seus atos, e que não optaram por recusar o material pelo imaterial, veem que vieram a existir em um mundo que não foi criado para eles e intimamente não concordam com a punição de morte que receberam nem com a punição do Lago de Fogo que receberão em breve. A pergunta “por que eu nasci?” é uma constante para eles. E o pior de tudo é que ainda assim Deus os usa como instrumentos de Sua vontade… Isso é muito humilhante.

Por terem uma origem mestiça, podem entrar em uma pessoa um demônio ou vários deles, como se o corpo fosse a sombra de uma árvore em um dia quente. Não podem empurrar o espírito da pessoa para fora dessa sombra de seu corpo, mas podem restringir o espaço que o espírito da pessoa usa em sua própria sombra. E entram sempre que lhes é possível; tanto em pessoas como em animais, mas a possessão em animais é desconfortável para eles – talvez a sombra seja muito pequena.

Nossa carne, nossas vestes

Nosso corpo material é nossa roupa. Um dia ele será transmutado em um corpo celestial e estaremos livres da maldição do pecado, a morte. Ninguém pode se aproximar de Deus “pelado”, mas apenas quando se apresentar de forma integral, completa. Por isso, quando morremos vamos para o Paraíso, um lugar em que aguardamos para nos juntarmos novamente com nosso corpo e para comparecermos diante dEle. Nosso corpo é um revestimento para viver aqui na terra; ele NOS reveste. E quem somos, então? Em essência, somos a nossa alma. Ela não existe sem a força de vida que obtém do espírito e não pode atuar no mundo físico sem um corpo físico. Não existe alma humana sem um espírito humano, ainda que ele possa existir sem o seu invólucro, sua embalagem, o corpo.

Quando o Senhor Jesus esteve entre nós ninguém podia vê-lo de verdade, saber, a não ser por fé, que Ele é a imagem do Deus vivo. O próprio Deus revela, como aconteceu a Pedro que declarou “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”, ou, a outra forma de ver é por meio da Sua morte, como aconteceu com o centurião responsável pela crucificação que declarou “Este era, verdadeiramente, o Filho de Deus”. Quando sua carne foi rasgada, em semelhança à cortina que havia no Templo entre o Santo Lugar e o Santíssimo Lugar que também foi rasgada, de alto a baixo, o que estava no interior foi visto. Somente sem o impedimento do corpo/cortina é que o interior pode ser visto – espírito/Santíssimo Lugar.

Isso continua acontecendo hoje a cada morte que testemunhamos. Dizem que pelas coisas que se falam a respeito dos que morrem até parece que todos eles foram promovidos a santos. Não é bem assim, claro, mas o rompimento da atuação do corpo nos faz lembrar da essência da pessoa que morreu, a sua alma. E ao comparar a alma dele com a nossa, vemos que somos mais parecidos do que pensávamos porque agora o corpo e tudo o que ele significava no mundo físico foi tirado de cena e no palco de nossa mente são reencenadas algumas das cenas de nossa convivência com o falecido, mas apenas as vozes atuam. No caso do Senhor Jesus, Ele prometeu que o Seu Espírito nos lembraria das Suas palavras para que sempre tivéssemos o entendimento correto de Sua essência.

Um dia, quando comparecermos diante de Deus “vestidos” novamente, ocorrerá em escala maior conosco o que já ocorre privadamente em nossas mentes, a reencenação dos acontecimentos de que participamos. Seremos medidos pela qualidade de nossa atuação, não por críticos externos, mas pela capacidade de distinguir o sim do não, o bem do mal, o aspecto ou a função da consciência do nosso espírito. Então uma esmola que alguém deu, por exemplo, de uma nota de baixo valor poderá ser rememorada com gratidão pela pessoa que a recebeu ao mesmo tempo em que poderá ser rememorada com culpa por quem deu, caso a consciência desse doador o tenha alertado naquela ocasião da esmola que ele poderia ter dado mais do que deu, que reteve a sua mão de ajudar, que não amou o próximo como a si mesmo, e muito menos o amou como Cristo nos amou. E aqui está o parâmetro, a medida do julgamento: a medida é Cristo.

Livres do peso do nosso corpo que já passou pela penalidade da condenação à morte, agora estaremos íntegros diante de Deus, veremos as coisas como Deus vê e concordaremos plenamente com o Seu juízo. Os salvos concordarão com a salvação dada a eles e concordarão que não a mereciam; os perdidos concordarão que não quiseram a salvação e também concordarão que não a mereciam. O juízo será perfeito porque tanto o juiz quanto o réu concordarão com a sentença.

O Pós-morte

Antes de viver, não existíamos. Não há “pré-vida”. Não estamos em algum lugar e então deixamos de existir lá para nos descobrirmos existindo aqui. Aqui é o ponto de partida, a origem.

Na primeira semana da concepção o espírito surge no corpo, e então quando passamos a viver, vivemos para sempre. O espírito, e depois o corpo transformado… Para sempre com Deus ou para sempre sem Ele[6]. Somos infinitos daqui para frente, assim como o conjunto dos números naturais sem o zero: N* = {1, 2, 3…}. Sem o pecado, seríamos infinitos com Deus. Mas por causa do pecado nossa jornada ganhou uma interrupção: morremos. Passamos a ser finitos, um subconjunto do que poderíamos ser, um F = {1, 2, 3… n}. A interrupção da plenitude do ser pela falta do corpo impede nossa percepção das coisas durante o tempo de morte, M = {m1, m2, m3… mn}. Após sermos restaurados ao corpo na ressurreição dos mortos, agora temos um corpo livre da maldição do pecado e podemos voltar à natureza infinita para a qual fomos criados. A morte é um elemento que compõe nossa vida, ainda que não tenha sido idealizada para ela. No conjunto de nossa vida temos esse elemento estranho (M), que um dia deixará de existir, V = {1, 2, 3…n, M, n1, n2, n3…}, mas para sempre comporá a natureza de quem o experimentou.

O lado de lá

Após a saída da alma junto com o espírito do corpo, este está morto, sem vida, sem interação com o ambiente. Algumas células continuam fazendo o seu trabalho até que o suprimento de oxigênio e nutrientes acabem. Unhas e pelos continuam a crescer por um tempo e ainda podem existir espasmos musculares, mas a pessoa, a unidade consciente está morta. Estar vivo não é ter ou manter as células do corpo com vida, mas estar dentro do corpo, vestido com ele, a nossa roupa primária; estar morto é estar “pelado” em relação a Deus.

A ressurreição de Lázaro

Quando Lázaro morreu, Jesus se programou para chegar na casa dele somente no quarto dia. Foi um atraso deliberado. Então Ele ordenou que abrissem o túmulo, ainda que o tivessem alertado que o corpo já estava em estado de putrefação. Depois falou com Lázaro. Isso por si só teria sido um grande pecado porque não se pode falar com os mortos. Então Lázaro, arrastado para fora pelo poder das palavras de Jesus, com as pernas e as mãos ainda atadas por faixas, como uma múmia, voltou a viver. Se o Senhor tivesse se postado diante daquela tumba antes de ter terminado os três dias, seria acusado de feitiçaria, tendo ou não sucesso em reavivar Lázaro; depois do terceiro dia, seria acusado de consultar os mortos, a não ser que Lázaro voltasse à vida. Não tinha margem para erro, por assim dizer. Bem, tempos depois Lázaro voltou a morrer, como todos que foram ressuscitados um dia. Todos que entraram no rio da morte e saíram dele, voltaram para a mesma margem por onde entraram. Só o Senhor Jesus atravessou o rio e saiu do outro lado!

O corpo de Lázaro voltou à vida porque o seu espírito entrou nele de novo. Esse é o marcador de vida. E onde Lázaro esteve nesses quatro dias? E se não tivesse voltado, onde estaria? Precisamos responder outras coisas: estaremos sozinhos ou há um advogado por nós diante do juízo de Deus? As correções que Ele nos faz em vida se estendem para o período depois da morte, e em que casos e lugares isso aconteceria? Qual é a história desses tratamentos, as formas e momentos de nossos julgamentos? Qual a cronologia dessas coisas?

O juízo não é imediato

O Juízo Final não é imediatamente após a morte. Mas antes de continuarmos, precisamos distinguir algumas coisas. A primeira diferença é que existem penalidades que visam a correção e penalidades que são o pagamento das ações. Por certo ninguém corrige algo ou disciplina alguém que não precisa ser endireitado. Um ajudante de mecânico, por exemplo, precisa ser ensinado e corrigido para que consiga ter um bom desenvolvimento profissional. Se ele comete algum erro, seu supervisor o instrui e o ajuda a corrigir o erro, e o penaliza com alguma perda, como o pagamento do valor do óleo a mais que gastou ou com o desconto do valor das horas gastas na correção do erro. O supervisor faz isso porque acredita que o ajudante de mecânico está jogando em seu time, mas se acreditar que as ações do ajudante mostram que ele não está comprometido com o seu time, a consequência será outra: a demissão. O objetivo da demissão não é fazer o empregado ficar mais eficiente, mas se livrar dele. Durante a vida vemos a mão de Deus nos corrigindo para que possamos ir na direção certa. Algumas das Suas correções são assimiladas por nós, mas outras, não o são.

O Juízo Final, e a consequente penalidade final, não é executado imediatamente após a morte de cada um. Todo o ciclo de vida deve ser concluído, e a pessoa deve estar completa diante de Deus, reintegrada ao seu corpo para ser julgada pelos atos que fez com seu corpo. E este evento público tem uma data marcada. É um juízo para o qual não há apelações a fazer, porque não haverá discordância dele. É a última instância.

Haverá três destinações das pessoas após o julgamento. Naquele momento haverá pessoas vivas na terra e pessoas que morreram. As que estiverem vivas, permanecerão vivas e entrarão no novo período da história do mundo reformado ou serão jogadas no Inferno, o Lago de Fogo. As que estiverem mortas, após serem reintegradas aos seus corpos, ficarão perto do Criador no Seu Reino eterno aqui na terra, ou longe dEle, no Inferno. E de hoje até aquele momento, o que acontece?

Morri; e agora? O caminho daqui até lá

Morri, e agora? Essa pergunta tem uma resposta diferente a depender se você foi salvo ou não, e também seria diferente se você tivesse morrido antes de Cristo ter ressuscitado. A primeira pessoa que morreu foi Abel, assassinado por seu irmão mais velho Caim. Seu corpo voltou para a terra pela decomposição e sua alma e espírito foram para um lugar espiritual em que ficaria até o momento de se encontrar com seu corpo de novo, o que aconteceu na ressurreição de Cristo, como veremos mais tarde. A esse lugar chamamos Paraíso por se assemelhar ao jardim que o Senhor plantou no Éden e que Abel podia ver ao longe de onde morava.

No caso dos crentes em Deus, seu destino imediato após a morte é o Paraíso, local em que não há obras a serem feitas, apenas um descanso, como em um dia livre. Esse dia de descanso dura o tempo do reencontro com o corpo, como o tempo de uma noite de sono, como o tempo de contemplação de um pôr-do-sol. Um período de milhares de anos passa como o tempo de um café bem gostoso. Isso é igual entre Abel, que morreu quatro mil anos antes de Cristo, e Abraão, que viveu dois mil anos antes de Cristo. Ambos morreram, foram para o Paraíso, e tiveram uma sensação temporal equivalente. Estes são alguns exemplos de pessoas que criam em Deus e eram justas. São exemplos de antes da ressurreição de Cristo, antes do Paraíso ter subido aos Céus.

No caso de descrentes, como Caim ou como o Faraó, foram para outro lugar espiritual, o Hades. Talvez a sensação de tempo seja como o de uma noite mal dormida. Não há antecipação de julgamento ou de penalidade porque implicaria percepção de tempo. E neste caso, Caim seria punido 2.500 anos a mais que o Faraó, e quem morreu primeiro sofreria mais do que quem morreu mais recentemente, o que é um absurdo para a justiça. Eles ficam lá até o momento do Juízo Final, quando então serão reunidos aos seus corpos para o julgamento.

No caso dos crentes injustos, ainda há lições a serem aprendidas para que eles possam conviver em harmonia com seus outros irmãos. Sabemos de duas injustiças que nos levam para essa posição para correção: a falta de perdão e a falta de compaixão. Os que morreram nesta condição antes de Cristo foram corrigidos e subiram ao Paraíso nos Céus na ressurreição do Senhor Jesus. Os que morreram depois de Cristo tendo essas faltas serão corrigidos até se arrependerem e então serão reintegrados na posição em que deveriam estar desde o início do milênio.

A forma da morte importa

Absolutamente, a forma da morte importa. Se não importasse, Jesus poderia ter morrido de acidente de trânsito ou engasgado. Seu próprio nome indica a forma de Sua morte[7], como vimos na unidade Deus. Isso importa, sim.

Coré, Datã e Abirão (que eram crentes, pois passaram pelo Mar Vermelho), criaram uma divisão no povo de Israel contra Moisés (foram diabos – divisores – para o povo). Poderiam ter morrido de infarto ou de AVC se tivessem vivido suas vidas sem se oporem diretamente a Deus, mas Deus abriu a terra sob seus pés e desceram vivos ao abismo e morreram na queda. O servo de Davi que tocou inadvertidamente na Arca da Aliança, Uzá, foi fulminado no ato com um raio do céu. Os dez reis que Josué cortou os polegares antes de matá-los declararam a justiça desse ato porque eles também haviam cortado os polegares de seus inimigos. Absalão foi alvejado por lança quando ficou suspenso pelos seus cabelos, um dos grandes motivos de seu orgulho. Um casal casado que se deixasse levar pelos seus desejos e construísse relações físicas fora do casamento deveria ser morto pelas pedras soltas que representam as partes que deixaram de ser usadas ou se desprenderam da construção sólida do casamento que estavam construindo. Na conquista de Jericó, Acã tomou do anátema e por isso foi queimado assim como toda a Jericó havia sido, de onde ele tomara aqueles bens amaldiçoados. Ele teve para si a mesma forma de destruição da cidade que ele ajudou a queimar porque se identificou com ela ao subtrair-lhe o que ele mesmo havia condenado.

E no Novo Testamento? Temos a morte de Herodes sendo comido por vermes, o que mostrou a todos o quão mortal e material era aquele que havia achado que era um deus imortal e tinha aceitado a adoração das pessoas, algo devido apenas a Deus. E dentro da Igreja temos Ananias e Safira, que mentiram a Deus, a nossa Vida, e perderam o fôlego de vida deles.

Mas se isso importa, qual a importância? Bem, isso é difícil de determinar, mesmo porque Deus não tem prazer na morte do ímpio. Essa declaração não quer dizer que Ele tenha, por oposição, prazer na morte de um santo, mas que Ele não tem pressa em condenar ninguém.

Poderíamos pensar que toda forma de morte está relacionada a uma forma pela qual a pessoa se desviou da vida, como nos exemplos que vimos. Mas a explicação de Jesus sobre a morte de algumas pessoas em um acidente com a queda de uma torre traz uma luz:

E aqueles dezoito, sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou, cuidais que foram mais culpados do que todos quantos homens habitam em Jerusalém? Não, vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis. (Lucas 13:4-5)

Se fosse linear a relação entre ser culpado e o tipo de morte e o momento em que ela ocorre, não haveria torres suficientes para cair sobre os habitantes de Jerusalém. O modo a que Jesus se referiu é a forma repentina como a torre caiu, a surpresa do evento. Em parte, isso ocorreu a Jerusalém, como um todo, no ano 70 d.C.

A diferença entre os tipos de morte, com ou sem surpresa, influencia o tempo que a alma tem para se reconhecer morta. Isso deve causar uma humilhação tal que a faça reconhecer na morte a sua pequenez que não era reconhecida em vida. Talvez isso – o reconhecimento de quão pequenos e passageiros somos – mais do que a presença ou ausência da surpresa seja o critério para o tipo de morte que temos, e como consequência para os não crentes, o tempo que gastamos para nos reconhecermos mortos.

Para os que são crentes isso é fácil porque já reconheceram sua insignificância quando depositaram em Deus, e não em si, a confiança para salvá-los. Eles são levados por anjos ao Paraíso de forma imediata logo após a morte porque não necessitam de tempo para se situarem na nova posição, que de certa forma é o cumprimento da fé que manifestaram em vida. Como já haviam reconhecido a sua pequenez em vida, não precisam nem querem tempo para isso agora que morreram.

O orgulho parece ser a força motriz dessa dinâmica: quanto maior o orgulho, mais tempo se leva para reconhecer a humildade da vida. Se a perspectiva de tempo de reconhecimento é grande, porque o orgulho é forte, faz-se necessária uma força maior para quebrar esse forte orgulho: a forma da morte. O orgulho só gera dor, antes e depois da morte. Vamos lembrar disso quando falarmos sobre fractais.

Quanto ao suicídio, falaremos no título específico.

O tempo de vida

Expandindo a ideia, a morte chega a todos os culpados e chega da mesma forma, de surpresa. E a frase “O inesperado leva um longo tempo de preparação”[8] é totalmente aplicável: a morte inesperada leva toda a vida para chegar. E quão longo é esse tempo de preparação?

Não sabemos, mas sabemos que Deus controla a medida da iniquidade, um dos indicativos de término do direito de viver. Essa vasilha pode ser enchida rapidamente em poucas ações ou lentamente por vários anos, mas só Ele sabe o tamanho disponível para cada um. E Ele não conta isso para ninguém. Então não podemos comparar a iniquidade das pessoas em função do tempo que viveram, uma tentação que sempre nos acerca.

O primeiro mandamento que vem com uma promessa é o de honrar pai e mãe, e a promessa é de viver mais. Veja: para coisas feitas dentro do projeto, o engenheiro tem as medidas; mas para os improvisos o engenheiro não tem como ajudar muito. Para uma família constituída sob os planos de Deus, os pais amarão os filhos porque representam a continuidade deles na próxima geração e por isso lhes quererão bem. Se os filhos forem espertos, acatarão as orientações desses pais e os honrarão. As orientações serão para o bem dos filhos, então estes vão viver mais tempo. Existem aspectos naturais e celestiais nessa lei. Agora, se a família não foi constituída da forma correta, se foi uma improvisação, se os pais não veem nos filhos a continuidade de si mesmos nem temem a Deus, seus conselhos, se obedecidos, podem até ser piores se seguidos. Mas se os filhos honrarem ainda assim os pais, Deus vai lhes prolongar a vida (a parte celestial) mesmo que a contribuição desses pais para isso (a parte natural) seja pequena ou inexistente. Em todos os casos não dá para saber o quanto uma pessoa vai viver, ainda que saibamos que no fim cada um vai ver no Juízo de Deus que o tanto que viveu foi o suficiente.

Vivemos como se nunca fôssemos morrer. É a semente da eternidade que Deus plantou em nós. Ela serve para nos levar a pensar para fora dessas limitações físicas e buscar pelo Autor da Vida. Em linhas gerais podemos dizer que nosso tempo de vida permitiria o sucesso dessa busca, a frutificação daquela semente de eternidade.

Demora muito para morrer?

Ainda que não precisemos disto como prova, aprendemos um pouco com os testemunhos de experiências de quase morte, EQM. Há relatos de que a alma flutua sobre o corpo e vê todo o ambiente em que a morte ocorreu. Há relatos de ela estar em um lugar escuro quando uma luz aparecer, como a de uma porta aberta no fim de um corredor. Em vários relatos há a rememoração instantânea da vida da pessoa diante de si, como em um filme em primeira pessoa super rápido.

As lembranças de EQM são relatadas apenas por poucas pessoas e não com todas as que “morreram” por breves períodos. Há casos de pessoas que foram dadas como mortas por mais de um dia e voltaram a viver, e o costume antigo de amarrar uma corda de um sino na mão dos sepultados atesta essa preocupação, de onde vem a expressão “salvo pelo sino”. Precisamos dessa fonte para saber? Não, mas nos ajuda a entender o tempo.

Nesse tempo de EQM às vezes a experiência parece ter mais tempo de duração do que caberia em nossa contagem cronológica. Experiências longas podem ser relatadas em ausências de cinco minutos ou menos. E o contrário também ocorre, pois ausências de horas às vezes relatam poucas coisas. A percepção do tempo nas EQM é diferente da nossa, e uma comparação mais próxima seria o sonho. Às vezes se sonha muito, às vezes pouco, às vezes lembramos dos sonhos por poucos minutos, às vezes não nos esquecemos deles, e às vezes nada se sonha ou de nada podemos nos lembrar depois de acordar.

Na história do rico e de Lázaro essa transferência da alma do corpo para outro lugar é posta da seguinte forma:

E aconteceu que o mendigo morreu, e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão; e morreu também o rico, e foi sepultado. (Lucas 16:22)

O confronto de ideias está no âmbito da falta de misericórdia do rico, que vivia esplendidamente, com o pobre que ele conhecia à porta da sua casa e preferiu ignorar. O rico foi sepultado e de forma natural passiva “afundou” até o lado espiritual da sepultura, para onde todas as almas descem se nada houver que as interrompa nesse fluxo. O mendigo não foi deixado no fluxo natural, mas levado de forma ativa por anjos, não por suas forças, para o seio de Abraão, Paraíso.

O tempo para o rico ir para o Sheol foi o tempo de ser sepultado, talvez dois dias; o tempo para o Lázaro chegar ao Paraíso talvez tenha sido o do descarte do seu corpo no lixão. Em ambos os casos esse tempo parece ser o da tomada de consciência da morte do corpo por parte da alma que nele habitava. Pessoas que sabem que vão morrer, o ladrão convertido da cruz, Paulo e Estêvão, e muito provavelmente o mendigo, têm uma transição rápida porque já aguardam por isso. As que não consideram a ideia de morrer, como o rico que vivia esplendidamente, têm uma transição mais lenta. E quão lento isso pode ser?

Pelo episódio da ressurreição de Lázaro, podemos deduzir que três dias é o prazo máximo porque Jesus o ressuscitou no quarto dia para mostrar que tem todo o poder. Temos também a ressurreição de Jonas após três dias e três noites dentro do peixe, ou seja, ressuscitado no quarto dia. E de Jesus, que ficou o mesmo período, três dias e três noites inteiras e quase mais uma noite inteira, mas sem completá-la, porque ressuscitou antes do Sol nascer, para não fugir à profecia.

O último inimigo a ser vencido

No Juízo Final, e veja que Deus não tem pressa em condenar ninguém, cada um vai comparecer individualmente perante Deus. Primeiro ele vai tratar com os não humanos lançando-os no Inferno. Depois vai tratar com os homens, então vamos por grupos:

Os vivos: os que estiverem vivos no fim do Milênio são os que não participaram da revolta, ativa ou passivamente, contra o Senhor Jesus e por isso não foram mortos pelo sopro de Sua boca. Estes estarão vivos na Eternidade. Tendo chegado ao fim, seus corpos serão transformados em celestiais e não mais terão filhos.

Os celestiais: os que já estiverem em seus corpos celestiais já os receberam antecipadamente não estão debaixo do juízo. Na volta de Cristo já terá havido uma ressurreição. Todos os que estavam na Morte e morreram em Cristo estão com seus corpos celestiais. Vão para a Eternidade.

Os mortos no Milênio, sobreviventes de agora: eles estão aguardando no Paraíso e serão ressuscitados em corpos celestiais e irão para a Eternidade.

Os mortos no Milênio, nascidos no Milênio: durante o Milênio as pessoas que nasceram podem morrer por acidentes por punição de pecado ou outra coisa estarão aguardando no Paraíso ou no Hades/Sheol. Deus vai ressuscitar cada uma e julgar. Aos que forem salvos será dado um corpo celestial. Os condenados serão lançados no Lago de Fogo, o Inferno.

Os demais mortos de todas as eras: eles estão todos no Hades e cada um será ressuscitado em seu corpo para não comparecer “pelado” em juízo. Verá o juízo, ouvirá a sentença, concordará com ela, e será lançado no Inferno.

Depois disso Ele vai despejar toda a estrutura da morte para ser destruída dentro do Inferno – um lugar espiritual será jogado dentro de outro lugar espiritual. A morte não mais existirá. É uma longa jornada até lá. As consequências do pecado vão mais longe do que pensamos.

Os lugares do além

O Reino ou dimensão espiritual ou invisível faz parte da criação de Deus, e assim como o mundo físico ou visível, ele também tem estruturas que estão em certas posições.

Panorâmica

Principais pontos notáveis: existe um lugar para o Trono de Deus acima do firmamento, o Céu dos Céus. Existe um lugar de atuação dos demônios no ar. E existe um lugar para os mortos debaixo da terra. O Paraíso é uma estrutura que foi movida de seu lugar original de debaixo da terra para algum lugar no céu, acima da terra; no céu há um lugar chamado de terceiro céu. E há uma estrutura chamada de Nova Jerusalém que um dia descerá dos Céus.

Em inglês há uma palavra para descrever o céu físico, sky, e outra para o céu espiritual, heaven. Isto facilita de imediato a identificação do item a que estamos nos referindo.

Normalmente temos dificuldades em imaginar esses locais, mais especificamente a posição desses locais, porque estamos imersos em um modelo cosmológico heliocêntrico. A Bíblia tem outra concepção cosmológica, em que a terra é o centro de tudo.

Figura 4 – Cosmologia Bíblica

E não se iluda pensando que os povos antigos eram atrasados. Segundo o posicionamento cultural moderno estamos em uma crescente de evolução, todavia, muitas, muitas e muitas coisas que os antigos fizeram não conseguimos reproduzir hoje, no nosso ápice tecnológico. O motivo é simples, ainda que humilhante: não estamos nessa crescente tão celebrada. Mas isso é assunto para outra oportunidade, e se quiser adiantar, encontre os vídeos no Youtube dos experimentos de Dave LaPoint sobre os experimentos com campos magnéticos primitivos e plasma. A visão cosmológica da Bíblia é representada na figura[9] a seguir:

Descrição da Imagem

A imagem apresenta um diagrama detalhado da visão de mundo baseada em uma interpretação literal de textos bíblicos. No topo, a palavra Deus está acima do Céu dos Céus e dos Céus, indicando a morada divina.Uma grande cúpula, chamada O Firmamento, separa as Águas Acima da Terra e serve como o céu visível. Nela, estão o Sol, a Lua e as Estrelas, junto com as Nuvens. A estrutura possui Janelas e Portas do Céu, que permitem a passagem da água para a Terra. O centro do diagrama é ocupado pela Terra, que é mostrada como um disco plano cercado por mares e sustentada pelas Fundações da Terra. Abaixo dela, existe um abismo sombrio chamado Sheol, o mundo dos mortos. Na parte mais profunda, encontra-se O Grande Abismo, uma vasta massa de água que circunda toda a estrutura do mundo e serve de base para as Fundações da Terra e as Fundações do Céu. Em essência, a imagem ilustra uma cosmovisão em três partes: os céus superiores, a Terra no meio e o mundo subterrâneo, o Grande Abismo, abaixo.

O lado de baixo da terra é como a parte de baixo de um carro, existe, mas não é habitável. O extremo do lado não habitável é um abismo em relação a quem está deste lado da moeda, abismo em que estão guardados certos anjos para o fim desta nossa era; e o extremo do lado de cima é o Céu dos Céus (heaven).

Talvez uma figura mais moderna, como a de uma das telas de entrada no jogo de videogame Fortnite, ajude na compreensão do conceito:

Figura 5 – Simetrias

Descrição da Figura:

As duas imagens apresentam uma visão artística e simétrica de um mundo dividido em duas metades, uma superior e uma inferior, que se espelham. Embora os estilos sejam diferentes, ambas compartilham o tema da dualidade e reflexão. A imagem da esquerda, com um estilo psicodélico, mostra um mundo dividido por uma linha central. A parte superior apresenta uma paisagem com montanhas e cores quentes, como laranja e amarelo. O céu e a borda da imagem estão cheios de corpos celestes e padrões abstratos, tudo inserido em um fundo de estrelas e planetas. A metade inferior é um reflexo invertido, com a paisagem e as montanhas transformadas em reflexo na água, dominado por tons de azul e verde.

Já a imagem da direita, com uma estética de ficção científica, mostra um universo contido em uma esfera de energia azul e brilhante. Dentro dela, há uma linha horizontal que divide o mundo. A metade superior exibe um céu com nuvens e um horizonte, enquanto a metade inferior é o reflexo perfeito desse céu em uma superfície aquosa, com um brilho intenso no centro. O exterior da esfera é envolto por filamentos luminosos, dando a impressão de um universo futurista e etéreo.

Há uma simetria, a terra está envolta por um campo de força, há um céu azul acima e o céu vermelho abaixo e um foco de energia central, etc., coisas que abordaremos no próximo volume deste livro. A percepção do modelo bíblico libera nosso entendimento para a compreensão dos lugares espirituais de que estamos falando.

Os lugares e os tempos

Cada coisa na sua hora

Precisamos entender duas coisas. A primeira coisa é que os lugares foram sendo criados à medida da sua necessidade. Além da criação geral, o primeiro lugar feito por Deus foi o Jardim que Ele fez para o Homem. De forma concomitante Ele criou o lugar que será o destino definitivo dos justos, uma Cidade Celestial.

Neste ponto da história não havia pecado e não havia a morte, a consequência do pecado. A partir do pecado de Adão as pessoas iriam morrer, e quando isso acontecesse seria necessário um lugar para que esperassem o Juízo Final; então Deus criou um “lugar” espiritual fora do domínio da vida humana sobre a terra, um lugar sob a terra que se assemelharia ao jardim, sob a perspectiva de proporcionar descanso ou espera, de onde a humanidade tinha sido expulsa. É o lugar que receberia, a seu tempo, Adão. Ele aguardava a consequência do pecado, a morte, mas lembremo-nos de que ele foi perdoado desse pecado, ainda que viesse a sofrer as consequências dele. Ele criou um lugar para os mortos, o Sheol.

As coisas se desenvolveram e Caim matou Abel. Este, foi para o lugar programado inaugurando o Sheol, mas Caim não poderia ir ao mesmo lugar quando morresse porque não seria justo que compartilhassem o mesmo lugar de espera na morte porque Caim não quis compartilhar o mesmo lugar de Abel em vida. Este tratamento diferenciado é exposto na argumentação de Abraão a favor de Ló em Gênesis 18:25: “Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra?”.

Então Deus precisou separar uma área para receber os injustos, uma área separada da área normal que seria para receber os justos, como Abel. A este pedaço dentro do Sheol (em hebraico) ou Hades (em grego) que recebe os justos, nós chamamos de Paraíso e na época do Senhor Jesus era chamado de Seio de Abraão. Hoje, esses termos, Sheol ou Hades, se referem à parte que guarda os injustos porque infelizmente o Sheol ficou maior que o Paraíso, refletindo a realidade do mundo dos vivos acima dele. Como hoje o Paraíso foi levado para o céu – veremos isso em breve –, só ficou o Sheol sob a terra.

Estes locais estão na morte (antes da ressurreição de Cristo, e agora mais ainda) separados por um abismo intransponível. Na verdade, esse abismo existia também, de certa forma, entre seus habitantes quando estes estavam vivos; a separação lá é de mesma dimensão espiritual daquela que existe aqui na terra separando os justos dos injustos. Ou melhor, separando os injustos dos justos, porque, afinal, são os injustos que se distanciam do Senhor e são eles que querem ficar longe.

O tempo foi passando e tivemos a contaminação genética de Gênesis 6, dos anjos e seus filhos. Os anjos que saíram do lugar original deles precisavam de um lugar para ficarem presos, então Deus os prendeu no Tártaro. No mesmo momento Ele criou o lugar que será o destino definitivo deles, o Inferno. Os seus filhos morreram no dilúvio, e por não serem humanos nem anjos ficaram sem lugar e são os demônios soltos por aí. O destino definitivo deles é o Inferno também.

Deus criou um lugar de espera temporária e o destino definitivo para os humanos, depois separou o lugar de espera dos justos do lugar de espera geral, depois criou a prisão temporária dos anjos caídos e o destino definitivo para eles. Na ressurreição Ele levou para o céu o pedaço do lugar de morte dos justos para que pudessem ficar acordados.

Vendo de longe e vendo de perto

A segunda coisa a se entender é que às vezes existe uma ilusão de ótica quando estamos observando algo muito distante, como um alto morro visto de longe a partir de um carro que segue em sua direção. Às vezes quando chegamos mais perto descobrimos que não se tratava de um morro ou uma grande pedra, mas de duas ou mais grandes elevações que estavam alinhadas para o ponto de vista que tínhamos a partir do carro. Ao longe eram indistinguíveis, mas de perto podemos ver que são coisas diferentes. É assim que acontece em alguns relatos bíblicos quando os vemos a partir do futuro, em retrospectiva. Os profetas viram que no fim haveria um juízo, e como estavam muito longe no passado, não distinguiam entre o Juízo Final e o Tribunal de Cristo.

Os julgamentos

No Juízo Final, também chamado de Trono Branco, temos a porta de entrada para a eternidade e é o momento em que há o julgamento dos que estiverem vivos naquele momento e dos mortos de todas as épocas. São três os destinos: céu ou Inferno para os mortos, e Inferno ou o Reino Eterno para os vivos.

No juízo do Tribunal de Cristo temos a porta de entrada para o Reino milenar dEle sobre a terra ao fim do qual haverá o Juízo Final. Ele vai tratar apenas uma parte da humanidade, os que creem no Senhor até aquele momento, mortos ou vivos. Participarão desse tribunal familiar, como o de um pai de família que reúne os seus, os mortos de antes da ressurreição do Senhor que foram para o Paraíso no céu (veremos isso em seguida), os mortos após a Sua ressurreição, que foram para o Paraíso ou que foram para o Sheol restrito por não terem amor ou não usarem de misericórdia com os demais (também veremos isso em seguida). Também participarão os crentes vivos naquele momento igualmente divididos em dois grupos, primeiro os maduros, e, enquanto o evento vai se desenrolando nas nuvens, os imaturos vão amadurecendo sobre a terra ou sendo colhidos (mortos) na Grande Tribulação, ao fim da qual todos terão participado do Tribunal de Cristo nos ares. Cabe lembrar que os ares naquele momento estarão limpos das potestades que hoje habitam lá. O resultado é a entrada no Reino para os habilitados, ou a retenção fora da festa, nas trevas exteriores, para os que não se habilitaram para ela em vida.

Como esses dois eventos são próximos e parecidos, vistos de longe não são bem distinguidos. Essa mistura não era problema para quem via de longe porque o evento, ou o conjunto, é a referência para a mesma direção. Quando o Senhor veio Ele começou a mostrar a distinção entre essas coisas. Hoje que temos chegado ao fim dos tempos esta distinção nos traz os alertas necessários para uma vida produtiva diante de Deus. O mesmo ocorreu com o Paraíso, pois sofreu mudança com os eventos que o Senhor fez sobre a terra.

Para onde vão os mortos

Quando uma pessoa morre seu corpo volta para o pó, a matéria não estruturada. Tanto faz se foi cremada, enterrada ou sepultada no mar: quando o espírito sai do corpo ele precisa ir para o local de espera de reencontro com o seu corpo no futuro, quando for ressuscitado. A esse lugar, o Antigo Testamento, em hebraico, nomeia de forma geral como Sheol, que serve como o destino das almas. No Novo Testamento a palavra usada é grega, Hades.

Figura 6 – O Submundo Espiritual

O Sheol não é um lugar de punição, mas um lugar de espera por se estar ausente da existência física. Possivelmente, caro leitor, isso deve ter soado estranho aos seus ouvidos, imaginamos. Calma: vamos ver todas as partes.

Descrição da Figura:

A imagem é um diagrama conceitual que ilustra a organização do Sheol, o mundo espiritual do pós-morte na cosmologia bíblica. O Sheol (marcado como 5) é representado como um grande círculo, dentro do qual existem diferentes compartimentos ou “lugares”. O compartimento 1 é o Paraíso, um local separado, de cor branca do número 2, que é o Sheol Restrito. O número 3 é o Tártaro, ambos cinzentos. O 4 é o Abismo, também em tom cinza. Fora da área principal do Sheol, mas ainda dentro do círculo maior, o compartimento 6 é a Transição, indicando um estado ou local de passagem.

O termo Sheol se refere ao outro lado da vida, o lado da morte como um todo. Vamos para lá porque não somos autorizados a ficarmos por aqui se não pudermos interagir, se estivermos mortos. Lá é um lugar criado para nós. O Inferno não foi criado para nós, mas para o conjunto diabo e seus anjos. E Sheol e Inferno são coisas diferentes, ainda que nossas traduções da Bíblia às vezes não nos ajudem a diferenciar isso… Jesus foi ao Sheol (Mansão dos Mortos) quando morreu, lembre-se disso.

Colocamos a seguir uma figura para mostrar os compartimentos do lado da morte. Dentro do Sheol, lugar geral,há um lugar de descanso (nº 1), o Seio de Abraão, Lugar de Descanso ou Paraíso, e um lugar de tormento para os crentes (nº 2), como o Senhor Jesus nos fala pela história (e não parábola) do rico e de Lázaro. Calma, veremos isso com detalhes. O compartimento Paraíso foi tirado debaixo da terra pelo Senhor Jesus e levado para acima do céu quando Ele ressuscitou.

Sabemos que há um lugar chamado Tártaro (nº 3) para os anjos envolvidos na contaminação dos gigantes de Gênesis 6. E outro chamado Abismo (nº 4) para os anjos preparados para certo momento do apocalipse. E quem não está em nenhum desses compartimentos, fica no lugar geral de espera, o Sheol propriamente dito (nº 5).

O número 6 é a transição da saída do espírito do seu corpo e chegada ao seu destino intermediário no pós-morte. Após a ressurreição de Cristo este momento de transição deixou de existir para os crentes porque agora eles sobem diretamente ao céu e não mais descem à terra.

O Tártaro é um lugar em que estão os anjos que agiram no passado na corrupção da humanidade, o que motivou o dilúvio. Em Gênesis 6 temos a atuação deles corrompendo geneticamente a raça humana e depois os animais, contrariando a ordem de Deus de que cada um deveria se reproduzir conforme a sua espécie. Eles foram presos no julgamento do dilúvio. Os filhos desses anjos foram seres híbridos que quando morreram se tornaram os demônios.

O Abismo é o lugar mais distante da superfície da terra, para baixo. A sua porta de entrada são as águas e para lá irão todos os demônios para ficarem presos durante grande parte do Milênio. Nele estão guardados anjos que vão agir em data específica no futuro.

Incluímos uma fenda entre o Paraíso e o Sheol Restrito para representar uma separação entre eles, não o lugar nomeado de Abismo.

Reconhecendo-se morto

Entre o momento de morte e o de alocação em seu devido lugar, com o reconhecimento da própria morte, temos um período de transição. Esta parte não é propriamente um lugar, mas um caminho entre sair do corpo e chegar no Sheol, um caminho percorrido pelos que não são recolhidos pelos anjos diretamente ao Paraíso. Talvez se gaste entre poucos minutos para a pessoa perceber que morreu. Nos casos em que há a espera pela morte por conta de uma doença ou por causa de um acidente percebido pelo finado, talvez seja rápida a percepção. E se gaste alguns dias se a pessoa for pega de surpresa no momento da morte, mas o caso de Abel mostra que é curto período. Talvez menos de uma hora foi o suficiente para ser levantado um clamor que foi ouvido por Deus:

E disse o SENHOR a Caim: Onde está Abel, teu irmão? E ele disse: Não sei; sou eu guardador do meu irmão? E disse Deus: Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama a mim desde a terra. E agora maldito és tu desde a terra, que abriu a sua boca para receber da tua mão o sangue do teu irmão. (Gênesis 4:9-11)

Para quem foi acompanhado por anjos de seu corpo morto até o Paraíso esse reconhecimento não é um problema, mas para quem está sozinho tudo é mais difícil. Saber que morreu é uma autopercepção importante antes do julgamento para que no momento em que a pessoa for reintegrada ao seu corpo haja o reconhecimento, a percepção de mudança de situação, de morto para ressuscitado.

Por causa de Abel, essa estrutura sob a terra, cuja boca se abriu para recebê-lo e até hoje está aberta, foi alterada, como veremos a seguir. Essa boca só será fechada no fim, quando o Sheol todo for tirado de dentro da terra e levado definitivamente para o Lago de Fogo, o Inferno.

Sheol, a Regra Geral

O Sheol é o lugar para onde vão as almas dos que morrem aqui em cima da terra. Ele fica debaixo da terra, onde ficam aguardando o julgamento, como que em suspensão. O tempo decorrido entre a entrada de Caim e a entrada do último não salvo neste lugar é o mesmo, mas a percepção do tempo é a mesma. Não há espaço para arrependimento nesse período porque é como o dormir na morte e o acordar no tribunal. Não há sofrimento nesta instância porque não houve julgamento ainda. Não há demônios atormentando as pessoas com tridentes. Eles terão o sofrimento por suas ações no momento certo, no Inferno, após o trâmite do processo legal, quando a decisão for tida como coisa julgada sem recursos possíveis.

As profundezas da terra

Mas ele é mais do que um lugar… No Salmo 139 Davi se mostra maravilhado com Deus e nos deixa algo que se parece muito com um conceito relativamente recente de poeira cósmica que registra, no fim das contas, a nossa existência como uma energia. Calma, prudente leitor: antes que seus alertas contra heresias comecem a soar e não mais consiga ouvir, tire a mão do botão de pânico e leiamos juntos o que Davi nos deixou:

Pois possuíste os meus rins; cobriste-me no ventre de minha mãe. Eu te louvarei, porque de um modo assombroso, e tão maravilhoso fui feito; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem. Os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui feito, e entretecido nas profundezas da terra. Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe; e no teu livro todas estas coisas foram escritas; as quais em continuação foram formadas, quando nem ainda uma delas havia. E quão preciosos me são, ó Deus, os teus pensamentos! Quão grandes são as somas deles! (Salmos 139:13-17)

Davi revela que quando ele estava sendo formado, sendo costurado, sendo tecido como linhas se sobrepondo para formar algo maior e mais estruturado que as próprias linhas, nesse momento Deus o estava vendo. Ele acrescenta que esse processo se deu “nas profundezas da terra”, onde, curiosamente, é a localização do Sheol. Você leu certo! Não é uma comparação, não existe um “como nas profundezas”. Somente a declaração de que o corpo estava sendo feito lá, nas profundezas da terra, apesar de isto ocorrer no útero da mãe dele.

Então Davi estava falando de outra coisa, uma coisa mais profunda, não percebida por todos, mas que o impressionava e o convencia de que não conseguiria fugir da presença de Deus, o tema desse salmo. Vamos nos aprofundar, mas respire, relaxe e tire a mão do botão de emergência porque em breve chegaremos a outros textos.

O início da formação de um corpo começa com a junção de duas células que misturam as suas cargas genéticas. Essa escrita, ou escritura, vai comandar a confecção de todos os aminoácidos que formarão as proteínas necessárias para a formação do corpo. As células originais já trazem em si os ribossomos, estruturas que funcionam como impressoras 3D de proteínas. Cada aminoácido/proteína é feito a partir de um código que está no DNA, que é lido desse “livro” por meio de um RNA mensageiro que entrega o código para a impressora.

Essas proteínas são feitas com a matéria que está dentro das duas células fundidas e esse processo aumenta quando o óvulo fertilizado recebe os insumos do útero em que se instalou. Essa matéria-prima da estrutura da construção do organismo é a mesma matéria, no fim das contas, que está no chão, na terra. Então, o corpo é construído da terra. Até aqui, tudo bem. Vamos ao termo “profundeza da terra”.

Fractais

Os fractais são estruturas cuja geometria se repete em si mesmas a cada nível em que observamos, contêm a si mesmas em formas menores. A isto dá-se o nome de autossimilaridade. As figuras a seguir são exemplos de fractais.

Figura 7 – Fractais

Os fractais podem se repetir ao infinito no sentido do crescimento da figura (o infinito externo, para fora do centro), ou no sentido do inverso (o infinito interno, em direção ao centro). Considerando que uma estrutura como o DNA é uma organização fractal do ser que dele vai derivar, podemos olhar para o seu infinito interno e chegaremos às profundezas da matéria, que é a matéria da terra (os elementos químicos da terra), ou as profundezas da terra. Então Davi estava certo, na concepção de que Deus olha o coser das linhas nas profundezas da terra, o costurar de todas as ligações subatômicas de cada um de nós.

A prisão e a segurança

E o que isso quer dizer? Pode dizer muita coisa, mas para nossos propósitos de analisar as estruturas do pós-morte isso quer dizer muito. Quer dizer que na morte o espírito é enviado para um “lugar” nas profundezas da terra que foi usada para a construção do corpo em que habitava, para o interior fractal da sua matéria, sua prisão interior cujos muros são intransponíveis porque há um abismo infinito entre uma estrutura fractal e a outra. Então a forma da morte, como vimos antes, ganha uma nova camada de significado… E também ganha novos contornos as práticas dos satanistas, em seus diversos ramos, na violação de cadáveres.

O termo Sheol se refere a um lugar espiritual e não a um lugar físico propriamente dito, mas sem dúvida que uma coisa guarda relação com a outra porque ambos pertencem à criação de Deus. Como a decomposição de um corpo morto leva seus componentes de volta ao solo, estando a alma presa a sete palmos sob a terra, a cem metros, ou em uma fossa marinha de mais de 10 mil metros de profundidade, não faz diferença.

Diferentemente das representações artísticas dos conceitos religiosos, os demônios não ficam com tridentes torturando as pessoas no Sheol, e muito menos no Inferno, onde eles mesmos serão penalizados. A pessoa fica sozinha, ensimesmada. O oposto de não se dar ao outro é ficar presa em si mesma, e o extremo disso é ficar preso dentro do fractal de si mesmo.

A limitação

O nosso espírito é da natureza de um Reino maior, um Reino celestial, em que há menos limitações que o Reino material. Ele “nasce”, é criado em um corpo material e é limitado por este corpo e somente poderá se expressar em plenitude quando o corpo também for transformado em corpo celestial para ficar compatível a ele. Quando Moisés desceu do monte o seu rosto brilhava e quando Jesus subiu ao monte, Ele todo brilhou. A proximidade do Reino celestial permite ao corpo material se comportar de forma diferente. Estes dois eventos mostram que nosso corpo natural é limitado.

Somente uma tradução do nosso corpo para a linguagem celestial, como aconteceu com Enoque antes do dilúvio, permitiria a real expressão de nosso espírito, um benefício necessário a quem terá continuidade de vida para a eternidade junto com a Fonte Eterna de Vida. Os crentes aguardam por essa liberdade no Paraíso, um lugar acima e fora da terra, acima e fora da matéria, um destino imediato sendo o destino definitivo a Cidade de Deus na Eternidade sobre a terra. Os não crentes aguardam pelo dia do Juízo Final no Sheol, um lugar dentro da terra, dentro da matéria. O Sheol é o destino imediato do homem natural, o que não quis crer em Deus, o que não quis ir além, mas desejou ficar com a ilusão da matéria. O destino definitivo é o Inferno. Os crentes carnais, os que se igualam aos não crentes em sua fascinação pela materialidade deste mundo, são conduzidos temporariamente para o destino desses até que seja possível se harmonizarem com os crentes normais, os espirituais.

Paraíso, a Regra Específica

Criado por “acidente”

Primeiro existia o Sheol preparado para receber todos, mas o ato de Caim criou a necessidade de um lugar separado para quando ele morresse. Entretanto, como quem morreu primeiro foi Abel[10], o lugar separado do processo geral foi o que chamamos de Paraíso.

O primeiro homem a morrer foi Abel, e foi por assassinato: seu irmão Caim o matou. Sua morte “atrapalhou” a organização do espaço pós-morte. O plano original era que as pessoas viveriam as suas vidas e depois seriam julgadas. Mas agora, temos uma nova situação: Abel foi imolado pelo irmão, assim como Abel havia imolado um cordeiro inocente a Deus como sacrifício de holocausto. O sacrifício dele havia sido aceito, o que na verdade significa que ele próprio havia sido aceito. Agora, como Deus iria alocá-lo no mesmo lugar que um dia receberia seu irmão assassino?

A regra geral era que todos os que fossem vencidos pela morte, vencidos pelo mundo, deveriam ir para o lugar de morte; mas o que fazer agora com os que venceram o mundo e venceram a morte antes do tempo assim como Abel, os que colocam os desejos de Deus acima de seus próprios desejos? Bem, Deus ainda não podia levá-lo para os lugares mais permanentes do céu porque Jesus ainda não tinha morrido e descido ao lugar dos mortos, o que deveria tinha que esperar o tempo devido. O que Deus deveria fazer para separar um morto normal dos demais mortos que se abandonaram ainda em vida nas mãos da justiça de Deus? Isso pegou Deus de surpresa, por assim dizer, e Ele agora tinha um problema. A solução foi criar um espaço reservado dentro da estrutura geral para recepcionar esses filhos amados que tanta satisfação trouxeram ao Seu coração. Foi criado o Paraíso.

Um hotel tem muitos quartos comuns e uns poucos especiais. Esses especiais são diferentes nas comodidades, mas compartilham da mesma estrutura geral. O sistema de água e esgoto é o mesmo, o sistema de energia é o mesmo, o serviço de lavanderia é o mesmo… O Paraíso é o quarto especial de um hotel, como uma suíte presidencial. Mas ainda é um quarto do mesmo hotel chamado Sheol. E por estar lá dentro, os seus hóspedes seguem a mesma regra simples: fique dormindo até ser acordado, chamado à vida novamente por uma ressurreição, a não ser que seja chamado à recepção para fazer algum acerto parcial – veremos isso mais tarde.

Entre o tempo de morte e o momento de julgamento há a possibilidade de uma ressurreição não definitiva em que a pessoa volta a morrer depois, como no caso de Lázaro, ou do filho da viúva de Naim[11] e de vários outros.

Os que estão no Sheol normal esperam a ressurreição para o Juízo Final. Os que estavam no quarto VIP do Sheol, o Paraíso, também esperavam uma ressurreição, mas não é a mesma. É a ressurreição comandada por Cristo. Antes de Cristo esta chamada ocorreu na ressurreição dEle; agora, depois de Cristo, a próxima chamada será em Sua volta para o evento do Tribunal de Cristo nas nuvens.

Era uma mansão em um bairro pobre

O Paraíso no Sheol é um cativeiro para os crentes porque, diferentemente dos não-crentes, eles estão ligados à fonte de vida e não viver é uma limitação à vida.

O local do Paraíso impedia o desfrutar de uma vida porque era, como um todo, um local de morte. Era um lugar deslocado do seu contexto, como uma mansão em um lugar muito pobre. E ainda que o espírito não morra, é como se morresse porque estava em um sono. Veja a figura abaixo:

Figura 8 – A Mudança de Localização do Paraíso

Descrição da Figura:

A figura apresenta uma linha do tempo teológica que descreve a transição do destino das almas após a morte, com o evento central sendo a ressurreição de Cristo. Antes de Cristo, as almas dos descrentes e dos crentes aguardavam em compartimentos distintos abaixo da Terra: o Sheol para os descrentes, em estado de “sono”, e o Paraíso para os crentes, também em “sono”, até a chegada do Redentor. No entanto, um grupo de crentes sem amor e misericórdia era direcionado para um “Sheol restrito”, onde permaneciam “acordados” em tormento. Com a morte e ressurreição de Cristo, as almas dos crentes que estavam no Paraíso abaixo da Terra são despertadas e transferidas para um novo Paraíso, agora localizado no céu, onde passam a aguardar o retorno do Redentor de forma “acordada”, enquanto o compartimento do Sheol restrito também é esvaziado. O Sheol dos descrentes, no entanto, permanece inalterado, e as almas continuam a aguardar o Juízo Final nesse local.

Esta estrutura foi levada para o céu por Cristo após a ressurreição. Agora não descemos ao Paraíso, mas subimos ao Paraíso, aos Céus. Vejamos alguns textos sobre isso:

Por isso diz: Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro, E deu dons aos homens. Ora, isto ele subiu que é, senão que também antes tinha descido às partes mais baixas da terra? Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os Céus, para cumprir todas as coisas. (Efésios 4:8-10)

Depois que o Autor da Vida foi morto, como havia sido anunciado, Ele encerrou em Si a limitação dos que pertencem a Ele por terem crido por fé que Ele seria o Salvador que ainda viria sobre a terra. E por isso quando ressuscitou pôde tirar o Paraíso do local de morte em que estava e transportá-lo para um local de vida. Neste novo local seus filhos agora podem desfrutar da companhia um do outro enquanto esperam pelo Tribunal de Cristo.

Este novo local, o novo bairro, é o terceiro céu de forma geral, sendo o primeiro céu o que vai do chão até o mais alto que se possa alcançar, e o segundo é o que chamamos de espaço, o lugar das estrelas. O terceiro céu está na dimensão espiritual e às vezes é visto quando a dimensão física do céu é rasgada e o Trono de Deus é visto, como no arrebatamento de Elias e no apedrejamento de Estêvão. Mas o Paraíso não é mostrado, apenas o Trono de Deus. O texto a seguir de Paulo mostra a localização acima da terra:

Conheço um homem em Cristo que há catorze anos (se no corpo não sei, se fora do corpo não sei; Deus o sabe) foi arrebatado até o terceiro céu. Sim, conheço o tal homem (se no corpo, se fora do corpo, não sei: Deus o sabe), que foi arrebatado ao Paraíso, e ouviu palavras inefáveis, as quais não são lícitas ao homem referir. (1ª Co. 12: 2-4)

Alguns associam o terceiro céu ao novo lugar do Paraíso, mas precisamos atentar para um detalhe. É lá no céu, mas não exatamente o que normalmente é nomeado de terceiro céu. Estritamente falando, o terceiro céu é o Trono de Deus. Mas, em linhas gerais, sim, está no céu. Veja que Paulo foi arrebatado a dois lugares, primeiro ao Trono de Deus e noutra oportunidade, ao Paraíso. Do primeiro lugar onde foi ele podia falar tudo, mas do segundo lugar, não podia. Talvez tenha visto lá pessoas que se contasse que as viram lá seria um escândalo aqui… Bem, alguns acham que o texto se refere ao mesmo evento e ele fez a divisão para dar ênfase, o que não interfere no assunto em foco: é lá em cima, no céu. Vamos a outro texto:

E, ouvindo eles isto, enfureciam-se em seus corações, e rangiam os dentes contra ele. Mas ele, estando cheio do Espírito Santo, fixando os olhos no céu, viu a glória de Deus, e Jesus, que estava à direita de Deus; e disse: Eis que vejo os Céus abertos, e o Filho do homem, que está em pé à mão direita de Deus. (…) E apedrejaram a Estêvão que em invocação dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito. E, pondo-se de joelhos, clamou com grande voz: Senhor, não lhes imputes este pecado. E, tendo dito isto, adormeceu. (Atos 7:54-57, 59,60 – ACF)

Claramente Estêvão não tinha o problema da falta de perdão! Ele viu o Senhor Jesus no céu e para lá é que direcionou a sua ida. Mas ele foi para o Trono de Deus que viu? Não. Ele foi para o Paraíso, o local em que Deus recebe os crentes que morrem, possivelmente pelo mesmo método de antes do Paraíso ter sido tirado de debaixo da terra: anjos levam a pessoa até lá; antes era para baixo e agora, para cima.

Depois de pedir o perdão para os seus agressores, ele morreu, mas a palavra empregada foi adormeceu. Essa suavidade é aplicada aos crentes que morrem porque um dia voltarão à vida e a morte é transitória para quem está ligado ao Autor da Vida. No caso dos não crentes, eles também um dia voltarão aos seus corpos, mas apenas para morrerem definitivamente porque não estão ligados ao Autor da Vida. O “adormeceu” é uma referência suave ao seu estado físico, mesmo que trágico.

A mudança de lugar

E Jesus, clamando outra vez com grande voz, rendeu o espírito. E eis que o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo; e tremeu a terra, e fenderam-se as pedras; e abriram-se os sepulcros, e muitos corpos de santos que dormiam foram ressuscitados; saindo dos sepulcros, depois da ressurreição dele, entraram na cidade santa, e apareceram a muitos.(Mateus 27:50-53)

Os sepulcros foram abertos por causa do tremor de terra causado pela saída do Espírito de Cristo do Seu Corpo. Após três dias e três noites, Cristo ressuscitou e com Ele também ressuscitaram muitos crentes. Abraão, Jacó, José, Abel, Noé, Davi, os profetas, e muitos outros. A contagem é de três ciclos completos de dias e noites e não apenas um intervalo de tempo da sexta à tarde para a madrugada de domingo, como é falado pela tradição. A ressurreição aconteceu após os três ciclos de dia e noite, no quarto ciclo, porém sem deixar que se completasse mais um período de noite. Por isso Ele saiu do túmulo antes do nascer do Sol, antes que o quarto ciclo de noite fosse completado.

Essa era a esperança de José, que pediu para que seus ossos fossem levados do Egito quando Deus trouxesse libertação ao seu povo. Por que essa preocupação sobre os seus ossos? É que ele sabia que um dia haveria a ressurreição e queria estar no lugar certo quando isso acontecesse, perto da sua família. E também se referiu aos seus ossos porque sabia que a saída do povo iria demorar. E sabendo que os ossos são os itens mais permanentes que temos, declarou sua fé naquilo de si mesmo que poderia durar mais tempo. Pelo tempo decorrido até Cristo, cerca de 1.500 anos, possivelmente seus ossos se degradaram, mas naquele dia José ressuscitou a partir do local onde os ossos haviam sido depositados. É uma continuação porque o período de ausência foi como um sono.

Os sepulcros se abriram para que saíssem, e saíram porque estavam lá dentro, e lá estavam porque aguardavam a ressurreição da morte. Mas ressuscitaram pelados? Foram com seus corpos originais pelados que ressuscitaram, já que as roupas com que foram enterrados não ressuscitam, ou em corpos celestiais que já vêm com “roupas de fábrica”? Ora, o Senhor Jesus foi visto vestido quando ressuscitou, mas não com o lençol que José de Arimateia o cobriu em Sua morte, o qual ficou no túmulo. Ele ressuscitou vestido tão bem como os demais. Ressuscitaram, entraram na cidade, todos devidamente vestidos, e foram reconhecidos por muitos, e depois, sumiram. E para onde foram?

Não voltaram ao Paraíso debaixo da terra porque lá estavam seus espíritos quando não tinham sido ressuscitados. Lá é um lugar para espíritos sem seus corpos. Agora, tirados da morte com corpos celestiais, precisavam seguir o destino celestial.

No episódio da ressurreição de Lázaro lemos a seguinte declaração do Senhor:

Disse-lhe Marta: Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição do último dia. Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; E todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá. Crês tu isto? (João 11:24-26)

Marta, assim como José antes, acreditava na ressurreição no fim, a do Juízo Final, a que será para todas as pessoas. Então o Senhor dá duas informações: o crente morto hoje voltará a viver, que é o caso do amigo dEle, Lázaro; e o crente vivo hoje nunca morrerá. Qual é o centro de equilíbrio dessas duas regras? Cristo. O cumprimento pleno se daria pouco tempo depois na Sua ressurreição, quando todos os mortos que criam em Deus ressuscitariam e todos os que estavam vivos e criam em Deus não mais morreriam como antes.

Jamais significa o extremo do tempo, em tempo algum; nunca significa o extremo da negação, de jeito nenhum, um não absoluto. Jesus estava falando que a partir dEle, sendo Ele o pivô, quem cresse não mais morreria. Ora, sabemos que todos os discípulos morreram. Então estaria Jesus mentindo, delirando, ou falando de outra coisa? Não, claro. Estava falando da condição de consciência após a morte. Antes a morte significaria sono ao crente lá no Paraíso por ser a regra geral do Sheol; agora, a morte aqui significa atividade, vida, ao crente lá no Paraíso, por ser a regra geral do céu. Isso é possível agora porque o Paraíso foi movido do seu lugar original em que a regra era a espera no sono da morte para salvos ou não salvos.

Então temos algumas consequências dessa transição do Paraíso:

  1. Todos os seus habitantes saíram de lá pela ressurreição, saíram dos sepulcros em uma continuidade a partir de onde a vida física deles havia terminado, e foram para outro lugar no céu, para o mesmo Paraíso, só que agora reformado por Cristo, remodelado para as necessidades atuais de conter corpos celestiais em um lugar celestial.
  2. Como a casa ficou vazia com a ressurreição, o endereço do Paraíso foi trocado de lugar, de debaixo da terra para em cima, no céu. Antes a natureza terrena de seus corpos levou seus espíritos para o centro da terra; agora a natureza celestial de seus corpos os leva para o centro do céu.
  3. Agora o Paraíso recebe os espíritos dos crentes, que não mais dormem como antes, mas ficam acordados em comunhão com os demais irmãos que lá vão chegando porque o Autor da Vida já ressuscitou. Antes de Jesus ressuscitar ninguém poderia aguardar acordado; depois que Ele venceu a morte, ninguém que Nele creia pode aguardar dormindo.
  4. Podem ter comunhão com os corpos celestiais que lá estão porque todos agora estão acordados e porque a diferença entre um espírito e estes é apenas quando há a materialização para o mundo físico, e como lá todos estão no modo espiritual isso não faz diferença.
  5. No Tribunal de Cristo todos serão revestidos com seus corpos no modo celestial e serão julgados por suas obras perante Ele antes de entrarem no Seu Reino. O Paraíso ficará vazio de novo e receberá então os crentes mortos até o dia do Juízo Final, mil anos depois do Tribunal de Cristo, depois do Milênio.

A localização específica

Quando o Senhor esteve aqui, Ele lamentou a incredulidade de Jerusalém e falou que gostaria de tê-la ajuntado como faz a galinha com seus pintinhos[12]. Após Sua ressurreição Ele levou o Paraíso para o céu. Apesar de não nos ser dito para onde Ele o levou, há uma referência em Apocalipse sobre as almas que serão vistas sob o altar:

E, havendo aberto o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus e por amor do testemunho que deram. (Apocalipse 6:9)

Como Moisés construiu o Tabernáculo conforme o que viu no céu, podemos assumir por associação que o Paraíso está diante do Trono de Deus, pertinho dEle. Estritamente falando, seriam algumas almas que lá chegaram sob condições especiais, mas como as almas vão para o Paraíso, então esse local é, pelo menos, um pedaço do Paraíso. E se uma parte está lá, ele está todo representado. O Senhor dá uma atenção muito especial aos tesouros ali depositados e um dia vai revelá-los ao mundo com a importância que eles têm.

Enoque e as testemunhas

Antes da ressurreição do Senhor Jesus, Enoque, Elias e Moisés estavam no céu em algum lugar, não no Paraíso, porque este estava sob a terra. Elias e Moisés estavam nos seus corpos originais, mas Enoque teve seu corpo transformado em corpo celestial na subida.

Pela fé Enoque foi trasladado [mudança de lugar] para não ver a morte, e não foi achado, porque Deus o trasladara [mudança de lugar]; visto como antes da sua trasladação [mudança de idioma] alcançou testemunho de que agradara a Deus. (Hebreus 11:5)

No dicionário Strong[13]o termo “trasladação” em destaque na citação de Hebreus é “transliterado” ou “traduzido”. Os dois primeiros termos (transladado e trasladara) grifados e sem negrito dizem respeito à mudança de posição, mas o terceiro (trasladação) diz respeito à mudança de linguagem, de idioma. O corpo de Enoque foi traduzido da linguagem terrena para a linguagem celestial. E por isso, entrou no céu, já que o corpo não podia ir para o Paraíso dentro do Sheol. Um dia isso também ocorrerá com todos que seguirem o exemplo dele de andar com Deus.

No caso de Elias, ele estava caminhando com seu amigo e discípulo Eliseu quando veio algo parecido com uma carruagem de fogo e os separou levando Elias para o céu, e na subida Elias jogou para Eliseu a sua capa. Pelas falas entre eles, o evento durou coisa de uns 10 segundos. Para Enoque deve ter sido próximo disso também. Tanto Enoque quanto Elias subiram ao Céu vivos. Não sabemos se Deus colocou Enoque em um compartimento especial no qual Elias lhe foi fazer companhia muitos anos depois. Sabemos que um era pré-diluviano, e possivelmente era bem alto, e o outro era do nosso período e tinha estatura normal. Não sabemos se ficaram no mesmo ambiente que os anjos ou separados deles. O que sabemos é que Enoque tinha o corpo celestial e Elias tinha o corpo natural.

No caso de Moisés, ele morreu, entretanto, foi ressuscitado por Deus e levado para o Céu no corpo original dele. Ele e Elias apareceram no monte da transfiguração falando com Jesus sobre a partida dEle.

Estes três casos de pessoas que estão vestidas com seus corpos (celestiais ou naturais) e que por isso podem ver o Senhor, mais o caso de Noé, que passou vivo de uma era para outra, mostram em conjunto as regras do pós-morte:

1 – Alguns serão levados vivos para Deus, como Enoque na era antediluviana e Elias na era pós-diluviana;

2 – Quem morreu sendo amigo de Deus, como Moisés, será ressuscitado;

3 – Para passar de uma Era para outra é necessário estar escondido em Cristo para ficar acima da morte, como Noé que ficou na arca com sua família.

O caso de Elias e Moisés é mais especial porque eles foram para o céu com os corpos normais deles. Elias foi sem ter passado pela morte, e Moisés foi ressuscitado e depois seguiu para lá. Eles estiveram no monte da transfiguração, representam a Lei e os Profetas, e voltarão à terra como testemunhas em seus corpos, e serão mortos.

Eles são testemunhas de quê? De tudo o que viram, inclusive o Senhor subindo aos Céus. Lembra-se daqueles homens vestidos de branco que perguntaram por que os discípulos estavam olhando para o céu? Não eram anjos, eram as testemunhas.

Agora que o Paraíso subiu, talvez eles, Moisés e Elias, possam visitar seus habitantes assim como Enoque pode fazer por possuir o corpo celestial. Talvez eles tenham trânsito livre entre o Paraíso e o Trono de Deus, o terceiro céu. São um caso especial, mesmo.

Destino Intermediário

Mas espere. O Paraíso não é o destino. Existe uma cidade que Deus tem preparado para os seus. E não podemos confundir esses dois lugares porque há regras diferentes. Entre um e outro há um julgamento a ser feito, o Tribunal de Cristo. Ele é necessário para que ninguém conviva com seus irmãos na eternidade com alguma falta, dívida ou peso.

Este outro lugar é uma cidade, e o evento que nos leva a ela não é a nossa morte, mas a vinda do Senhor Jesus.

Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito; vou preparar-vos lugar. E, se eu for e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos tomarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também. (João 14: 2,3)

Este “vos tomarei para mim mesmo” nos faz lembrar de Enoque, que foi reescrito, traduzido para o corpo celestial.

Em certo aspecto já temos chegado a esta cidade à medida que o Rei dessa cidade já é o nosso Rei agora. Viver hoje sob as ordens do Rei é trazer o Reino dEle para cá.

Mas tendes chegado ao Monte Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, às miríades de anjos; (Hb. 12: 22)

Esta cidade é esperada e há muito tempo.

Porque esperava a cidade que tem os fundamentos, da qual o arquiteto e edificador é Deus. […] Mas agora desejam uma pátria melhor, isto é, a celestial. Pelo que também Deus não se envergonha deles, de ser chamado seu Deus, porque já lhes preparou uma cidade. (Hb. 11: 10,16)

Por melhor que seja, o Paraíso é transitório. O que Deus quer mesmo é uma cidade[14].

Quem foi para o Paraíso já sabe que está em paz com Deus. Isso não quer dizer que sobre eles não haverá um julgamento por suas ações, mas que tal julgamento não implicará perda da vida eterna. Este momento de julgamento será no Tribunal de Cristo, antes que Ele entre no Milênio de governo sobre a terra com o Seu povo, já devidamente julgado e em seus corpos celestiais. O resultado será o prêmio de participar do governo ou a repreensão familiar.

Todos os crentes mortos durante os séculos comparecerão neste juízo do Tribunal de Cristo. Os que crerem depois desse evento e morrerem, comparecerão perante o Tribunal do Trono Branco, o Juízo Final.

A morte no milênio

Depois da volta de Cristo haverá três grupos de pessoas vivas para entrar na era do Milênio, os mil anos de governo direto de Cristo sobre a terra: as que um dia viveram nesta terra e tiveram seus corpos transformados em corpos celestiais, pela ressurreição ou pela transladação, e as que ficaram vivas, as que passaram vivas para a outra Era. O terceiro grupo, ainda que tenhamos uma necessidade lógica e poucas indicações, será o dos que precisam viver suas vidas, mas foram interrompidos.

Neste momento haverá a ressurreição em seus corpos físicos, assim como Lázaro, mas na plenitude da idade, uns 30 anos de idade. Nesse grupo estão todos os que morreram sem terem conseguido viver suas vidas, tais como os que foram abortados, as crianças mortas em guerras ou as pessoas que nasceram com graves deficiências cognitivas. Estes entrarão com os sobreviventes para o milênio. Não conseguimos confirmar de forma plena na Bíblia este evento, mas se ocorrer não estaria em oposição a ela. Sabemos que todos os que foram ressuscitados em seus próprios corpos, como Lázaro, morreram de novo. A restauração dos corpos sem ser nas condições originais de recém-nascidos tem o apoio lógico pela impossibilidade de serem cuidados em um mundo pós-apocalíptico. Talvez voltem como adultos de uns 30 anos, ou com uns 12 anos. Terão o benefício de que no Milênio não haverá animais agressivos, e possivelmente voltarão já sabendo falar alguma língua, como aconteceu com Adão. A idade na casa dos 30 anos coincide com a idade do Senhor Jesus Cristo no o início do Seu ministério. E sendo Ele o Último Adão, essa devia ser a idade aparente de Adão quando foi criado. O importante é que voltarão para completarem aquilo que foi iniciado, uma vida que permita a concordância com o julgamento de Deus.

Voltemos aos sobreviventes. Eles foram os que temeram a Deus e mostraram isso nas tribulações pelas quais passaram na transição das Eras, culminada pela vinda do Senhor Jesus. As tribulações foram todas as descritas em Apocalipse. E tendo em vista que muitos dessa época futura pedirão para morrer, é como se estes que sobreviveram também tivessem passado pela morte em vida.

Os de corpos celestiais trabalharão com o Senhor no governo da terra e poderão governar sobre poucos ou sobre muitos de acordo com suas habilidades. Os de corpos naturais deixarão de ter sobre si o peso da morte que nos acompanha durante a vida e com isso ganharão saúde plena. O mal estará retido, não haverá tentações, os demônios estarão presos.

Os sobreviventes do Apocalipse estarão em frangalhos, mas serão guardados para que não morram por conta das coisas pelas quais passaram. Eles estabelecerão uma nova sociedade. Terão filhos, a terra produzirá facilmente, os animais não serão agressivos. Com o passar do tempo a terra vai se encher novamente. E com o tempo livre pela facilidade de obtenção de alimentos, a tecnologia deve avançar rapidamente.

As pessoas viverão muitos anos. Uma pessoa que morrer aos cem anos estará morrendo jovem. Sim, haverá morte. Ela ainda não foi vencida. O pecado será punido de imediato. A grande maioria estará viva para o fim dessa era.

Os filhos dos sobreviventes crescerão confortavelmente, sem tentações, com abundância, sem expectativa da morte, sob um governo que funciona, tudo certo. Mas o que está no coração deles? Seria o amor pelo Senhor que os levaria a fazer as coisas certas ou só estariam sendo levados pelo ambiente? Isso precisará ser provado para eles, assim como é provado para nós o tempo todo.

O Tentador será solto de sua prisão e correrá o mundo reunindo as nações contra o Senhor e marchará contra Israel. Quando chegarem lá serão destruídos com um sopro do Senhor Jesus, tanto os que foram à guerra quanto os que ficaram apoiando. Quem morreu foi para o Sheol ou para o Paraíso. E então vem o Juízo Final. Quem não morreu entra vivo para a eternidade porque no fim teremos os moradores dos Céus, os que foram para o Lago de Fogo e os que ficarão sobre a terra.

Salvação, Zodíaco e Libra

O nosso “destino” depende de uma balança. Para nos salvar o Senhor igualou a balança que pesava contra nós e pagou nossa dívida. Foi um ato para satisfazer a Sua justiça. E isso tem tudo a ver com nosso tema.

No livro “O Evangelho Revelado nas Estrelas” André Coelho mostra como Deus pregou as boas novas nas constelações. Esse conhecimento foi corrompido mais tarde, mas os símbolos permaneceram e ainda contam a história. Vamos olhar mais de perto o símbolo de Libra, ou balança, assim que dermos um resumo da história toda.

Zodíaco

Zodíaco é o nome que se dá ao conjunto de 12 Constelações por onde passa o Sol no seu ciclo anual. Cada signo é composto por figuras principais e 3 outras figuras associadas. Seu conjunto conta uma história. O nome zodíaco não vem de animais, “zoo”, como normalmente se supõe, mas de uma palavra originada no árabe que significa caminho, o caminho do Sol.

Coube a Adão colocar nomes nos animais e Deus reservou a Si a incumbência de dar nomes às estrelas e às constelações. Os mapas celestes existem antes dos gregos e sumérios. O mais antigo de que se tem notícia pertence ao Egito e está no Templo de Dendera. Os símbolos desenhados e a relação entre eles continuaram praticamente inalterados com o passar dos séculos, bem como os nomes das estrelas e dos seus grupamentos, os principais e os secundários, chamados de decanatos. Eles contam uma história para a qual há uma chave de como iniciá-la, a Esfinge: começamos com a mulher, o signo de Virgem, e terminamos com o Leão, que não está olhando para a Virgem. Mesmo sem a Esfinge, o início é claro, porque cada signo se relaciona com seu antecessor, exceto a Virgem.

Resumidamente, a Virgem gera um filho que paga o preço exigido na balança, Libra, em um confronto direto com o mal, Escorpião. A vitória alcançada pelo ser híbrido, Sagitário, contra o Escorpião permite o aparecimento de outro ser híbrido, Capricórnio, cujo corpo de peixe será sustentado por um rio presente na constelação de Aquário. Ainda que a nova natureza de peixe tenha prevalecido, eles, Peixes estão divididos em suas direções: um peixe busca o centro e o outro se volta para o que era antes, para sua origem. Estão divididos pela influência do mal, mas permanecem unidos por uma corda. Foi a interferência do carneiro, Áries, que permitiu a ascensão de um dos peixes, mostrando nesse ponto a força do Touro. Então, como Gêmeos, Cristo e sua esposa, a Igreja, estarão unidos para sempre tão firmes e seguros como aquilo que é segurado pelo tenaz do caranguejo, Câncer, e o Leão dá a esta união toda a sua atenção enquanto sua pata estará para sempre em oposição ou rejeição da serpente. Os signos internos, ou decanatos, confirmam a ação dos principais e lhes dão detalhes, mais brilho.

A história da salvação pode ser dividida em quatro grupos, como visto na figura abaixo:

Virgem, Libra e Escorpião: nascimento e luta.

Sagitário, Capricórnio e Aquário: vitória e a criação da Igreja.

Peixes, Áries e Touro: o fortalecimento da Igreja.

Gêmeos, Câncer e Leão: união e eternidade com os santos.

Figura 9 –  Planisfério dos Céus

(BULLINGER, E. W. The Witness of the Stars. Kregel Publications, 1967. Reproduzido com permissão de Kregel Publications.)

Este assunto é muito interessante, e agora precisamos nos atentar para o signo de Libra e ver o que ele nos ensina.

O Signo de Libra

Libra é outro nome para a balança. A primeira coisa a ser resolvida pelo Senhor Jesus após entrar na humanidade por meio da Virgem é lidar com a justiça de Deus. Libra é diferente dos demais signos. Além de ser externa ao curso da história dos personagens, é muito difícil, para não dizer impossível, ver de forma natural o seu desenho no céu. Para os demais símbolos um pouco de atenção e um pouco de criatividade te levam a desenhar os contornos das figuras, mas não com Libra.

Abaixo você vai ver o recorte das estrelas que a compõem. São os dois pratos de uma balança, mas estão um sobre o outro e não em oposição, o que demonstraria a prontidão para pesar. A balança está desmontada, colocada de lado, descansando sobre uma mesa porque já foi usada. Ela foi mostrada por Deus porque não tem como alguém deduzir o desenho dela pelas estrelas dessa constelação, ninguém desenha uma balança desse jeito:

E o que isso significa? Significa que a obra de Cristo é completa e já foi concluída no coração de Deus muito antes de Jesus Cristo ter vindo fisicamente a esta terra. Significa que toda a dívida já foi paga. Significa que não há pendências, que não há retrocessos por parte de Deus. Libra aponta para a nossa segurança em Cristo, para o descanso.


Figura 10 – O Signo de Libra

Descrição da Figura:

Figura mostra duas imagens da Constelação de Libra, a primeira como desenho dos dois pratos da balança em repouso e a segunda como recorte de Libra da figura do Planisfério dos Céus.

Sim, caro leitor, sabemos que há outras maneiras de mostrar a segurança da nossa salvação em Cristo. E você tem agora em mãos mais uma certeza, escrita onde ninguém pode apagar, escrita nas estrelas.

Salvação da Alma

O destino de uma pessoa depende da identificação dela com a vontade de Deus em passar a eternidade juntos. Deus sabe – sempre soube – quem estará com Ele no fim das contas e sabe também que é insuficiente só Ele saber disso. Cada pessoa precisa viver sua vida para poder concordar com o juízo de Deus a fim de que Sua justiça seja completa. Quando uma pessoa se alinha ao Desejo de Deus e “aceita” Sua manifestação visível, o Senhor Jesus Cristo, como seu único caminho de realizar essa aproximação, então dizemos que essa pessoa foi salva. Salva do destino comum de no fim ficar sem Deus.

Gostaríamos de recomendar a leitura de um livreto escrito por Watchman Nee intitulado A Salvação da Alma. Também sugerimos o livro dele O Homem Espiritual, traduzido pelo Delcio Meireles, cujas obras Josué e a Vida Depois da Vírgula e Tiago: Provação, Maturidade e Reino são importantes leituras para esse contexto.

Ele nos salvou no passado

O pecado de Adão causou muitos problemas. Por causa dele a primeira desconexão com Deus foi no nível espiritual. Depois nossa alma foi se alinhando mais e mais com nosso lado material fragilizando a conexão com o espírito, sua fonte primária de vida. Veja que o pecado ocorreu antes que Adão pudesse tomar da árvore da vida, e para impedir isso o Senhor colocou uma espada de fogo no caminho que dava para ela. Por que Adão não poderia comer desse fruto? Bem, se ele o fizesse a sua condição seria irreversível porque ele teria a imortalidade em pecado de forma que nunca poderia morrer nem ser substituído e representado por alguém que morresse por ele. Isso inviabilizaria o plano de salvação porque a morte do Senhor Jesus seria inútil, já que não conseguiria redimir o Homem por sua morte.

Pelo pecado o espírito morreu, o que significa que perdeu a comunhão com seu meio ambiente que é Deus. Ele não deixou de existir, assim como quando morremos não deixamos de existir, mas perdemos a comunhão com nosso meio ambiente material. Depois a alma e o corpo foram morrendo também. No processo de degradação a primeira parte atingida pelo pecado foi o espírito. Dentre suas funções de comunhão, consciência e intuição, a comunhão foi a primeira a ser atingida. Depois o pecado alcançou a alma alterando e degradando suas funções de emoção, mente e vontade. E, por fim, atingiu o corpo, que enfraquecido caminha para a morte.

Quando o espírito “morreu” ele perdeu parte de sua função para a alma, que recorreu ao corpo para suprir essa carência. Quando o Senhor morreu na cruz ele nos substituiu porque morreu por nós e também nos representou. E a mesma fé que aceita Sua substituição nos tirando do poder da morte também deve aceitar Sua representação fazendo morrer nele nosso espírito moribundo. Nosso Velho Homem, nosso desequilíbrio entre corpo e espírito, foi crucificado na cruz com Cristo e agora podemos usufruir do equilíbrio que há em Cristo, como vimos na Unidade Pecado. A salvação do espírito é a transformação dele em outra linguagem, na linguagem da árvore da vida. Isso só pode ocorrer depois que fomos substituídos por Ele porque se acontecesse antes estaríamos condenados a não sermos salvos. Agora, quando tomamos parte do Seu morrer podemos também tomar parte do Seu viver, da Árvore da Vida, Cristo, de Sua Vida, dEle mesmo em nós. E agora vivemos para sempre nEle, dentro dEle.

Caro leitor, a depender da sua bagagem essa explicação pode ser mais fácil ou menos fácil de entender. Como isso raramente é ensinado, o mais provável é que você ache difícil essa decodificação que acabamos de fazer. Mas não se desanime: leia as referências que deixamos apontadas no texto, e siga em frente para ter a visão do todo.

Podemos concluir que a salvação é eterna porque ela não é perdida, ela é a transformação de um espírito que estava desconectado de Deus em um novo espírito.

Os textos às vezes nos deixam confusos a respeito disso porque uns falam de um espírito novo e outros falam de um religamento do espírito. Para nos ajudar, vamos tomar como base o que vai acontecer no nosso corpo para entender o que já aconteceu ao nosso espírito: um dia nosso corpo será transformado de um corpo natural em um corpo celestial. Ele será transcrito, ou traduzido, em uma nova linguagem, como já vimos que ocorreu com Enoque e como também aconteceu com o Senhor Jesus. Era o mesmo corpo? Sim, mas traduzido. Nessa nova linguagem há a capacidade de desaparecer e reaparecer em outro lugar e há a capacidade de subir aos Céus, como exemplos. Pois bem: a salvação do espírito é de mesma natureza: é o mesmo espírito que recebemos ao sermos concebidos, mas tão diferente que nem parece o mesmo. Agora ele vive para sempre, tem comunhão com Deus, consegue fornecer à alma as impressões que obtém de Deus por meio do Seu Espírito, por exemplo.

A salvação começa a recuperar a pessoa de onde o pecado começou a destruí-la. Primeiro, Deus restaura o canal de comunhão salvando o espírito, depois Ele salva a alma durante nossa vida e, por fim, Ele salvará o corpo traduzindo-o para uma nova linguagem. O espírito já foi salvo quando cremos no Senhor Jesus. É passado para cada um que creu.

Ele nos salvará no futuro

O corpo natural é o meio de manifestação no Reino material dos aspectos imateriais da vida, o espírito e a alma. Quando o corpo se tornou dominado por sua vida biológica e não mais por sua fonte primária de vida, o espírito, ele se tornou o que é chamado de carne: a vida biológica dominando a alma.

O corpo será salvo quando formos ressuscitados com um corpo semelhante ao corpo celestial do Senhor Jesus Cristo. Isso ocorrerá para nós, que estamos neste tempo de hoje antes da Sua vinda, no dia do Tribunal de Cristo. É futuro.

Ele está nos salvando hoje

E a alma? Sua salvação está no presente, está em processo de transformação a cada dia, processo que começou com nossa mudança de rumo, conversão, e vai “terminar” quando atingirmos “a estatura de varão perfeito”. Isso leva toda a vida para acontecer. A salvação da alma é o alvo para o fim da nossa carreira, como nos diz Pedro: “Alcançando o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas” (I Pedro 1:9).

A alma é nossa essência, é quem somos. Nós possuímos um corpo e temos um espírito. Apesar de serem parte de nós e do que nós somos, é a alma que os vincula, que os “possui”. Por isso a Palavra fala “a alma que pecar, esta morrerá”. A alma é salva no presente.

Ela é salva de uma forma diferente… Enquanto a mudança de linguagem é operada por Deus sobre o espírito no passado e sobre o corpo no futuro transformando-os em espíritos vivos e em corpos celestiais, a alma deve ser perdida por amor a Cristo aqui. Isso mesmo: perdida.

Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me; porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á. Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma? Ou que dará o homem em recompensa da sua alma? Porque o Filho do homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos; e então dará a cada um segundo as suas obras. (Mateus 16:24-27)

Ganhar a alma é gerar obras que tenham valor no julgamento de Cristo de forma que nos habilite a entrar no Reino de Cristo. Perder a alma/vida é ficar fora do Reino. E como se consegue entrar no Reino, ou seja, ganhar/salvar a alma/vida? Perdendo-a aqui.

Se doamos a nossa vida/tempo aos outros por Cristo estamos nos desfavorecendo aqui, estamos perdendo aqui. E estamos ganhando lá. Se queremos “nos dar bem” aqui aproveitando tudo o que o mundo nos oferece, estamos perdendo lá no Reino – que é o que realmente importa.

A salvação da alma é o amadurecimento da vida de Cristo em nós para que possamos dar frutos para alimentar os outros. O Senhor Jesus nos dá entendimento para fazer isso, mas diferentemente do espírito e do corpo, nos quais a salvação é dada por uma transformação direta por Ele, não há transformação de alma por parte dEle. Ela é a mesma que tínhamos antes de sermos alcançados pelo Senhor e é a que teremos em Seu Reino. Nós somos os responsáveis por mudar as nossas almas a favor de Cristo, e ao fazermos isso estaremos perdendo, e muito, aqui na terra, mas em uma proporção muito maior estaremos ganhando em Seu Reino.

E se não quisermos fazer isso? Bem, teremos uma participação menor do que poderíamos ter em Seu Reino. E até mesmo podemos ficar fora dele, fora do Reino de luz, nas trevas exteriores ao Reino de justiça do Senhor Jesus.

Recomendamos a leitura do livreto A Salvação da Alma de Watchman Nee.

As Trevas Exteriores

Se você foi ansioso e veio direto a este tópico precisamos lhe pedir, como um favor a você mesmo, que leia tudo até aqui para não se perder, e em especial o último capítulo.

Resumindo até aqui, quem morre sem crer em Deus, sem esperança, fica aguardando o Juízo Final no Sheol. E quem morre crendo em Deus vai para o Paraíso. O Paraíso antes da ressurreição de Cristo era embaixo da terra, mas Ele o levou para cima, para o céu. Hoje, o crente que morre vai acordado para o céu.

Agora precisamos analisar uma dificuldade: os crentes carnais citados por Paulo em I Coríntios 2. Estes sempre dão muito trabalho, não é verdade?! Vamos organizar nossa mesa de trabalho: precisaremos de umas definições, algumas referências bíblicas, umas bases estruturais, um pouco de persistência, e claro, precisamos trocar os óculos.

Pecado

O pecado é um desvio de alvo que está na mira, como no tiro com arco e flecha em que a flecha atinge onde não se estava mirando, fora da marca. Quando considerado como ação, pode ser causado pela tríade: imperícia, imprudência e negligência. Isso é externo à pessoa, ainda que a consequência seja sobre si mesma e não sobre outra pessoa. Mas o pecado não para neste nível transitório das ações, do momento, do estar. Nesse nível teríamos subníveis: rata (o pecado por erro), pecha (o pecado com a intencionalidade) e avon (o pecado como fruto de um desvio), nesta ordem.

No primeiro nível todos os pecados estão perdoados quando a pessoa crê em Cristo, e a partir desse ponto cada um desses novos pecados que não for tratado em vida serão resolvidos quando esse crente morrer. Não exatamente o pecado como ofensa a Deus porque todos já foram perdoados na cruz, mas a falha de caráter, a imaturidade espiritual que deu passagem a ele. Ele vai para o Paraíso e depois passará pelo julgamento do bema, um julgamento interno, familiar, em que o pai de família dá honra aos que agiram bem e disciplina as condutas erradas, o Tribunal de Cristo.

Mas há outro nível, o do ser. Isto é mais interno e atenta diretamente contra Deus porque se refere a uma má representação da natureza divina, o amor e a misericórdia. Deus é amor, e a falta de amor pelos irmãos testemunha que não O conhecemos como deveríamos. Somos salvos pela pura misericórdia imerecida de Deus por nós, e quando não estendemos aos outros o que recebemos de graça, isso também testemunha que não O conhecemos como deveríamos. Estas duas atitudes, a falta de amor e a falta de misericórdia são pecados contra as outras pessoas em um nível essencial, por exemplo, porque lhes roubamos a oportunidade de serem supridas pelo Senhor precisamente naquilo por meio do qual nós fomos alcançados. É negar ao outro aquilo que nada nos custou para obter.

No caso de Moisés, a má representação que fez perante o povo por ter batido na rocha para que ela desse água em vez de ter falado a ela, como Deus tinha mandado, o impediu de entrar em Canaã naquela época.

O crente tem duas possibilidades de viver: de forma espiritual e de forma carnal. Mas é um pouco mais: o tempo em que não se está agindo de um jeito é contado como se estivesse agindo do outro jeito. Quanto mais tempo e áreas da vida ele deixa guardadas contra a atuação de Deus, mais ele dedica esses espaços a si mesmo se identificando cada vez mais com a sua origem carnal e cada vez menos com sua vocação espiritual.

Como sabemos que no fim todos os crentes estarão em perfeição eternamente com o Senhor, então se o crente acaba sua caminhada em vida com um déficit em relação ao que poderia ter sido – e sabemos que o nosso padrão é Cristo –, ele precisará ser corrigido naquilo em que, tendo a oportunidade de se autocorrigir, não o fez. E duas das coisas que nos levam a esta posição são a falta de amor e a falta de misericórdia.

Deus dá o exemplo

O Senhor um dia julgará todas as pessoas, mas os primeiros da fila são os de Sua casa[15] para que ninguém possa levantar essa falta em juízo. E enquanto todos os que não passaram da morte para a vida estão aguardando o julgamento no Sheol, os que passaram para a vida estão aguardando a volta de Cristo sobre a terra para que juntamente voltem também. Sua volta será em glória celestial e não novamente em humildade terrena. Com Ele voltaremos no mesmo padrão, também em corpos celestiais. Para atingirmos esse ponto, de representá-Lo em corpos parecidos com o dEle, será necessário que internamente também sejamos como Ele é, e para isso precisamos passar por um processo de purificação, não de pecados, mas de obras, de caráter.

O Tribunal de Cristo

Entre a saída de Cristo do Seu trono no céu e a chegada dEle sobre o Monte das Oliveiras, haverá uma etapa nas nuvens, como nos instruíram as duas testemunhas[16] da sua ascensão junto com os discípulos. Naquele momento haverá o Tribunal de Cristo, no qual cada crente terá suas obras transformadas, em alguma proporção, em seis materiais: ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno e palha. E com suas obras em mãos cada um se aproximará de Cristo para o Seu exército que descerá à Terra.

Segundo a graça de Deus que me foi dada, pus eu, como sábio arquiteto, o fundamento, e outro edifica sobre ele; mas veja cada um como edifica sobre ele. Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo. E, se alguém sobre este fundamento formar um edifício de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, a obra de cada um se manifestará; na verdade o dia a declarará, porque pelo fogo será descoberta; e o fogo provará qual seja a obra de cada um. Se a obra que alguém edificou nessa parte permanecer, esse receberá galardão. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá detrimento; mas o tal será salvo, todavia, como pelo fogo. (I Coríntios 3:10-15)

Imagine um corredor ou uma passarela. “Porque o nosso Deus é um fogo consumidor” (Hebreus 12:29), as obras que cada um estiver levando em suas mãos por aquele corredor serão provadas pelo fogo do Senhor, o que revelará a essência de cada obra.

A figura que usou Paulo nos deixa claro que só sobra o que é resistente ao fogo e que se algo indevido é trazido à presença de Deus o ofertante sofre o dano causado pela incineração da sua oferta. A pessoa sai chamuscada, mas é salva.

Em Apocalipse 2:11 vemos que aquele “que vencer não receberá o dano da segunda morte”, sendo que a segunda morte é ser lançado no Inferno e o dano dela é o fogo consumidor. E o que não vencer? Ele não vai receber a segunda morte em si porque já foi salvo, mas o dano dela, a força do fogo consumidor dela. Lembre-se de que o Juízo de Deus começa pela Casa de Deus. Então, naquela passarela no dia do Tribunal de Cristo a obra de cada um será revelada se resiste à prova do fogo.

Figura 11 – A Dinâmica da Morte na Era Atual

Descrição da Figura:

A figura ilustra uma linha do tempo teológica que se estende da era atual até o Milênio, com um ponto de transição crucial no Tribunal de Cristo, que marca o fim da Grande Tribulação. Na era atual, as almas dos crentes, incluindo aqueles que demonstram falta de amor e misericórdia, são direcionadas ao Paraíso no céu, onde aguardam “acordadas”, enquanto as almas dos descrentes vão para o Sheol, onde esperam em “sono”. Após a Grande Tribulação, o Tribunal de Cristo determina o destino dos crentes para o Milênio: aqueles considerados fiéis entram no Reino de Cristo na Terra, enquanto os crentes sem amor e misericórdia são enviados para as “Trevas, as exteriores”, localizadas abaixo da Terra. O Sheol, onde os descrentes aguardam, permanece inalterado durante esse período.


Mas quem não teve amor ou misericórdia teria algo a apresentar para avaliação nesse tribunal? Vamos ver que o Senhor Jesus falou em algumas parábolas que o servo inútil perde tudo o que tinha conseguido antes de se tornar inútil. Nas palavras de Paulo, “mas o tal será salvo, todavia, como pelo fogo”. Durante o Milênio, o fluxo pode ser visto nesta figura:

Figura 12- O Tribunal de Cristo e o Milênio

Descrição da Figura:

A figura ilustra a dinâmica dos destinos pós-morte durante o Milênio, um período que se inicia após a Grande Tribulação, com a prisão de Satanás, e termina com a sua soltura, que antecede o Juízo Final. Nesse período, os incrédulos que morrem são levados para o Sheol, onde continuam a aguardar em “sono”. Em contraste, os crentes fiéis entram no Reino de Cristo na Terra. Já os crentes sem amor e misericórdia são direcionados para as “Trevas, as exteriores”, um local de disciplina, de onde são posteriormente elevados para se unirem aos demais crentes no Reino de Cristo, antes do Juízo Final. O diagrama conclui com o Tribunal do Trono Branco, o Juízo Final, que leva os incrédulos para o Lago de Fogo, enquanto os crentes entram na Eternidade.

A medida de Cristo

Todos nós somos medidos pelo que fazemos, pesados em uma balança[17], para ver se estamos aquém, em falta, ou não em relação a um padrão. A consequência de atingirmos um nível muito baixo é sermos cortados e perdermos o direito de continuarmos vivos. Foi o que aconteceu com Ananias e Safira perante Pedro e o mesmo com toda a terra na época de Noé: perderam o direito de continuarem a viver. Essa balança evidencia uma equação matemática que Ele usa. De um lado, temos Cristo; e, de outro, temos a nós. Só tem um jeito de haver equilíbrio na equação.

Esperança = Nós X Variável Percentual C

Precisamos multiplicar, amalgamar, uma variável em nós, a Variável Percentual C, “C” de Cristo. Paulo nos instruiu sobre essa variável quando disse que Cristo em nós é a esperança da glória[18]. Vamos fazer umas simulações:

  1. Variável Percentual de Cristo em Nós = 0%

Esperança = Nós X Variável Percentual C

Esperança = 100 X 0%

Esperança = 0

  • Variável Percentual de Cristo em Nós = 30%

Esperança = Nós X Variável Percentual C

Esperança = 100 X 30%

Esperança = 30

  • Variável Percentual de Cristo em Nós = 100%

Esperança = Nós X Variável Percentual C

Esperança = 100 X 100%

Esperança = 100

Se Cristo está em nós há a esperança de algo a ser pesado, um agir dEle em nós, uma obra de natureza divina em nós. A diferença entre o que temos e o que deveríamos ter é o déficit medido na balança. Essa balança pesa a obra de Cristo (ouro, prata e pedras preciosas) nos dois pratos, não os pratos de Libra, os da justiça de Deus, mas os pratos da avaliação da vida de Cristo em nós e por isso os outros pesos (madeira, feno e palha) são retirados, queimados.

Agora vamos passar pelos textos que tratam dessa separação para os crentes e distingui-los da destinação dos incrédulos.

Correção dos Crentes

A ilusão de que não há punição perante Deus para os crentes é prejudicial à saúde espiritual. É fruto de uma teologia torta que serve a propósitos malignos de impedir ou desincentivar uma vida correta na busca dos propósitos de Deus. Quem ganha com isso? Todos os que desfrutam dos benefícios de ter aos seus pés um bando de iludidos que querem ouvir apenas o que lhes agrada. Quais benefícios? Dinheiro, honra, poder, prazer: o de sempre, as coisas deste mundo.

A verdade de que o Reino é tomado à força[19] é escondida desses ouvintes, que de bom grado agradecem o favor de não se ouvir a verdade. Então se deixam enganar pelo conforto de não precisar tomar posição contra o conforto que o mundo oferece. Mas a verdade prevalece: há uma guerra diária entre nós e nossos desejos naturais, entre nosso destino celestial e nossa origem terrena. Uma guerra no terreno do inimigo, com vantagem estratégica dele. Uma guerra cuja propaganda é exatamente a distração da existência do conflito.

Quem romper com seu chamado natural com violência[20] para atender ao chamado celestial do Seu General terá em Seu Reino várias compensações. Aos inimigos restará a destruição. Mas e quanto aos soldados que foram vencidos ou que não cumpriram de forma completa as missões – os seus chamados pessoais? O que o General fará com estes? Ele vai fazer com que experimente um pouco do destino que os Seus inimigos tiveram para então deixá-lo entrar no Seu Reino. Vamos ver a seguir as instruções que nosso General nos deixou.

O Mau Servo

Depois de um longo período de ensino, Jesus estava saindo da área do Templo em Jerusalém e seus discípulos comentaram sobre aquelas construções. Em resposta Jesus disse que tudo aquilo seria destruído. Pouco depois chegaram no Monte das Oliveiras e conversaram mais sobre isso, o fim dos tempos e seus sinais. Então Ele reforça a distinção que fará na Sua volta entre os servos bons e os ruins pelas atitudes e destinos:

Quem é, pois, o servo fiel e prudente, que o seu senhor constituiu sobre a sua casa, para dar o sustento a seu tempo? Bem-aventurado aquele servo que o seu senhor, quando vier, achar servindo assim. Em verdade vos digo que o porá sobre todos os seus bens. Mas se aquele mau servo disser no seu coração: O meu senhor tarde virá; e começar a espancar os seus conservos, e a comer e a beber com os ébrios, virá o senhor daquele servo num dia em que o não espera, e à hora em que ele não sabe, e separá-lo-á, e destinará a sua parte com os hipócritas; ali haverá pranto e ranger de dentes. (Mateus 24:45-51)

O servo útil, o que foi fiel e prudente, espera pela volta do seu senhor, cuida da casa e dos conservos; o servo inútil, o mau servo, não espera pelo seu senhor, maltrata seus conservos e sai da casa e da prática da casa. Veja que não é um “servo mau”, mas um “mau servo”: não é a essência do que ele é, mas o comportamento dele que está em jogo. Como consequência, o que foi útil no pouco será colocado sobre muito e o que foi um mau servo será separado para desfrutar do mesmo destino daqueles com quem andava, os ébrios.

Temos aqui o senhor, o servo útil, os conservos também úteis em alguma medida, o mau servo e os ébrios. Os servos, os de dentro da casa, formam um grupo diferente dos ébrios, os de fora. O mau servo será separado do grupo a que pertence e partilhará a sorte do grupo a que não pertence, mas do qual se aproximou para “curtir a vida”.

E por que este é o ensino da parábola? Porque o contrário seria inaceitável, que o senhor tivesse colocado sob sua casa um ébrio para cuidar dos demais. O mau servo se tornou mau servo, ele quis “aproveitar” a vida como um ébrio, mas ele não era assim quando foi deixado na casa para cuidar dela porque o senhor não deixaria sua casa aos cuidados de alguém de fora nem a deixaria sob os cuidados de um mau servo. Ele era um bom servo. Bom o suficiente para poder cuidar de si e dos outros. Ele se tornou um servo ruim, mas continuou sendo um servo.

É por isso que o senhor, quando voltar, terá o poder de puni-lo, porque é o senhor dele e ele é servo do seu senhor. O servo útil e o inútil são ambos servos, são os crentes da história. Os não crentes estão fora da casa se regalando com os excessos deste mundo, são os ébrios, os que não têm equilíbrio.

E a consequência é que o mau servo foi forçado a compartilhar a sorte daqueles por quem tinha admiração. Foi forçado a ficar fora da casa que antes ele tinha pleno acesso e ocupação.

Ele ficará fora da casa, sofrendo por não estar no lugar certo.

Então Jesus continua com outros exemplos que seguirão o mesmo princípio e acrescentarão outras nuances. A parábola das virgens.

As Dez Virgens

Então o Reino dos Céus será semelhante a dez virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram ao encontro do esposo. E cinco delas eram prudentes, e cinco loucas. As loucas, tomando as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo. Mas as prudentes levaram azeite em suas vasilhas, com as suas lâmpadas. E, tardando o esposo, tosquenejaram todas, e adormeceram. Mas à meia-noite ouviu-se um clamor: Aí vem o esposo, saí-lhe ao encontro. Então todas aquelas virgens se levantaram, e prepararam as suas lâmpadas. E as loucas disseram às prudentes: Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas se apagam. Mas as prudentes responderam, dizendo: Não seja caso que nos falte a nós e a vós, ide antes aos que o vendem, e comprai-o para vós. E, tendo elas ido comprá-lo, chegou o esposo, e as que estavam preparadas entraram com ele para as bodas, e fechou-se a porta. E depois chegaram também as outras virgens, dizendo: SENHOR, Senhor, abre-nos. E ele, respondendo, disse: Em verdade vos digo que vos não conheço. Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora em que o Filho do Homem há de vir. (Mateus 25:1-13)

Aqui temos dez mulheres aptas ao casamento com o Noivo[21], porém cinco delas não tinham reserva suficiente de azeite em suas candeias e perderam o momento da entrada para a casa dEle.

Não são cinco virgens e cinco depravadas, não. Nem são cinco com azeite e cinco sem azeite, mas umas com o suficiente e outras com a quantidade insuficiente. A diferença está na prudência delas e não na caracterização da virgindade ou na capacidade de ter azeite, nem nas roupas nem no sono, nem no tamanho da lâmpada que traziam, nestas coisas elas eram iguais. As que tinham pouco azeite foram imprudentes por não se terem suprido o suficiente visto que poderiam ter feito isso, assim como as outras, mas não quiseram fazer por estarem ocupadas com outras coisas que se provaram menos importantes agora.

A consequência é que ficaram fora da festa de casamento, fora do próprio casamento para o qual se apresentaram. Elas amavam o noivo e iam se casar com Ele, mas Ele não as recebeu para a cerimônia porque não as podia ver. Elas não estavam iluminadas porque suas lâmpadas se apagaram, e sem luz elas eram irreconhecíveis na escuridão. Então ficaram fora, nas trevas exteriores à casa do noivo. Ficarão fora sofrendo por não estarem no lugar certo, e lá ficarão por não terem se preparado adequadamente para entrar, por não atingirem as condições para entrar.

Ficarão nas trevas exteriores.

O Servo Inútil

Na parábola dos talentos cada um recebeu o dinheiro para administrar conforme a capacidade que eles tinham, mas um dos servos não trabalhou com os recursos que recebeu. Então a sentença do senhor quando voltou foi: “Lançai, pois, o servo inútil nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes” (Mateus 25:30).

Na versão das minas (outra medida do dinheiro) há mais um personagem, os inimigos, que serão eliminados: “E quanto àqueles meus inimigos que não quiseram que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui, e matai-os diante de mim” (Lucas 19:27).

Temos então três classes de pessoas: os inimigos e os servos, sendo uns servos bons e outros, maus. Os inimigos serão destruídos; aos bons servos serão dadas mais coisas ainda para administrarem (participação no Reino que virá) e aos maus servos, os que se recusam a trabalhar com aquilo que o Senhor lhes deu para fazer, tudo o que têm lhes será tirado e eles ficarão nas trevas de fora da casa.

As Roupas Erradas

Jesus diferenciou mais uma vez os inimigos dos amigos que não se prepararam para o Seu evento:

Então Jesus, tomando a palavra, tornou a falar-lhes em parábolas, dizendo: O Reino dos Céus é semelhante a um certo rei que celebrou as bodas de seu filho; e enviou os seus servos a chamar os convidados para as bodas, e estes não quiseram vir. Depois, enviou outros servos, dizendo: Dizei aos convidados: Eis que tenho o meu jantar preparado, os meus bois e cevados já mortos, e tudo já pronto; vinde às bodas. Eles, porém, não fazendo caso, foram, um para o seu campo, outro para o seu comércio; e os outros, apoderando-se dos servos, os ultrajaram e mataram. E o rei, tendo notícia disto, encolerizou-se e, enviando os seus exércitos, destruiu aqueles homicidas, e incendiou a sua cidade.

Então diz aos servos: As bodas, na verdade, estão preparadas, mas os convidados não eram dignos. Ide, pois, às saídas dos caminhos, e convidai para as bodas a todos os que encontrardes. E os servos, saindo pelos caminhos, ajuntaram todos quantos encontraram, tanto maus como bons; e a festa nupcial foi cheia de convidados. E o rei, entrando para ver os convidados, viu ali um homem que não estava trajado com veste de núpcias. E disse-lhe: Amigo, como entraste aqui, não tendo veste nupcial? E ele emudeceu. Disse, então, o rei aos servos: Amarrai-o de pés e mãos, levai-o, e lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes. Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos. (Mateus 22:1-14)

Temos aqui o rei, os inimigos que foram destruídos, os servos e os convidados substitutos, os convidados, dentre os quais havia um chamado de amigo. Este não vestiu a roupa de festa que lhe foi dada tanto para ele quanto para todos os demais convidados. Isso era um costume de alguns reis, o de fornecer as roupas para a festa, o que evitava que alguém se vestisse melhor que o rei ou melhor do que a quem o rei queira destacar.

Os inimigos foram destruídos e os convidados participaram da festa, mas o imprudente foi tirado da festa. Ficou fora da casa iluminada da festa, ficou nas trevas exteriores ao salão de festas, amarrado lá fora. Ele não foi morto como os inimigos o foram. Ele é um amigo, contudo, não se preparou devidamente para a festa, preparo que não lhe custaria nada, visto que a roupa lhe foi oferecida de graça. Ele só tinha um trabalho para fazer. O seu trabalho era apenas vestir a roupa que recebeu de graça e se preparar para a festa.

Ele desagradou o rei e foi tirado da festa, tirado para perder a festa toda. Só será desamarrado pelos servos do rei quando a festa acabar. Pode acontecer que durante a festa algum dos servos do rei perceba que o convidado imprudente estaria disposto a vestir as roupas adequadas e voltar à festa? Pelo contexto dessa parábola, não, porque o momento de se preparar para a festa é antes de seu começo. E ele podia se preparar, mas não quis fazer isso.

Todavia, no contexto do milênio, parece que existe a possibilidade dos “poucos açoites” se cumpram e os servos possam entrar no Reino.

O Devedor Incompassivo

Mateus nos deixou registrada uma parábola do nosso Senhor ambientada no ensino do perdão:

Então Pedro, aproximando-se dele, disse: Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete? Jesus lhe disse: Não te digo que até sete; mas até setenta vezes sete.

Por isso o Reino dos Céus pode comparar-se a um certo rei que quis fazer contas com os seus servos; começando a fazer contas, foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos; não tendo ele com que pagar, o seu senhor mandou que ele e sua mulher e seus filhos fossem vendidos, com tudo quanto tinha, para que a dívida se lhe pagasse. Então aquele servo, prostrando-se, o reverenciava, dizendo: Senhor, sê generoso para comigo, e tudo te pagarei.

Então o senhor daquele servo, movido de íntima compaixão, soltou-o e perdoou-lhe a dívida.

Saindo, porém, aquele servo, encontrou um dos seus conservos, que lhe devia cem dinheiros, e, lançando mão dele, sufocava-o, dizendo: Paga-me o que me deves. Então o seu companheiro, prostrando-se a seus pés, rogava-lhe, dizendo: Sê generoso para comigo, e tudo te pagarei. Ele, porém, não quis, antes foi encerrá-lo na prisão, até que pagasse a dívida.

Vendo, pois, os seus conservos o que acontecia, contristaram-se muito, e foram declarar ao seu senhor tudo o que se passara. Então o seu senhor, chamando-o à sua presença, disse-lhe: Servo malvado, perdoei-te toda aquela dívida, porque me suplicaste. Não devias tu, igualmente, ter compaixão do teu companheiro, como eu também tive misericórdia de ti? E, indignado, o seu senhor o entregou aos atormentadores, até que pagasse tudo o que devia.

Assim vos fará, também, meu Pai celestial, se do coração não perdoardes, cada um a seu irmão, as suas ofensas. (Mateus 18:21-35)

É uma comparação entre o perdão de uma dívida 10 mil talentos de prata, cerca de 340.000 kg, um volume para o qual seriam necessários vários caminhões para transportar, e outra dívida de 100 moedas de prata, cerca de 0,5 kg, algo 680 mil vezes menor.

Ambos eram servos, ambos tinham dívidas, não tinham condições de pagá-las, foram ameaçados de perderem tudo e irem para uma prisão com carrascos, e ambos clamaram por misericórdia. O que obteve misericórdia não a repassou. Como consequência, sua dívida foi restabelecida.

O rico e Lázaro

Até aqui mostramos cinco parábolas que o Senhor Jesus proferiu sobre a penalidade para os que não estiverem prontos para entrar no Seu Reino quando Ele voltar para estabelecê-lo aqui na terra: ficar fora dele, não participar dele. Em resumo, quem não salvar a sua alma aqui vai perdê-la no Reino vindouro, ficando fora dele. O período de tempo de que estamos falando é de agora, depois de Cristo, até o início do Seu Reino, o Milênio.

Em Lucas 16 o Senhor estava repreendendo a avareza que os fariseus demonstravam. Então ele lhes conta uma história, e não uma parábola, sobre um homem rico que não usou adequadamente os seus bens. Como o Senhor ainda não tinha sido glorificado, pelo que vemos da localização do Paraíso na história, isso posiciona os fatos no contexto do Antigo Testamento, antes da cruz. Leiamos o texto:

Ora, havia um homem rico, e vestia-se de púrpura e de linho finíssimo, e vivia todos os dias regalada e esplendidamente. Havia também um certo mendigo, chamado Lázaro, que jazia cheio de chagas à porta daquele; e desejava alimentar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico; e os próprios cães vinham lamber-lhe as chagas. E aconteceu que o mendigo morreu, e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão; e morreu também o rico, e foi sepultado.

E no Inferno [Hades/Sheol], ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu ao longe Abraão, e Lázaro no seu seio. E, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim, e manda a Lázaro, que molhe na água a ponta do seu dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama. Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro somente males; e agora este é consolado e tu atormentado. E, além disso, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam, nem tampouco os de lá passar para cá.

E disse ele: Rogo-te, pois, ó pai, que o mandes à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos; para que lhes dê testemunho, a fim de que não venham também para este lugar de tormento. Disse-lhe Abraão: Têm Moisés e os profetas; ouçam-nos. E disse ele: Não, pai Abraão; mas se algum dentre os mortos fosse ter com eles, arrepender-se-iam. Porém, Abraão lhe disse: Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite. (Lucas 16:19-31)

Estes dois lugares, o Sheol e o Seio de Abraão, estão em um mesmo plano sendo separados por um abismo. A percepção de distância seria de uns 30 ou 50 metros porque o rico conseguiu ver Lázaro e falar com Abraão. Perceba que ele não fala de outras coisas que ele vê, mas apenas de Lázaro. O lugar em que Lázaro está é no colo de Abraão em uma posição de descanso, de consolo, e está dormindo profundamente. O estar dormindo no lugar dos mortos é a regra da casa tanto para crentes como para não crentes antes desse lugar a que chamamos de Paraíso ter sido movido de dentro do lugar geral dos mortos, o Sheol, para o céu após a ressurreição de Cristo, como já vimos em capítulo próprio. Agora, os que vão ao Paraíso, os crentes, ficam acordados e os que descem ao Sheol, os incrédulos, ficam dormindo. E os crentes que se comportam como se fossem incrédulos? Vamos ver.

O lugar em que o rico está é o Sheol, ou Hades em grego, e não o Inferno que, como já vimos, ainda não está habitado porque ainda não foi inaugurado e será um destino terminal diferentemente do Sheol, que é um destino transitório. Já vimos antes que o Sheol é um lugar em que os mortos aguardam o julgamento final, motivo pelo qual estão à espera e o fazem dormindo porque não pode haver punição sem um julgamento apropriado, e eles não podem ser julgados sem comparecer diante do juiz, e isso não pode ser feito estando pelados, sem o revestimento dos seus corpos.

Mas o rico estava bem acordado! Ele estava no lugar dos mortos, assim como Lázaro, mas em compartimentos diferentes. Vamos chamar esse lugar de Sheol Restrito.

O que separa esses dois lugares é um abismo, que pode não ser o lugar chamado de abismo em que os demônios ficarão presos durante o Milênio, mas se for, não há prejuízo para o entendimento das lições que o Senhor Jesus estava dando, cujo foco é o que aconteceu com o Rico.

O rico era um crente, mas se comportou como os que não temem a Deus e viveu regaladamente sabendo que Lázaro estava à sua porta e não se importava com isso. O rico, por causa da sua avareza (motivo dessas palavras do Senhor Jesus aos fariseus), escolheu ativamente não compartilhar nada com o seu próximo, o mendigo Lázaro, faltando assim a dois princípios pelos quais todos são julgados: o amor e a misericórdia. Ele quis fazer assim. E por se comportar dessa forma em vida, precisou ser corrigido na morte porque não se corrigiu em vida.

Você, nosso atento leitor, talvez se pergunte agora o porquê de ele estar sendo punido sem ter passado por um julgamento antes; e se isso ocorreu, tudo se torna injusto. Todos nós que cremos no Senhor Jesus hoje e todos os que O aguardavam antes da sua primeira vinda fomos conformados nEle em Sua morte, fomos julgados nEle. O Julgamento que pesou sobre Ele nos trouxe à vida, e fez isso porque Ele nos substituiu e nos representou sobre o madeiro. Sim, já fomos julgados e perdoados de tudo até aquele momento de conversão de nossa trajetória normal para o afastamento eterno de Deus. Agora, devidamente julgados, vivemos por Ele e para Ele.

Ora, já passamos da morte para a vida, de inimigos do Senhor para servos dEle. Ele é o nosso Dono porque nos comprou com o Seu sangue. Nós não temos mais a nossa vida, mas Ele a tem; o nosso espírito não é mais o original, mas um espírito renovado; nosso corpo agora tem a promessa de transformação para um corpo celestial; nós não somos mais de nós mesmos porque Ele nos comprou e colocou em nós o Seu próprio Espírito. O que aconteceria se nos amoldássemos de novo ao estilo de vida de Seus inimigos? Bem, só a dor gera compreensão…

O que aconteceria é exatamente o que aconteceu com o Rico. Ele foi punido em seu espírito e alma com um pouco daquilo que os inimigos do Senhor sofrerão em seus corpos e almas no Lago de Fogo, o verdadeiro Inferno. Por quanto tempo? Até que seja pago o último centavo, até que seja gerada a compreensão e o arrependimento.

Voltemos ao Rico, que agora só o é de nome:

E no Sheol (Restrito), ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu ao longe Abraão, e Lázaro no seu seio. E, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim, e manda a Lázaro, que molhe na água a ponta do seu dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama.

Começando de trás para frente, vemos que ele se reconhece dentro de uma chama que o está queimando. O calor e a ardência sentidos aqui não são sensações físicas porque o corpo está na sepultura. Quando pensa em alívio indica só uma gota de água para a sua língua, que nem poderia receber essa água porque a língua ficou junto com o resto do corpo na sepultura. As coisas aqui são espirituais, e não físicas. Ele está sofrendo em sua consciência e não em seu corpo. Como descreveu Paulo em Romanos 12:20: “Portanto, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas de fogo sobre a sua cabeça” Nossa bondade queima a consciência do nosso inimigo. Assim está sendo queimado o Rico, em fogo na sua consciência, que sabia o certo a ser feito e quis fazer o errado.

E aqui um grande absurdo: ele pede que a misericórdia do alívio seja instrumentalizada por meio de Lázaro sendo que ele em vida não se colocou como instrumento de misericórdia de Deus para o Lázaro. O rico não está se arrependendo ainda, mas com certeza está sofrendo muito. Ele está resignado em seu sofrimento porque sabe que é justo. Ele não pede para parar o sofrimento, mas por uma gota de água. Ele não se dispõe a gritar pedindo perdão ao Lázaro porque não reconhece que está ali por conta do que fez com o Lázaro, então ele clama pelo Pai Abraão, e não por Lázaro! Ele quer que Lázaro o sirva, que Abraão o sirva! Ele não busca pelo perdão, mas por alívio. Ele não se importa pelo que fez os outros passarem, mas apenas consigo mesmo. O seu egoísmo e avareza continuam presentes e ativos neste ponto da história.

Observe que a língua do rico ali não é real nem o dedo de Lázaro. Ambos estão mortos e sem seus corpos. Lázaro só está ali na visão do rico e apenas para ele. O Pai Abraão é a figura que o Senhor Jesus usou emprestada da devoção que os fariseus com quem estava falando tinham. Se alguém nos pega no colo, seria Deus e não Abraão porque ele mesmo estaria nesse colo de Deus. É uma figura para destacar que a pessoa que tanto prezavam, para não falar que quase idolatravam, será a mesma que não se tornará compassiva com os incompassivos só porque agora estão mortos.

A figura aponta para a realidade: o rico podia “ver” Lázaro porque esta era a pessoa contra a qual sua avareza foi denunciada perante Deus. Assim como o sangue de Abel derramado pela terra denunciou a Deus o assassinato cometido por Caim, a figura de Lázaro denunciava o rico por sua avareza.

No próximo passo o rico pede a Abraão que Lázaro volte e fale com os seus irmãos para que não cometam os mesmos erros que ele cometeu. Isto também é negado, e apesar de continuar achando que Lázaro lhe deve algum favor, pelo menos há o reconhecimento de que ele mesmo não poderia sair daquele lugar. Então Abraão diz que os vivos têm Moisés e os profetas, que os ouçam. E este é o arremate que o Senhor Jesus dá à avareza dos fariseus: se eles ouvissem aos que de boca tanto louvam, não correriam o risco da mesma punição que o rico estava tendo.

E qual o fim do Rico? Ele ficou lá até que o sofrimento o levou a reconhecer suas faltas com o Lázaro. Como esse “tempo” é uma percepção espiritual, não sabemos ao certo, mas sabemos que foi encerrado antes da ressurreição de Cristo porque o Paraíso precisava ser esvaziado. Então ele foi tirado do sofrimento e levado para o outro lado do abismo, para o Seio de Abraão onde adormeceu até o tempo da ressurreição. Por quanto tempo? Ora, da mesma forma que o tempo é uma percepção espiritual no Sheol restrito, também o é no Paraíso: pode ter sido um dia ou dez anos, não sabemos e também não importa. Quando ambos ressuscitaram, o rico procurou por Lázaro e pediu o seu perdão. Lázaro ofereceu seu abraço porque não tinha nada a perdoar já que não se sentia ofendido pelo Rico, o que provavelmente o deixou mais surpreso ainda. Ambos conversaram muito entre si e assim subiram ao Paraíso, agora nos Céus.

A avareza foi o que levou o rico para o lugar de miséria e sofrimento. Ela pode ser decomposta na falta de amor e na falta de misericórdia, as duas características que sabemos que serão motivo de punição. Antes da ressurreição de Cristo o Paraíso ficava no mesmo plano do Sheol restrito, mas e agora, como Deus trata os seus filhos que não O representam adequadamente perante as outras pessoas agindo sem o amor e sem a misericórdia de que foram alvos um dia?

Uma disciplina aos julgados

Há esse meio-termo, o crente carnal, contra o qual somos alertados. Um alerta para os que foram salvos, mas não desenvolvem a salvação. O Senhor se referiu a estes em Sua carta a Laodiceia no livro de Apocalipse como mornos, característica que O fará vomitá-los da Sua boca e jogá-los para fora. Isso equivale, nas palavras de Mateus, a serem colocados para fora da casa durante o período da noite, nas trevas exteriores.

Esse lugar não é o Inferno, claro. É um lugar com algumas características do Inferno, com “gosto” de Inferno, com cheiro” de Inferno, com o “calor” do Inferno, mas existe um término para ele. Este lugar é o Sheol citado pelo Senhor Jesus na história do rico e de Lázaro. É chamado de Sheol porque está sob a terra para acolher pessoas que morreram, mas não é o Sheol normal em que as pessoas aguardam o julgamento. É um Sheol em que a penalidade do julgamento já está em execução! Mas, por quê?

Só pode haver penalidade aos que já foram julgados, e isso é aplicável aos que não creram, que serão julgados no fim, mas não aos que creram porque estes já foram julgados no exato momento em que creram. Na verdade, só somos salvos porque houve um julgamento sobre nós, visto que outra pessoa levou a nossa culpa, o Senhor Jesus Cristo, o nosso Salvador.

Este Sheol restrito é para os salvos infiéis e não para os não salvos; para os que foram justificados, mas se comportam como os injustificados. As trevas exteriores são neste mesmo lugar, fora do alcance da luz do Reino.

Até quando se permanece no Sheol Restrito

Até pagar o último centavo. Lembre-se da balança. Em Lucas temos a seguinte instrução:

E disse o SENHOR: Qual é, pois, o mordomo fiel e prudente, a quem o senhor pôs sobre os seus servos, para lhes dar a tempo a ração? Bem-aventurado aquele servo a quem o seu senhor, quando vier, achar fazendo assim. Em verdade vos digo que sobre todos os seus bens o porá.

Mas, se aquele servo disser em seu coração: O meu senhor tarda em vir; e começar a espancar os criados e criadas, e a comer, e a beber, e a embriagar-se, virá o senhor daquele servo no dia em que o não espera, e numa hora que ele não sabe, e separá-lo-á, e lhe dará a sua parte com os infiéis.

E o servo que soube a vontade do seu senhor, e não se aprontou, nem fez conforme a sua vontade, será castigado com muitos açoites; mas o que a não soube, e fez coisas dignas de açoites, com poucos açoites será castigado. E, a qualquer que muito for dado, muito se lhe pedirá, e ao que muito se lhe confiou, muito mais se lhe pedirá. (Lucas 12:42-48)

No Inferno não há gradação na intensidade da pena porque todos os que são jogados no Lago de Fogo serão totalmente destruídos para sempre sem meios-termos. Mas nas Trevas Exteriores há gradação nas penalidades porque não são penalidades destinadas aos inimigos, mas disciplinas àqueles aos quais foram dadas condições de saber a vontade do Senhor. A correção existe porque o Senhor reconhece em Seus servos algo que é dEle mesmo; se não houvesse algo que distinguisse os servos do Senhor dos seus inimigos, não haveria correção para eles, mas destruição.

A correção de um item dura o tempo necessário até a restauração ser concluída, até a volta ao estado original. O tempo depende da extensão do dano, da composição do item a ser restaurado e do quanto ele se afastou do seu estado original. Pense em um carro que foi batido e está sendo restaurado na oficina de lanternagem. Esse distanciamento do original que será corrigido é em relação à vontade de Deus para cada um. Quando sabemos o que o Senhor quer e agimos de forma contrária a isso, a correção é forte, “muitos açoites”. E quando não temos clareza sobre a vontade do Senhor, mesmo nos esforçando para conhecê-la, e agimos de forma contrária a ela, a correção é menos forte, “poucos açoites”.

Melhor serem poucos do que muitos açoites, então é bom sermos fiéis à vontade conhecida do nosso Senhor e agirmos com prudência naquilo que não conhecemos, usando para isso os princípios gerais já declarados da Sua vontade. Dentre estes destacamos que o Senhor sempre vai querer a nossa santificação, como expresso em I Tessalonicenses 4:3a – “Porque esta é a vontade de Deus, a vossa santificação”.

O tempo dessa correção pode se estender por até mil anos, toda a duração do Milênio. O tempo depende muito mais de nós em nos corrigirmos do que de Deus em corrigir.

Isso é o Purgatório da teologia Católica? Não, não é. Mas eles quase acertaram.

O espelhamento

O Senhor não deixa seus filhos sem disciplina[22]. Assim Ele fez antes e fará depois de Cristo. Como em uma imagem espelhada.

Como era antes? A pessoa que tinha esperança na vinda prometida do Senhor, vinda anunciada desde o Éden, ao morrer iria dormir no Paraíso ou iria ser punido no Sheol restrito por sua falta de amor e misericórdia. Para ambos, o tempo decorrido não corresponde ao tempo cronológico. Para Abel o tempo até a ressurreição de Cristo, cerca de quatro mil anos, pode ter sido equivalente a uma noite de sono, mas para o rico que ficou no sofrimento qualquer tempo foi muito tempo. Então o Senhor Jesus ressuscitou. Ele levou o Paraíso para o céu e esvaziou o Sheol restrito. No Tribunal de Cristo todos serão recompensados conforme as suas obras.

Vamos revisar as parábolas que falam do Reino dos Céus. Na parábola do Servo Mau, ele é surpreendido com a volta do seu senhor e castigado com muitos ou com poucos açoites, conforme a relação entre o que soube da vontade do seu senhor e o que fez com esse conhecimento; na parábola das Dez Virgens, cinco são rejeitadas por chegarem atrasadas; na do Servo Inútil, ele é punido no acerto de contas com o seu senhor quando ele volta da viagem; na parábola do Casamento, o amigo sem as vestes nupciais é colocado para fora da festa quando se encontra com o rei; e na do Devedor Incompassivo, ele é colocado em uma prisão até pagar a última fração, o último centavo. Em todos há uma espera, seguida de um evento de encontro com o senhor para a proclamação de um juízo e o imediato cumprimento da penalidade correspondente.

Como é agora? A pessoa que creu na vinda prometida do Senhor, ao morrer vai para o Paraíso acordado, e no Tribunal de Cristo será recompensado com a entrada no Reino ou deixado nas trevas exteriores ao Seu Reino para correção quanto aos aspectos, pelo menos, de falta de amor e falta de misericórdia. Os que entrarem no Reino atuarão de acordo com o que sobrou no julgamento.

Antes da ressurreição de Cristo o julgamento era antecipado quanto ao aspecto essencial da vida, quanto ao amor e à misericórdia, e todos os que passaram por esse julgamento entrarão no Reino.

Depois da ressurreição de Cristo o julgamento quanto ao aspecto essencial da vida, quanto ao amor e à misericórdia, é postergado até o Tribunal de Cristo. Então cada um poderá entrar no Reino para reinar com Cristo de acordo com o que sobrar da avaliação do Tribunal de Cristo, ou será impedido de entrar no Reino e ficará retido nas Trevas Exteriores. É um espelhamento.

Resumindo:

Antes da ressurreição de Cristo:

  • Salvos dormindo no Paraíso sob a terra;
  • Salvos sem amor e sem misericórdia acordados em correção no Sheol restrito sob a terra;
  • Não salvos dormindo no Sheol sob a terra.

Na ressurreição de Cristo:

  • Ressurreição dos salvos até então, os que estavam dormindo no Paraíso e os que estavam acordados em correção no Sheol Restrito;
  • Todos salvos antes de Cristo acordados no Paraíso transportado para o céu.

Após a ressurreição de Cristo:

  • Salvos, todos, acordados no Paraíso no céu.
  •  

Tribunal de Cristo:

  • Descida de Cristo do Trono às nuvens acompanhado pelos que já têm corpos celestiais (Enoque e os que ressuscitaram logo depois de Cristo);
  • Ressurreição dos salvos mortos até este momento para que todos tenham corpos celestiais;
  • Transladação dos vivos maduros para que tenham corpos celestiais;
  • Entrada no Reino conforme a capacidade individual medida pelas obras realizadas;
  • Retenção nas Trevas Exteriores dos que agiram sem amor e/ou sem misericórdia.

Como há promessas de reinarmos com Cristo sobre a terra por mil anos como prêmio de nossa fidelidade, por simetria podemos pensar que os que não entrarem, os que ficarem de fora, nas Trevas Exteriores, lá ficarão pelo mesmo período, o Milênio todo. Mas como veremos, há gradação de intensidade da punição, o que nos indica que também há gradação na duração dela. Desta forma, assim que a correção for assimilada, o crente será inserido no Reino, possivelmente no nível zero de autoridade.

E, finalmente, o Inferno

Há outro lugar, um que ainda não foi inaugurado: o Inferno (Geena) ou Lago de Fogo. Ele vai receber em si, depois do Juízo Final (o grande julgamento do Trono Branco) toda a estrutura da morte, o Sheol inteiro, além do poder da morte. Só depois disso é que não mais existirá morte na terra e as pessoas viverão para sempre. Ir para o Inferno é a segunda morte.

Figura 13 – O Juízo final e a Eternidade

Descrição da Figura:

A figura ilustra a transição do Milênio para a Eternidade, focando no evento central do Juízo Final, que é o Tribunal do Trono Branco. Próximo ao fim do Milênio, os mortos que estiverem nas Trevas Exteriores e no Sheol são ressuscitados para o julgamento, juntamente com os crentes vivos e os incrédulos vivos. Durante esse julgamento final, as almas dos mortos no Sheol e dos incrédulos vivos são enviadas para o Lago de Fogo. Em contraste, os crentes, sejam eles ressuscitados com corpos celestiais ou vivos, passam para a Eternidade.

O Senhor Jesus falou desse lugar comparando-o com um lixão que existia perto de Jerusalém, em que as coisas eram queimadas o dia todo, todo dia. A primeira vez foi no sermão do monte (Mateus 5,6 e 7) na hora que falou sobre o adultério, e outra vez foi quando advertia seus discípulos quanto ao tratamento que deve ser dado aos inocentes, às crianças, de protegê-los e não de induzi-los ao erro (Marcos 9:33-50).

Em ambos os casos a ênfase foi no escândalo, o que os une ao mesmo destino em um lugar onde a destruição é via fogo por fora e via vermes que não morrem por dentro. Mas o que é um escândalo? Escândalo era o nome dado à pedra saliente em um lugar de passagem, à pedra em que se tropeça. É algo que vai contra o planejado, que ofende ou depõe contra o curso normal e as funções normais das coisas. Ser a pedra de tropeço é se colocar na condição de ser condenado ao Inferno. Então o Senhor Jesus disse que se a sua mão te faz tropeçar, ou faz com que outros tropecem, melhor seria ficar sem ela do que ter todo o corpo punido no Inferno.

Escândalo é algo totalmente fora da razão, algo que qualquer um vê que é errado. Conta-se que os mafiosos não aceitavam o adultério de seus membros porque a infidelidade de quem partilha uma vida conjugal indica uma infidelidade nos negócios.

Já comentamos que Deus tem uma balança para pesar-nos. Sabemos também que o equilíbrio é alcançado quando o mesmo peso existe nos dois pratos da balança. Um escândalo é um peso muito grande que colocamos contra nós nessa balança e a exigência da justiça é que a dor que pensamos em dar ao outro nos seja dada, e isso se dará como sempre em “uma medida sacudida, recalcada e transbordante”. Só existe um contrapeso válido: Cristo.

Quanto tempo se fica no Inferno? A resposta imediata é “para sempre”, assim como está posto em várias passagens da Bíblia e também no livro de Enoque, o Etíope. Esta é a melhor forma de entender por que é o espelhamento do tempo dos que viverão com Deus. Se estes vivem para sempre, aqueles morrem para sempre.

Agora vamos fazer algumas considerações que não alteram o sentido da punição, sua gravidade, nem deixam o Inferno mais suportável, mas têm o objetivo exclusivo de concluir o raciocínio sobre o juízo perfeito de Deus. O conjunto das referências sobre o Inferno faz uma separação de seus usuários: ele foi feito para “o diabo e seus anjos”, e não para o homem. Os homens que para lá serão enviados tomarão emprestado para si esse lugar que não era destinado a eles. E como esses anjos maus e os homens compartilharão do mesmo local, às vezes lhes é atribuído um caráter de tormento eterno e às vezes uma função de destruição, que também leva consigo o adjetivo de eterno. Porém esse caráter destrutivo precisa ter um limite, o limite da destruição daquilo que está eliminando. Podemos desdobrar os seguintes destinos internos dos que entrarão no Inferno:

Anjos: Como vieram à existência para serem eternos, a punição de seus atos também é eterna.

Homens: Como viemos à existência para podermos concordar com o juízo de Deus a nosso respeito, sobre herdar ou não a eternidade com Ele, a destinação dos que não herdarão a eternidade é a destruição.

Voltamos à pergunta: em quanto tempo há essa destruição? Existe uma indicação na Lei de Moisés. Quando alguém desse um testemunho contra outra pessoa e isso implicasse uma penalidade, digamos que fossem 39 chibatadas (40, o limite, menos 1 chibatada por prudência), e se verificasse que o testemunho era falso, a penalidade que seria dada ao réu deveria ser aplicada à falsa testemunha. Em outras palavras, tentar prejudicar alguém traria para a pessoa o dano que pretendeu causar. Considerando isso como princípio, o tempo de destruição vai depender do quanto de injustiças cada um que foi para o Inferno tem para queimar, assim como os salvos tiveram suas obras imprestáveis queimadas no dia do Tribunal de Cristo.

A intensidade da punição não muda, mas a quantidade vai até o limite do dano que cada um proporcionou a outros. Como Deus conhece todas as coisas, Ele sabe o escalonamento de dano e o quanto teve de replicações em outras pessoas. A falta de trabalho para um pai de família influencia, como ação direta, na má alimentação dos filhos, e tem como ação indireta o baixo desempenho deles na escola. Como ação mais indireta uma subutilização da sua capacidade, e assim por diante até a quarta geração daquele primeiro pai de família.

O somatório de todos esses danos será cobrado para cada ação feita, talvez como em um cálculo fatorial, cujo símbolo é uma exclamação (!) e é dado pela multiplicação de um número natural por todos os seus antecessores até o número 1:

5! = 5x4x3x2x1 = 120.

O primeiro dano causado foi de 5, mas como ele refletiu seu peso em outras pessoas, foi multiplicado por 4 na primeira pessoa afetada, multiplicado novamente por 3 na segunda pessoa afetada, e assim por diante. As consequências do que fazemos vão se acumulando. Nessa sequência podemos atribuir a posição de Deus ao último elemento, o número 1, porque ainda que todo pecado seja originalmente contra Ele, também é verdade que Ele foi o primeiro que se moveu para nos perdoar de todos os nossos pecados.

Teríamos, aos moldes de uma equação, o total de pecados dividido pelo mesmo valor de perdão. A divisão de números iguais é 1, número que na multiplicação apenas confirma o resultado obtido pelos demais fatores. E no fim das contas, o que pesa na balança é o que fazemos contra os outros em nossas relações, as nossas ações diretas com seus efeitos diretos e indiretos.

O preço do que foi medido da balança será cobrado e ao término a destruição estará feita. Toda a matéria do corpo das pessoas será incinerada a tal ponto que se tornará em energia que ajudará a aquecer o Inferno para os anjos que lá ficarão eternamente, um tempo sem medida, por todo o mal que fizeram para a humanidade contribuindo para que chegassem onde estão agora. Para os anjos também serve o mesmo princípio da retribuição, e como a vingança pertence ao Senhor, a punição sobre eles não será conduzida por homens, mas por Aquele que tudo vê.

As chaves da morte e do Inferno

Faz parte do imaginário dos religiosos que o Senhor Jesus quando morreu foi ao Sheol e tirou as chaves da morte e do Inferno das mãos do príncipe das trevas e agora Ele tem todo o poder. Essa ideia se baseia em parte nesse versículo interpretado desastrosamente pelos teólogos:

E o que vivo e fui morto, mas eis aqui estou vivo para todo o sempre. Amém. E tenho as chaves da morte e do Inferno. (Apocalipse 1:18)

Presumiu-se que se Ele tem essas chaves agora é porque não as tinha antes, e se não as tinha é porque outro estava com elas. Romantizaram que Ele teria ido ao submundo mítico grego para pegar as chaves do Hades das mãos do seu grande inimigo na luta cósmica pelo poder. Não existe essa luta, não há um deus bom e um deus mau brigando. Deus nunca teve nem um milímetro de falta de controle sobre tudo. Quando se somam aos gregos os romanos e jogam essa mistura para dentro do entendimento bíblico, tudo fica bagunçado!

O texto não se presta a isso. O foco é a declaração de que Ele tem as chaves, e sempre as teve. As chaves são o símbolo de todo o poder e autoridade que sempre teve, e nunca perdeu e precisou recuperar.

Inferno é só no Fim

Na sequência da Sua ministração sobre os Tempos do Fim retratada em Mateus, Jesus respondeu às perguntas feitas pelos apóstolos na ordem em que foram feitas, e a última foi sobre o fim dos tempos. Para este período o Senhor contou a parábola dos bodes, das ovelhas e dos pequeninos. Nela está a destinação dos incrédulos:

Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos; (…) 45 – Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim. 46 – E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna. (Mateus 25:41-46)

Esse juízo é feito no fim do Milênio, em que todos os crentes antes da vinda do Senhor já passaram pelo Tribunal de Cristo. Estão diante do juízo todos os que morreram sem a Salvação (e estavam no Sheol, desde Caim) e os que morreram durante o Milênio. Nesse último bloco de nossa história, o milênio, o governo de Cristo será direto e Ele reinará com justiça real. E no finalzinho desse período a revolta contra Ele também será real. Não há meios-termos nesse período.

Ora, o Inferno é para os que não creem em Deus porque foi ele foi originalmente “preparado para o diabo e seus anjos”, aos que não aceitaram a salvação que há em Seu Nome. O que estes poderiam argumentar em juízo, eles falaram: não Te vimos em necessidades. Mas o juízo é exatamente sobre isso, sobre o que fazemos quando não temos benefício direto, quando ninguém está vendo. Eles nada fizeram aos que sofriam porque não viam neles o Senhor, o que atesta contra todos aqueles em quem não houve ressonância entre o que estava dentro desses aflitos e o que estava dentro deles, o que os qualifica como injustos. A omissão em ajudar o necessitado revelou a intenção do espírito que os movia, o interesse próprio revelado na falta de amor e de misericórdia ao próximo.

O juízo é que irão para o mesmo lugar que os anjos maus irão porque eles agiram como esses anjos agiram, sem amor e sem misericórdia. O lugar é “para o fogo eterno” ou “para o tormento eterno”, que é igual ao Inferno ou Lago de Fogo.

Outras Questões sobre o Além

As crianças e os inocentes

Um adulto, jovem ou velho, teve tempo suficiente para sentir a necessidade de buscar por algo eterno e além de si. Mas como ficam as pessoas cujo tempo de vida foi drasticamente diminuído por questões naturais ou de forma proposital? Estes não tiveram tempo suficiente para nada.

Desaparecimentos

De acordo com o os relatórios de estatísticas de vários países, milhares de pessoas desaparecem anualmente. Alguns desses desaparecidos saíram sem rumo por problemas psiquiátricos, outros para fugirem das famílias. Alguns são encontrados, às vezes depois de anos de buscas, mas e os demais? Não há tantos enterros de indigentes assim por ano, então não foram enterrados em cemitérios legalizados. Nem há tantos indigentes internados em hospitais, nem indigentes presos nas cadeias, sanatórios, casas de recuperação, nem foram acrescentados aos trabalhadores de lixões ou como moradores de rua, nem… Bem, não estão em lugar nenhum! Eles são mortos por motivos obscuros e seus corpos desaparecem, mas não é esta a nossa preocupação agora. Tiveram suas vidas interrompidas. Destes desaparecidos, no Brasil cerca de 20% são crianças de zero a 14 anos de idade, para as quais podemos presumir que não saíram de casa por vontade própria. Cerca de 12 mil crianças no Brasil em 2020 foram subtraídas de suas famílias. Isso é o equivalente a 12 escolas com mil crianças cada, ou à população de muitas das cidades brasileiras, ou a uma fila de 12 quilômetros de crianças. É equivalente a um cemitério de 12 mil túmulos por ano!! Seria uma epidemia, mas com essa quantidade anual, isso parece mais uma safra! Segue abaixo um quadro comparativo

Tabela 1 – Desaparecidos por País e Ano

com os dados de alguns países[23].

Fome, doenças e abortos

Segundo os Médicos Sem Fronteiras, mais de 2 milhões de crianças morrem por ano de desnutrição. Isso é centenas de vezes mais do que a qualquer doença tenha matado de crianças em um ano. Alguma ação mundial sobre isso na mesma ordem que teve sobre a covid, malária, dengue, gripe etc.? Não, claro que não.

E quanto aos que deixam crianças morrerem de fome por causa dos acordos financeiros, ou aos que roubam o dinheiro que seria aplicado para salvar as populações que vivem em palafitas, ou aos que inviabilizam a manutenção dos negócios familiares para privilegiar as grandes redes de supermercados? Os que têm nas mãos o poder de fazer o bem e optam por fazer o mal, sabendo que muitos morrerão por conta de suas ações, estão assassinando pessoas. Não com suas mãos, mas pior: por mãos de terceiros. Deus vai cuidar deles.

Quanto aos abortos, segundo a OMS, um total de 73,3 milhões de abortos seguros e inseguros ocorreram no mundo anualmente entre 2015 e 2019[24]. É um número assombroso! Quanto aos acidentes e crimes envolvendo crianças não conseguimos informações. Os acidentes, bem, eles acontecem. Os responsáveis pelos acidentes darão conta de suas vítimas a Deus. Os responsáveis pelos crimes, o mesmo. Podemos apenas acrescentar que sabemos que os assassinos não herdarão o Reino de Deus.

Em todos esses casos há duas questões que gostaríamos de dar atenção: por que crianças morreram, por vários motivos e de variadas formas, e como Deus vai julgá-las.

A primeira questão nos aflige porque sabemos que precisamos viver e tomar decisões para sermos responsabilizados por elas, e isso nos vincula à segunda questão: onde estaria a justiça sobre alguém que não pôde viver? Já vimos em outro momento que Deus é justo e que a justiça plena decorre da concordância do réu com a sentença de seu julgamento, e é por isso que vivemos.

Sobre as crianças que morreram, Deus as julgará em conformidade com o nível de consciência de cada uma, coisa que está além da nossa compreensão. E Jesus declarou que delas é o Reino dos Céus[25].

Sobre as que não chegaram a nascer, os abortados, a Bíblia não nos oferece resposta direta. No livro de Jó vemos que ele estava sofrendo tanto que desejou que não tivesse nascido, que tivesse sido um aborto que não chegou a ver a luz do Sol (Jó 3:16). Isso, por pior que fosse, seria melhor do que o sofrimento pelo qual ele estava passando. São poucas as referências, mas veja que até nessa referência o aborto é o natural e não o induzido.

O Reino dos Céus

A partir da declaração do Senhor de que das crianças é o Reino dos Céus, é razoável estender o efeito para os abortados.

Agora, uma dificuldade: se quando criança tínhamos entrada no Reino dos Céus, deixamos de ter ao nos tornarmos adultos? Isso quer dizer que perdemos a salvação e agora precisamos ganhá-la de novo? Ou Reino dos Céus/Reino de Deus não é a salvação? Ora, a salvação é a eternidade com Cristo; o Reino é um período de governo direto dEle aqui na terra, o Milênio. A salvação não é o Reino. Esses termos são usados às vezes se referindo ao Milênio e às vezes à Eternidade na terra após o Juízo Final porque o Reino do Senhor não terá fim. O Milênio é só o início do Reino. O contexto mostra que o evento está dentro de uma sequência de vários ensinos rápidos vinculados ao primeiro significado, o Milênio, momento em que a profecia de que os discípulos se sentarão em tronos para governar sobre as tribos de Israel (Mt 19:28) terá cumprimento.

É necessário que esses inocentes em sentido teológico sejam ressuscitados no Milênio, lá vivam e então sejam julgados de acordo com o que viverem. Não se trata de uma mera possibilidade de Deus ressuscitar no Milênio os milhões mortos antes de terem como concordar com o julgamento dEle, mas uma premissa da Sua justiça.

Aos que os mataram de forma direta, e aos que os induziram à morte ou os entregaram à morte deliberadamente esses inocentes de forma direta ou indireta, como a causada pela pobreza e pelo descaso das estruturas de governo, todos eles são assassinos sobre os quais a justiça de Deus será feita de forma completa.

Onde esses inocentes estão aguardando a ressurreição para poderem viver a vida, que lhes cabe e lhes foi tirada, e serem julgados? Aguardam no Sheol, onde todos os que lá estão dormem até o julgamento final, ou até serem despertados pela ressurreição. Irão para o Paraíso no tempo próprio, se optarem por Deus e morrerem antes do Juízo Final.

Algumas observações

1 – O termo inocente (in(não)+ciência) usado aqui é para enfatizar a condição insuficiente de conhecimento sobre a própria vida, uma condição ocorrida pela interrupção da vida antes do tempo para o desenvolvimento da consciência (com+ciência). Para se ter um julgamento perfeito é necessário que haja consciência do que está em julgamento. Em um fluxo normal da vida todos saem da inocência para a consciência, como Adão, e por sermos filhos dele todos estamos sob o mesmo destino. (Romanos 3:23 – Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus).

2 – A regra é não haver dois nascimentos para uma mesma pessoa, mas uma única VIDA ao fim da qual se morre uma única vez para aquela vida iniciada uma única vez. Uma ressurreição dos mortos não é um novo nascimento, não é uma outra vida, mas a extensão da mesma vida original da pessoa. Lázaro, por exemplo, teve uma prorrogação de vida, assim como o morto cujo corpo tocou nos ossos de Eliseu séculos antes. Voltaram a viver a mesma vida que tinham até que a prorrogação acabou e morreram definitivamente. O caso dos inocentes é o mesmo: a prorrogação será todo o período de vida que terão. Como não há dois nascimentos, eles voltarão com as características que deveriam ter tido se tivessem sua vida desenvolvida naturalmente sem interrupções. (Hebreus 9:27 – E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo,).

3 – Os inocentes, os abortados e os mortos muito cedo, não podem voltar como bebês porque não faria sentido milhões de bebês ressurgindo sem ter quem cuidasse deles. Como Adão foi criado com base em um modelo adulto, que era Cristo, e este começou Sua carreira aos 30 anos, essa era a idade aparente de desenvolvimento do corpo de Adão quando foi criado, e é possível que os inocentes voltarão à vida no aspecto que teriam se tivessem vivido até a idade plena de seus corpos, cerca de 30 anos.

E assim como Adão, essas pessoas inocentes não podem passar a viver na forma adulta fora de um lugar protegido porque são inocentes, pelo menos precisam de um espaço e de tempo para atingirem na mente a idade dos seus corpos sem a presença de tentadores. Em uma vida normal isso acontece entre os 7 e os 10 anos de idade. No caso desses, o momento de isso acontecer é no Milênio, quando todo o mal estará suspenso. Quando o mal voltar no fim desse período de mil anos, todos já estarão aptos para a escolha de vida. (Apocalipse 20:3 – E lançou-o no abismo, e ali o encerrou, e pôs selo sobre ele, para que não mais engane as nações, até que os mil anos se acabem. E depois importa que seja solto por um pouco de tempo).

Suicídio

Suicídio é o cessar auto imputado da vida. O desejo de não mais viver advém de situações muito penosas que levam a pessoa a perder o propósito da vida, coisa que é quase incompreensível aos de fora.

Na Bíblia temos alguns casos.

Casos de desejo não realizado

Quando Elias foi jurado de morte por Jezabel, ele fugiu de Israel e desejou para si a morte; Jonas também pediu a Deus a sua morte quando estava com insolação e com um desgosto enorme por Deus ter salvado a cidade de Nínive que viria mais tarde arrasar Israel. São casos em que as pessoas desistiram da vida, mas não atentaram diretamente contra ela. E Deus os restaurou.

Riscos assumidos

Há casos que se os atos pretendidos não tivessem dado certo, teriam sido, praticamente, suicídios, como o de Jonatas subindo sozinho contra os filisteus; como o caso de Davi contra Golias, o mais forte dos cinco gigantes que governavam sobre os filisteus; o de Elias contra os quatrocentos e cinquenta profetas de Baal mais os quatrocentos profetas de Asera; o de Obadias protegendo cem dos profetas do Senhor contra as ordens diretas do rei Acabe de matá-los; o de Daniel que continuou a orar a Deus desobedecendo assim o mandado do rei… Foram quase suicídios por causa do risco que correram e pela disposição que tinham em serem mortos, mas cumprirem a vontade de Deus.

Substituição/Expiação

Há os casos de oferecimento, de substituição, de expiação, como o de Jonas que pediu aos marinheiros para que o jogasse ao mar a fim de que a tempestade acabasse e o de Jesus que se permitiu ser preso para que o Seu plano de redenção seguisse e a nossa inimizade contra Deus acabasse. Foram quase suicídios tendo em vista a intenção efetiva de morrerem, porém não para encerrarem a própria existência, mas para beneficiar aos outros.

Suicídio, propriamente dito

E temos também os casos de ação efetiva de Judas que teve um remorso tão grande que foi se enforcar, mas no fim caiu sobre pedras e morreu, e o de Saul, que, se vendo em aperto na guerra e não querendo ser morto pelos seus inimigos, jogou-se sobre sua espada. O escudeiro de Saul vendo o seu rei cometendo suicídio, também o fez. Mas no fim, Saul acabou sendo morto por um amalequita que o encontrou ainda vivo.

Sobre estes últimos é que recaem as questões sobre o destino de suas almas, e se perdem a salvação, ou se algum dia foram salvos, se há perdão para o suicídio, etc. Vamos ao cerne: a salvação.

A salvação

Já vimos no capítulo sobre os tempos da salvação que nosso espírito foi salvo, nosso corpo vai ser salvo e nossa alma está sendo salva. No caso de Saul é claro que seu espírito era salvo. Era o rei ungido de Israel, tinha sobre ele a cobertura do Espírito de Deus e guiava o Seu povo, coisas que Deus não daria a quem não fosse do mesmo Reino. Mas em certo momento da sua trajetória seu coração não foi perfeito para com Deus e começou a querer proteger o que tinha conquistado, coisas que não eram dele de verdade porque lhe foram dadas por Deus para o cumprimento da vontade dEle. Quando isso aconteceu a unção de rei foi derramada sobre Davi e a cobertura do Espírito de Deus para a função de rei passou dele para Davi[26]. Agora ele tinha o cargo, mas não tinha a autoridade de Deus para exercê-lo. Esse descompasso o levou a extremos porque não queria perder a sua alma aqui e ganhá-la no Reino verdadeiro, a salvação da alma. Queria ganhar aqui mesmo, o que se converte em perder no futuro. No fim disso, cercado por inimigos, quis pôr fim à vida de seu corpo. E como já vimos que a forma da morte importa, acabou sendo morto por um amalequita, um descendente do inimigo que havia poupado contra as ordens diretas de Deus. E agora, ele foi para onde e qual será o seu destino definitivo? Como ele odiou Davi e não teve misericórdia dele, possivelmente ele foi para o Sheol restrito para receber de Deus a correção por este erro. Por lá ficou até que Cristo veio, enquanto Davi aguardava o Messias dormindo no Paraíso. Hoje, após a ressurreição de Cristo, ele está no Paraíso no céu junto com Davi, aquele a quem, cego, perseguia. E no futuro ele vai estar na Cidade de Deus eternamente.

A salvação dada por Deus é irreversível. Isso serve para quem se mata de forma abrupta, ou para quem se matou durante a vida cometendo, de certa forma, um suicídio lento por causa do seu estilo de vida. Ele não tira a salvação de nenhum dos dois.

Pena de Morte e Guerra

Todos nós estamos sujeitos à pena de morte de nosso corpo por sermos descendentes, por termos o mesmo DNA daquele que pecou e é o pai de toda a humanidade, Adão. Quando o Senhor nos salva, deixamos de ter sobre nós a pena de morte da nossa alma, mas nosso corpo continua subordinado à pena de morte. A única exceção a isso é se o corpo deixar de ser natural e passar a ser celestial, como aconteceu com Enoque antes do dilúvio e acontecerá novamente antes do julgamento que está para vir sobre a terra, assim como o dilúvio o foi naquela época, com os que estiverem andando com Deus como Enoque andou. No geral, morremos todos.

Tirando essa pena de morte geral, as outras são para dar fim ao direito de estar. No caso da legislação brasileira, existe a pena de morte em casos decorrentes de guerra. Em outros países, há pena de morte por causa de outras faltas graves. Normalmente essas penas de morte são comutadas em prisões perpétuas quando, por algum motivo, não são executadas.

Na Bíblia também há a pena de morte. Como exemplos, temos as mortes de Coré, Datã e Abirão engolidos pela terra por terem se levantado contra a autoridade de Moisés; temos a pena de morte de Acã, executada por Josué por ter pegado das coisas amaldiçoadas de Jericó; temos a do povo de Sodoma e Gomorra, mortos por Deus; temos a dos parentes de Saul, cujas cabeças foram cortadas para atender à justiça dos atos dele; temos a pena de morte imputada injustamente a Jesus;  temos a pena de morte aplicada a Ananias e Safira, que perderam o direito de viver por terem mentido a Deus; temos também a pena de morte executada contra Estêvão. Há penas de morte determinadas por Deus com execuções feitas por Ele mesmo ou por seus servos, e outras, determinadas pelos homens e por estes executadas, alinhadas ou não à vontade de Deus.

A pena de morte sempre foi para casos extremos postos em julgamento. E ela não foi suspensa nas Escrituras.

Porém, os exemplos depois de Cristo nas Escrituras mostram homens tomando decisões erradas e usando a pena de morte de forma inadequada e, também, algumas vezes em que o próprio Deus executou a sentença. Por certo não queremos ser as pessoas que precisam “apertar o botão” e executar a sentença.

Hoje temos outra pena de morte, mais uma decisão difícil: são os casos em que as máquinas de suporte de vida precisam ser desligadas, o que causa a morte do paciente. Também não queremos ser a pessoa com autoridade para fazê-lo.

Por fim, temos o caso das guerras, para as quais os soldados são enviados com a obrigação de matar os inimigos. Cabe ao soldado que crê no Senhor ser o melhor dos soldados matando os inimigos da forma mais eficiente que puder, sem crueldade. Se esse propósito não agrada, melhor não estar alistado nas forças armadas quando a guerra acontecer.

Quem tira a vida

Uma dúvida recorrente nesse assunto de morte e pós-morte é quem pode tirar a vida de uma pessoa, quem tem as chaves da morte e do Inferno. A resposta rápida é que só Deus tira a vida porque é Ele quem a dá. Mas isso ou desagrada, ou deixa um vazio… Quanto ao desagrado da resposta, o que poderia entrar em seu lugar? Que Deus mandasse outra pessoa para fazer o “trabalho sujo”? Não mesmo. Então vamos recompor a proporção das coisas e resolver o vazio.

Revisão

No começo só havia Deus. Então Ele teve uma ideia a partir da qual criou tudo o que existe. O pecado passou a existir pela desobediência de Adão, e como consequência veio a morte. A morte é a penalidade máxima que existe sobre a vida física, o corpo; e a segunda morte, o Inferno, é a penalidade máxima para a vida não física, a alma. Ora, se quem tem o poder de lançar alguém na segunda morte é somente o próprio Deus, não seria Ele mesmo o responsável pelo término da vida física? O pecado é contra Deus; a penalidade do pecado satisfaz a justiça de Deus; quem executa a penalidade, seja por que meio for, é Deus.

Ele é responsável

Sabemos que a morte é uma consequência. Isso pode nos levar a pensar que existe um caminho ao fim do qual a morte espera pelos viajantes, e que isso não é uma ação pessoal de Deus, mas uma consequência do caminho. Ou que no fim do caminho há um ser que mata, o diabo, mas se a pessoa se converte desse caminho encontra vida, Deus, ao passar a ir na direção oposta. O problema com esses dois pensamentos bonitos é que são tentativas de tirar de Deus a responsabilidade que cabe a Ele, como se devêssemos protegê-lo dessa “culpa” que nos deixa desconfortáveis. Mas Ele não precisa dessa “defesa”: Ele criou a lei que foi desobedecida e cuja penalidade é a morte. Executar a penalidade, por meio de um instrumento, de um caminho, ou pela ação de outra pessoa não tira dele a participação, mesmo que seja a de mandante. No fim das contas quem mata ou manda matar é Deus; ele é o executor ou o mandante. Ele dá a vida e Ele a tira.

Esquecemos com facilidade que Ele faz o bem e Ele faz o mal; que Ele faz o cego e o coxo; que o anjo que matou os primogênitos no Egito era um anjo dEle; que Ele matou Uzá, o que tocou por reflexo na Arca da Aliança para evitar que ela caísse da carroça.

Neste ponto talvez você pergunte porque Ele acusou Davi de assassinato no caso de Urias se foi Deus mesmo que não permitiu que Urias continuasse vivo após as flechadas que recebera! Ora, Davi teve a intenção de matar, motivo pelo qual foi repreendido. Mas no fim das contas, não foi Deus que deixou que Urias chegasse a uma posição de ferimentos em que as regras naturais que Ele criou tiraram-lhe a vida? Levado ao limite, sim, Deus matou Urias porque foi Ele que criou as leis naturais para a vida. Matou Urias e restaurou Ezequias sobre o qual pesava a ordenação de morte por doença. Só Ele tem o poder da vida e da morte.

Um assassino pode pretender matar, mas quem tira a vida é Deus, com Suas mãos ou por meio da natureza que criou; um casal pode pretender ter um filho, mas quem dá a vida é Deus. As outras coisas, médicos, acidentes, doenças, armas, demônios, remédios, são instrumentos de Deus. Só consegue tirar a vida dada por Deus ao Homem quem deu essa vida, o próprio Deus.

Então somos tomados por uma dor: seriam os assassinos e os que abortam pessoas inocentes? Claro que não! Eles levam os outros às condições em que não podem viver e suas vítimas morrem por ação direta deles; por óbvio são culpados. Mas a vida é tirada por Deus diretamente por sua mão ou indiretamente por meio das leis naturais que Ele constituiu. Ele não terceiriza o trabalho dEle.

Uma observação: a vida dos animais está nas mãos dos Homens porque eles foram salvos do dilúvio por Noé.

Palavras Finais

Temos sido condicionados a sermos refratários a qualquer coisa contrária à doutrinação que recebemos, mesmo que sejamos apresentados a coisas verdadeiras. Mas precisamos abrir mão da nossa formação para alcançarmos o que o Senhor Jesus tem para nós porque não é razoável que O rejeitemos por preconceito. Nossa rejeição às doutrinas contrárias a Cristo tem um motivo muito simples: ela não parte de um preconceito, mas de um “pós-conceito”; não de uma refração, mas de uma análise que leva a um juízo de rejeição.

Então, quando o Senhor fala para não consultar os necromantes não é um preconceito sobre essas “pessoas sensíveis ao mundo espiritual”, mas porque a mensagem que podem trazer virá de demônios e não dos mortos cujas palavras são desejadas nessas consultas, pois estes estão bem guardados no Sheol ou no Paraíso.

Outro exemplo: em que fundamento está se baseando quando se fala que as crianças quando morrem vão para o Céu e não para o Sheol? Não é na Bíblia, ou pelo menos não em sua correta leitura, mas no desejo de amenizar essas situações tão dolorosas. E como o Sheol é entendido como lugar de tormento, seria uma dor maior, a dor da separação aliada à dor do destino; mas este não é o caso, como vimos. Ora, quando há a rejeição da verdade para não se abrir mão de uma doutrina recebida sem julgamento estamos, sim, agindo com preconceito.

Esperamos que as palavras sobre as trevas exteriores tenham trazido iluminação, alerta e esperança, pois se não fôssemos corrigidos seríamos filhos ilegítimos, filhos que não levam o legado do Pai.

Recapitulando

Revisão dos principais pontos abordados

Enfrentamos nesta Unidade o tema universal, e muitas vezes temido, da Morte. Esta, não como um fim absoluto, mas como uma transição crucial pertencente ao plano divino, com implicações distintas para crentes e incrédulos, e sob um olhar particular do uízo e da recompensa dos salvos.

1. A Morte como Consequência e Realidade Inevitável: Revisitamos a morte como uma consequência direta do desequilíbrio introduzido pelo Pecado, afetando toda a criação. No entanto, para o crente, a morte física não é o fim da existência, mas uma passagem para uma nova fase.

2. O Pós-Morte Imediato para o Crente: Discutimos o que acontece com o crente imediatamente após a morte física. A perspectiva apresentada é a de uma ida para a presença do Senhor (Paraíso), aguardando a ressurreição do corpo. Não há um estado de sono da alma ou inconsciência, mas uma continuidade da existência consciente no Paraíso.

3. O Tribunal de Cristo e o Juízo das Obras dos Crentes: Um ponto central da Unidade foi a exploração do Tribunal de Cristo, um juízo específico para os crentes, não para determinar salvação (que já está garantida pela fé), mas para avaliar as obras realizadas durante a vida terrena. Utilizamos a metáfora do “fogo consumidor” que prova a qualidade das obras (ouro, prata, pedras preciosas versus madeira, feno, palha), resultando em galardão ou perda de recompensa (dano), embora o crente em si seja salvo “como pelo fogo”.

4. A “Segunda Morte” e o “Dano da Segunda Morte”: Esclarecemos a distinção entre a “segunda morte” (o Lago de Fogo, destinado aos incrédulos e anjos caídos) e o “dano da segunda morte”, que se refere à experiência de perda e correção que alguns crentes podem sofrer no Tribunal de Cristo, sem, contudo, perderem a salvação eterna.

5. Parábolas do Juízo e a Correção dos Crentes: Analisamos diversas parábolas de Jesus (o Mau Servo, as Dez Virgens, o Servo Inútil/Talentos/Minas, as Roupas Erradas na Festa de Bodas, o Devedor Incompassivo) para ilustrar o princípio de que os crentes serão responsabilizados por sua fidelidade e serviço. Aqueles que se mostrarem infiéis ou negligentes, embora salvos, enfrentarão consequências, como a exclusão de certas bênçãos ou posições no Reino vindouro (“trevas exteriores”, “pranto e ranger de dentes” – interpretados como perda de galardão e comunhão íntima, não condenação eterna).

6. A Esperança da Ressurreição e a Vida Eterna: Apesar da seriedade do juízo das obras, a Unidade reafirma a esperança gloriosa da ressurreição para os crentes, a transformação e a entrada na vida eterna em plena comunhão com Deus, onde “nem olhos viram, nem ouvidos ouviram” o que está preparado.

Pontos de Atenção

Ao refletir sobre esta Unidade acerca da Morte e do Juízo, você é convidado, caro leitor, a ponderar sobre:

  • A seriedade da vida cristã e a responsabilidade que temos pelas obras que realizamos em nome de Cristo.
  • A distinção clara entre a segurança da salvação pela fé e a necessidade de fidelidade para o galardão e a plena participação nas bênçãos do Reino.
  • O significado das “trevas exteriores” e do “pranto e ranger de dentes” no contexto das parábolas de juízo para os servos, como uma figura da perda de recompensa e da correção divina, e não da condenação eterna para os crentes.
  • A motivação para uma vida de santidade e serviço não pelo medo da perda da salvação, mas pelo amor a Cristo e pelo desejo de agradá-Lo e receber Seu pleno galardão.
  • A esperança transformadora da ressurreição e da vida eterna como o destino glorioso de todos os que estão em Cristo.

Esta Unidade sobre a Morte buscou equilibrar a certeza da salvação com a realidade da responsabilidade e do juízo das obras dos crentes, incentivando uma vida de vigilância, fidelidade e frutificação para a glória de Deus.

Perguntas e Respostas

Elaboramos algumas questões e suas respostas para ajudar na compreensão do tema exposto nesta Unidade:

❶. Como o capítulo descreve o estado do crente imediatamente após a morte física? Existe um período de inconsciência ou “sono da alma”?

O capítulo descreve que o crente, imediatamente após a morte física, permanece consciente e é transportado à presença do Senhor. O texto rejeita explicitamente a ideia de um período de inconsciência ou “sono da alma”. Baseando-se em passagens como II Coríntios 5:8 (“ausentes do corpo, presentes com o Senhor”) e Filipenses 1:23 (onde Paulo expressa o desejo de partir e estar com Cristo), o livro argumenta que há uma continuidade imediata da consciência após a morte. O texto também cita o exemplo do ladrão na cruz, a quem Jesus prometeu: “Hoje estarás comigo no Paraíso” (Lucas 23:43), enfatizando a imediatez da transição. Segundo o capítulo, embora o corpo físico permaneça na terra aguardando a ressurreição, o espírito/alma do crente está plenamente consciente na presença de Cristo, experimentando um estado intermediário abençoado enquanto aguarda a ressurreição final e o corpo glorificado. Esta é a realidade hoje, mas antes de Cristo os crentes repousavam até que o Senhor viesse e os levasse consigo, o que já aconteceu.

❷. Qual é o propósito do Tribunal de Cristo, segundo o exposto? Como ele se diferencia do Juízo Final dos incrédulos?

O propósito do Tribunal de Cristo não é determinar a salvação do espírito do crente (que já está garantida), mas avaliar a qualidade do serviço e da fidelidade demonstrados durante a vida terrena, resultando em recompensas ou em perdas sobre a salvação da sua alma (não a salvação do espírito), como nos fala Tiago. O texto baseia-se principalmente em I Coríntios 3:10-15 e II Coríntios 5:10, enfatizando que este tribunal avalia as obras, motivações e fidelidade do crente, coisas desnecessárias à salvação pela Graça, porém importantes para nosso crescimento em Cristo, para a salvação da alma, que é a medida de Cristo em nós. O Tribunal de Cristo se diferencia fundamentalmente do Juízo Final dos incrédulos (descrito em Apocalipse 20:11-15) em vários aspectos: primeiro, enquanto o Tribunal de Cristo é para os salvos, o Juízo Final é para os não salvos; segundo, o Tribunal de Cristo determina recompensas, enquanto o Juízo Final determina punição; terceiro, no Tribunal de Cristo as obras são julgadas para determinar galardões, mas a pessoa já é salva, enquanto no Juízo Final as obras são examinadas como evidência da rejeição a Cristo, resultando em condenação eterna. O capítulo enfatiza que, embora o Tribunal de Cristo possa envolver perda de recompensas, não implica perda da salvação.

❸. Explique a metáfora do “fogo” que prova as obras dos crentes no Tribunal de Cristo. O que representam os diferentes materiais (ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno e palha)?

O capítulo explica a metáfora do “fogo” em I Coríntios 3:10-15 como um teste divino que revela a verdadeira qualidade e valor das obras realizadas pelos crentes durante sua vida terrena. Este fogo não é literal, mas representa o escrutínio perfeito de Deus que expõe as motivações, a qualidade e o valor eterno de cada obra. Quanto aos diferentes materiais mencionados, o texto os interpreta simbolicamente: o ouro, a prata e as pedras preciosas representam obras de valor duradouro, realizadas com motivações puras, em obediência a Deus e para Sua glória. Estas obras resistem ao fogo do julgamento e resultam em recompensas eternas. Em contraste, a madeira, o feno e a palha simbolizam obras sem valor eterno, realizadas com motivações impuras, para agradar aos homens ou para benefício próprio. Estas obras, embora possam parecer impressionantes aos olhos humanos, são consumidas pelo fogo do julgamento divino, resultando em perda de recompensa, embora o crente ainda seja salvo “como que pelo fogo”, como que chamuscado, mas salvo.

❹. O que o capítulo entende por “dano da segunda morte” em relação aos crentes? Isso implica a perda da salvação?

O capítulo apresenta uma interpretação distinta do “dano da segunda morte” em relação aos crentes, baseando-se principalmente em Apocalipse 2:11 (“O que vencer não receberá dano da segunda morte”). Segundo o texto, este “dano” não implica perda da salvação, mas refere-se a consequências negativas que os crentes podem experimentar no Reino Milenar e além, dependendo de sua fidelidade durante a vida terrena. O livro argumenta que, embora todos os crentes sejam salvos da condenação eterna (a segunda morte completa), alguns podem sofrer aspectos limitados ou “danos” dessa morte, como exclusão de certos privilégios no Reino, vergonha na vinda de Cristo, ou perda de galardões. O texto enfatiza que esses “danos” são temporários e disciplinares, não eternos ou punitivos, e que mesmo o crente que sofre tais consequências ainda está seguro em sua salvação final porque a salvação nunca dependeu de nossos atos, mas da obra completa e perfeita de Cristo na cruz; se dependesse de nós, não precisaríamos de um salvador, sendo o contrário igualmente verdade. Esta interpretação está ligada à visão do capítulo sobre diferentes níveis de recompensas e responsabilidades no Reino de Deus, baseados na fidelidade demonstrada durante a vida.

❺. Nas parábolas do Mau Servo, das Dez Virgens e do Servo Inútil, quais são as consequências para os servos que foram considerados infiéis ou imprudentes? Como essas consequências se aplicam aos crentes?

O capítulo interpreta estas parábolas como ensinamentos sobre as consequências da infidelidade para os crentes, não como indicações de perda de salvação, mas como correções. Na parábola do Mau Servo (Mateus 24:45-51), o servo infiel é colocado “com os hipócritas” e recebe “a sua parte”, o que o texto interpreta como perda de posição e privilégios no Reino, não condenação eterna, pois continua sendo servo. Na parábola das Dez Virgens (Mateus 25:1-13), as virgens imprudentes são excluídas da festa de casamento, o que o livro entende como perda de privilégios especiais de comunhão com Cristo no Reino Milenar, não rejeição eterna, pois continuam sendo virgens. Na parábola do Servo Inútil (Mateus 25:14-30), o servo que enterrou seu talento é lançado nas “trevas exteriores”, interpretado não como o Inferno, mas como exclusão temporária de aspectos da glória do Reino. O texto aplica estas consequências aos crentes como advertências sérias sobre a importância da fidelidade, vigilância, perdão e serviço produtivo, enfatizando que, embora a salvação seja pela Graça mediante a fé, a qualidade de nossa experiência no Reino dependerá de nossa fidelidade durante esta vida. O capítulo sustenta que estas consequências são disciplinares e temporárias, não afetando a salvação final do crente porque Aquele que começou a boa obra há de completá-la.

❻. Na parábola do Devedor Incompassivo, qual é a lição principal sobre o perdão e como ela se relaciona com a nossa posição diante de Deus e o juízo que enfrentaremos?

O capítulo interpreta a parábola do Devedor Incompassivo (Mateus 18:21-35) como uma poderosa lição sobre a relação entre receber o perdão divino e estender perdão aos outros. A lição principal, segundo o texto, é que aqueles que foram perdoados por Deus demonstrarão esse mesmo espírito de perdão genuíno em seus relacionamentos com os outros. O servo que foi perdoado de uma dívida enorme mas recusou-se a perdoar uma dívida pequena acabou sendo entregue aos “atormentadores” até que pagasse tudo o que devia. O livro relaciona isso à nossa posição diante de Deus e ao juízo que enfrentaremos, argumentando que a recusa persistente em perdoar os outros pode indicar que não compreendemos verdadeiramente o perdão de Deus. Consequentemente, tal atitude pode resultar em disciplina divina nesta vida e perda de recompensas no Tribunal de Cristo. O texto enfatiza que, embora o perdão inicial de Deus seja incondicional (baseado na obra de Cristo), a experiência contínua de Sua graça e favor em nossa vida está relacionada à nossa disposição de estender graça e perdão aos outros. O capítulo conclui que o perdão não é opcional para o crente, mas uma expressão necessária da nova natureza e uma resposta apropriada à graça imerecida que recebemos.

❼. Como a esperança da ressurreição e da vida eterna deve impactar a maneira como o crente encara a morte e vive sua vida presente?

A esperança da ressurreição e da vida eterna deve transformar fundamentalmente tanto a perspectiva do crente sobre a morte quanto sua abordagem à vida presente. Quanto à morte, o texto argumenta que esta esperança remove o medo e o terror da morte (Hebreus 2:14-15), transformando-a de inimiga em portal para a presença de Cristo. O crente pode encarar a morte com serenidade, sabendo que ela não é o fim, mas uma transição para algo incomparavelmente melhor (Filipenses 1:21-23). Quanto à vida presente, o livro enfatiza que esta esperança deve produzir: primeiro, um senso de urgência e propósito, motivando o crente a viver de maneira significativa e frutífera, sabendo que o tempo é limitado; segundo, uma perspectiva eterna que valoriza o que tem significado duradouro acima do que é temporário (II Coríntios 4:16-18); terceiro, uma disposição para sacrifício e sofrimento, reconhecendo que “os sofrimentos do tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada” (Romanos 8:18); e quarto, uma motivação para santidade e fidelidade, sabendo que nossas ações presentes têm consequências eternas (I João 3:2-3). O texto conclui que viver à luz da ressurreição significa viver com esperança inabalável, propósito claro e valores transformados, permitindo que o futuro prometido molde decisivamente o presente.

Apêndices

1 – Abel

Caim e Abel eram irmãos com pouca diferença de idade, possivelmente só um ano de diferença. Quando Adão e Eva pecaram, Deus disse a Eva que seus sofrimentos no parto seriam multiplicados e disse também que nasceria da mulher um homem que venceria o Mal. Tempos depois da saída do jardim do Éden tiveram o primeiro filho. Eva achou que ele seria a redenção e disse “Com a ajuda do Senhor tive um filho homem”, colocando nele o nome de Caim, que significa lança, possivelmente imaginando seu filho como uma lança cravando a cabeça da serpente no chão. Ele seria a vingança pelo engano que sofreu, a redenção. Uma maravilha porque nem foi tão difícil ter o parto. Tudo tranquilo.

Então ficaram animados e tiveram o segundo filho. A palavra de Deus era que as dores seriam multiplicadas… isso se cumpriu com Abel, cujo nome está associado à respiração, algo entre fôlego, vapor e exalação, possivelmente por conta do sufoco e falta de ar pelo qual Eva passou naquele parto. Depois disso Eva não quis ter outro filho por um bom tempo. Muito tempo, de preferência, nunca mais!

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Enquanto cresciam, os irmãos também passaram pelo processo de dar e receber dos pais e entre si. Por ter Eva dado à luz com grande esforço e dor e não ser o caçula Abel a pessoa em que repousavam as esperanças da redenção, foi preterido na relação familiar por Caim, o primogênito. A preferência vinha de Eva pela lembrança das dores sofridas no parto de Abel. Isso interferia também na preferência de Adão por ter testemunhado o sofrimento da mulher no parto e por sofrer sérias restrições em sua vida conjugal nos anos que se seguiram. E como a diferença de um ano é drástica no início da vida, Caim sempre estava à frente do desenvolvimento, como era de se esperar, o que inevitavelmente ia ocupando o lugar na mente e coração dos pais. A situação não era fácil para Abel. Ele não era necessário ao plano de restauração, era dispensável, quase um estorvo.

Neste contexto de falta de atenção, até mesmo de rejeição, as histórias que o pai contava de quando estava no Éden, que ainda podiam ver dali onde estavam, devem ter despertado em Abel o que ficou abafado em Caim: o único caminho de aceitação está em Deus.

Por outro lado, Caim acalentava em seu coração que sua missão era dominar o mundo pós Éden e vencê-lo. Esse diferente entendimento de mundo nesta família fez com que cada um dos filhos se dedicasse ao que mais os caracterizava. Caim tentou dominar a terra que havia sido amaldiçoada por Deus por causa do pecado. Ele sofria com o cansaço, suava, criava ferramentas. Era difícil cultivar a terra. Adão, por certo, se solidarizava com ele porque o suor do rosto era por culpa dele. A mãe apoiava a atividade do filho e se realizava pela perspicácia de Caim na escolha das sementes enquanto, de certa forma, garantia por sua castidade a aceitação por parte de Deus desses esforços de Caim, já que sem ela não haveria o enchimento da terra. Como é normal, a quem muito é dado, muito é cobrado. Os mimos fizeram Caim pensar mais de si do que convinha.

Enquanto isso, Abel era relegado a segundo plano. A missão “nobre” de dominar a terra amaldiçoada ficou com o irmão. Ele se concentrou na parte da história que trazia esperança para cobrir a consciência da nudez que o pecado trouxe. Ele começou a criar ovelhas. Bichinhos amáveis, fofinhos. Na época não se comia carne, como também não chovia, existiam outros animais e outras plantas que hoje não existem mais… era outra época, mil anos antes do dilúvio.

Abel criava-os por causa da pele deles para fazer túnicas. Uma continuidade ao exemplo que o próprio Deus deu quando fez túnicas para seus pais antes de saírem do Paraíso. Era necessário o derramamento de sangue para a cobertura da vergonha da nudez. Ele se dedicou a essa atividade não tão produtiva, secundária em relação ao sustento da família já que não tinha benefícios materiais, apenas pelo benefício espiritual de cobrir a nudez que o pecado realçou.

Cada vez que tinha de matar um cordeiro para fazer as roupas de peles ele se entristecia e sentia a dor do pecado. Havia sangue, dor, perda, morte. Ele também sofria, sofria na alma, isso custava muito para ele. Mas era um custo diferente do custo de Caim. Era um esforço de corpo e alma, e não apenas de corpo. Não era só a pele por fora que sofria com o calor e suava, como acontecia com Caim, mas era o coração por dentro que sofria, chorava, e em certa medida, também morria um pouco junto com a morte de cada ovelha abatida.

****

Após alguns anos, possivelmente quando estavam entre 17 e 20 anos, e Caim estava para colher aquela que seria a melhor das colheitas que já tinha feito, resolveram que era tempo de apresentar a Deus o fruto do árduo trabalho que tiveram. Iriam obter a aprovação de Deus e seriam restaurados ao Paraíso! Sim! Trabalharam duro, foram criativos, planejaram, executaram, persistiram e agora os resultados foram consoantes com seus esforços! A dor do parto iria sumir novamente e Eva poderia voltar a povoar a terra.

Eles conseguiram dominar a terra, que agora entregava uma bela colheita conforme o planejado. Tinham sujeitado e vencido a maldição da terra. Havia expectativa, planejamento, alegria! Seria muito lindo! O fruto de Adão e Eva iria oferecer o fruto do seu trabalho na terra. O tempo tinha chegado. Fizeram uma reunião no jantar e planejaram um culto a Deus para a próxima lua cheia, quando as hortaliças estariam no seu esplendor.

O culto é a forma externa de uma religião, que evidencia a adoração, veneração ou homenagem ao ser a que se quer religar (religare è religião). A palavra “culto” vem de cultivo, de plantação, do que se cultivou, origem também do atributo de pessoas que cultivaram o conhecimento no ambiente civilizado: o letrado, a pessoa culta. O culto é um esforço nosso de promover a bênção dEle, ou a anulação de uma maldição. E este é o ponto neste primeiro culto da humanidade. É bom perceber que os quatro humanos estavam presentes nessa reunião, nessa cerimônia planejada, mas apenas os filhos ofertaram a Deus os seus esforços.

O movimento de Adão os levou para fora do Paraíso e agora esperavam voltar para lá com o movimento dos seus filhos, especificamente de Caim. Quando ele nasceu Eva achou que sua redenção tinha chegado e disse: “Alcancei do Senhor um homem” (Gênesis 4:1). Ela achava que Caim era o descendente que pisaria a cabeça da Serpente. E como entendiam que Caim era a realização da promessa e que Abel não tinha função nesse processo, o caçula ficou sendo, de certa forma, um peso. Melhor que ficasse longe das plantações e qualquer atividade que cumprisse esse propósito estava boa. Ainda assim ajudava com a produção controlada de fertilizantes, com a eliminação das plantas indesejáveis, com as observações que fazia sobre as preferências de alimentos pelos animais etc. Qualquer semelhança com Davi séculos mais tarde é mera coincidência…

Abel não tinha muito o que planejar. Não era ele quem fazia a atividade principal da família, a atividade de plantar e colher, a de ser agricultor; era só pegar um cordeiro e pronto. Os cordeiros vivem por si mesmos. Não há grandes méritos em criá-los.

Caim não gostava da criação de ovelhas de Abel porque era um risco à sua horta e os enxotava de lá. E como as coisas com o tempo se vinculam, passou também a não gostar muito de Abel. Ele tinha uma missão e não podia ficar perdendo tempo com as coisas que o caçula inventava. Isso reforçava o amor que Abel tinha pelos seus bichinhos porque ele também se sentia enxotado, um agregado, o testemunho da dor da mãe e da insatisfação do pai.

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Depois de muitos anos de trabalho, chegou o tempo da melhor colheita. É lua cheia. E amanhã será o grande e esperado dia, talvez numa sexta-feira, o dia da criação do Homem, para no dia seguinte ser um sábado, o dia do descanso, o descanso após muitos anos fora do Jardim.

Naquela semana haviam montado um lugar com pedras sobre as quais iriam queimar suas ofertas, possivelmente diante da entrada do jardim do Éden. E dali mesmo entrariam assim que a espada flamejante parasse de guardar a Árvore da Vida. Estava tudo pronto.

Queimar é um procedimento necessário porque o que damos uns aos outros deve ser usado por quem recebe o presente como símbolo de aceitação, como símbolo de nossa aceitação perante o presenteado. No caso de Deus, para dar algo a Ele não deve restar da oferta nada que seja aproveitável por nós, e o jeito de acabar com a matéria é queimá-la, o que de certa forma tira a utilidade da matéria para nós como uma forma de transferi-la pela fumaça ao Reino imaterial, o Reino espiritual, e torná-la aceitável, e, por consequência, nos tornar aceitáveis também. Nós e nossas ofertas são indissociáveis.

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Amanheceu!

Caim acordou animado! Selecionou os melhores frutos logo de manhã, trouxe do celeiro os feixes de espigas de grãos de trigo e centeio já amarrados em feixes e os organizou sobre seu altar. Era um dia de alegria.

Abel não queria ter acordado. Não precisou escolher. Sua seleção era de muito tempo atrás. Iria matar o melhor cordeiro que tinha, colocá-lo sobre o altar, queimá-lo e perdê-lo. Não era um dia de alegria para Abel, mas de tristeza. Apertou o cordeiro um pouco mais em um abraço longo.

Aquele cordeiro era o mesmo que ele viu nascer, brincou com ele, contou para ele seus pensamentos. Ele era seu amigo, ele era seu refúgio de carinho. Ele teria de matar o cordeiro de que mais gostava, não, não é isso; é o cordeiro a quem amava, e não teria nem sua pele como lembrança porque o fogo consumiria tudo. Esse pensamento incômodo o fazia sofrer desde os últimos meses quando a família percebeu que aquela colheita poderia ser digna de ser ofertada. Nessa última semana a antecipação da perda tinha deixado Abel mais triste a cada dia.

Naquela última noite ele dormiu abraçado ao cordeiro. Queria não ter acordado na manhã seguinte. Ele pensou em substitui-lo por outro, mas não tinha como trocá-lo por outro porque ele era o melhor, não havia outro melhor, era o único sem “defeito”. O mais belo dentre todos, “o meu amado é branco e rosado; ele é o primeiro entre dez mil” (Cânticos 5:10).

Uma última vez levou seu cordeiro para pastar e beber água. Era uma cumplicidade, um desfrutar da companhia. “O meu amado é meu, e eu sou dele; ele apascenta o seu rebanho entre os lírios” (Cânticos 2:16). Na última semana, ele é que se sentia como o cordeiro e poderia dizer que “Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu; ele apascenta entre os lírios” (Cânticos 6:3). Mas hoje era como se não importasse mais se a outra parte o amava porque ele amava o suficiente pelos dois. E assim como a Sunamita muito séculos depois, também chegou ali à percepção de que “Eu sou do meu amado, e ele me tem afeição” (Cânticos 7:10).

****

Voltou do passeio em lágrimas. Se recompôs, lavou o rosto, lavou as patas do cordeiro, tomou-o nos braços, pegou a faca e seguiu para o altar.

Não havia outro cordeiro a quem amasse mais, não havia outro melhor, então, deu o que lhe custava, deu o seu melhor, deu o seu tudo, deu a si mesmo em oferta.

Precisou matar sozinho seu melhor amigo. A família estava atenta aos detalhes da oferta do altar do Caim.

Deitou o cordeiro sobre as madeiras que estavam postas em cima das pedras que usaria como altar. Com uma mão tampou os olhos do cordeiro e com a outra mão cortou-lhe o pescoço. Cordeiros não revidam, apenas morrem.

****

E deu alguns passos para trás já arrependido por ter se dedicado por anos a algo tão pouco produtivo. E ainda tinha que gastar muita lenha para queimar, enquanto a oferta de Caim praticamente se queimaria por si mesma. Era mais que um corpo sem vida sobre a lenha, era parte da vida dele também sobre a lenha.

Enquanto se afastava sentiu que talvez tivesse entendido errado as histórias de seu pai, e talvez pudesse se cobrir com a pele de qualquer animal que caçasse, e talvez não precisasse criar esses bichinhos tão amáveis, os cordeiros. O sangue vermelho vivo escorrendo sobre a madeira seca, sujando a lã branca dos seu companheiro.

Ele perdeu muito naquele dia. Perdeu seu bichinho de estimação, seu amigo com quem passeava, com quem passava longas horas. Lembrava-se das vezes que cuidou dele quando era pequeno, quando caiu em buracos, quando se sujava, quando caiu no rio e se molhou correndo o risco de se afogar. E para tê-lo mais tempo consigo, aquela noite tinha dormido no curral com ele, para deixá-lo limpinho, para se despedir. O cordeiro também o amava e o seguia sempre, sempre vinha correndo quando chamado. Mas suas mãos agora estavam sujas de sangue, do sangue do seu único amigo. Sentiu vontade de se cortar e ter um pouco do sangue dele misturado ao seu, se isso resolvesse alguma coisa…

Naquele momento Abel perdeu tudo o que era realmente dele. Estava em luto. Parte dele, seu coração, estava sobre o altar também. Ali estava seu tesouro. Ele sacrificou o seu amor à matéria. Ele sacrificou tudo o que tinha. Ele sacrificou as primícias do seu rebanho, mas quem foi sacrificado de verdade foi ele. Ele sacrificou a Deus a si mesmo, sacrificou o seu coração. Sentia que o sangue que escorria era o dele, que era ele que estava morto sobre a lenha sendo oferecido a Deus, queria trocar de lugar e ser dele o corpo a ser consumido pelo fogo do juízo.

***

Não sabemos ao certo como se ficou sabendo que a oferta de Abel tinha sido aceita e a de Caim não, mas é bem possível que antes que os irmãos ateassem fogo sob os altares, Deus tenha mandado uma coluna de fogo do céu que consumiu a oferta de Abel poucos segundos assim como faria mais tarde com Elias no monte Carmelo. A luz, o calor, o barulho, alguns segundos, tudo rápido. Não houve dúvidas da aceitação da oferta; não restou nada da oferta, exceto a fumaça subindo lentamente no momento seguinte; sem vento, sem barulhos de animais, só o silêncio e a fumaça subindo…

Caim ficou atônito, com a boca aberta, os olhos fixos no altar em cinzas, o coração na boca; não podia acreditar. Eva não podia acreditar, Adão não podia acreditar; e muito menos Abel podia acreditar.

Desde então os justificados por Deus são chamados de justos, como Abel, justos para sempre. (Mateus 23:35)

2 – O Tema Morte para a Teologia Corrente

Para a fé cristã, a morte não é o fim da existência, mas sim a transição da vida terrena para a vida eterna. Ela é a separação da alma do corpo físico, resultado da entrada do pecado no mundo, conforme nos ensina a Escritura (Romanos 5:12). Embora seja um evento marcado pela tristeza e pela perda, para o crente em Cristo, a morte é revestida de uma nova perspectiva pela promessa da ressurreição e da vida eterna.

No momento da morte, a alma do crente é imediatamente levada à presença de Cristo (Filipenses 1:23; II Coríntios 5:8), entrando em um estado de descanso e bem-aventurança. Para o não crente, há um estado de separação de Deus e de sofrimento consciente.

No que tange ao pós-morte, a doutrina da ressurreição dos mortos é central. Cremos que, na vinda de Cristo, haverá uma ressurreição geral, tanto dos justos quanto dos injustos (João 5:28-29; I Coríntios 15). Os corpos dos crentes serão ressuscitados em glória, incorruptíveis e transformados a semelhança do corpo ressurreto de Cristo. Este corpo ressurreto será a habitação eterna da alma redimida.

Haverá um julgamento final, no qual todos os seres humanos prestarão contas de suas vidas diante de Deus. Os crentes, justificados pela Graça mediante a fé em Cristo, entrarão na alegria eterna do Reino de Deus. Os não-crentes enfrentarão a justa retribuição por seus pecados, separados da presença de Deus para sempre.

É importante ressaltar que a esperança cristã no pós-morte não se limita à mera sobrevivência da alma, mas culmina na ressurreição corporal e na renovação de toda a criação (Apocalipse 21:1-4). A vida eterna com Deus será uma realidade plena, marcada pela ausência de dor, sofrimento e morte.

Em resumo, a morte é uma realidade presente, mas não a palavra final. Para o crente, ela é um portal para a presença imediata de Cristo e a antecipação da ressurreição gloriosa. O pós-morte é caracterizado pela continuidade da existência, pelo Juízo Final e pela promessa de vida eterna em comunhão perfeita com Deus para aqueles que estão em Cristo. Esta esperança influencia profundamente a maneira como vivemos e enfrentamos a própria mortalidade e a perda de entes queridos.

3 – Crítica Interna da Teologia Corrente

Dentre as questões que persistem sem resposta para a teologia tradicional sobre a morte, há as que coincidem com as perguntas da Unidade anterior, Pecado, assuntos muito próximos, cujas respostas anunciamos e respondemos naquela oportunidade. As perguntas foram estas:

  A origem do mal: Se Deus criou um mundo perfeito, de onde surgiu o mal?

•  A imputação do Pecado Original: Como a culpa do pecado de Adão é imputada a toda a humanidade?

•  A extensão da depravação humana: Até que ponto a natureza humana foi corrompida pelo pecado?

Nossa resposta:

Essas questões foram respondidas na Unidade anterior, Pecado, porque os assuntos são muito próximos.


[1] Apocalipse 22:15 – Ficarão de fora os cães e os feiticeiros, e os que se prostituem, e os homicidas, e os idólatras, e qualquer que ama e comete a mentira.

[2] Do cromossomo X é herdado o DNA mitocondrial, de onde vai surgir a usina de energia das células, a mitocôndria; o cromossomo Y é herdado intacto do pai. Todos somos originados de uma mesma mãe primordial, Eva, e de um mesmo pai primordial, Adão. Eva era um clone com manipulação genética que transformou o cromossomo XY de Adão em XX; Eva era Adão feminino.

[3] Experimento descrito no livro A Matriz Divina: Um elo entre o tempo, o espaço, os milagres e as crença, de Braden, G. (2008). Rio de Janeiro: Editora Rocco.

[4] Lucas 1:38-41 – Disse então Maria: Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra. E o anjo ausentou-se dela. E, naqueles dias, levantando-se Maria, foi apressada às montanhas, a uma cidade de Judá, e entrou em casa de Zacarias, e saudou a Isabel. E aconteceu que, ao ouvir Isabel a saudação de Maria, a criancinha saltou no seu ventre; e Isabel foi cheia do Espírito Santo.

[5] https://www.semprefamilia.com.br/defesa-da-vida/vida-comeca-com-um-clarao-de-luz-revela-filmagem-inedita-de-uma-fecundacao/, consultado em julho/2024.

[6] O “para sempre” sem Ele não tem sentido de ser, essa continuidade indefinida como apresentado na religião. A imagem de uma destruição completa pela impossibilidade de reaproveitamento faz mais sentido, ainda que a destruição demore algum tempo, longo que seja, para ser efetivada.

[7] Veja o capítulo Há um só Deus

[8] Dreamer, personagem do livro “A Escola dos Deuses”, de Elio D’Anna.

[9] Canal Cosmologia Bíblica, obtido em dez/2021 no endereço: https://www.youtube.com/channel/UCp1-dpfemrxhXFtMpjiyCIA

[10] Acrescentamos nos Apêndices um pouco mais sobre a história de Abel.

[11] Temos apenas um caso na Bíblia de alguém que será ressuscitado duas vezes, Moisés. Quando ele vier como testemunha de Cristo no período da Grande Tribulação, será morto e ressuscitará segunda vez para em seguida subir aos Céus sob o olhar de todos, e depois terá seu corpo mudado para a forma celestial.

[12] Mateus 23:37 – Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!

[13] Strong, James. Strong’s Exhaustive Concordance of the Bible. Nashville: Thomas Nelson Publishers, 1990.

[14] Este é o desejo dEle para lá porque o desejo dEle para aqui na terra é que nos espalhemos. As cidades daqui são um arremedo do plano de Deus para tornar nossa vida confortável sem Deus.

[15] 1 Pedro 4:17 – Porque a ocasião de começar o juízo pela casa de Deus é chegada; ora, se primeiro vem por nós, qual será o fim daqueles que não obedecem ao evangelho de Deus?

[16] Atos 1:9-11 – E, quando dizia isto, vendo-o eles, foi elevado às alturas, e uma nuvem o recebeu, ocultando-o a seus olhos. E, estando com os olhos fitos no céu, enquanto ele subia, eis que junto deles se puseram dois homens vestidos de branco. Os quais lhes disseram: Homens galileus, por que estais olhando para o céu? Esse Jesus, que dentre vós foi recebido em cima no céu, há de vir assim como para o céu o vistes ir. (Monte das Oliveiras-nuvem-trono >> trono-nuvem- Monte das Oliveiras)

[17] Daniel 5:24-30 – 24 – Então dele foi enviada aquela parte da mão, que escreveu este escrito. 25 – Este, pois, é o escrito que se escreveu: MENE, MENE, TEQUEL, UFARSIM. 26 – Esta é a interpretação daquilo: MENE: Contou Deus o teu Reino, e o acabou. 27 – TEQUEL: Pesado foste na balança, e foste achado em falta. 28 – PERES: Dividido foi o teu Reino, e dado aos medos e aos persas. 29 – (…). 30 – Naquela noite foi morto Belsazar, rei dos caldeus.

[18] Colossenses 1:27 – Aos quais Deus quis fazer conhecer quais são as riquezas da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vós, esperança da glória.

[19] Mateus 11:12 – E, desde os dias de João o Batista até agora, se faz violência ao Reino dos Céus, e pela força se apoderam dele.

[20]  Nota do Editor: A frase ‘romper com seu chamado natural com violência’ enfatiza uma rejeição decisiva e enérgica das inclinações mundanas ou egoístas em favor do chamado de Deus. A ‘violência’ aqui é direcionada contra a própria natureza inferior ou a atração do mundo, destacando a intensidade do compromisso exigido para a transformação espiritual. É o equivalente nos textos de Paulo a I Coríntios 9:27: Antes subjugo o meu corpo, (ou esmurro o meu corpo, em outras versões) e o reduzo à servidão, para que, pregando aos outros, eu mesmo não venha de alguma maneira a ficar reprovado.

[21] Sim, um homem pode ter várias esposas, mas hoje isso seria inviável e na maioria dos países, até mesmo ilegal. São exemplos disso Jacó, Davi e Salomão. Aqui, o Noivo é o Senhor Jesus e as noivas são cada um de nós.

[22] Hebreus 12:8 – Mas, se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes, sois então bastardos, e não filhos.

[23] Dados consultados nos seguintes lugares: Brasil: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Ministério da Justiça e Segurança Pública, Organização das Nações Unidas (ONU), Banco Mundial. | Espanha: Ministério do Interior, Organização das Nações Unidas (ONU), Banco Mundial. | Estados Unidos: Federal Bureau of Investigation (FBI), U.S. Census Bureau. | França: Gendarmerie Nationale, Ministério do Interior, Banco Mundial. | Itália: Commissario Straordinario del Governo per le Persone Scomparse, Organização das Nações Unidas (ONU), Banco Mundial. | Reino Unido: Missing People, National Crime Agency, Office for National Statistics.

[24] https://gizmodo.uol.com.br/quais-numeros-mudam-legalizacao-aborto/

[25] Mateus 19:14 – Jesus, porém, disse: Deixai os meninos, e não os estorveis de vir a mim; porque dos tais é o Reino dos Céus. Lucas 18:16 – Mas Jesus, chamando-os para si, disse: Deixai vir a mim os meninos, e não os impeçais, porque dos tais é o Reino de Deus.

[26] É digno de nota que o óleo da unção estava em um vaso de barro quando foi derramado sobre Saul, mas em um chifre de cordeiro quando foi derramado sobre Davi.

Resumo

Neste capítulo, convidamos você a explorar a verdadeira natureza da IGREJA, indo além de construções denominacionais e tradições. Veremos que a origem da Igreja está em Cristo, assim como Eva se originou de Adão sem qualquer ligação com o barro, sendo a Igreja considerada a noiva e o Corpo de Cristo.

Analisaremos a distinção fundamental entre Israel e a Igreja, entendendo que a Igreja não está sujeita às mesmas leis dadas a Israel. Descobriremos como gentios e judeus se tornam Igreja ao serem selados com o Espírito de Cristo. A ênfase será dada à unidade dos crentes pelo Espírito, transcendendo distinções étnicas.

Nossa abordagem, desafia algumas noções correntes sobre a Igreja e suas práticas. Veremos a Igreja como uma escola onde aprendemos mais de Cristo, incentivando o uso da mente para compreender a vontade de Deus. Prepare-se para uma nova perspectiva sobre a identidade e o propósito da Igreja focada unicamente em Cristo. Esperamos que esta jornada o leve a uma compreensão mais profunda do plano de Deus para a Sua Igreja na terra e impacte no modo como você enxerga seus irmãos em Cristo.

Introdução

Após nossa jornada pelos fundamentos de Deus, Pecado e Morte, chegamos a um tema que toca diretamente nossa identidade, a Igreja. Mas o que realmente significa essa palavra tão familiar e, por vezes, tão carregada de tradições e estruturas humanas? Será que a imagem que temos da Igreja corresponde ao plano original Daquele que a idealizou?

Nesta Unidade, convidamos você a deixar de lado, por um momento, os edifícios, as denominações e as hierarquias que costumamos associar à Igreja. Vamos juntos investigar suas raízes mais profundas, buscando entender sua origem não no barro do mundo, mas diretamente em Cristo, assim como Eva foi formada a partir de Adão. Que relação existe entre essa Noiva celestial e a nação terrena de Israel? Seriam elas irmãs, uma seria sucessora da outra, ou seriam entidades distintas com propósitos únicos no grande plano divino?

Exploraremos como indivíduos de todas as nações, judeus e gentios, são enxertados neste Corpo vivo, não por ritos ou genealogia, mas pela ação soberana do Espírito. Discutiremos também como essa unidade espiritual transcende as barreiras que tanto nos dividem aqui na terra. E, inevitavelmente, tocaremos na tensão clássica entre a soberania divina na escolha (Predestinação) e a responsabilidade humana na resposta (Livre Arbítrio), buscando uma perspectiva que harmonize essas verdades aparentemente conflitantes dentro do contexto da Igreja.

Prepare-se para confrontar algumas ideias pré-concebidas e redescobrir a Igreja não como uma organização, mas como um organismo vivo, a expressão visível do Corpo de Cristo no mundo, Sua embaixada neste território estrangeiro. Que possamos, juntos, ter nossos olhos abertos para a beleza e o mistério da verdadeira Igreja do Senhor Jesus.

Eva, Israel, e a Igreja

Deus tem um plano de expandir o Seu amor e formar para Si alguém que Lhe auxilie, assim como ele criou a mulher a partir de um pedaço de Adão para lhe ser uma noiva, uma auxiliadora. Eva era material para um Adão também material, e tudo de que ela era formada veio de Adão; a Igreja é celestial para um Adão também celestial, e tudo de que ela é formada veio de Cristo.

Israel está nesse intervalo no meio do caminho como uma ponte com o propósito bem específico, preparar o ambiente para a vinda do Senhor Jesus, o Deus visível, para que dEle fosse tirado um pedaço em seu sono e fosse formada a sua noiva.

Alguns irmãos pensam que quando Jesus veio Ele manteve a lei e a expandiu para o Seu Reino e por isso a igreja está sujeita a lei e é como que uma irmã dos judeus. Parece até uma boa história, mas não é o caso: o Senhor Jesus estabeleceu uma nova lei sendo ele mesmo um novo sacerdote para essa lei e não há nada posto para Israel que seja cobrado da Igreja. Mas vamos por partes. Primeiro vamos esclarecer a utilidade do povo de Heber, os hebreus, povo nascido da promessa feita a Abraão. Depois vamos ver a misericórdia de Deus com os gentios, todos aqueles que não são descendentes de Abraão pelo filho da promessa, Isaque. E, por fim, vamos ver que essas coisas eram figuras (sombras) do que viria, a realidade.

Utilidade dos hebreus

Em Gênesis 6 temos a corrupção do gênero humano pela entrada dos anjos na nossa história. Eles tiveram filhos com as mulheres, filhos de mistura proibida por Deus, e como consequência da morte que tiveram no dilúvio não puderam ir para o Sheol ou para o Paraíso, lugares destinados aos homens, nem puderam ir para o terceiro céu, lugar destinado aos anjos porque seus pais, os anjos caídos saíram voluntariamente de lá e como eles mesmos seguiram os caminhos ruins de seus pais, ficaram sem lugar para ir. Hoje nós os conhecemos como os demônios.

Depois do dilúvio vemos que voltaram a aparecer gigantes na terra, mas a Bíblia não diz que houve outras descidas de anjos como em Gênesis 6. Então, o que pode ter acontecido? Alguns deles passaram pelo dilúvio com algum outro barco. E é isso que é contado na história de Gilgamesh. Esses poucos gigantes mais os demônios contaminaram novamente a humanidade, agora de uma forma mais fraca porque os anjos não estavam presentes. Deus precisava de uma família não corrompida para ser o canal da vinda do Messias e encontrou em Abrão, depois chamado de Abraão, essa trilha. Dele o Senhor fez nascer um povo e para que fossem preservados deixou que fossem escravos em uma terra corrompida. Preservados pelo orgulho dos descendentes dos gigantes em não se envolverem com “essa raça inferior de escravos”, mantiveram sua genética sem contaminações até a chegada do Senhor Jesus Cristo, que nasceu de uma mulher totalmente humana e teve um pai adotivo totalmente humano.

Os pactos e as leis serviram para conduzir a atenção das pessoas a Cristo quando Ele viesse, para que O reconhecessem como o cumprimento das promessas previamente anunciadas. Antes de Cristo (a.C.), todos que eram salvos por terem fé em Deus sabendo que um dia Ele traria o seu Messias sobre esta terra para consertar as coisas; depois de Cristo, todos continuam sendo salvos pela mesma fé. As diferenças são que antes a pessoa olhava para o futuro e hoje olhamos para o passado, e, o mais importante, antes o Espírito de Deus não habitava o espírito do crente, e agora habita. Uma diferença resolvida quanto Ele levou o Paraíso para o céu ressuscitando todos os que nele estavam.

E como os gentios foram habilitados?

Os israelitas estavam próximos da promessa de Deus e os gentios, as gentes ou os povos, os que não são judeus, estavam longe. Isso não quer dizer que nenhum não-judeu nunca foi salvo, como alguns podem pensar. Temos na Bíblia o Melquisedeque e os reis magos para nos mostrar que estrangeiros a Israel também eram salvos. Mas a salvação, dada como uma pessoa, Cristo, vem dos judeus porque esse era o plano desde o começo. Um plano de alcançar o mundo todo.

Quando Ele cumpriu na cruz a justiça de Deus toda a humanidade foi abrangida, sem distinção, sem condições, sem pré-requisitos. Porque muito antes de Ele escolher Abraão, Adão já tinha sido a primeira escolha, a Sua imagem a partir da qual todos vieram. Então O Ungido, assim como o Último Adão, fez uma coisa com consequências para toda a humanidade, mas nesse caso a sua ação produziu um efeito maior porque “onde abundou o pecado, superabundou a graça”. E por isso hoje temos acesso direto a Deus por Cristo, o Deus em Carne.

Os que têm seu espírito vivificado pela entrada do Espírito de Cristo dentro dos seus espíritos são imersos no Corpo de Cristo. Em Mateus 16 temos o revelar de dois segredos: o primeiro foi o que Pedro pôs em palavras, que Jesus era o Filho de Deus que havia de vir ao mundo, uma revelação que o Pai deu a Pedro porque era impossível perceber isso pelo Senhor Jesus estar ainda em Sua Carne. A segunda, foi uma revelação do Senhor Jesus, que Ele mesmo edificaria a sua igreja. A Igreja é o Corpo de Cristo. Não é a Sua Carne, mas é o Seu Corpo. A teologia chama isso de Corpo Místico, a reunião de todos os crentes por todo o mundo e em todos os tempos.

Eva anunciava a Igreja.

Gentios, judeus e a Igreja

Agora, caro leitor, precisamos ter clareza de uma coisa: quando um gentio é selado com o Espírito de Cristo, ele deixa de ser um gentio e passa a ser Igreja; e quando um judeu é selado com o Espírito de Cristo, ele, igualmente, deixa de ser judeu e passa a ser Igreja. Os judeus da religião judaica, o judaísmo, são inimigos de Cristo. Existem cristãos que pregam para judeus, mas quando esses judeus se convertem, deixam de ser judeus, assim como os gentios, quando se convertem.

É claro que um nascido judeu sempre será judeu, assim como um brasileiro sempre o será, convertido ou não. Entretanto, não estamos falando de quem nasce no Estado de Israel nem quem é filho de judeus, mas dos judeus que professam a crença judaica.

Os chamados judeus messiânicos não são judeus se crerem no Senhor Jesus, o Deus em Carne; ou são judeus e não são crentes no Senhor Jesus. Ou são enganadores, ou são vítimas de engano. Mas não podem ser Igreja e judeus ao mesmo tempo.

Hoje os judeus estão em incredulidade, desviados dos caminhos do Senhor e seus esforços para a construção do Terceiro Templo, e muitos outros esforços, evidenciam o quão distantes estão, pois buscam em ritos a solução daquilo que somente se pode obter por fé. Assim, renegam os profetas e o Deus que enviou os profetas. Um dia o Senhor Jesus virá visivelmente e entrará em Jerusalém e eles reconhecerão como povo, como nação, o erro que estão cometendo. Mas até que isso ocorra, apenas alguns têm seus olhos abertos, os que são tirados do mundo e dos judeus e são incluídos na Igreja.

Entenda: os judeus são inimigos do Senhor Jesus

O trecho do Talmude Babilônico, tratado Gittin 57 A, registra a visão dos sábios judeus do judaísmo sobre a punição divina e a gravidade de certas transgressões:

“Nossos mestres ensinaram: Há quatro tipos de Gehenna: a cova, o poço, as fezes ferventes e a pressão. A cova é para os hereges, o poço é para os apóstatas, as fezes ferventes são para os delatores e a pressão é para os epicuristas”

Vamos ver o vocabulário desse trecho:

  • Gehenna: Na tradição judaica, Gehenna não é um Inferno eterno, mas um lugar de purificação temporária para as almas que precisam se redimir de seus pecados.
  • Hereges: Aqueles que negam os princípios básicos da fé judaica, como Jesus Cristo fez, na visão deles.
  • Apóstatas: Judeus que abandonaram a fé judaica e se converteram a outra religião.
  • Delatores: Aqueles que traem seu próprio povo, entregando-os às autoridades gentias. Incluem aqui tanto os cobradores de impostos, como Mateus, por exemplo, como os que promovem o enfraquecimento do povo e de suas autoridades, como Jesus Cristo.
  • Epicuristas: Aqueles que negam a existência de Deus e a vida após a morte.

No judaísmo ortodoxo, Jesus não é reconhecido como o Messias e, portanto, é considerado um falso profeta, um herege e um delator. De acordo com a tradição talmúdica, falsos profetas são punidos no Gehenna, um lugar de purificação após a morte.

As punições no Gehenna variam de acordo com a gravidade dos pecados cometidos. No caso de Jesus, algumas das punições que poderiam ser aplicadas, segundo a tradição talmúdica, porém a que mais se adapta a Ele é a imersão em fezes humanas ferventes. Esta é uma punição reservada para aqueles que se desviaram do caminho correto (tradição judaica) e levaram outros a se desviarem também enfraquecendo assim o povo judeu.

Como bem profetizou o Senhor Jesus, chegaria o dia em que aqueles que matam os cristãos julgarão estar prestando adoração a Deus. E essa é a mentalidade atual dos judeus ortodoxos a respeito de Jesus Cristo e dos cristãos.

A Igreja um dia vai ser unida aos outros santos do passado e juntos serão a Noiva do Cordeiro. Aguardemos esse dia de união!

Predestinação e Livre Arbítrio

Este assunto da predestinação e do livre arbítrio incomoda muita gente. Luís Sayão, um renomado teólogo brasileiro, disse certa vez em uma entrevista, com muita perspicácia e humor, que os Calvinistas deveriam aceitar que os Arminianos acreditam no livre arbítrio porque eles estão predestinados a isso; e os Arminianos deveriam entender que os Calvinistas têm livre arbítrio para acreditarem na predestinação. Sua ênfase foi na unidade da Igreja.

Essas duas correntes tentam entender parte da revelação de Deus e são respostas para um conjunto de versículos, mas não vamos entrar aqui em detalhes sobre cada um deles. Já existem livros demais sobre isso! Basta-nos contribuir com a visão geral.

Essas duas escolas, com suas várias correntes, se concentram na mão do mágico e querem discutir se a carta foi marcada no baralho ou se foi incluída na posição que o mágico queria, todavia, ignoram que a mágica aconteceu muito antes do número ser apresentado, quando o baralho todo foi trocado por outro que tinha todas as cartas iguais. Quanto mais de perto se olha um truque de mágica, menos vemos a verdade. Então vamos nos afastar apropriadamente por alguns momentos e ver a cena completa.

Como já discutimos nas unidades anteriores deste livro, quando o Senhor criou tudo Ele o fez para que no fim fosse tudo em todos os que O querem (ou os que Ele escolheu) e que para isso as pessoas precisam concordar com o juízo dEle, sob o risco de ocorrer uma injustiça. Então temos a necessidade de vivermos uma vida; não para que Ele saiba o que vai acontecer, mas para que nós saibamos.

Então, sob a perspectiva da predestinação, é correto afirmar que Deus já sabe tudo o que vai acontecer e, levado ao limite, Ele sabe quantas vezes tivemos que reescrever cada palavra desta frase.

Então, sob a perspectiva do livre arbítrio, é correto afirmar que cada experiência por que passamos tem um componente de livre arbítrio, e levado ao limite, somos responsáveis pelo nosso futuro e Deus não pode impor sua vontade sobre nós.

Ora, e como conciliar essas duas coisas, já que existem e são a nossa experiência humana? Ele sabe, mas nós não sabemos. Ora, não podemos ser julgados de forma justa pelo que não sabemos, ainda que o julgamento seja justo em sua forma, porque nos faltaria conhecimento para darmos a nossa concordância com ele. E como só podemos concordar com o julgamento se tivermos tido uma vida em liberdade, uma vida de livre arbítrio, para nos tornarmos responsáveis pelos resultados, é preciso que cheguemos à seguinte conciliação: Deus sabe, mas não nos conta para preservar a nossa atuação, nossa liberdade. E ninguém consegue colocá-Lo contra a parede para que conte o que comeremos amanhã. Você vai decidir se vai comer e o que vai comer. Ele já sabe, mas isso não tem importância para nós. Importa para nós o que nós decidimos.

A predestinação e o livre-arbítrio são duas faces de uma mesma moeda, não há como separá-las porque nasceram juntas. Sem predestinação, Deus não seria Deus; e sem livre-arbítrio, não haveria amor em Deus. Compreendidas assim, faz sentido orar, pregar, zelar pelas disciplinas espirituais, viver, bem como faz sentido Deus interferir na história e levantar ou abater pessoas, amolecer ou endurecer os corações, dar coragem e sabedoria, ou matar e destruir. As duas coisas juntas explicam a misericórdia de Deus diante da conversão de Nínive e a Sua ira contra os israelitas no deserto; sua interferência na viagem de Saulo para Damasco e a sua interferência no repouso de Pedro na casa do curtidor.

Nossa oração é para que o Senhor Jesus abra o nosso entendimento.

Palavras Finais

A Igreja não é deste mundo, mas uma embaixada de Deus aqui. Convive com o mundo, mas não se amolda a ele porque segue as regras do seu Rei. Eles são cidadãos do Reino e o representam aqui nessa terra dominada pelo império do mal. Esse corpo diplomático testemunha nessas terras a origem deles, uma origem celestial; não são daqui, são de lá.

É uma embaixada que não é bem-vinda porque o príncipe deste mundo sabe que estamos aqui a serviço do Rei e que um dia Ele mesmo virá. Então esse corpo diplomático, a Igreja, é hostilizado, sofre atentados, sofre perseguições, é caluniado, humilhado e seus membros são mortos. Essas coisas acontecem COM esses estrangeiros, conosco, mas são direcionados CONTRA o Rei a Quem representamos. É para atingi-Lo porque este mundo odeia o Rei, e como o Rei está em nosso espírito, então nos odeia também.

E por isso precisamos perdoá-los, porque as ofensas deles não são contra nós, ainda que sejam conosco, mas contra o nosso Rei. Se perdoamos, seguimos nosso Rei; se não perdoamos, seguimos o caminho do ódio deles e ficamos parecidos com eles.

Que essa perspectiva possa abrir nossos olhos e nos tornar mais sábios e prudentes.

Recapitulando

Revisão dos principais pontos abordados

Nesta Unidade, nossa conversa se aprofundou na identidade e natureza da Igreja, buscando desvendar o que ela verdadeiramente é no plano de Deus, para além das estruturas e tradições que muitas vezes a definem em nosso entendimento comum.

1. A Origem Celestial e a Analogia com Eva: Exploramos a ideia de que a Igreja, assim como Eva foi formada a partir de Adão, tem sua origem diretamente em Cristo. Ela não é uma construção terrena, mas uma entidade celestial, a Noiva de Cristo, formada a partir dEle para ser Sua auxiliadora nas eras vindouras. Esta perspectiva nos desafia a ver a Igreja primariamente como um organismo espiritual, o Corpo de Cristo.

2. Distinção entre Israel e a Igreja: Um ponto crucial de nossa discussão foi a distinção fundamental entre a nação de Israel e a Igreja. Argumentamos que a Igreja não é uma mera continuação ou substituição de Israel, nem está sujeita às leis e pactos específicos dados àquela nação. Enquanto Israel teve um papel preparatório vital, a Igreja opera sob uma nova aliança, com uma nova lei e um novo sacerdócio em Cristo.

3. A Formação da Igreja: Judeus e Gentios em Um Só Corpo: Vimos como tanto judeus quanto gentios, ao serem selados pelo Espírito de Deus, são incorporados à Igreja. Essa união transcende identidades étnicas ou religiosas anteriores, formando uma nova humanidade em Cristo. Enfatizamos que, uma vez parte da Igreja, a distinção “judeu” ou “gentio” (no sentido religioso e pactual) deixa de ter relevância para a identidade no Corpo de Cristo.

4. A Incompatibilidade entre a Fé Judaica Atual e a Igreja: Abordamos a difícil questão da relação entre o judaísmo contemporâneo e a fé cristã, argumentando que a adesão à fé judaica, que rejeita o Senhor Jesus como Messias, é incompatível com o pertencimento à Igreja. Aqueles que verdadeiramente creem em Jesus como o Deus em Carne, sejam de origem judaica ou gentílica, tornam-se parte da Igreja, deixando para trás as antigas alianças.

5. Predestinação e Livre Arbítrio na Igreja: Discutimos a tensão entre a soberania de Deus na eleição e a responsabilidade humana na fé. Propusemos que a predestinação e o livre arbítrio são duas faces da mesma moeda, verdades bíblicas que coexistem. Deus, em Sua presciência, conhece todas as coisas, mas isso não anula a genuína liberdade de escolha e a responsabilidade do indivíduo em responder ao chamado divino, nem a necessidade de vivermos a experiência para que o juízo de Deus seja justo aos nossos próprios olhos.

6. A Igreja como Embaixada Celestial: Concluímos com a imagem da Igreja como uma embaixada do Reino dos Céus em território estrangeiro (o mundo). Seus cidadãos, os crentes, vivem aqui, mas não pertencem a este sistema, seguindo as leis de seu Rei. Por representarem um Rei que o mundo hostiliza, os membros da Igreja frequentemente enfrentam oposição e perseguição, o que nos chama a uma postura de fidelidade, sabedoria e perdão.

Pontos de Atenção

Ao refletir sobre esta Unidade acerca da Igreja, você é convidado, caro leitor, a ponderar sobre:

  • A natureza espiritual e celestial da Igreja, contrastando-a com visões puramente institucionais ou sociológicas.
  • A clareza da distinção entre os propósitos e as alianças de Deus com Israel e com a Igreja, e como isso impacta nossa teologia e prática.
  • A radicalidade da unidade em Cristo, que supera todas as barreiras étnicas e religiosas anteriores.
  • A importância de uma fé que reconhece tanto a soberania de Deus quanto à responsabilidade humana, evitando os extremos de um fatalismo paralisante ou de um humanismo autossuficiente.
  • As implicações práticas de viver como cidadãos do Reino dos Céus em um mundo que muitas vezes se opõe aos valores desse Reino.

Buscamos realinhar nossa visão com o que as Escrituras revelam sobre o Corpo de Cristo. Que a compreensão desses temas fortaleça sua identidade e seu compromisso como membro desta comunidade divina. Os apêndices no fim, como sempre, trarão contrapontos e aprofundamentos valiosos.

Perguntas e Respostas

Elaboramos algumas questões e suas respostas para ajudar na compreensão do tema exposto nesta Unidade:

❶. Como a analogia entre a formação de Eva a partir de Adão e a origem da Igreja a partir de Cristo nos ajuda a entender a natureza e o propósito da Igreja?

O capítulo utiliza a analogia entre a formação de Eva a partir de Adão e a origem da Igreja a partir de Cristo como uma metáfora para compreender a natureza e o propósito da Igreja. Assim como Eva foi formada do lado de Adão durante seu sono profundo, a Igreja nasceu do lado de Cristo quando ele “dormiu” na cruz e seu lado foi perfurado. O texto explica que, assim como Eva foi criada para ser uma auxiliadora idônea para Adão, a Igreja foi formada para ser a noiva de Cristo, sua companheira e complemento. Esta analogia revela vários aspectos fundamentais: primeiro, a Igreja tem origem divina e não humana, sendo formada pela intervenção direta de Deus; segundo, existe uma união íntima e orgânica entre Cristo e a Igreja, sendo esta literalmente formada de sua substância; terceiro, a Igreja tem um propósito relacional, existindo para a comunhão com Cristo e para manifestar seu caráter; e quarto, a Igreja completa Cristo em seu ministério terreno, assim como Eva completava Adão, sendo o ministério da Igreja o da reconciliação. A Igreja não é uma instituição humana ou uma organização religiosa, mas um organismo vivo, nascido do sacrifício de Cristo e destinado a uma união eterna com Ele.

❷. Quais são os principais argumentos apresentados no capítulo para distinguir a Igreja de Israel? Por que essa distinção é considerada teologicamente importante?

O capítulo apresenta vários argumentos para distinguir a Igreja de Israel. Primeiro, argumenta que Israel é uma nação étnica com promessas territoriais específicas, enquanto a Igreja é uma entidade espiritual composta por pessoas de todas as nações. Segundo, Israel foi formado através de nascimento físico (descendência de Abraão), enquanto a Igreja é formada por nascimento espiritual (regeneração). Terceiro, Israel operava sob a Lei de Moisés, enquanto a Igreja opera sob a Lei de Cristo e a Nova Aliança. Quarto, as promessas a Israel eram principalmente terrenas e nacionais, enquanto as promessas à Igreja são celestiais e espirituais. Quinto, Israel tinha um sacerdócio específico (levítico), enquanto na Igreja todos os crentes são sacerdotes do ministério de reconciliação de Deus com os homens. Esta distinção é considerada teologicamente importante por várias razões: evita a “teologia da substituição” que afirma que a Igreja substituiu Israel nas promessas de Deus; preserva a fidelidade de Deus às suas promessas incondicionais feitas a Israel; permite uma interpretação mais consistente das profecias bíblicas, especialmente as relacionadas ao fim dos tempos; e esclarece a identidade e missão única da Igreja como o novo povo de Deus formado em Cristo, dos gentios e judeus salvos, sem negar o papel contínuo de Israel no plano divino.

❸. De que maneira o capítulo descreve o processo pelo qual judeus e gentios se tornam parte da Igreja? Qual o papel do Espírito Santo nesse processo?

O capítulo descreve o processo pelo qual judeus e gentios se tornam parte da Igreja como uma transformação espiritual radical que transcende barreiras étnicas e culturais. Para ambos, judeus e gentios, o processo começa com o arrependimento e a fé em Jesus Cristo como Salvador e Senhor. No entanto, o texto enfatiza que para os judeus, isso envolve reconhecer Jesus como o Messias prometido, enquanto para os gentios, envolve abandonar a idolatria e voltar-se para o Deus verdadeiro. O papel do Espírito Santo nesse processo é descrito como absolutamente central e multifacetado. Primeiro, o Espírito Santo convence do pecado, da justiça e do juízo, preparando o coração para a conversão. Segundo, Ele regenera o crente, produzindo o novo nascimento. Terceiro, o Espírito batiza o novo crente no Corpo de Cristo, incorporando-o à Igreja universal. Quarto, Ele sela o crente, garantindo sua salvação. Quinto, o Espírito habita permanentemente no crente em seu espírito, capacitando-o para a vida cristã. Sexto, Ele distribui dons espirituais para o serviço no Corpo de Cristo. O capítulo enfatiza que este processo é o mesmo para judeus e gentios, criando “um novo homem” em Cristo, onde as antigas distinções étnicas perdem sua importância salvífica, embora as identidades culturais possam ser preservadas.

❹. O capítulo afirma que os judeus que professam a crença judaica (que rejeita Jesus como Messias) são “inimigos de Cristo”. Como essa afirmação é fundamentada e quais as suas implicações para o diálogo inter-religioso e a evangelização?

O capítulo fundamenta a afirmação de que os judeus que rejeitam Jesus como Messias são “inimigos de Cristo” conforme Romanos 11:28, onde Paulo escreve: “Quanto ao evangelho, são inimigos por causa de vós; mas, quanto à eleição, amados por causa dos pais”. O texto argumenta que esta não é uma declaração antissemita, mas uma realidade teológica: qualquer pessoa ou grupo que rejeita conscientemente a Jesus como Messias e Salvador se coloca em oposição objetiva aos propósitos de Deus em Cristo, independentemente de sua etnia. O capítulo enfatiza que esta “inimizade” é primariamente teológica, não pessoal ou étnica. Quanto às implicações para o diálogo inter-religioso, o texto sugere uma abordagem equilibrada: por um lado, reconhecer as diferenças teológicas fundamentais sem diluí-las em nome da tolerância; por outro lado, manter o respeito, a dignidade e o  amor genuíno no diálogo. Para a evangelização, o capítulo propõe: primeiro, reconhecer a posição especial dos judeus no plano de Deus (Romanos 11); segundo, abordar a evangelização com sensibilidade histórica e cultural; terceiro, enfatizar o cumprimento das profecias messiânicas em Jesus; e quarto, apresentar o evangelho como o cumprimento, não a negação, das esperanças judaicas. Quando um judeu se converte, deixa de ser judeu e se torna Igreja; e da mesma forma, quando um não judeu se converte, também se torna Igreja. Não há judeu e gentio na Igreja.

❺. Como o capítulo concilia as doutrinas da Predestinação e do Livre Arbítrio? Qual a importância de se manter ambas as verdades em equilíbrio?

O capítulo concilia as doutrinas da Predestinação e do Livre Arbítrio adotando uma abordagem que reconhece ambas como verdades bíblicas complementares, não contraditórias, como peças de um mesmo quebra-cabeça. O texto argumenta que a aparente tensão entre estas doutrinas resulta de nossa compreensão limitada e temporal, enquanto Deus opera na eternidade. A conciliação proposta inclui vários elementos: primeiro, reconhecer que Deus é soberano em Sua escolha; depois, reconhecer que viver uma vida com liberdade de decisão é necessário para que haja plena justiça no julgamento de Deus, pois não basta Ele saber, pois a justiça completa só ocorre quando o réu também concorda com o julgamento. Deus sabe, o que no fim das contas é a predestinação; nós não sabemos, o que no fim das contas é o livre arbítrio. O capítulo enfatiza a importância de manter ambas as verdades em equilíbrio por várias razões: preserva a soberania e glória de Deus na salvação, evitando que se torne uma conquista humana; mantém a responsabilidade humana genuína, evitando o fatalismo; protege contra extremos teológicos como o hiper-calvinismo (que minimiza a responsabilidade humana) ou o pelagianismo (que minimiza a necessidade da graça); e reflete mais fielmente o testemunho completo das Escrituras, que afirmam tanto a eleição divina quanto a responsabilidade humana.

❻. Explique a metáfora da Igreja como uma “embaixada celestial”. Quais são as responsabilidades e os desafios dos “cidadãos” dessa embaixada vivendo neste mundo?

O capítulo explica a metáfora da Igreja como uma “embaixada celestial” baseando-se em passagens como Filipenses 3:20 (“a nossa cidadania está nos Céus”) e II Coríntios 5:20 (“somos embaixadores de Cristo”). Assim como uma embaixada representa um país estrangeiro em território de outra nação, a Igreja representa o Reino de Deus no território deste mundo. Esta embaixada opera sob a autoridade e as leis do Reino que representa, não do território onde está localizada. As responsabilidades dos “cidadãos” dessa embaixada celestial incluem: representar fielmente os valores e interesses do Reino de Deus; proclamar a mensagem de reconciliação entre Deus e a humanidade; oferecer asilo espiritual e refúgio para aqueles que buscam cidadania no Reino de Deus; manter a cultura e os costumes do Reino celestial, mesmo vivendo em território estrangeiro; e facilitar a comunicação e relacionamento entre o Reino de Deus e os habitantes deste mundo. Os desafios incluem: manter a identidade distinta como cidadãos celestiais sem se isolar completamente da cultura local; resistir à assimilação e à conformidade com os valores do mundo; enfrentar potencial hostilidade ou perseguição por representar um Reino contra quem os poderes deste mundo lutam; equilibrar o engajamento cultural com a fidelidade aos valores do Reino; e viver com a tensão constante de estar “no mundo, mas não ser do mundo”. O capítulo enfatiza que esta metáfora ajuda os crentes a entenderem sua identidade dual como residentes temporários neste mundo, mas cidadãos permanentes do Reino de Deus.

❼. Considerando a discussão sobre a “utilidade dos hebreus” no plano divino, como o capítulo conecta a preservação de uma linhagem não corrompida até Cristo com a formação subsequente da Igreja?

O capítulo estabelece uma conexão direta entre a preservação de uma linhagem não corrompida até Cristo e a formação subsequente da Igreja, apresentando-as como fases consecutivas no plano redentor de Deus. A “utilidade dos hebreus” no plano divino consistia principalmente em preservar uma linhagem genética e espiritual através da qual o Messias poderia vir ao mundo. Deus separou Israel das outras nações, deu-lhes a Lei e os preservou através de séculos de história precisamente para manter uma linhagem pura através da qual Cristo pudesse nascer, cumprindo as profecias messiânicas. Uma vez que Cristo veio, completou sua obra redentora e ressuscitou, esta fase do plano divino foi cumprida. A formação da Igreja representa então a próxima fase deste plano, onde o foco muda da preservação de uma linhagem étnica específica para a formação de um novo povo de Deus composto por pessoas de todas as nações. O capítulo argumenta que a Igreja não substitui Israel, mas representa uma nova criação de Deus baseada não em descendência física, mas em união espiritual com Cristo. Assim, a preservação de Israel serviu ao propósito de trazer o Messias ao mundo, e o Messias, por sua vez, estabeleceu a Igreja como o veículo para levar a salvação a todas as nações. O texto vê esta transição como o cumprimento do propósito original da eleição de Israel: ser uma bênção para todas as famílias da terra (Gênesis 12:3).

Apêndice

1 – Paulo

― Paulo, tem certeza de que quer que eu escreva isso? Não acha que é um exagero falar isso para o Timóteo?…

― Quem dera eu conhecesse algo mais baixo do que isso… seria a minha meta descer até lá. Sabe, cada um, na verdade, o principal dos pecadores por si mesmos perante Deus, mas nem todos conseguem ver isso. Quis o Senhor me dar essa percepção para a minha vida: sim, eu sou o pior dos pecadores!… Amanhã continuamos porque não é bom começar uma carta estando cansado.

― Verdade. Amanhã chegarei um pouco mais tarde porque vou antes à feira para comprar algumas coisas. Boa noite!

****

― Bom dia, Paulo. Como foi a noite? Conseguiu dormir bem hoje?

― Bom dia, Tércio. A noite foi difícil… Venha, vamos tomar um chá. Lembrei do ódio que tinha no meu coração quando saí de Jerusalém para Damasco com o fim de punir aqueles que eu achava que eram desobedientes à nossa fé… Na verdade, o desobediente era eu. Como eu estava cego! Muito mais cego do que os três dias que se seguiram ao encontro com o Senhor… Como Ele foi misericordioso! Quanta paciência comigo! Comigo! Um perseguidor! Nunca haverá esforço suficiente de minha parte para que eu possa oferecer a Ele como gratidão! Nunca!

Tércio, somos como vasos de barro que guardam tesouros, joias, pedras preciosas, peças em ouro… tudo fica escondido até que somos feridos, trincados, rachados e aí um pedacinho do barro cai e abre a visão para o que está lá dentro. O brilho que não é próprio do barro… Eu era jovem quando fui o zelador das roupas dos que apedrejaram Estêvão, o primeiro vaso de barro que vi quebrando e mostrando o tesouro que tinha dentro. Como eu era cego!…

O Timóteo é um ótimo jovem. Quero que ele não precise passar pelos erros que eu cometi. Pegue. Leia.

― O que é isso?

― É a carta para o Timóteo. Não pude te esperar.

― Paulo, por que não me esperou? Sei que é difícil para você escrever, ainda mais tanto assim, o rolo inteiro!

― Esta carta é diferente da que mandamos aos romanos. Ele é meu filho, Tércio, e está em uma cidade difícil; queria deixar para ele algo de mim, pelo menos uma carta. Leia, por favor, em voz alta… Vou fazer um chá.

****

― Os judeus não ficarão passivos diante dessas palavras. Farão mais pressão ainda contra o Timóteo. Ainda mais se ele falar publicamente que o amor supera a Lei. Você bem sabe que nossos patrícios são muito religiosos…

― Minha preocupação é com ele. Deixei meu exemplo. A obra que o Senhor Jesus fez foi definitiva, não há espaço para ambiguidade. Eu sei que enquanto o Templo em Jerusalém permanecer de pé, os sacrifícios da Lei continuarão a ser feitos, entretanto isso vai ser por pouco tempo porque é inevitável que isso seja resolvido pelo Senhor nos próximos anos. Você se lembra de quando te contei que os membros do Sinédrio falaram com Pilatos que o sangue dEle cairia sobre eles e seus filhos? Essa conta vai ser cobrada e entendo que será nesta geração. Falta pouco. Hoje estamos em um período equivalente à sobreposição das escamas de um peixe, ou das penas das aves: parte do que existe hoje acabará em breve porque o que vem em seguida será totalmente visível somente quando o que está visível hoje acabar. Foi assim com os dias da criação, cada um nascendo das bases dos anteriores. Foi assim também entre Samuel e Saul, entre Saul e Davi, entre João Batista e Jesus… São como escamas. Como as que caíram dos meus olhos em Damasco.

Quero que ele comece certo, sem ceder espaço aos entendimentos errados dos judaizantes. Contei para ele que quando o Senhor me achou e me encarregou de ministrar aos gentios sempre me considerei o menor dos apóstolos. O Ananias me alertou, mas não entendi completamente quando estava em Damasco. Passei alguns anos estudando, desaprendendo e reaprendendo tudo das Escrituras. Hoje eu acho até engraçado minha humildade daquela época: “o menor dos apóstolos”, eu pensava… Tive que ir descobrindo sozinho o caminho de quebrantamento. Quantas vezes caí!…

Mais tarde o Senhor me mostrou que dentre todos os irmãos da Igreja eu era o menor, menor até do que o novo convertido, menor até mesmo do que os irmãos limitados aos seus vícios. Mas eu estava iludido ainda. As muitas noites em claro, as muitas perseguições, os muitos problemas e trabalhos abriram meus olhos para esta realidade que falo para o Timóteo: sou o pior dos pecadores. Se o Senhor aparecer um pouco mais, estou satisfeito.

Quero poupar o Timóteo de parte dessa jornada mostrando no início da jornada dele onde eu cheguei. E que ele possa ir além disso!

― Entendo, entendo… Há um navio partindo no começo da tarde. Vou despachar a carta por meio dele. Amém! Que ele possa ir além!

― Amém. Mais chá?

2 – O Tema Igreja para a Teologia Corrente

A Igreja não é primariamente um edifício ou uma instituição hierárquica centralizada, mas sim a comunidade dos santos, o Corpo de Cristo, composto por todos aqueles que, pela fé, foram unidos a Ele pelo Espírito Santo (I Coríntios 12:12-13; Efésios 1:22-23). Ela é a assembleia dos chamados por Deus, espalhados por toda a terra, mas unidos em seu Senhor e Salvador.

As tradições Batista e Presbiteriana compartilham a crença na igreja invisível, que compreende todos os verdadeiros crentes em Cristo, conhecidos somente por Deus. Contudo, ambas também reconhecem a importância da igreja visível, a manifestação concreta dessa comunidade em congregações locais, onde os crentes se reúnem para adoração, ensino, comunhão e serviço.

A tradição Batista enfatiza fortemente a igreja local autônoma. Cada congregação local é vista como um corpo completo em si mesmo, governado pelos seus membros sob a liderança de pastores e diáconos, com autoridade para administrar seus próprios assuntos, incluindo a ordenação de líderes e a disciplina eclesiástica. A membresia é geralmente restrita àqueles que professaram fé em Cristo e foram batizados por imersão após a conversão.

A tradição presbiteriana, por sua vez, adota um sistema de governo eclesiástico representativo. As igrejas locais são governadas por presbíteros (anciãos), tanto docentes (pastores) quanto regentes (leigos eleitos pela congregação). Essas igrejas locais estão ligadas umas às outras através de presbitérios regionais e uma assembleia geral, formando uma unidade maior que permite a cooperação e a supervisão mútua. A membresia geralmente envolve um compromisso com a fé reformada e pode incluir o batismo infantil, embora a profissão de fé pessoal seja fundamental.

Os pensamentos Calvinistas e Arminianos influenciam a compreensão da Igreja em relação à doutrina da salvação e à obra do Espírito Santo. Os Calvinistas tendem a enfatizar a Igreja como o ajuntamento dos eleitos, chamados eficazmente por Deus e perseverando na fé. A pregação da Palavra e a administração dos sacramentos (batismo e Ceia) são vistos como meios de graça pelos quais o Espírito Santo opera a fé e edifica a Igreja. Os Arminianos, embora concordando com a importância da Palavra e dos sacramentos, enfatizam a resposta livre do indivíduo à graça de Deus na formação da Igreja, com um foco na evangelização e no discipulado como meios de alcançar e integrar novos crentes.

Apesar dessas nuances, ambas as perspectivas concordam com a missão essencial da Igreja: glorificar a Deus, proclamar o Evangelho de Jesus Cristo, fazer discípulos de todas as nações, edificar os crentes na fé e servir ao mundo em amor e justiça (Mateus 28:19-20; Atos 1:8; Efésios 4:11-16).

Em resumo, a Igreja é o povo de Deus, unido a Cristo pelo Espírito Santo. Ela se manifesta tanto de forma invisível, como a totalidade dos crentes, quanto de forma visível, em congregações locais com diferentes formas de governo eclesiástico. Sua missão é central para o plano de Deus na história, sendo o instrumento pelo qual o Evangelho é anunciado e o Reino de Deus é manifestado na terra.

3 – Crítica Interna da Teologia Corrente

Há questões sobre a Igreja que persistem sem respostas na teologia tradicional. Seguem algumas críticas internas do arcabouço teológico corrente:

•  A relação entre a Igreja visível e invisível: Como discernir os verdadeiros crentes dentro da igreja visível?

Nossa resposta:

A Bíblia nos adverte contra a hipocrisia e a presença de joio no meio do trigo (Mateus 13:24-30), mas a identificação definitiva dos membros da Igreja invisível pertence somente a Deus. Podemos conhecer a árvore pelos frutos que ela dá, o que só acontece de tempos em tempos. Então precisamos ter paciência e esperar até que os frutos se tornem visíveis.

•  O governo da Igreja e a autoridade: Como determinar nas diferentes formas de governo eclesiástico (episcopal, presbiteriano, congregacional) que refletem diferentes interpretações da Escritura e da natureza da autoridade na Igreja, o jeito certo de organização da igreja visível? Não há um consenso absoluto sobre o modelo ideal, e cada tradição opera com certos pressupostos sobre a liderança e a tomada de decisões.

Nossa resposta:

A experiência tem mostrado que a Igreja Protestante, quando vista e usada como estrutura de poder, tem escolhido tipos de governo centralizadores que manifestam essas mesmas ambições pessoais de seus líderes, à semelhança de uma estrutura piramidal, como a da Igreja Católica ou a das forças armadas. Esse mesmo princípio está presente no uso figurativo de cargos com a pretensão de supostos poderes espirituais distintivos dos demais membros da comunidade de fé, notadamente os pastores e ministros de louvor. Para tal efeito, lança-se mão de figuras do Antigo Testamento como os sacerdotes, os profetas, os levitas, os nazireus, e locais especiais que validam os cargos especiais, como o púlpito, o altar, as roupas distintivas, como batas e mantos, e a própria construção em que as reuniões são feitas, chamada de templo. Todo esse esforço de símbolos caminha ao lado da construção de poder.

Por outro lado, quando temos comunidades de pessoas que se importam com uma vida de fé e de igualdade entre irmãos de um mesmo Pai Celestial, as organizações tomam lugares secundários e tendem a ser compartilhadas por um grupo de pessoas com mais habilidade para esses trabalhos sendo comum a percepção de uma pirâmide invertida, em que os que estão no vértice sustentam os demais, em vez de serem sustentados por eles.

Na nova aliança cada um é responsável por ministrar ao outro o dom que recebeu do Senhor Jesus, a única cabeça desse Seu Corpo que é a Igreja: um corpo coletivo formado por todos aqueles selados por Seu Espírito. Os lugares de destaque são lugares de maior serviço, de maior esforço, de maiores responsabilidades ao mesmo tempo em que são posições de menores ganhos, lucros e louros. Não é a lógica terrena, mas a lógica celestial. E por que isso ocorre? Porque não há nada a se ganhar aqui porque o prêmio máximo já foi alcançado, então não há lugar para a ganância, em suas várias manifestações.

Quanto à organização administrativa, como um mordomo em uma casa, o trabalho é atribuído por comum acordo por uma eleição que não é a de concorrência, com campanha e lucros posteriores, mas um reconhecimento comum da importância de certo irmão para um certo trabalho. Ser eleito não significa ser ganhador, mas ter sido reconhecido como fiel. Isso vale para os ajudantes (diáconos) e para os que fortalecem a fé pelo zelo com os irmãos (presbíteros). Os dons são de livre exercício, de forma que um diácono pode ter o dom de pastoreio ou de ensino. e um presbítero pode ter o dom de evangelista ou ser misericordioso. Não existe o cargo de pastor, mas apenas o dom de pastor.

Quanto à autoridade da Igreja, ela é uma autoridade a favor das pessoas e não contra elas, a favor de sua liberdade e tem como papel um ministério de reconciliação das pessoas com Deus. Nossa responsabilidade é manifestar aqui neste mundo os valores dos Céus, sermos embaixadores do Rei, sermos o sal que impede a putrefação da carne e dá sabor às coisas. Isso não é por um esforço de nossa própria natureza, mas pela manifestação da força da ressurreição em nossa vida; não do velho homem, mas do novo homem feito em Cristo Jesus.

Porque Cristo (a cabeça da Igreja) está nos Céus, pode ver melhor e mais longe, e por isso Ele, e somente Ele, pode nos direcionar para os caminhos corretos. Se alguém está na escuridão, encontra na Igreja uma luz para seguir, não por seu brilho próprio, mas por refletirmos a luz de Cristo, cujos olhos são como fogo. Então, não é justo para nosso propósito que nos envolvamos em coisas públicas deste mundo, como política, educação, saúde, negócios, segurança, para proveito próprio, sem levar em conta os propósitos da nossa Cabeça. Mas se estivermos alinhados ao nosso propósito, atuamos como agentes de transformação, de melhoria, de visão celestial além do alcance das ideologias mundanas. Para testar se estamos alinhados ou não, leve a ideia ou a ação a um nível maior de abrangência e de tempo, leve ao limite: se há concentração de poder e concomitante prejuízo para muitos, os irmãos não deveriam defender essa iniciativa; se há benefícios para todos os envolvidos e afetados, é uma coisa a ser considerada. Que o Senhor Jesus nos ajude com Sua sabedoria.

•  Os dons espirituais e o seu funcionamento: A natureza, a distribuição e o propósito dos dons espirituais (I Coríntios 12-14) são temas amplos e, por vezes, controversos. A interpretação de dons específicos e a sua relevância para a Igreja hoje continuam sendo áreas de discussão e diferentes práticas. Os dons são para a Igreja hoje?

Nossa resposta:

Sim, os dons são para hoje porque se destinam à edificação mútua dos irmãos em Cristo, os quais formam o Corpo de Cristo, até a volta do Senhor Jesus e isso ainda não aconteceu porque ainda temos conosco o penhor que Ele nos deu, a nossa segurança, que é o Seu Espírito em nós. Precisamos distinguir quais dons são esses, o propósito deles e a diferença entre a Antiga Aliança e a Nova Aliança. Vamos distinguir cinco aspectos: o significado da palavra, a quem se destina a operação do dom, a forma de atribuição do dom e o tempo de uso, e, por fim, a pureza do exercício do dom.

O primeiro aspecto é que a palavra dom significa um presente, algo dado de graça a outrem. Simão, por exemplo, pensou que poderia comprar os dons de Deus (At 8:24).

Outro aspecto é o propósito, que não é para benefício próprio, mas para benefício dos outros. Um profeta não profetiza para si, mas para o outro; quem ensina, instrui a outros; quem cura, cura o outros; quem hospeda, acolhe os outros; quem age com misericórdia, ajuda os outros. Os dons são a expressão do amor de Deus por Sua Igreja, e o amor é para o benefício do outro.

Em terceiro lugar, a forma de entrega do dom agora, na Nova Aliança, é diferente da forma de entrega na Antiga Aliança. Antes, o Espírito de Deus envolvia a pessoa, como uma roupa, como um manto, dando a ela uma capacidade especial para um propósito específico. Uma vez dado, o dom permanece com a pessoa. Já a unção, era externa e significava a autoridade de Deus naquela pessoa, autoridade que poderia ser retirada. Eram ungidos dentro da Antiga Aliança da Lei para os israelitas os sacerdotes, os profetas e os reis. Não temos casos de perda da unção para os sacerdotes, mas temos o caso do profeta de Samaria que havia perdido a unção, mas o dom continuou e trouxe uma palavra de julgamento ao jovem profeta que mais tarde foi atacado por um leão; e temos o caso do rei Saul que também perdeu a unção e continuou reinando e contribuindo, sem o saber, com a formação do seu sucessor, Davi. Fora da Aliança do Sinai, temos o sacerdote Melquisedeque como exemplo positivo e o profeta Balaão, sem unção e com dom, como exemplo negativo.

Quando o Senhor Jesus subiu aos Céus em Seu corpo ressurrecto, ele veio morar por Seu Espírito dentro dos nossos espíritos, uma unção interna, um selo, uma garantia de que somos dEle, algo que não pode mais ser retirado. E ao fazer isso ele distribuiu pelo menos um dom, uma função, para cada componente do Seu Corpo na terra, a Igreja, como os litados em I Coríntios 12, como sabedoria, discernimento de espíritos, tradução de idiomas, fé, cura. E o Senhor faz essa distribuição como Ele quer para que todos andemos juntos dependentes uns dos outros. Além disso Ele deu à Igreja algumas pessoas como dons, como presentes dEle para trabalhar no aperfeiçoamento dos santos, a lista de Efésios 4:11: apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres.

Em quarto lugar vamos pensar sobre o tempo de validade, vamos juntar umas peças. Um sacerdote tem uma duração equivalente ao sistema que representa, mas Cristo vive eternamente como nosso sacerdote. Um rei dura até ser deposto por outro rei ou pela morte, mas Cristo vive eternamente como nosso rei. Esse sacerdote e rei eterno deu dons a cada um visando ao nosso crescimento conjunto e ainda deu alguns dos Seus servos à Sua Igreja para o aperfeiçoamento dos santos e essa atribuição de dons e sua vigência durará até que a autoridade que os deu seja deposta, o que nunca acontecerá. Então, um dom é para sempre, bem como a unção para exercê-lo. É para exercício na Igreja hoje como o era no início. E daqui vamos ao último ponto que gostaríamos de trazer, a pureza.

Este quinto elemento, a pureza, ou a falta dela, é o motivo de muitos dos escândalos que vemos. Antes, perante uma conduta inadequada, Deus tirava a unção da pessoa, desligava o poder, tirava o óleo da lâmpada e ainda que o pavio pudesse emitir alguma luz com sua própria queima, era fraca e acabaria em pouco tempo. Mas agora, na Nova Aliança, o Senhor não tira o dom nem tira a unção. O que o Espírito do Senhor tem para edificar a vida da Igreja pelo ministério de um servo Seu por meio de uma palavra a ser ministrada precisa primeiro fluir para o espírito desse servo, depois ser processado por sua mente e, então, entregue ou manifestado à Igreja. A Igreja receberá, por cada um que lhe ministrar, a mensagem em suas mentes e terá confirmação em seus espíritos pelo Espírito do Senhor. Se esses canais estiverem sujos, o ministrante e o ministrado, a mensagem sairá com interferências da carne do ministrador e entrará distorcida nos ouvintes e não terá a chancela do Espírito de Deus na vida dos que deveriam ser beneficiados com a palavra. Como consequências, temos o não aperfeiçoamento dos santos, tanto o ministrador quanto o ministrado.

Hoje o Espírito de Deus está limitado por nós, não nos arrebata a consciência, não ficamos em possessão pelo Espírito de Deus, porque Ele está – leia com temor essas palavras – “preso” dentro de nós. Somos como tesouros em vasos de barro, como disse Paulo. O Tesouro, Cristo, se torna visível quando o vaso vai sendo quebrado e quando o Tesouro é derramado. A nossa mundanidade, nossas impurezas, as obras da carne, impedem que Cristo seja visível por nós aos outros. A unção interna da Nova Aliança aumenta em muito o nível da responsabilidade de nosso caminhar no Senhor.

Resumo

Neste capítulo, propomos uma análise que desafia as práticas tradicionais da Ceia ou Eucaristia, convidando você a questionar se este ritual possui o significado e a obrigatoriedade que lhe são atribuídos. Exploraremos as origens da Ceia, sua ligação com a Páscoa judaica e como diferentes denominações cristãs a praticam e interpretam como uma ordenança, desde a transubstanciação católica até as visões protestantes. Apresentaremos uma perspectiva crítica mostrando que a Ceia não é uma ordenança para a Igreja de Cristo.

Nós nos debruçaremos sobre a correção de Paulo aos Coríntios quanto aos seus excessos e a uma compreensão equivocada sobre o memorial da morte de Cristo. Discutiremos a interpretação atual da frase “fazei isto em memória de mim” colocando-a sob a perspectiva histórica. Buscaremos também entender o verdadeiro “pão” que deve ser partido, apontando para Cristo vivo como o centro da nossa fé. No fim, ofereceremos algumas reflexões sobre como os leitores, inseridos em diferentes contextos denominacionais, podem reavaliar sua participação nesta prática à luz do que será apresentado. Prepare-se para uma análise profunda e transformadora sobre um dos ritos centrais da cristandade.

Introdução

Como você continuou a leitura, seja bem-vindo! Vamos desbravar juntos esse assunto. Antes, pense em uma coisa: imagine que alguém escreva alguns livros sobre como DEVE SER FEITA a Ceia. Outras publicações dizendo o contrário praticamente não existiam porque não era necessário explicar ou detalhar algo que não devia ser feito. É tão patente aos olhos, tão óbvio, que ninguém precisava escrever sobre isso. Assim como hoje não existem livros que falam para não comermos plástico. Por que alguém se daria ao trabalho de escrever sobre algo desnecessário?!

Mas aqueles livros continuaram a existir mesmo quando toda aquela geração passou, e também a outra, e depois a próxima… Então alguém lê o livro escrito naquela época e assume que o que está escrito é verdade… e não há outro livro para desmentir essa percepção, porque não era necessário que existissem. A doutrina cresce e não há mais ninguém que conheça outra versão. Agora todos seguem o livro, mesmo sem saber que ele está errado porque não há referências! Então a mentira é tomada como se fosse verdade… Todos agora estão comendo plástico porque não há livros antigos que falem para não comer plástico. Todos agora tomam a ceia porque não há um livro antigo que diga para não tomar…

E séculos depois, aqui estamos nós.

Várias denominações advogam que a Ceia deve ser feita com vinho genuíno e outras advogam que o pão precisa ser sem fermento; outras dizem que um sacerdote precisa abençoar o pão e o vinho e há as denominações religiosas que afirmam que os materiais se transformam. Existe muita divisão de opiniões sobre uma coisa que nem deveria ser feita.

Vamos por partes.

A primeira missão é fazermos algumas perguntas.

Pode haver Páscoa e Pães Ázimos em outras datas?

Estas duas festas anuais eram juntas, uma era a continuação da outra. Começava com a Festa da Páscoa e seguia por sete dias com a Festa dos Pães Ázimos, o período em que todo fermento era jogado fora, motivo para os pães serem sem fermento. Era possível comer pães ázimos o ano todo se alguém quisesse, mas não era possível ter uma Festa de Pães Ázimos o ano todo, e muito menos a Festa da Páscoa, uma convocação especial do povo, um feriado nacional.

Não é possível realizar essas festas fora dos seus próprios períodos, nem participar delas sem ser um israelita circuncidado. Guarde essa informação.

Qual a Linha do Tempo da Lei?

Cremos que seja útil traçarmos uma linha do tempo e situarmos nela o período da Lei de Moisés. Isso vai nos permitir perguntar com mais clareza como viviam as pessoas antes do período da Lei, e com isso trazer mais luz sobre as correntes de entendimento. Vamos dividir um segmento de reta em 7 partes, que corresponderão aos 7 dias da criação (que foram a figura para a duração deste período de crivo da humanidade), em que cada dia representa mil anos, conforme nos revelou Pedro. Em seguida vamos posicionar nessa reta alguns fatos históricos e marcar o período em que a Lei teve vigência.

Nesta cronologia[1] gostaríamos de destacar os pontos que marcam os eventos, e estes trazem períodos de transição entre a realidade anterior e a nova. Entre a confusão das línguas e a reorganização dos povos por esse critério, passou um tempo que não sabemos quanto foi. Entre a saída do Egito e a entrada em Canaã, passou um tempo que poderia ter sido de dois anos e acabou sendo de quarenta e dois anos. Entre o nascimento de Jesus e sua morte, passaram-se 33 anos e meio. Da Sua morte até a Sua ressurreição, passaram-se três dias e três noites, mais de 72h obrigatoriamente, porque se fossem menos horas poderia ser alegado que Ele não teria morrido. E deste ponto até a destruição da nação de Israel em 70 d.C. por tê-Lo rejeitado, passou uma geração de pessoas. Esses períodos de transição são importantes para entendermos como os assuntos de Batismo e Ceia devem ser vistos. São como escamas ou penas sobrepostas.

Figura 14 – Linha do Tempo

Descrição da Figura:

A imagem é uma linha do tempo teológica que ilustra a história da humanidade em uma perspectiva bíblica, dividindo-a em diferentes períodos. A linha começa com a criação, antes de Cristo (a.C.), e se estende até o futuro, com o Juízo Final. O diagrama divide a história em quatro grandes eras. A primeira, chamada Antes da Lei, durou cerca de 2.500 anos e inclui eventos como o Dilúvio e a Torre de Babel, além de destacar a era dos Patriarcas. Em seguida, vem o período da Lei, que durou 1.500 anos e foi dominado pelas leis do Antigo Testamento, com eventos como a saída do Egito, o reinado de Davi e a construção do Templo. O terceiro período é o da Graça, com duração de 2.000 anos, que começa com a morte de Jesus na cruz. Este período é marcado pela mudança para uma nova aliança, na qual Jesus é o novo sacerdote. O diagrama menciona a Destruição de Jerusalém e a Volta de Cristo neste segmento. A linha do tempo culmina na era da Justiça, um período de 1.000 anos (Milênio) que antecede o Juízo Final. Toda a linha do tempo é dividida em milênios e categorizada em Antes de Cristo e Depois de Cristo, mostrando uma cronologia que abrange 7.000 anos de história.

Qual o início do Novo Testamento?

Muitas das dificuldades por que passa a cristandade hoje se deve à falta de entendimento de que Jesus viveu dentro do pacto da velha aliança, o que chamamos de Antigo Testamento. Ele nasceu como um Israelita da tribo de Judá, na cidade judia de Belém; Ele nasceu sob a Lei e estava sujeito a ela: Ele nasceu no Antigo Testamento. Ele cumpriu todas as exigências da Lei dada ao povo de Israel no Sinal e morreu levando nossos pecados. Com Sua morte, foi derramado o sangue da nova aliança, e a partir deste ponto entramos o período da Graça (em oposição ao período anterior da Lei), o que chamamos de Novo Testamento. A Graça é baseada na fé – a junção de confiança, coragem e fidelidade – coisa imaterial que se opõe à materialidade da Lei anteriormente proclamada. Como bem explica a carta (Hebreus) enviada aos irmãos que viviam em Jerusalém e eram muito apegados aos costumes anteriores a Cristo, a morte do testador inaugura um novo tempo, uma nova Lei – tão superior à antiga quanto Ele mesmo é superior a Moisés. Isso não ocorre no período em que Ele vivia, pois viveu sob a Lei.

Antes da morte de Cristo, havia para todas as nações a verdade relativa em que viviam e para Israel havia a verdade revelada como Lei para os conduzir e preparar para a vinda de Cristo. Cristo nasceu e morreu sob a Lei. Depois da morte e ressurreição de Cristo há Sua Graça para todas as nações. Se Ele tivesse apenas morrido teríamos o perdão, mas não teríamos a graça, vinda porque Ele ressuscitou. Em substituição à verdade relativa e à Lei obtivemos a Verdade Absoluta: Cristo.

O Novo Testamento, ou Nova Aliança, não são o conjunto dos livros que acrescentamos aos livros do Antigo Testamento. Novo Testamento é imaterial, é espiritual, é o oposto do Antigo Testamento que era material, com ações, ritos, locais, objetos e livros físicos.

A adoração hoje é feita em nosso espírito e não em um local, como um monte ou um templo. Os livros que foram compilados no que costumamos chamar de Novo Testamento não são o Novo Testamento porque o Novo Testamento é a Graça, a revelação plena de Deus, que sendo imaterial se materializou: é o próprio Cristo. E a essência é o amor, não um livro. Estes livros são instruções para não decairmos da Graça para a Lei, são repreensões aos que querem voltar à Lei, são incentivos a viver pela força do Espírito para irmos muito mais além em relação ao próximo do que qualquer Lei possa fazer. A Graça é Cristo, a Verdade absoluta, o Novo Testamento. A Graça encerrou toda a maldição e toda a bênção – a Graça é Cristo.

Porque a página em branco está suja?

Jesus se fez maldição na cruz porque Ele é a bênção. Na cruz morreu tanto a maldição como a bênção que advêm da Lei; a cruz encerrou a Lei, que estava baseada nesta dupla. Na Igreja não existe bênção nem maldição, existe Cristo. O Tetelestai que Jesus falou na cruz encerra tudo – “Está consumado, está pago”.

Quando pegamos uma Bíblia impressa encontramos normalmente uma página em branco entre os dois blocos chamados de Antigo e Novo Testamentos. Ela marca o intervalo de quase 500 anos de silêncio de Deus no uso de profetas para falar ao povo, de Malaquias no ano 450 a.C. até o João Batista, em 26 d.C.

Essa folha em branco está ali com uma intenção muito maligna, e isso passa despercebido. Além de esconder todo o período de dominação grega, um dos impérios que está mais presente agora em nossa cultura do que os outros pelos quais a humanidade passou, ao colocarem essa folha antes da compilação dos livros que formaram o cânone chamado Novo Testamento, marcaram uma divisão de dispensação[2] no lugar errado porque isso é de interesse dos que não querem a liberdade das pessoas.

Moisés deu início ao trabalho de escrever a Bíblia. Escreveu os cinco primeiros livros, o Pentateuco, e, possivelmente, o livro de Jó. Esse trabalho começou quando ele próprio estava sob a vigência da Aliança do Sinai, firmada com sangue de animais. Ele falou sobre tempos anteriores ao dele, mas falou a partir do tempo em que estava, dentro da Aliança em que estava. Depois dele, outros fizeram os registros que, por fim, foram compilados no que conhecemos como Antigo Testamento, e todos esses livros foram escritos durante a vigência da Aliança do Sinai.

Quando o Antigo Testamento foi escrito, ele não era “antigo”. Essa qualificação foi colocada mais tarde, quando houve a compilação dos livros escritos durante a vigência da Nova Aliança, firmada pelo sangue de Cristo.

Ora, a página em branco entre os testamentos faz uma mistura entre Aliança e compilação de livros. Induz a pensar que a Antiga Aliança está no Antigo Testamento e a Nova Aliança está no Novo Testamento, mas isso é mentira, um engano, uma farsa, um engodo, uma quimera, uma ficção, uma falácia, uma invenção arquitetada para prender as pessoas. Vamos explicar.

Os livros dos evangelistas não estão contando coisas da Nova Aliança, mas da Antiga Aliança, do tempo em que Jesus estava em Sua Carne. Somente na cruz, após Sua morte, houve a mudança de Aliança: o encerramento da primeira e o início da segunda. Se fosse para ter uma página em branco, deveria ser posta nos pontos em que a morte de Jesus é anunciada. Jesus viveu em Sua Carne sob a Antiga Aliança, e vive agora em espírito na Nova Aliança.

Dessa contaminação vêm os conceitos alheios à Igreja de Cristo que vemos na cristandade, como templos, cultos, sacerdotes, roupas diferentes e distintivas, batismos, mantos, unções, profecias copiadas da Antiga Aliança, comidas sagradas, coisas sagradas, cargos, levitas, bênçãos e maldições. Essas coisas existiam, mas deixaram de existir na Nova Aliança, deixaram de existir para a Igreja. Quando o Novo Testamento começou a ser escrito, relatava coisas da época em que estavam: a época sob a Antiga Aliança. São coisas que não cabem à Igreja por não caberem mais a Cristo depois da ressurreição – e a Igreja é o Corpo de Cristo depois da ressurreição. E se não cabe a Cristo, não cabe à Igreja.

A página em branco está manchada com o sangue de todos os que foram enganados por ela. A Nova Aliança tornou sem efeito, nula, sem valor a Antiga Aliança. Somos chamados para dentro de Cristo e para fora de tudo o que não seja Cristo.

Temos liberdade em Cristo para quê?

A Igreja de Cristo é uma escola em que aprendemos mais dEle. Uma das formas pelas quais crescemos é usando a mente que Ele nos deu. E somos incentivados nessa escola a usarmos nossa mente para pensar. Pensar, filosofar, não é pecado; pecado seria não pensar.

Deus quer que pensemos porque não se consegue confessar, publicar, ensinar o que não se entende, e muito menos praticar o que não se entende. A Igreja é uma escola de práticas de um amor real. Os dogmas são regras que devem ser aceitas sem o uso crítico do pensamento, são tidos como verdade sem prova da verdade, mas esse tipo de aceitação contra a liberdade anda no caminho contrário da Igreja, porque a Igreja de Cristo caminha para a liberdade que há em Cristo. E não se faz isso aprisionando as pessoas a dogmas.

Estai, pois, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou, e não torneis a colocar-vos debaixo do jugo da servidão. (Gálatas 5:1)

O que é uma heresia?

O conceito de heresia é muito interessante. Basicamente, tudo o que discordar de você, é uma heresia!…

latim haeresis, -is, opinião, sistema, doutrina, heresia + -ia; substantivo feminino

1. Divergência em ponto de fé ou de doutrina religiosa.

2. [Por extensão] Dito ímpio ou insultante contra o que se considera como sagrado. = BLASFÊMIA

3. [Figurado] Opinião ou doutrina diferente das ideias recebidas.

4. [Informal] Aquilo que é contrário à razão, à sensatez, ao bom senso. = absurdo, contrassenso, disparate, desconchavo, despautério, tolice

[https://dicionario.priberam.org/heresia, consultado em 04-07-2022]

Não se intimide com essa palavra. Ela é usada para proteger um sistema de entendimento contra ideias que possam desarticular esse sistema. O que difere do que Deus diz é uma heresia, mas a partir de quando uma religião é a porta-voz do que Deus diz? Quando o Papa da Igreja Católica Romana, ou da Ortodoxa, diz algo contra o que Deus disse, quem é o herege, o Papa ou Deus? Quando um pastor protestante diz algo contrário ao que a Bíblia já registrou em mais de um lugar, quem é o herege, o pastor ou a Bíblia? No Antigo Testamento, quando alguém falava em nome de Deus uma coisa que Deus não disse, o tal falso profeta era apedrejado, mas como não estamos mais naquela época, nem somos judeus…

Talvez outras perguntas devam ser respondidas: A quem servimos? Servimos a uma igreja ou a Cristo? Quem tem a palavra final? E quem pode salvar, no fim das contas? Quem verteu Seu sangue na cruz foi uma instituição?

Se você acreditar que quem te salva é uma igreja, um sistema, um rito, um dogma ou qualquer outra coisa, e não o nosso único representante e substituto possível, Jesus Cristo, então, te desejamos uma boa sorte: você vai precisar!

“Eu preciso de exemplos”, talvez você diga. Vamos a eles: só há um Nome pelo qual importa que sejamos salvos, Jesus Cristo. Qualquer outra pessoa, coisa ou instituição que atribua a si o poder de salvar está cometendo um despautério, uma heresia. Outro: a garantia de que o Senhor Jesus nos levará para Si quando voltar em glória é a presença do Seu Espírito dentro do nosso espírito, e não outra coisa qualquer, um rito, uma prática, uma oração, uma esmola, uma função, uma roupa diferente; pois qualquer substituição de Deus é uma heresia. “E o que isso tem a ver com a Ceia?”, você pode estar se perguntando. Ela tira Deus do centro porque não aponta para Ele, como os símbolos ou as festas do Antigo Testamento faziam, mas O desmente e O desautoriza ao declarar que Cristo está morto, sendo que está vivo para sempre. É um insulto, é uma heresia.

Como dominar sem exércitos?

O Império Romano estava em decadência no Século III, o que acabou por culminar em 476 d.C. com a deposição do imperador Rómulo Augústulo pelo germano Odoacro, acontecimento que determinou o fim do Império Romano do Ocidente. Ele precisava de outra força de domínio que não fossem seus exércitos, e nada tão eficiente para o domínio quanto o medo, e melhor ainda se for um medo autoimputado, algo que uma religião consegue fazer muito bem. E por causa disso a filha católica herdou da mãe judaica os elementos ritualísticos do sacerdote, do templo, do altar, das santas convocações, das santas prescrições, das santas guerras, das santas músicas, das santas vestes, dos poderes de decisão dos sacerdotes, da divisão de classes dentro da comunidade, dos elementos materiais santos, como óleos sagrados, água benta, relíquias sagradas e, como não poderia deixar de ser, comidas sagradas. Alguns desses elementos também são encontrados em religiões fora do eixo judaico-cristão nas regiões em que o império queria dominar ou manter seu domínio, e nada melhor do que a assimilação para ter menos custos de implantação. E assim as roupas sagradas e as comidas sagradas tiveram destaque por serem elementos comuns das religiões daqueles povos e dos cultos romanos.

Quanto mais sagrado, maior é o medo e maior é o domínio sem a necessidade de uso de força. Assim surge o poderoso ritual da Ceia do Senhor, ou a Eucaristia (Eu=verdadeiro + Caris=graça), a verdadeira graça, ou a maior ação de graças, ou reconhecimento. Este ritual consiste em reviver de forma incruenta (sem sangue) o sacrifício de Cristo na cruz. Os elementos pão e vinho, representando o corpo e o sangue do Senhor, permanecem separados indicando Sua morte até que se unem dentro dos fiéis quando comidos, e então a vida do Senhor é novamente ratificada e os votos de fidelidade são renovados.

Depois de um tempo acharam por bem reforçar o misticismo do rito criando explicações bem complexas de como o pão e o vinho, ou suco de uva em muitos casos, se transformam no corpo e sangue de Cristo.

A reforma protestante de Lutero e Calvino pouco mudou isso e a neta protestante herdou da mãe católica e da avó judaica esse e outros rituais.

Que o Senhor nos ilumine para vermos que só existe um único Corpo de Cristo, a igreja.

Há galho sem a árvore?

A IGREJA CATÓLICA defende a transubstanciação dos elementos naturais (pão e vinho) nos elementos reais do corpo e sangue de Cristo; os PROTESTANTES[3], se dividem entre os que creem que Cristo está presente fisicamente no momento da Ceia, mas não há mudança do pão e vinho em carne e sangue, doutrina chamada de consubstanciação, os que acham que a Ceia é apenas um símbolo em memória, e os que acham que é mais do que um símbolo, creem que a presença de Cristo é espiritual naquele momento. Cada macaco em seu galho, mas em galhos da mesma árvore, pois todos acreditam que precisam celebrar esse rito.

Para deixar as coisas mais sagradas, e mais poderosas, os elementos depois de consagrados pelo sagrado sacerdote devem ser consumidos pelos que participam do sagrado ritual, e se sobrar alguma coisa, deve ser enterrado ritualisticamente porque são elementos diferentes dos naturais, já que são sagrados. De tão sagrados que são esses elementos, na Igreja Católica, o vinho sagrado é dado aos fiéis somente em ocasiões sagradas (especiais) porque o seu consumo está restrito aos sacerdotes sagrados no momento sagrado do ritual sagrado. Assim, o sagrado é reforçado pela restrição de acesso, e ficam mantidos e reforçados o medo e o domínio pelo medo. A mesma estratégia para consagrar um artista: impedir o livre acesso a ele para torná-lo especial.

Podemos fazer certo algo que não deve ser feito?

É muita teologia para uma coisa que nem deveria ser praticada. É como criarmos explicações sobre como a Fada do Dente remunera as crianças pelos dentes que caíram: por melhor que sejam as explicações, baseiam-se numa premissa vã, porque a Fada do Dente não existe. É como discutir a forma como ocorre a substituição dos dentes de leite pelas moedas durante a madrugada por meio do ofício das fadas. Não seria mais produtivo determinar primeiro se existem tais fadas? É como fazermos da melhor forma possível uma coisa errada, como uma receita bem escrita ensinando como queimar o arroz ou explicando em detalhes como deixar salgada uma sopa. A prática da Ceia é o selo de que somos profanos, como os coríntios eram; na maioria das vezes por ignorância, mas ainda assim, idólatras. Veremos isso nas repreensões de Paulo aos coríntios.

Não importa se fazemos a Ceia com hóstias, pães ázimos, pães de padaria, coscorões, biscoitos, etc., nem se a fazemos com vinho bom ou vinho ruim, com suco ou com refrigerante. Não faz diferença se os tais elementos ficam expostos ou cobertos antes de serem consumidos, se a distribuição é sequencial ou coletiva, se todos comem juntos ou separados, se depois de comer cantam ou não, oram ou não. Essas coisas não têm nenhuma importância porque elas nem deveriam ser feitas. Fazer o que não deve ser feito é uma desobediência, um contrassenso, um pecado, um desperdício, despautério.

O maior dos desperdícios é fazer muito bem feito algo que nem deveria ter sido feito. É o que vemos aqui. Séculos e séculos de energia gastos para fazer da forma mais pura e pia possível algo, mas sem questionar se deveria ser feito. Como uma definição de pecado é errar o alvo, temos aqui um grande desvio do alvo!

Inverteram o não pelo sim?

Não se deixe intimidar, caríssimo leitor, porque sua liberdade está próxima. No caso da Ceia, esse dito acima é a pura verdade porque mais da metade da missa está baseada no ritual da Ceia e você nem sabe que foi ordenado que não se fizesse isso. Usaram a ordem de não fazer para ser o argumento para fazer. Inacreditável, não?!

Maldito aquele que fizer a obra do SENHOR fraudulosamente; e maldito aquele que retém a sua espada do sangue. (Jeremias 48:10)

Se quem faz a obra do Senhor de forma a ter lucros com ela é maldito, imagine quem quer impedir que a Sua obra seja feita!

A Eucaristia é o coração das missas católicas e foi herdada pelos protestantes sob a mesma capa de sacramento, uma coisa essencial a ser feita, com o nome de Santa Ceia. Falar contra esse sacramento é tido como uma heresia! E para garantir que assim fosse, essas igrejas definiram “sacramento” e definiram “heresia”. Nada mais eficiente para prever o futuro do que moldá-lo previamente!

Não se deixe intimidar, caríssimo leitor, porque sua liberdade está próxima. Não retenha “sua espada do sangue”, já que a desembainhou em busca da verdade.

E com vocês, a Ceia!

A congregação está reunida no domingo e depois das músicas, leituras, pregações, e eventuais apresentações de um grupo de jovens ou crianças, dá-se início à Ceia. É um momento solene, faz-se silêncio. Quem conduz as palavras quase sempre é o congregado de mais alta consideração auxiliado por outros nitidamente reconhecidos pela congregação, normalmente diáconos. Na Igreja Católica, quem ministra é o padre, e nas Igrejas Protestantes, os pastores. Normalmente existe a necessidade de uma consagração prévia e formal do ministrante que o habilita a conduzir esse momento, pois é uma coisa especial e não pode, diriam, um simples mortal tomar essa posição. Mas esse é outro assunto. Voltemos.

Todos estão atentos à leitura mais usual nesses momentos, a leitura do texto de I Coríntios 11:

Porque eu recebi do SENHOR o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o Novo Testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha. (I Coríntios 11:23-26)

Depois o pão e o vinho, ou suco de uva, também chamados de elementos, são distribuídos pelos diáconos e todos, ou quase todos, os comem sob o comando do ministrante.

Há pequenas alterações de leitura, nas explicações relacionadas ao simbolismo, nas reafirmações da necessidade contínua de marcar com a Ceia a vinculação da pessoa à igreja, e também há pequenas alterações de uma comunidade para outra na forma de distribuição dos elementos. Na Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR), normalmente se faz uma fila para recebê-los das mãos do padre; na Igreja Protestante, normalmente os diáconos distribuem os elementos aos presentes. Quem não se sente habilitado a participar se abstém de tomar os elementos.

Depois que todos tomaram parte, canta-se uma música e caminha-se para o encerramento da reunião. Eventos especiais trazem alterações, mas essa é a liturgia mais comum. Se houver alguma sobra, esses elementos devem ter um tratamento especial porque se tornaram sagrados no processo. Normalmente as sobras são conduzidas a outra reunião de Ceia no mesmo dia ou são enterradas.

Esse seria o cenário mais comum. Antes de seguirmos, antes da refeição principal, seria agradável se tivéssemos algumas entradas. Isso vai nos ajudar com os alimentos mais pesados que virão depois no prato principal. Como alguns conceitos foram colocados para nós como se fossem verdades desde sempre, ficamos até desconfortáveis em levantar a mão para perguntar o que significaria isso ou aquilo, vamos levantar juntos com você, caro leitor, as nossas mãos e vamos fazer algumas perguntas!

O que é uma Ceia?

Ceia é uma das refeições do dia, outro nome para o jantar. Começamos o dia com o desjejum, depois passamos para o almoço no meio do dia, e o jantar à noite. Depois de cada refeição principal há o espaço para um lanche. Ao último lanche dá-se o nome de ceia perto da hora de dormir, mas isso é apenas em nossa história mais recente. A ceia é a refeição em que todos estão em casa, à noite, já livres de suas obrigações, um preparo para o descanso, o momento de união da família.

Esse ritual da Santa Ceia ou da Eucaristia alega ter como base a última Ceia da Páscoa judaica que Jesus fez antes de ser crucificado. Ela é, em medidas e interpretações de diferentes níveis, um reverberar daquele momento. Para os católicos, ela pode ser ministrada somente por um sacerdote ordenado que, em nome de Jesus, transforma pão e vinho no corpo e no sangue de Cristo. O texto abaixo sintetiza bem a definição de Eucaristia, do grego εὐχαριστία, cujo significado é “reconhecimento”, “ação de graças”:

A Eucaristia é o próprio sacrifício do Corpo e do Sangue do Senhor Jesus, que Ele instituiu para perpetuar pelos séculos, até seu retorno, o sacrifício da cruz, confiando assim à sua Igreja o memorial de sua Morte e Ressurreição. É o sinal da unidade, o vínculo da caridade, o banquete pascal, no qual se recebe Cristo, a alma é coberta de [pela] graça e é dado o penhor da vida eterna. https://catholicus.org.br/voce-sabe-o-significado -da-Eucaristia/, consultado em 02/07/2022

Para os protestantes, há no livro A Confissão de Fé Batista de 1689, um catecismo puritano compilado por C.H. Spurgeon, um capítulo sobre a Ceia do Senhor. Outras denominações também publicaram o equivalente a um catecismo e concordam com a maior parte dos pontos.

Em linhas gerais há a rejeição da transubstanciação Católica e a reafirmação de que se trata de uma ordem a ser cumprida, que remonta à última Ceia do Senhor Jesus. Seguem abaixo as perguntas respondidas dessa confissão de fé, com grifo e um breve comentário nosso:

Pergunta 80: O que é a Ceia do Senhor?

Resposta: A Ceia do Senhor é uma ordenança do Novo Testamento, instituída por Jesus Cristo; pelo que, pelo dar e receber pão e vinho, de acordo com a Sua designação, Sua morte é anunciada,1 e os receptores dignos são, não por uma forma corporal ou carnal, mas pela fé, feitos participantes de Seu corpo e sangue, com todos os seus benefícios, para a sua nutrição espiritual e crescimento na graça.2

1 I Coríntios 11:23-26

2 I Coríntios 10:16

Nosso comentário: Veremos que não existe a pretensa ordem, somente uma má interpretação do texto.

Pergunta 81: O que é necessário para a digna recepção da Ceia do Senhor?

Resposta: É exigido daqueles que desejam participar dignamente da Ceia do Senhor, que se examinem a si mesmos quanto ao seu conhecimento para discernirem o corpo do Senhor,1 quanto à sua fé para alimentarem-se dEle,2 quanto ao seu arrependimento,3 amor4 e nova obediência,5 pois aquele que vem indignamente à mesa do Senhor, come e bebe juízo para si mesmo.6

1 I Coríntios 11:28-29

2 II Coríntios 13:5

3 I Coríntios 11:31

4 I Coríntios 11:18-20

5 I Coríntios 5:8

6 I Coríntios 11:27-29

Nosso comentário: veremos que o Corpo do Senhor a ser discernido é a Igreja, os que têm o Seu Espírito, e não o pão e o vinho.

Pergunta 82: O que se entende pelas palavras “até que Ele venha”, que são usadas pelo apóstolo Paulo em referência à Ceia do Senhor?

Resposta: Essas palavras nos ensinam claramente que nosso Senhor Jesus Cristo virá uma segunda vez; e essa é a alegria e esperança de todos os crentes.1

1 Atos 1:11; 1Tessalonicenses 4:16

Nosso comentário: “claramente” é um exagero oratório, no mínimo, já que o “até que Ele venha” do texto se refere à ressurreição após sua ausência de três dias por causa da morte, e não à volta em glória como presumido. Veremos mais tarde que não se trata de uma ordenança, o exame é para ver se a pessoa é judia ou não, e o “até que Ele venha” se refere ao retorno da morte e não à segunda vinda.

Observe, nosso caro leitor, que as referências bíblicas orbitam o texto de I Coríntios. Vamos ver esse texto mais à frente. Mas antes, vamos olhar alguns conceitos que ajudarão no pano de fundo do que mostraremos.

E o que seria um sacramento?

A Igreja Católica possui sete sacramentos: o batismo, a confirmação, a Eucaristia, a penitência, a unção dos enfermos, a ordem e o matrimônio. Desses, a Igreja Protestante preserva dois, o batismo e a Eucaristia, chamada de Ceia ou Santa Ceia. Mas o que é sacramento? João Calvino o define como:

“um sinal externo pelo qual o Senhor nos apresenta e testifica a sua boa vontade para conosco, a fim de nos sustentar na fraqueza de nossa fé. […] um testemunho da graça de Deus declarada através de um sinal externo” (João Calvino, Instrução na Fé. Editora Logos. p. 81.)

Sacramento é um super mandamento, do tipo sagrado, especial, um mandamento sagrado. Mas haveria por acaso algum mandamento dado por Deus que não seja sagrado, algum mandamento que não seja santo? Claro que não. Então, qual o motivo de se usar esse termo? Para condicionar o entendimento das pessoas. E quem convencionou esse uso? Não foi Deus, mas foi quem precisava guiar os pensamentos a respeito desse assunto, organizá-los a seu favor. À organização dos pensamentos sobre divindades damos o nome de teologia. Então, existem sacramentos reais? Não existem, a não ser dentro do âmbito de atuação da teologia.

Voltando à definição feita por Calvino, seria uma boa definição se quem a estivesse declarando fosse um israelita antes de Cristo. Sim, para essa pessoa vários dos mandamentos eram sinais externos que testemunhavam aos outros a obra de Deus nele. Mas não para a Igreja, o Corpo de Cristo na terra formado por todos em que Seu Espírito habita, cuja manifestação é subjetiva e o testemunho para o mundo é a sua unidade. Não há sinais externos, materiais.

Talvez você se pergunte, atento leitor, se o batismo não seria um sinal visível. Também não é. Os batismos eram instruções da Lei e foram usados para mostrar para eles que a pessoa estava mudando de vida. João Batista usou essa prática do batismo como sinal externo da mudança ou conversão da pessoa. Mas depois de Cristo, o batismo foi usado de forma reversa: quem recebia a Cristo saía das sinagogas, quando não era expulso delas, e se batizava para mostrar aos que permaneciam na sinagoga a que pertencia que ele saiu. Passou a ser usado, como pode ser acompanhado no livro de Atos dentro do contexto judaico para mostrar que a pessoa estava saindo do poder do judaísmo, normalmente por pessoas de influência na comunidade; era a apropriação de um ritual judaico para mostrar a saída, e não a entrada, do judaísmo. Fora desse contexto não havia batismos. Para a igreja não há batismo ou qualquer outra coisa física por causa da sua natureza espiritual.

Então somos forçados a admitir, a contragosto das tradições, que não existem sacramentos, a não ser os “santos” mandamentos humanos[4] para beneficiar o entendimento de um grupo ou de outro. Ou isso, ou teremos que começar a acreditar que uns mandamentos são melhores que outros e a declaração das Escrituras de que quem quebra um dos mandamentos é culpado de todos eles ficará sem efeito e sem sentido.

É um Show de mágica, por acaso?

De acordo com a teologia católica o sacerdote – sim, existem pessoas que fazem a intermediação entre o Homem e Deus, segundo essa teologia – faz em todas as missas uma transformação dos elementos naturais pão e vinho em carne e sangue de Cristo, uma transubstanciação. Existe um grande esforço por parte dos teólogos para que os fiéis creiam nisso. Mas vamos por partes:

1-Existem Palavras mágicas, tipo “Sim-salabim”!

A presença real de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo na Sagrada Eucaristia é um dos maiores mistérios da nossa fé. De fato, quando o sacerdote celebra a Missa segundo o rito romano tradicional, ele sussurra estas palavras enquanto consagra o Precioso Sangue: Mysterium fidei. Ao longo dos milênios, a Igreja Católica meditou com amor sobre esse mistério, e seus grandes teólogos, embora reconhecendo com humildade os limites da razão para sondar o que é divino e sobrenatural, foram, não obstante, capazes de apresentar uma defesa razoável dele contra todas as objeções que a incredulidade e a heresia lhe fizeram[5]. (grifos nossos)

Existe uma palavra sussurrada. Isso é digno de nota porque no Jardim do Éden o personagem que fala com Eva normalmente é traduzido como serpente, mas a mesma palavra em hebraico poderia ser traduzida como sussurrador, ou encantador, porque se refere ao som que foi emitido, o que lembra o sibilar de uma cobra, cujo propósito é enfeitiçar a pessoa.

2-Tentaram consertar, mas o Papa não gostou

De acordo com este autor abaixo os elementos não se transformam, mas ele parece estar errado no fim das contas, porque há uma Encíclica reafirmando o entendimento da transubstanciação. Mas vamos ver primeiro a opinião desse estudioso católico:

A Igreja Católica, de fato, não acredita na “transubstanciação”. Esse é o conceito oficial adotado no Século XIII para expressar sensivelmente e inteligivelmente o mistério da fé que Cristo está presente na Eucaristia sob a espécie do pão e do vinho.[6]

Apesar da boa vontade de Hendro Munstermann, a posição oficial da Igreja Católica continua sendo a mesma. Nós entendemos a situação em que ele se encontra porque para haver mudança precisaria haver também o reconhecimento de um erro ocorrido lá atrás e reafirmado várias vezes como sendo o certo. Se o entendimento dele não será validado, muito menos a nossa posição que é bem mais disruptiva, como o caro leitor poderá concluir ao fim do capítulo.

3-A magia continua, e foi o Papa que falou

Então, conforme o site Catolicismo Romano, a transubstanciação continua valendo:

Para a Igreja, por meio da transubstanciação Cristo está realmente, verdadeiramente e substancialmente presente sob as aparências remanescentes do pão e do vinho. A transformação permanece pelo tempo em que as aparências remanescerem. Por esta razão os elementos consagrados são preservados, geralmente em um tabernáculo, para que a Sagrada Comunhão possa ser dada aos doentes ou a quem está morrendo e também, de forma secundária, mas ainda muito estimada, para a finalidade de adoração.

O conceito de transubstanciação é acompanhado pela distinção inequívoca entre substância, ou realidade subjacente, e acidente, ou perceptível pela aparência. Isso salvaguarda o que é considerado pela Igreja como dois erros mutuamente opostos: o primeiro seria considerar que a presença de Cristo na Eucaristia é meramente figurativa (pois a mudança da substância é real); o segundo seria a interpretação de que se come canibalisticamente a carne corpórea e o sangue de Cristo (pois os acidentes permanecem reais, não uma ilusão) (https://www.catolicismoromano.com.br/transubstanciacao/, consultado em 02/07/2022).

As palavras desse site estão de acordo com a Carta Encíclica do Papa Paulo VI em 3 de setembro de 1965, na qual estão espalhadas em vários parágrafos a reafirmação da existência e continuidade da transubstanciação como dogma da ICAR:

11. Não é lícito, […] discutir sobre o mistério da Transubstanciação sem mencionar a admirável conversão de toda a substância do pão no corpo e de toda a substância do vinho no sangue de Cristo, conversão de que fala o Concílio Tridentino;

54. Mas não é necessário multiplicar testemunhos. Mais útil será recordar a firmeza da fé que mostrou a Igreja, ao resistir unânime a Berengário. Levado pelas dificuldades que sugere a razão humana, foi ele quem primeiro se atreveu a negar a conversão eucarística; a Igreja condenou-o repetidamente, caso não se retratasse. Gregório VII, nosso predecessor, obrigou-o a prestar um juramento nestes termos: “Creio de coração e confesso de palavra que o pão e o vinho, colocados sobre o altar, se convertem substancialmente, pelo mistério da oração sagrada e das palavras do nosso Redentor, na verdadeira, própria e vivificante Carne e no Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo; e que, depois de consagrados, são o verdadeiro Corpo de Cristo, que nascido da Virgem e oferecido pela salvação do mundo, esteve suspendido na Cruz e agora está assentado à direita do Pai; como também o verdadeiro Sangue de Cristo, que saiu do seu peito. [7] (grifos nossos)

Transmuta, sim, como disse o Papa, ainda que não se consiga ver, sentir ou registrar o resultado da transmutação. Transmuta, mas a “transubstanciação é acompanhada pela distinção inequívoca entre substância, ou realidade subjacente, e acidente, ou perceptível pela aparência”. Transmuta, mas nada muda… Nada muda, mas o Papa disse que muda; então muda, segundo a Igreja Católica. Normalmente chamamos de milagre algo que não deveria acontecer, mas é perceptível que aconteceu. No entanto, no ritual da Eucaristia nada perceptível ocorre, e ainda assim ele também é classificado como milagre… Isso, sim, é um milagre!

Esquematizando o raciocínio, seria algo assim:

A=Matéria (pão e vinho)

B=Cristo

X=Percepção de mudança

Proposição Lógica: A=B, se X>0.

Sabendo que X=0; então a conclusão seria que A< >B, mas para a Igreja Católica, não!

Observe que o Berengário, que ensinava que a razão é um presente de Deus para nós, foi obrigado pela Igreja Católica Apostólica Romana a fazer o que o Senhor Jesus falou para não fazer: jurar. Mas não o fez por sua vontade. Quem o obrigou a pecar foi a “santa” Igreja, o que seria cômico se não fosse trágico! Essa é a palavra final da Igreja Católica e esse juramento acima é a expressão da doutrina dela.

Para a visão protestante, os problemas não são menores. Os elementos guardam o simbolismo de uma realidade espiritual. É menos apelativo, mas no fim das contas é a mesma coisa e também está ambientado no mesmo erro, o erro de achar que se deve fazer algum ritual.

Em ambas as visões há grandes problemas. Veremos que as bases para nossa fé não estão nos lugares que eles indicam que estão. Veremos que as coisas que todos falam que são a base para essas crenças, como o texto da carta de Paulo aos coríntios, não dá base alguma para o que é ensinado, e, pelo contrário, mostra que não deveria ser feito.

Lembre-se de que parte desse show de mágica foi herdada da Igreja Católica pelos Protestantes na Reforma.

O que é a Páscoa?

A Páscoa, que significa passagem, era a festa judaica anual que comemorava a saída do povo de Israel da escravidão no Egito. Após as nove pragas que vieram sobre os egípcios, Deus ordenou que o povo se preparasse para a saída porque havia chegada a hora da décima praga, a morte dos primogênitos, que seria no ponto máximo da noite, à meia-noite de certo dia, o dia 15 do mês de Nisan (mais ou menos 26 de abril + 15 dias = 11 de maio, a depender do ciclo lunar).

A contagem dos dias para os judeus se dá do pôr-do-sol de um dia, 18h, ao mesmo horário do dia seguinte; o dia começa com o início da noite e termina com o fim do dia. Assim, os preparativos deveriam ser feitos antes que se iniciasse a noite marcada, sendo tudo feito até o fim do dia 14 de Nisan. À tardinha daquele dia, lá pelas 15h, um cordeiro seria morto e sua carne seria o alimento para o jantar daquela noite que se aproximava. Veja na figura abaixo como é contado o dia:

Figura 15 – O Dia na Contagem Judaica

Descrição da Figura:

A imagem é um diagrama simples que ilustra o ciclo do dia a partir de uma perspectiva teológica ou simbólica, em vez de científica. Nela, o ciclo diário é representado por um movimento vertical. O diagrama é dividido em duas metades: a parte de cima, escura, simboliza a noite, enquanto a de baixo, clara, simboliza o dia. O ciclo começa na parte esquerda com o Início do dia, onde também ocorrem o Anoitecer e o Por-do-Sol. O movimento segue para baixo, em direção ao Meio dia, o ponto mais baixo da representação. A partir daí, o movimento sobe em direção ao Fim do dia, até chegar ao Nascer do Sol e à Meia-noite, que marca o ponto mais alto e o clímax do ciclo. A seta pontilhada indica um ciclo contínuo, onde o dia e a noite se sucedem.

Dez dias antes, esse cordeiro seria separado e testado para ver se haveria algum defeito nele, porque era necessário que ele fosse perfeito. Chegada a hora, cada família sacrificou seu cordeiro e passou o seu sangue nos marcos e trave das portas da casa, reuniram-se dentro da casa com as roupas e sandálias que iriam usar para sair da escravidão, porque não passariam nem mais um dia lá. Durante o jantar comeram todo o cordeiro e não lhe quebraram nenhum osso. Também tinham pães sem fermento e verduras, chamadas de ervas amargas, cada item representando um aspecto do sofrimento por que passaram no período da escravidão.

Antes do pôr-do-sol todos estavam dentro das suas casas. À meia-noite Deus matou todos os primogênitos no Egito, dos homens e dos animais, e o Faraó mandou que todos os hebreus saíssem das terras dele imediatamente. Como estavam preparados para isso, assim o fizeram.

E a cada ano faziam uma festa para reviver esse momento e em cada família a pessoa mais nova perguntava aos mais velhos o que significava aquele jantar, e toda a história era repassada.

Jesus comemorou a Páscoa três vezes durante seu ministério. A última, era a mais ansiada porque Ele seria o Cordeiro de Deus que seria sacrificado às 3 horas da tarde. Por isso comeram a Páscoa na noite anterior (terça-feira), mas no mesmo dia 14 de Nisan em que Ele seria sacrificado (quarta-feira). Dez dias antes Ele havia entrado de forma triunfal em Jerusalém e foi por esse tempo provado pelos mestres e sacerdotes, e nenhum defeito encontraram em Jesus, o Cordeiro.

Naquele último encontro com os discípulos, Ele falou as coisas mais importantes para aquela hora de despedida. Foram palavras que não deixaram dúvidas porque Ele as estava falando abertamente.

Dentre as palavras ditas, temos as que se referem ao ritual de Páscoa, com as quais Ele mostrou aos presentes naquela sala que Ele era o cumprimento do ritual feito por todos em cada geração por tantos anos. Tempos depois, porém, alguns começaram a entender de forma diferente o que Ele falou, como veremos no próximo capítulo. E aqui está o nosso trabalho: recompor o sentido original das coisas.

Em que dia Jesus foi crucificado?

Jesus morreu na véspera de um sábado e por associação se propôs que teria sido numa sexta-feira, afinal está escrito que era “véspera de sábado”. Estaria certo se feriados não fossem também chamados de sábado. Ora, se a convocação especial (sábado/feriado) se desse numa terça-feira, por exemplo, sua véspera seria uma segunda-feira, e não uma sexta-feira. Aquele foi um feriado prolongado, como podemos ver nos relatos de João. E uma coisa deve ajudar o leitor neste entendimento: Maria Madalena saiu para comprar coisas no dia seguinte ao sábado que foi depois da crucificação e após fazer isso, descansou um sábado (o sábado semanal) para em seguida ir ao sepulcro na madrugada do outro dia, domingo. Então há um dia útil entre o sábado que se seguiu à crucificação e o sábado que antecedeu a ressurreição. Veja:

  • crucificação;
  • sábado feriado;
  • dia útil;
  • sábado semanal;
  • domingo.

E acima de tudo, Ele precisava ficar morto por três dias e três noites, o que não seria possível se morresse numa sexta-feira, ainda que a teologia católica se esforce para encaixar justificativas para essa data. Não três dias romanos nem três dias atuais, medidas para as quais se pode dizer que o pedaço de um dia equivale a um dia inteiro, como a Teologia Corrente diz: pedaço de sexta-feira, sábado todo e pedaço do domingo equivalem a três dias. Não mesmo! São três dias inteiros e três noites inteiras, assim como Jonas ficou na barriga do grande peixe. E como Jonas ficou nesse período? Ficou morto, claro.

Paulo, aos Coríntios

Agora, vamos tratar de entender o ritual que se faz hoje na cristandade chamado de Santa Ceia, Ceia do Senhor ou Eucaristia. Como um jantar na forma de um ritual foi parar no meio das reuniões da Igreja de Cristo, que é uma escola para formar seguidores de Cristo e não um templo ou uma religião? Como um costume judaico do jantar da Páscoa veio parar na Igreja com essa roupagem diferente? Como uma crença de transformação da matéria se introduziu nesse ritual “cristão”? E no fim, o que a Igreja de Cristo deve fazer quando se reúne? Vamos investigar este caso curiosíssimo.

Os Coríntios e as Cartas de Paulo

Corinto era uma cidade importante, a capital romana na Grécia. Ela tinha dois portos, que recebiam as embarcações do Ocidente e do Oriente. E como toda cidade grande, também era grande a diferença social. Paulo ficou um ano e meio nesta cidade e dali escreveu as cartas aos Tessalonicenses, e talvez também aos Gálatas.

Por essas cartas podemos ver o que ele ensinava, e pelas cartas aos coríntios, depois de sua partida, podemos ver o que aconteceu na Igreja lá. Ele mostra, em resumo, a superioridade da Graça sobre a Lei e mostra que crer em Cristo é destino ao qual a Lei conduz, e por isso confronta os que querem permanecer na Graça se sujeitando à Lei ao mesmo tempo. Nas cartas aos Coríntios, Paulo responde a perguntas enviadas a ele e reforça os ensinos que já havia feito.

Dentre esses ensinos temos os que são sobre uma festa que os coríntios resolveram fazer na mesma época da Páscoa judaica, uma festa de amor puro, que em grego é ágape. A ideia dos irmãos era promover a união oportunizando uma confraternização que tivesse um vínculo com a história do Senhor Jesus. Era até uma boa ideia, mas acabaram cometendo alguns excessos e erros, e Paulo vai redirecioná-lo para o caminho certo. Será uma correção detalhada porque Paulo viu que cometiam uma forma nova do pior dos pecados de Israel, a idolatria. Não a que coloca uma obra humana no lugar de Deus, mas uma nova idolatria que materializa Deus em coisas naturais, no caso, o pão e o vinho.

A origem da interpretação vigente

Os coríntios erraram em alguns pontos e Paulo vai reordenar as coisas. A interpretação feita pelas mãos da Igreja Católica Apostólica Romana do que Paulo ensinou deu origem muito tempo depois ao que hoje conhecemos como Ceia do Senhor, Eucaristia ou Santa Ceia. Acontece que tal leitura foi feita por quem precisava que a Igreja tivesse um ritual a ser seguido, algo físico que justificasse a reunião das pessoas para que fossem controladas pelo medo e pela culpa. Esses dogmas saíram dessa intenção e usaram como meio de crescimento a reafirmação de uma interpretação errada do texto até que não mais questionassem a interpretação, como vimos no juramento da Inquisição algumas páginas atrás.

Os coríntios queriam celebrar o ponto da história em que Cristo se deu por eles e fizeram um jantar. Como foi muito agradável, fizeram outros jantares. Mas a forma como fizeram enfatizava as diferenças sociais, em vez de minimizá-las, como deve ser no Corpo de Cristo. Aquilo que era para promover a união estava promovendo a segregação e a idolatria, coisas que permanecem até hoje na cristandade por meio desse ritual. E o pior é que trazia para dentro da Igreja um rito incompleto da Lei com significados idólatras. E quando Paulo soube disso, ele os repreendeu.

Ele começou a abordar o tema no capítulo 10 da Primeira Carta aos Coríntios. Introduziu o assunto mostrando que o povo de Israel havia sido batizado no mar e pela coluna de nuvem, que tinham comido de um mesmo pão, mas que sempre se sentavam para comer e se levantavam para fazer o mal. E este mal era a imoralidade, a murmuração e o pôr o Senhor à prova. Então Paulo adverte-os a fugir da idolatria, a raiz desses males, a mesma idolatria que os antigos israelitas fizeram (v 14).

ORA, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, e todos passaram pelo mar. E todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar, e todos comeram de uma mesma comida espiritual, e beberam todos de uma mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Cristo. Mas Deus não se agradou da maior parte deles, por isso foram prostrados no deserto.

E estas coisas foram-nos feitas em figura, para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram. Não vos façais, pois, idólatras, como alguns deles, conforme está escrito: O povo assentou-se a comer e a beber, e levantou-se para folgar.

E não nos prostituamos, como alguns deles fizeram; e caíram num dia vinte e três mil. E não tentemos a Cristo, como alguns deles também tentaram, e pereceram pelas serpentes. E não murmureis, como também alguns deles murmuraram, e pereceram pelo destruidor. Ora, tudo isto lhes sobreveio como figuras, e estão escritas para aviso nosso, para quem já são chegados os fins dos séculos. (I Coríntios 10:1-11)

Paulo os repreendeu no fim da sua exposição no capítulo 11 porque estavam fazendo duas coisas erradas ao mesmo tempo como fruto da idolatria. Primeiro estavam desprezando os pobres. E em segundo lugar, estavam refazendo o que seria a Ceia judaica da Páscoa sem saber que fazer isso era testemunhar contra Cristo. E também é idolatria colocar Deus em qualquer coisa física, como o pão ou o vinho, além da forma mais comum, que é a de colocar uma imagem no lugar de Deus.

Mas essa repreensão foi interpretada de forma tendenciosa depois, e é sobre ela que nos deteremos agora.

A estrutura da resposta aos Coríntios

A carta aos Coríntios tem uma estrutura. Ele começa apresentando os ensinos e depois, passa para a aplicação prática.

No capítulo 6 temos um desafio:

Não sabeis vós que havemos de julgar os anjos? Quanto mais as coisas pertencentes a esta vida? (I Coríntios 6:3)

A partir do capítulo 7 ele começa a responder às perguntas feitas, as coisas pertencentes a esta vida:

Ora, quanto às coisas que me escrevestes (I Coríntios 7:1a)

Quais sejam:

  1. Casamento;
  2. Comidas consagradas;
  3. Ajuntamentos;
  4. Dons espirituais;
  5. Coletas.

Então ele trata da pergunta que fizeram sobre as jovens solteiras começando assim:

ORA, quanto às virgens, não tenho mandamento do Senhor; dou, porém, o meu parecer, como quem tem alcançado misericórdia do Senhor para ser fiel. (I Coríntios 7:25)

E depois de algumas explicações e exposições de motivos, escreveu terminandoassim essa questão:

Será, porém, mais bem-aventurada se ficar assim, segundo o meu parecer, e também eu cuido que tenho o Espírito de Deus. (I Coríntios 7:40)

E então responde sobre as carnes sacrificadas, começando assim:

ORA, no tocante às coisas sacrificadas aos ídolos, sabemos que todos temos ciência. A ciência incha, mas o amor edifica. (I Coríntios 8:1)

E terminando com:

Por isso, se a comida escandalizar a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que meu irmão não se escandalize. (I Coríntios 8:13)

E então, responde sobre o ajuntamento, a reunião que eles começaram a fazer, começando assim:

Nisto, porém, que vou dizer-vos não vos louvo; porquanto vos ajuntais, não para melhor, senão para pior. (I Coríntios 11:17)

E terminandoassim:

Portanto, meus irmãos, quando vos ajuntais para comer, esperai uns pelos outros. Mas, se algum tiver fome, coma em casa, para que não vos ajunteis para condenação. (I Coríntios 11:33-34a)

E acrescenta que outras perguntas sobre esse assunto cujas respostas eram menos urgentes ele responderia pessoalmente:

Quanto às demais coisas, ordená-las-ei quando for. (I Coríntios 11:34b)

Então vai para a próxima questão, sobre os dons espirituais, começando assim:

Acerca dos dons espirituais, não quero, irmãos, que sejais ignorantes. (I Coríntios 12:1)

E terminando assim:

Portanto, irmãos, procurai, com zelo, profetizar, e não proibais falar línguas. Mas faça-se tudo decentemente e com ordem. (I Coríntios 14:39-40)

Por fim ele dá uma instrução quanto à coleta:

Ora, quanto à coleta que se faz para os santos, fazei vós também o mesmo que ordenei às igrejas da Galácia. (I Coríntios 16:1)

Observaram o método de escrita de Paulo aos coríntios, as simetrias? E assim Paulo termina sua carta, da qual examinaremos o trecho concernente à pergunta sobre a reunião da Igreja.

Você Vê a Imagem no Espelho?

Vimos acima que cada resposta começa com o anúncio da questão e termina com um arremate: “julgo”, “por isso”, “portanto”. Você, atento leitor, deve ter percebido que entre o término do assunto das carnes sacrificadas e o anúncio da Ceia existe um intervalo dois capítulos e meio fora dessa estrutura de resposta, fora apenas aparentemente. E também deve ter notado que o próximo assunto, o de dons espirituais, se estende mais do que os outros e consome dois capítulos, sendo que o segundo parece ser mais um apêndice à resposta do primeiro do que uma relação direta com a pergunta feita pelos coríntios.

Existe um espelhamento aqui. Como em outros lugares isso também pode ser percebido, não é uma novidade ou exceção. Encontramos esse espelhamento no Salmo 23 no ponto antes e depois do “vale da sombra da morte”. Há também, como exemplo, o livro de Mateus nas partes antes e depois do capítulo 16, na revelação dada a Pedro de que Jesus era o Cristo.

Aqui o espelhamento é:

Ceia I Co 8-11 Contexto e Alertas, PorquêsDons I Co 12-13 Porquês, Contexto e Alertas

Isso é só para mostrar a beleza da carta de Paulo. A percepção de que os capítulos 8 a 11 pertencem ao mesmo assunto da idolatria aplicável à Ceia é feita sem precisar olhar para os capítulos seguintes, 12 e 13. Apenas ajuda a ver que Paulo não estava escrevendo sem roteiro ou falando de vários assuntos ao mesmo tempo.

Não é uma dispersão de Paulo. Há uma resposta a ser dada para a pergunta feita sobre a reunião. Uma resposta longa porque o assunto é importante e precisa ter uma introdução adequada para mostrar os perigos em que os coríntios estavam se colocando, a idolatria.

 Resposta Geral

Note que esse assunto da Ceia começou a ser respondido antes do anúncio de que Paulo iria começar a respondê-lo, anúncio no verso 17 do capítulo 11. Começou quando ele encerrou o assunto anterior, sobre as carnes sacrificadas, lá no fim do capítulo 8. E ele deixa esses assuntos próximos porque eles têm algo em comum, a idolatria.

O assunto da idolatria é tão importante que Paulo faz uma introdução, os capítulos 9 e 10. Ao ler a primeira vez você teria a impressão de que é um texto fora do lugar porque parece que ele está se defendendo ou se vangloriando.

Essa grande introdução é uma resposta geral à pergunta dos coríntios, e mostra o contexto histórico pelo qual os israelitas passaram e as penalidades que sofreram. Observe as palavras de explicação que Paulo coloca no texto, os porquês, os “vocês não sabem?”, os “por isso”. Paulo está mostrando algumas coisas que possuem conexão com o ritual do qual falará mais tarde quando chamará os coríntios de volta à sanidade denunciando a insanidade de declararem pelo rito algo oposto ao que criam e que foi o motivo da salvação deles, que Cristo está vivo.

Paulo mostra a conexão espiritual entre o trabalhador e o produto do seu trabalho e relaciona isso com a comida tirada do altar. Mostra que essa grande corrida que participamos exige esforços e renúncias, até de coisas a que teríamos direito de fazer. E entre um exemplo e outro, Paulo mostra a autoridade e a intenção de nossas ações. E mostra também que a distinção básica do juízo sobre o que fazemos é se o fazemos em benefício próprio ou para o benefício de outros.

Os capítulos 9 e 10 seguem a sequência de respostas às perguntas dos coríntios, mas pode parecer um texto deslocado, apesar de não ser, porque o próximo assunto é tão importante que ele resolveu fazer uma introdução à próxima resposta a ser dada. Vamos olhar os pontos principais que ligam o assunto anterior, as carnes consagradas aos demônios, ao próximo assunto, o erro idólatra dos coríntios. Paulo mostra isso ao mesmo tempo em que aplica os mesmos conceitos a ele, aos israelitas e à Igreja.

Não sabeis vós que os que administram o que é sagrado comem do que é do templo? E que os que de contínuo estão junto ao altar, participam do altar? Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis. Antes subjugo o meu corpo, e o reduzo à servidão, para que, pregando aos outros, eu mesmo não venha de alguma maneira a ficar reprovado. (I Coríntios 9:13-27)

Na estrutura geral da repreensão de Paulo ele começa mostrando a origem e os exemplos negativos a serem evitados. Mostra as implicações práticas do entendimento errado das coisas. Depois fala sobre um exemplo positivo a ser elogiado entre os coríntios (11:2 – Eu os elogio por se lembrarem de mim).

E então agora aborda o que ele não elogia, antes, corrige: o caso concreto, a pergunta feita pelos coríntios. Volta ao assunto da festa na qual estavam se reunindo para comer e revelavam coisas contrárias ao propósito anunciado pela iniciativa da reunião, demonstrando que estavam no caminho da idolatria. (v.17 – … nisto não vos elogio …)

Esse encadeamento se perde por causa da divisão do texto em capítulos e versículos; somente uma leitura contínua pode mostrar a mensagem original que Paulo estava passando. E assim como ele fez ao mostrar os exemplos ruins e os exemplos bons, agora também vai mostrar os vários porquês de os coríntios não serem elogiáveis. Vai mostrar os motivos pelos quais o que estão fazendo está errado.

Sigamos para a resposta específica de Paulo.

A Resposta Específica

Antes de passarmos para as repreensões em si vamos olhar de novo o texto de Paulo para podermos perceber que ele está apresentando os motivos de NÃO FAZER a Ceia, em vez de fazê-la, como normalmente é lido. Incluímos expansões em itálico das ideias e alguns destaques gráficos para facilitar o entendimento:

PORQUE eu recebi [diretamente] do SENHOR [e não dos discípulos que estavam lá com Ele e que poderiam ter ensinado desde aquela época a refazermos aquele ritual] o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão [da refeição de Páscoa que estavam comemorando]; tendo dado graças, o partiu e disse [aos que estavam ali com ele]:

“Tomai, comei; [desse pão que é o símbolo do meu corpo que vocês sempre partiram sem entender corretamente, sim] isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim [enquanto eu estiver morto nos próximos 3 dias e 3 noites]. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice [o vinho que está dentro do cálice] é o Novo Testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes [nos dias que se seguirão], em memória de mim [porque estarei morto]”.

PORQUE todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor [assim como os discípulos fizeram naqueles dias seguintes], até que venha [mas como ele já voltou da morte e isso é a base da nossa fé, vocês continuam anunciando que Ele está morto assim como os discípulos fizeram naqueles dias] (I Coríntios 11:23-26).

Imagine agora a situação de um filho de 3 anos no supermercado pedindo algo a seu pai, algo de que não precisam ou não podem comprar:

― Pai, vamos levar esse trem!

― Não, filho. Não precisamos disso.

― Ah, mas eu quero…

― Não precisamos disso PORQUE já temos esse desinfetante em casa. E também PORQUE viemos aqui só para comprar as frutas que estão faltando, você se lembra? PORQUE se comprarmos isso agora, só vamos poder usar daqui a uns dois meses PORQUE isso dura muito! Venha, vamos logo ao setor de frutas!

Caro leitor, você percebeu algo semelhante entre o diálogo acima e o texto de Paulo? Sim, os porquês! Usamos “porque” para mostrar os motivos de alguma coisa, e no caso de Paulo, ele estava apresentando os motivos pelos quais a correção que estava fazendo era necessária. Vamos ler o texto todo agora, com as expansões para evidenciar os porquês, incluindo os que estão ocultos:

Nisto, porém, que vou dizer-vos não vos louvo; porquanto vos ajuntais, não para melhor, senão para pior. [Não vos louvo, mesmo] PORQUE antes de tudo [o que é bom a vosso respeito], ouço que, quando vos ajuntais na igreja, há entre vós dissensões; e em parte o creio. E até importa que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós. De sorte que [ou outro PORQUE], quando vos ajuntais num lugar, não é para comer a Ceia do Senhor [PORQUE são Ceias individuais, e não a Ceia do Senhor da qual vou falar mais para frente, lá no capítulo 15 desta carta].

PORQUE, comendo, cada um toma antecipadamente a sua própria Ceia; e assim um tem fome e outro embriaga-se. Não tendes porventura casas para comer e para beber [, PORQUE é óbvio que vocês têm]? Ou desprezais a igreja de Deus, e envergonhais os que nada têm [, PORQUE é óbvio que é isso que vocês estão fazendo na prática]? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto não vos louvo.

[Eu não vos louvo] PORQUE eu recebi [diretamente] do SENHOR [e não dos discípulos que estavam lá com Ele e poderiam ter ensinado desde aquela época a refazermos aquele ritual se isso realmente fosse para ser feito] o que também vos ensinei [e vocês se esqueceram]: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão [da refeição de Páscoa que estavam comemorando]; tendo dado graças, o partiu e disse [aos que estavam ali com ele naquela noite específica]:

“Tomai, comei; [o significado desse pão é que ele é o símbolo do meu corpo que vocês sempre partiram sem entender corretamente, sim] isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim [enquanto eu estiver morto nos próximos 3 dias e 3 noites]. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice [o vinho que está dentro do cálice] é o Novo Testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes [nos dias que se seguirão], em memória de mim [porque estarei morto]”.

[Não vos louvo] PORQUE todas as vezes que [vós insistirdes em] comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor [assim como os discípulos fizeram de acordo com as instruções que tiveram para aqueles dias seguintes à morte do Senhor Jesus], até que venha [mas como Ele já voltou da morte e isso é a base da nossa fé, vocês continuam anunciando que Ele está morto assim como os discípulos fizeram corretamente naqueles dias, mas isso, hoje, está errado].

PORTANTO, [por todos esses PORQUÊS que acabei de mostrar, e como consequência única de todos eles] qualquer que comer este pão, ou beber o cálice do Senhor indignamente [já que vocês não estão no cenáculo participando da Ceia com Jesus naquela noite em que Ele foi traído, como falei acima], será culpado do corpo e do sangue do Senhor [porque está anunciando o que não é para ser anunciado mais agora, PORQUE Ele agora está vivo para sempre]. (I Coríntios 11:17-27)

Foram quatro porquês originais e mais seis que estavam ocultos: são dez porquês, dez razões para não fazer. Dez motivos! Se houvesse somente um motivo, já bastaria para qualquer outra coisa. Há vários, aqui. Em qual desses motivos Paulo errou?

Há o símbolo e a realidade. A Páscoa era o símbolo e a realidade é Cristo Jesus: “Porque a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida” (João 6:55).

Vamos agora aos motivos principais, as duas repreensões.

Primeira repreensão: desunião

A partir de I Co 11:17, Paulo os repreende por desprezarem os mais pobres ao exibirem fartura sem compartilhá-la. A partir do verso 23, ele dá um motivo para isso estar errado, e o verso começa com “Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei:”. Ensinou o quê? “… que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei;”. Ensinou que o princípio é dar ao outro, e não tomar para si. Assim como o Senhor Jesus fazia em todas as ocasiões, partia e distribuía e no fim alguém compartilhava com Ele também. Em seguida fez a mesma coisa com o cálice de vinho.

Essa é a lição sobre a unidade e a igualdade. Todos comem de um mesmo pão e cada um supre o seu próximo. Esse é o primeiro porquê de Paulo não elogiar os coríntios na forma como fazem suas festas de confraternização. Estavam tomando para si mesmos, e não recebendo do outro.

Quem contou para Paulo

Mas antes de passarmos para a segunda repreensão, precisamos atentar que Paulo não estava lá com os doze discípulos naquela noite. Parece, pela forma em que está o texto, que Paulo teria recebido do Jesus ainda encarnado e repassado à igreja da mesma forma que ele, Paulo, recebeu naquela noite, mas não foi isso que aconteceu. Ele recebeu essa revelação do que ocorreu lá por meio do Senhor Jesus Cristo, o Jesus já glorificado, espiritual, o Senhor Jesus.

Paulo está citando o que o Senhor Jesus Cristo, espírito, revelou para ele o que ocorreu naquela noite, na noite em que Ele foi traído, noite em que Paulo não estava lá e que as palavras de Jesus lá no cenáculo naquele momento não eram dirigidas ao Paulo.

Quem estava lá eram os discípulos, e por eles é que o pão foi partido simbolizando o Corpo de Cristo que seria também partido dali a algumas horas e por eles é que o pão foi comido. O pão foi partido por “vós”, vós, os discípulos presentes naquela noite. O evento se refere àquela noite.

In memoriam

E aqueles que lá estavam deveriam fazer isso em memória de Jesus nos próximos dias porque Ele estaria morto. E fariam exatamente isso de qualquer forma porque nos próximos sete dias seriam os dias da Festa dos Pães Ázimos, festa em que diariamente eles deveriam comer esses pães e também beberiam vinho ao fazê-lo. Assim fizeram nas noites que se seguiram até o sábado, porque na noite do domingo já não fariam em memória Dele porque Ele estaria vivo. Estritamente falando, no domingo à noite ainda jantaram sem Jesus porque Ele apareceu entre eles somente no fim, e ainda que Maria Madalena tivesse anunciado pela manhã a Sua ressurreição, até aquele momento somente ela estava comendo sem ser em memória do Senhor.

O comer o pão e beber o vinho “até que eu volte” se refere ao período em que Ele estaria fora, morto, e não ao período atual em que Ele está no céu. O voltar aqui não é a segunda vinda do Senhor Jesus, é voltar da morte, voltar de onde estaria indo nas próximas horas. Retomaremos isso no capítulo In memoriam.

Segunda repreensão: testemunho errado

Precisamos entender que as palavras de Paulo eram para corrigir os coríntios, e não para reafirmar o que eles estavam fazendo. Eles estavam repetindo o ritual da Páscoa que Jesus teve com seus discípulos, e ao fazerem isso estavam proclamando que Ele estava morto. Porque ao repetirem (e todas as vezes que nós o repetirmos), estavam fazendo a Ceia em memória dEle. Ora, não se faz algo em memória de alguém vivo, mas apenas quando está morto. E acaso o Senhor Jesus está morto?! Agora, sigamos: repassaremos o texto de coríntios e depois iremos aos textos dos Evangelhos.

Na noite em que foi traído, Jesus partiu o pão e disse aos discípulos para que comessem. Jesus disse aos discípulos que estavam com Ele naquela noite de terça-feira para a quarta-feira na nossa medição de tempo, e dentro do dia judaico em que Ele seria morto porque já havia anoitecido. E acrescentou que fizessem isso, comessem aquele pão, enquanto Ele estivesse morto, em memória Dele. De mesmo modo fez com o vinho, falando que deveriam fazer isso todas as vezes que bebessem em memória Dele. Isso foi o que aconteceu naquele dia, o dia em que foi traído. Era a instrução aos discípulos para os próximos dias em que Ele estaria morto.

Paulo explica: “Porque todas as vezes que [vocês] comerdes este pão e beberdes este cálice [assim como os discípulos fizeram nos dias que se seguiram àquela Ceia e até a ressurreição do Senhor] anunciais [vocês anunciam uma coisa errada, porque Ele está vivo] a morte do Senhor, até que Ele venha [venha de onde ele foi naquela noite, a noite em que foi traído, início do dia judaico que foi consumado com a ida dele para a morte na tarde seguinte, às 15h da nossa marcação temporal e às 9h da marcação temporal dos romanos]”.

A verdadeira heresia

Ao fazermos hoje o que os discípulos fizeram nos dias que se seguiram, nós anunciamos, como eles assim o fizeram, que Jesus estava morto. Ora, Ele estava realmente morto naqueles próximos três dias, mas hoje Ele está vivo! Ao repetirmos hoje o que era direcionado apenas para que os discípulos fizessem naquelas próximas noites, proclamamos hoje que o Senhor Jesus não voltou da morte para a qual Ele foi, e que Ele continua morto, porque essa Ceia é feita em memória, como se Ele estivesse morto ainda até hoje. E isso, sim é uma heresia!

Os discípulos comiam aquela Ceia tristes porque o Mestre não estava mais com eles. Estavam com medo porque se mataram o Mestre, também podiam matá-los. Eles estavam tristes e o mundo estava alegre. Nesse período eles comiam em memória do Mestre morto na cruz. Mas os três dias e as três noites terminaram, e Cristo ressuscitou! Não havia mais tristeza. O Mestre estava vivo. E agora tudo mudou.

A ressurreição mudou a dispensação

Tudo, o que exatamente, mudou? Ora, se Cristo está vivo é porque Ele venceu a morte. E se Ele fez isso, quer dizer que a promessa feita no Éden foi cumprida. Isso quer dizer que existe paz com Deus por meio Dele, e não mais por meio da Lei. Esta teve fim quando foi cumprida em Cristo; e somente Cristo a cumpriu. Se outro a tivesse cumprida, a salvação estaria neste outro, e não em Cristo. Donde se conclui que a Lei foi dada para ser cumprida em Cristo, de forma que antes Dele ninguém a cumpriu.

E agora que Ele vive, não há mais a Ceia da Páscoa a se reviver e muito menos Ceia em memória de Jesus a ser feita. Não há mais os sacrifícios transitórios de animais, não há mais holocaustos, não há mais sacerdotes, não há mais ritos, não há mais o Templo, não há mais culpa e medo. Acabou o período de tristeza dos discípulos. Não há mais pão, vinho e lágrimas pelo Mestre morto porque Ele está vivo!

E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé. E assim somos também considerados como falsas testemunhas de Deus, pois testificamos de Deus, que ressuscitou a Cristo, ao qual, porém, não ressuscitou, se, na verdade, os mortos não ressuscitam. Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. (I Coríntios 15:14-16)

É um ponto central é que Cristo ressuscitou, e é um contrassenso ficar desmentindo isso toda hora. Celebrar a Páscoa/Santa Ceia/Eucaristia é anunciar que Ele ainda está morto.

Essa é a lição sobre o testemunho errado. A proclamação deveria ser da Vida do Senhor, até a Sua segunda vinda a este mundo, e não o anúncio da morte do Senhor até que ele volte da morte, onde passou três dias e três noites. Esse é o segundo porquê de Paulo não elogiar os coríntios na forma como fazem suas festas de confraternização.

É verdade que a Ceia é uma ordem de Paulo?!

Paulo os repreende porque se tornaram repreensíveis ao fazerem duas coisas erradas: aumentavam e evidenciavam a desigualdade entre os irmãos em vez de diminuí-la, e proclamavam a morte do Senhor, e não a vida.

Quanto ao versículo posterior, o 28, que diz “Examine, pois, cada um a si próprio, e dessa maneira coma do pão e beba do cálice”, fica parecendo, se tomado isoladamente, que Paulo está ordenando que se coma, mas não é o caso. Precisamos nos lembrar de que ele está escrevendo aos coríntios, aqueles que os judeus chamam de gentios, e que por isso não poderiam comer dos elementos da páscoa. O que Paulo está falando é: “Examine, por causa disso tudo o que eu mostrei, cada um a si próprio e avalie primeiramente se quer anunciar que Jesus está morto e depois se quer se tornar um judeu, e se quiser fazer assim negando que Jesus é Deus e que está vivo, dessa maneira coma do pão e beba do cálice” A resposta óbvia de um cristão é: “Não! Não vou me tornar judeu para poder participar da Páscoa e continuar a proclamar que meu Salvador está morto porque isso seria um contrassenso!” Que em nossas mentes haja esta mesma clareza.

In Memoriam de Quem se Cristo Está Vivo?

Façamos um exercício: suponhamos que você, caro leitor, perca hoje para a morte uma pessoa amada. Então você chora por ela, lamenta com outras pessoas pela perda dela. Talvez haja homenagens, talvez seja impresso um folheto com a foto do seu ente querido com a data de nascimento e morte. Agora, suponhamos que uma visita a você tenha sido planejada por seus amigos e parentes para daqui a três dias para te ajudar a passar por esse período de tristeza, e que depois de servidos de uns quitutes, foi dado início a uma homenagem póstuma. E no meio das lembranças sendo compartilhadas naquele momento de tristeza e saudades a sua pessoa amada que estava morta entra na sala!

Você diria o quê? Você iria declarar que ela está viva e abraçá-la, ou você iria reclamar que ela estragou a homenagem dos amigos?

Ora, faz sentido uma homenagem póstuma a quem está vivo? Faz sentido realizar um jantar in memoriam para alguém que está presente à mesa? É tão sem nexo que Paulo teve que se manifestar novamente no capítulo 15 de I Coríntios:

Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como dizem alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos? E, se não há ressurreição de mortos, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé. E assim somos também considerados como falsas testemunhas de Deus, pois testificamos de Deus, que ressuscitou a Cristo, ao qual, porém, não ressuscitou, se, na verdade, os mortos não ressuscitam. Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. E também os que dormiram em Cristo estão perdidos. Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens.

Mas de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos, e foi feito as primícias dos que dormem. (I Coríntios 15:12-20)

A Páscoa não é para a Igreja

A Páscoa era uma ordenança aos israelitas, e somente a eles. Nenhum gentio poderia tomar parte desse ritual, que era realizado nas casas. Somente circuncidados poderiam participar.

E aconteceu que, passados os quatrocentos e trinta anos, naquele mesmo dia, todos os exércitos do Senhor saíram da terra do Egito. Esta noite se guardará ao Senhor, porque nela os tirou da terra do Egito; esta é a noite do Senhor, que devem guardar todos os filhos de Israel nas suas gerações. Disse mais o Senhor a Moisés e a Arão: Esta é a ordenança da páscoa: nenhum filho do estrangeiro comerá dela. Porém todo o servo comprado por dinheiro, depois que o houveres circuncidado, então comerá dela. O estrangeiro e o assalariado não comerão dela. Numa casa se comerá; não levarás daquela carne fora da casa, nem dela quebrareis osso. Toda a congregação de Israel o fará. Porém se algum estrangeiro se hospedar contigo e quiser celebrar a páscoa ao Senhor, seja-lhe circuncidado todo o homem, e então chegará a celebrá-la, e será como o natural da terra; mas nenhum incircunciso comerá dela. Uma mesma lei haja para o natural e para o estrangeiro que peregrinar entre vós. E todos os filhos de Israel o fizeram; como o Senhor ordenara a Moisés e a Arão, assim fizeram. E aconteceu naquele mesmo dia que o Senhor tirou os filhos de Israel da terra do Egito, segundo os seus exércitos. (Êxodo 12:41-51)

Jesus e Seus discípulos eram judeus e estavam guardando este mandamento da Lei de Moisés, porque a Lei somente foi cumprida no dia seguinte quando Ele morreu na cruz. Nós, os não-judeus, os gentios, os incircuncisos, não podemos participar da Páscoa.

Nem um til da Lei

Normalmente, caro leitor, neste ponto alguém diz que precisamos realizar o ritual porque nem a menor letra da Lei deixará de se cumprir. Isso é verdade. O que não é verdade é que esse tal letra, que para nós foi adaptada para o nosso til, se refira à obra que Cristo fez, pois esta está completa. Já houve o “tetelestai”.

Existem muitas coisas que ainda vão se cumprir, como o leão comer capim junto com a ovelha, mas não têm relação com a obra feita na cruz. O que foi concluído na cruz não precisa de continuidade porque foi concluído com sucesso (tetelestai). Dentre essas coisas concluídas estão as festas porque apontavam para Cristo. Ao ter o seu cumprimento, torna-se inútil e impróprio continuar a refazer um cerimonial que era um ato profético que apontava para o que o Senhor Jesus um dia iria fazer porque isso agora é passado, coisa feita.

Sim: muita coisa ainda não se cumpriu e vai se cumprir. E, não: nada do que foi falado sobre Cristo e Sua obra na cruz deixou de ser feito. Sobre isso, tudo “está consumado”. Tetelestai!

Jesus explicou a Ceia de Páscoa

Jesus se reuniu com seus discípulos numa casa para comerem a Páscoa. A Páscoa era um ritual baseado na libertação que aconteceu para apontar a libertação que vai acontecer. O cordeiro aponta para Jesus, o Cordeiro de Deus que seria morto em algumas horas. A saída do povo do Egito aponta para a saída deste mundo para o Reino de Deus.

Chegou, porém, o dia dos ázimos, em que importava sacrificar a páscoa. E mandou a Pedro e a João, dizendo: Ide, preparai-nos a páscoa, para que a comamos. E eles lhe perguntaram: Onde queres que a preparemos? E ele lhes disse: Eis que, quando entrardes na cidade, encontrareis um homem, levando um cântaro de água; segui-o até à casa em que ele entrar. E direis ao pai de família da casa: O Mestre te diz: Onde está o aposento em que hei de comer a páscoa com os meus discípulos? Então ele vos mostrará um grande cenáculo mobilado; aí fazei preparativos. E, indo eles, acharam como lhes havia sido dito; e prepararam a páscoa. E, chegada a hora, pôs-se à mesa, e com ele os doze apóstolos. E disse-lhes: Desejei muito comer convosco esta páscoa, antes que padeça; Porque vos digo que não a comerei mais até que ela se cumpra no Reino de Deus. E, tomando o cálice, e havendo dado graças, disse: Tomai-o, e reparti-o entre vós; Porque vos digo que já não beberei do fruto da vide, até que venha o Reino de Deus. E, tomando o pão, e havendo dado graças, partiu-o, e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente, tomou o cálice, depois da Ceia, dizendo: Este cálice é o Novo Testamento no meu sangue, que é derramado por vós. (Lucas 22:7-20).

Jesus explicou o real significado do pão e do vinho da Páscoa a Seus discípulos: o pão sem fermento que eles partiram anualmente por toda a vida deles apontava para o corpo de Jesus que seria partido em Sua morte em poucas horas, e o vinho que sempre tomaram apontava para o que estava para se cumprir, o estabelecimento de uma nova aliança por meio desse novo, perfeito e suficiente sacrifício definitivo, o derramamento do sangue Dele, o Cordeiro de Deus.

E agora que eles sabem o real significado do que iria acontecer e que estava preanunciado pelo rito que sempre fizeram por ser uma ordenança, agora deveriam comer o pão e beber o vinho em memória dEle porque Ele cumpriria o que estava proposto no ritual da Páscoa: Ele iria morrer. Deveriam comer em memória dEle enquanto Ele estivesse morto, porque quando Ele voltasse da morte, não haveria mais sentido em fazer alguma coisa em memória de quem está vivo.

Até que Ele volte… de onde? I

Assim também vós agora, na verdade, tendes tristeza; mas outra vez vos verei, e o vosso coração se alegrará, e a vossa alegria ninguém vo-la tirará. (João 16:22)

A volta a que se refere o texto não é a segunda vinda de Cristo, como alguns querem nos fazer crer, mas a volta do lugar para onde estava indo a partir daquele dia, a morte. A volta é a ressurreição: re (de novo) + surreição (surgir, da raiz latina de surgere), de onde ficou resurrectio em latim (em grego: anastasis) que é o conceito de voltar à vida após a morte.

A parte que trata do Reino vindouro fala de Cristo novamente tomando a Páscoa, mas no sentido completo de resgate de todos os que são dEle, quando Ele “tomará” a Páscoa real da qual a Páscoa que foi instituída anteriormente na Lei é apenas uma sombra. Será uma grande celebração com todos os salvos de todas as eras, até mesmo com os que viveram antes da Lei. Não será o cumprimento da Lei, mas a reunião de todos em uma mesma mesa.

Agora, vamos pensar:

  • Se o “até que eu volte” se refere à vinda futura, isso quer dizer que Jesus, sendo judeu, estaria descumprindo a Lei porque faz mais de mil anos que Ele não toma a Páscoa anualmente como recomendado. A não ser que Ele não esteja vivo… Ou que Ele esteja vivo, mas não esteja mais sujeito à Lei por ter morrido, morrido e ressuscitado; mas neste caso, quem está em Cristo também não está sujeito à Lei…
  • Também quer dizer que Ele não voltou ainda do lugar para onde estava indo logo depois daquela noite em que foi traído; ainda não voltou da morte. Então continua morto e a nossa fé, que está baseada no fato de que Ele vive, ficou sem efeito…
  • Quer dizer que nós estamos certos em tomar a Ceia como memorial de que Ele está morto, porque se estivesse vivo não faríamos nenhum evento para proclamar o contrário disso…
  • E também quer dizer que os discípulos todos foram loucos desvairados porque declararam que Ele vive mesmo não tendo voltado, re+surgido, ressuscitado, voltado da morte.
  • Então a ordem de comer a Ceia em memória dEle deveria ser cumprida após sua assunção aos Céus, já que não faria sentido comer em memória dEle no período de 40 dias que Ele ficou com os discípulos depois da Sua ressurreição até sua assunção aos Céus. Neste caso, o ato de partir o pão depois da sua morte não declarava ainda a Sua morte porque só teria esse valor quando começassem a fazer esse ritual depois, quando o Senhor não estivesse mais aqui, após a sua assunção. Dessa forma, a orientação dada naquela Ceia na noite em que Ele foi traído só teria valor depois de um intervalo de 40 dias, e não de forma imediata para os dias subsequentes. Isso porque Ele estaria presente por todo aquele período, ainda que os discípulos não soubessem o que aconteceria 40 dias depois.
  • Ou poderíamos intercalar os períodos: dessa forma, teríamos a crucificação seguida de 4 noites em que partiram o pão em memória dEle porque estava ausente, no túmulo, mais um intervalo de 36 dias em que não partiram o pão em memória dEle porque estava presente com o seu corpo espiritual, e da assunção até agora devemos partir o pão porque Ele ainda não voltou dos Céus… E por isso devemos declarar a morte dEle até que Ele volte dos Céus, mesmo que Ele esteja lá vivo…

Por óbvio essas considerações não fazem sentido porque Ele vive, e vive para sempre, aleluia! Agora vamos consertar o significado do “até que eu volte” para ver se faz sentido:

  • Se o “até que eu volte” significa voltar do túmulo onde ficou os três dias e as três noites após ter morrido na cruz, então Ele pode ficar o tempo que quiser sem tomar parte de qualquer comida porque Ele não morre mais e porque Ele não precisa cumprir de novo a figura da Páscoa que acabou de cumprir plenamente na cruz, sendo Ele mesmo o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.
  • Significa que por Ele estar vivo a nossa fé tem esperança e somos felizes.
  • Significa que estamos ERRADOS em tomar parte de uma liturgia que anuncia a permanência dEle na morte estando Ele vivíssimo.
  • E os discípulos estavam certos, e não doidos. Ele está vivo, mesmo!

Ora, o “fazei isso em memória de mim” só pode se referir ao tempo em que Ele estaria morto, tempo este imediatamente depois da ordem. Expandir esse tempo para além dos três dias e três noites é um atentado à lógica porque o túmulo está vazio. Outro atentado é falar que era uma ordem a ser observada quando Ele fosse assunto aos Céus 40 dias depois da sua morte. O túmulo está vazio porque ele voltou da morte, saiu do lugar em que estava quando foi colocado estando morto. E como Ele voltou da morte, não há motivo de fazer algo em memória dEle como se Ele ainda estivesse morto. Não há lógica em anunciar que Ele está morto hoje se Ele já voltou da morte para onde estava indo e agora está vivo.

Veja: a ressurreição dEle tirou o propósito do ritual da Páscoa, dos Pães Ázimos, das Luas Novas, dos sacrifícios, do Dia do Perdão, da Festa dos Tabernáculos. Não há mais motivos para nenhuma dessas festas na Igreja porque Ele foi o cumprimento de todas elas, e muito menos haveria motivos para um ritual que declara que Ele está morto!

Até que Ele volte… de onde? II

A Bíblia geralmente usa termos que podem ser traduzidos tanto como “vinda” quanto como “chegada”, “retorno” ou “presença”. Existem chegadas especiais e chegadas ou retornos comuns, normais. Quando nossos avós vêm nos visitar, é uma chegada especial porque não moram na nossa casa. Mas quando nossos cônjuges ou nossos pais voltam de um dia de trabalho fora de casa, é uma chegada simples porque retornam de onde tinham ido. Se você vai à padaria, o retorno de lá dentro de alguns minutos é o que se espera.

A palavra mais comum no grego para se referir à segunda vinda de Cristo é parousia (παρoυσιˊα), que significa “presença”, “chegada” ou “vinda”. É uma vinda como processo, em etapas, como voltar do trabalho: sair do local de trabalho, pegar o metrô, caminhar e chegar em casa. No caso do Senhor Jesus, é o processo reverso da sua ida, do Monte das Oliveiras para as nuvens e estas para o trono. Envolve todo o percurso de volta.

Outra palavra é apokalypse (απoκαλυψις), que significa “revelação” ou “desvelamento”, uma vinda como aparecimento, como cortinas de um palco que se abrem e mostram os atores que já estavam lá, bastou ser mostrado. O contrário de eclipse.

Temos também a epiphaneia (ϵπιϕαˊνϵια), que significa “manifestação” ou “aparecimento”. Esta palavra destaca o caráter visível e glorioso do retorno de Cristo. Como um aparecimento extraordinário, como uma águia pousar na sua janela, uma coisa sem a relação de ida e vinda, só uma chegada.

E temos ainda o retorno comum, a palavra heko (ἔλθῃ), a volta/retorno/vinda como consequência da ida. Este é o termo usado em 1 Coríntios 11:26b “até que Ele venha” que significa “vir” ou “chegar”. Por si só, o verbo pode se referir a uma vinda futura, passada ou presente, dependendo do contexto, mas nada especial, não um processo de volta em etapas como em parousia ou uma manifestação extraordinária como em uma epifania nem uma revelação de algo desconhecido como em um apocalipse, mas só uma volta simples de onde tinha ido temporariamente: foi tomar banho e voltou, foi à escola e retornou, foi ao trabalho pela manhã e voltou para o almoço, foi para o céu e “venho sem demora”.

E por que Paulo usou esse termo comum e não os especiais, parousia, epifania e apocalipse? Porque foi exatamente isso que aconteceu, um simples retorno do lugar para onde o Senhor tinha ido: foi e voltou: ida anunciada e volta confirmada. Ou não voltou ainda e continua morto?! Voltou, claro! E se voltou, como ter certeza da sua ida?

IDA – E, na verdade, o Filho do homem vai segundo o que está determinado; mas ai daquele homem por quem é traído! (Lucas 22:22)

Vai para onde? Seria para o céu? Não. Ele está indo para um lugar por causa da traição que sofreu, então que lugar é este para onde Ele está indo? Está indo à sepultura para aguardar três dias e três noites. Não foi para outro lugar como o céu, não: Ele estava lá por inteiro, plenamente, dentro da sepultura para onde tinha ido.

VOLTA – Não está aqui, mas ressuscitou. Lembrai-vos como vos falou, estando ainda na Galileia, dizendo: Convém que o Filho do homem seja entregue nas mãos de homens pecadores, e seja crucificado, e ao terceiro dia ressuscite. (Lucas 24:6,7)

Vamos perguntar ao anjo desse texto de onde Jesus voltou:

― Anjo, quando você fala que Jesus não está aqui, você se refere a que lugar, exatamente?

― Aqui, na sepultura onde passou os últimos três dias e três noites inteiros, de onde saiu porque voltou à vida neste mundo. Retornou ou veio do mundo dos mortos para onde tinha ido três dias atrás quando foi sepultado; voltou por ter ressuscitado. Voltou porque estava lá, e estava lá porque tinha ido para lá, como havia falado que faria. Voltou do lugar para onde tinha dito que iria. Foi e voltou. Esteve aqui na sepultura por três dias e três noites inteiras, mas agora não está mais aqui. É só olhar lá dentro, como Maria Madalena fez e como Pedro e João também fizeram. Entrou e saiu; foi e voltou.

― Mas a volta do Senhor não se dará no futuro, caro anjo?

― Ora, Ele vai voltar do Céu quando for para lá, mas essa ida para o Céu ainda não aconteceu. Hoje Ele voltou da morte porque havia ido para lá há três dias. Cada coisa na sua hora!

O Senhor Jesus ordenou aos que com Ele estavam à mesa “na noite em que foi traído” que, para os dias da Festa dos Pães Ázimos que se seguiriam ao dia da Páscoa, comessem o pão e bebessem o vinho conforme prescrito para a Festa e lembrassem dEle enquanto comiam cada refeição cerimonial até que Ele voltasse da sepultura onde estaria nos próximos três dias e três noites.

O comer o pão e beber o vinho em memória dEle era para aqueles discípulos, para aqueles dias, naquelas circunstâncias. A Ceia proclama a morte do Senhor e testemunhava que Ele estava sepultado, dentro da terra, sem comunhão com os discípulos e por isso era comida com tristeza e em memória de Quem não estava mais vivo. Não é isso o que a Igreja deveria proclamar, que Jesus está morto, mas o contrário disso, que Ele está vivo.

Não há ordem de fazer

Antes de avançarmos, é necessário comparar o que Paulo falou com o que os evangelhos relataram para diferenciar o que ele está contando daquilo que aprendeu com Lucas do que ele está ensinando. Retomemos o texto de Paulo que ele apresenta como o último argumento para não se fazer a Ceia, I Coríntios 11:23-26, com nossos destaques:

Porque eu recebi [Paulo contando] do SENHOR o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; 24 – e, tendo dado graças, o partiu e disse [Jesus falando, como registrado por Lucas]: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim. 25 – Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo [Jesus falando]: Este cálice é o Novo Testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim.

26 – [Paulo ensinando a partir do que acabou de contar] Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha.

O verso 26 é o ensino de Paulo, não são as palavras de Jesus.

Façamos agora o comparativo deste texto com o de Lucas 22:15-21:

15 – E disse-lhes: Desejei muito comer convosco esta páscoa, antes que padeça [antes da morte]; 16 -porque vos digo que não a comerei mais até que ela se cumpra no Reino de Deus.

17 – E, tomando o cálice, e havendo dado graças, disse: Tomai-o, e reparti-o entre vós; porque vos digo que já não beberei do fruto da vide, até que venha o Reino de Deus.

19 – E, tomando o pão, e havendo dado graças, partiu-o, e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isto em memória de mim. 20 -Semelhantemente, tomou o cálice, depois da Ceia, dizendo: Este cálice é o Novo Testamento no meu sangue, que é derramado por vós. [versos correspondentes ao de I Co 11:23-25]

21 – Mas eis que a mão do que me trai está comigo à mesa. [e aqui o Senhor mudou de assunto]

Observe que não há ordem do Senhor para fazerem isso anunciando a Sua morte até que ele voltasse, ainda que tenha sido exatamente isso que foi feito pelos discípulos nos dias que se seguiram à morte do Senhor até que Ele, efetivamente, voltou três dias depois, como tinha prometido que faria. Mas significa que nos próximos dias, em que eles estariam cumprindo a Festa dos Pães Ázimos, toda vez que comessem o pão e bebessem o vinho, coisa obrigatória do rito da festa, eles estariam fazendo isso em memória dEle, pois Ele estaria ausente, morto e enterrado. Não havia opção porque a participação da festa era obrigatória, não poderiam ficar em jejum ou deixar de comer os pães ázimos bem na Festas dos Pães Ázimos! Comeriam e se lembrariam.

O verso 26 de I Co 11 é a interpretação lógica que Paulo está mostrando do que aconteceu. Paulo NÃO está falando para nós fazermos a Ceia, mas está falando que os discípulos, os que estavam com o Senhor naquela noite em que Ele foi traído, eles, sim, anunciavam a morte do Senhor ao comerem o pão e ao beberem o vinho nos próximos dias que se seguiriam à Sua morte e fariam isso ATÉ que Ele voltasse da morte. Se fizermos hoje a Ceia após a ressurreição como os discípulos fizeram antes da ressurreição, estaremos proclamando a mesma coisa que eles proclamavam, que o Senhor está morto, o que era verdade para os discípulos que participaram da última Páscoa naquela noite em que Ele foi traído, mas não é verdade para os discípulos atuais que não estavam naquele salão na noite em que Ele foi traído e que vivem após a Sua ressurreição, após a Sua volta da morte.

É necessário frisar: no verso 26 a palavra “porque” está dando um motivo, uma razão, uma explicação que está alinhada aos demais porquês da argumentação e que demonstra o motivo de não estarem sendo elogiados, mas repreendidos:

Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha. (v. 26)

“Então, parem de fazer isso!”, é o complemento natural da frase. Paulo não completou para não parecer prolixo para seus leitores. Isso é uma característica da Bíblia: é um texto conciso. É muito difícil falar algo que está na Bíblia usando menos palavras do que as que foram usadas.

Ato profético ou in memoriam

Mostraremos a seguir uma linha do tempo em que o Senhor Jesus ficou morto. Ela está desenhada conforme o esquema ao lado. Acima da linha central temos a noite, marcada pelo anoitecer, o início de um dia completo. Abaixo, temos o período do dia, que vai até o pôr-do-sol. O Senhor Jesus esteve morto por três dias e três noites, três ciclos completos, conforme o sinal de Jonas. Não são partes de um dia correspondendo a um dia completo, mas três dias inteiros e três noites inteiras. E Ele saiu do sepulcro antes do sol nascer para não descumprir o sinal de Jonas, para não serem três dias e quatro noites.

A última Ceia do Senhor Jesus foi na noite em que foi traído, no mesmo dia completo em que foi morto e sepultado. Nas próximas quatro noites Ele esteve ausente da mesa dos discípulos, mesa em que se comia o pão sem fermento por causa da festa dos Pães Ázimos. Durante esse período os discípulos partiam e comiam o pão em memória dEle, o verdadeiro Pão Vivo que desceu do céu, e não mais como um ato profético de algo que ainda se cumpriria. Na quinta noite ele apareceu já ressuscitado no meio do jantar e comeu com os discípulos.

Figura 16 – A Semana da Crucificação

Agora, passados aqueles dias, não existe nem o ato profético, porque Ele já cumpriu tudo, nem o in memoriam porque Ele já cumpriu tudo, o que inclui o ter ressuscitado, o que significa que não está morto. Ele vive!

Descrição da Figura:

A figura é um diagrama que ilustra a cronologia de eventos na semana da morte e ressurreição de Jesus. O diagrama utiliza uma linha do tempo horizontal, com um ciclo diário que se assemelha a uma onda. No lado esquerdo, a linha do tempo começa no por-do-Sol na terça-feira com a Última refeição com Jesus antes da sua morte. A partir da quarta-feira, a narrativa se intensifica com a Prisão, a Crucificação e a Morte, ocorrendo antes do por-do-Sol, antes do início da Páscoa. Este período também é identificado como as Trevas. Em seguida, o diagrama entra em uma fase de luto e espera. Os três ciclos seguintes, marcados em cinza, representam os períodos em que as Ceias foram realizadas em memória do Senhor (ausente), realizadas na quinta-feira, sexta-feira e sábado. O diagrama destaca a quinta-feira como um feriado de Páscoa, um sábado especial. A linha pontilhada mostra o Sepultamento de Jesus, que é um evento central durante esses dias. A cronologia culmina no domingo com a Ressurreição antes do sol nascer. Na próxima noite, na segunda-feira, tem-se a primeira refeição com Jesus após a ressurreição, simbolizando um novo começo. O diagrama também menciona os Discípulos em Emaús como um evento importante neste ponto. Por fim, abaixo do diagrama, as fases do ciclo diário são representadas por formas de ondas, mostrando a transição entre os dias da semana, da terça-feira à segunda-feira da outra semana.

O novo mandamento não é a Ceia

Por ser Jesus o Messias que estava para vir e que nas próximas horas seria o Cordeiro de Deus que seria sacrificado, Ele pôde anunciar a Nova Lei, a do período que estava por vir, a Lei para o período seguinte ao cumprimento completo da Lei em vigor. Se fizesse isso antes desse momento final seria um pecado. Neste novo mandamento não existem rituais, nem dogmas, nem classes de pessoas, nem acúmulo de bens, nada material, nem Ceia, nem páscoa, nem batismos, nem circuncisão, nada disso. E o novo mandamento é que amemos aos irmãos como Ele nos amou.

O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei. (João 15:12)

Não é um novo mandamento como acréscimo ao anterior, mas como substituição daquele. Esta é a Nova Lei em substituição à anterior.

Não se trata de amarmos aos outros como nós nos amamos, e muito menos de fazermos aos outros aquilo que gostaríamos que fizessem a nós. É muito além disso. É amarmos como Ele nos amou, sem merecimento algum de nossa parte, muito além do que nós mesmos nos amaríamos. Não há ordenança de se fazer Ceia. Não existe isso.

Jeremias confronta o povo por terem escolhido coisas para representar Deus, e isso se repete hoje nos templos da cristandade: diz-se que Jesus está sendo representado no pão e no vinho da refeição que era para ser da Páscoa, mas nem isso é, já que faltam os outros elementos, como as ervas amargas e o cordeiro assado, e por ser feito mais de uma vez ao ano.

Jesus é incomparável, e fazê-lo ser comparado a um pão é o mesmo que lhe fazer uma imagem de barro. Essa é a advertência de Paulo.

Mas há, sim, um pão a ser partido; só não é mais um pão material.

Há um Pão a Ser Partido

O bloco completo de resposta de Paulo desde o capítulo 8 até o 11 é sobre a idolatria e sobre a comida ligada a ela. Se continuarmos a leitura completa da carta aos coríntios, veremos que as repreensões de Paulo no fim do capítulo 11 começaram antes, quando começou a direcionar a aplicação de tudo o que estava falando na sua introdução sobre idolatria, e apresentou o cerne da questão no capítulo 10, como segue:

E não tentemos a Cristo, como alguns deles também tentaram, e pereceram pelas serpentes. E não murmureis, como também alguns deles murmuraram, e pereceram pelo destruidor. Ora, tudo isto lhes sobreveio como figuras, e estão escritas para aviso nosso, para quem já são chegados os fins dos séculos. Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe não caia. Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar. Portanto, meus amados, fugi da idolatria. Falo como a entendidos; julgai vós mesmos o que digo. Porventura o cálice de bênção, que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é porventura a comunhão do Corpo de Cristo? Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão. (I Coríntios 10:9-17).

Existe um cálice para a Igreja de Cristo participar, mas ele é espiritual, e não material, não produzido pelo homem. Ele é a comunhão do sangue de Cristo, a comunhão do Seu perdão, da Sua aceitação.

E existe um pão para a Igreja de Cristo participar, mas ele também é espiritual, e não material, não produzido numa padaria. Ele é a comunhão do Corpo de Cristo, que é o conjunto de todos os que foram inseridos, batizados, no Seu corpo. A comunhão do pão é a comunhão/participação em Seu corpo, a Igreja de Cristo.

A comunhão do Corpo não é algo que você faça ou não faça, mas o entender o pertencimento à família da qual você é parte. Não é uma ação, mas um relacionamento; não é exterior, mas um novo nascimento interior. Não existem pães e vinhos materiais a serem partilhados porque eles são representações da Igreja, dos que foram perdoados por Seu sangue e submergidos em Seu corpo. Assim como em Eva não existia nada do barro do qual foi feito Adão, também na Igreja não há nada que não venha de Cristo, nem pão, nem estolas sacerdotais, nem candelabro, nem vinho ou qualquer outra coisa. O pão material atesta CONTRA a realidade espiritual, e não a favor dela.

Agora, releia, por favor, a citação de Coríntios acima.

Cristo é o pão, o pão do céu

Entendemos que Deus é imaterial e criou tudo, inclusive o mundo que não vemos, o espiritual; que Ele tem uma expressão de Si, que é a Sua imagem, Jesus Cristo; que Sua interação com a criação se dá na forma de espírito; e que um dia Sua imagem se materializou para consumar Seu propósito de salvação. Atentaremos agora para esta última parte, a Sua encarnação. Não há nada dEle que hoje seja material. Consideremos quatro coisas:

A primeira coisa que devemos considerar sobre a encarnação é que falar que o Senhor Jesus assumiu a forma humana ao vir nos salvar não está certo, estritamente certo, porque é a humanidade que foi feita tendo Ele como molde. Quando Ele encarnou, apenas nasceu na forma da imagem que Ele é desde sempre. Isso O limitou porque Ele se restringiu à criação que fez e ao processo de crescimento que Ele desenvolveu para todo ser humano. Jesus não é um “extraterrestre” que assumiu a forma humana, nem um “avatar” possuído por um espírito. A humanidade tem a forma dEle; Ele que é a Videira Verdadeira e nós somos os seus ramos: não estamos ligados a nada mais. Qualquer outra coisa a que estejamos ligados atesta CONTRA a nossa dependência da Videira.

A segunda coisa é que antes de Adão pecar não havia morte porque esta é o resultado do pecado, e antes de Adão pecar não havia pecado. E depois, toda a sua descendência passou a nascer com essa característica e toda a criação está agora sujeita aos seus efeitos porque tudo estava sob sua autoridade ou foi feito para proporcionar sua existência. Nós temos vida em Cristo, o qual é a nossa esperança da glória; qualquer outra coisa atesta CONTRA a centralidade de nossa esperança.

Em terceiro lugar, uma substituição pelo pecado SEMPRE é feita pela morte do substituto porque essa é a penalidade máxima do pecador, e sempre é feita por algo distinto da natureza do pecador. O primeiro sacrifício foi feito pelo próprio Deus a favor de Adão para cobri-lo com uma roupa. Abel entendeu claramente esse conceito e se dedicou a criar ovelhas para o holocausto. Sempre se escolhia um espécime diferente e perfeito para morrer por um espécime imperfeito, mesmo porque se o substituído fosse perfeito, não haveria necessidade de substituição. Após a substituição nada mais há que vincule a morte do substituto ao substituído além da dívida perdoada. Não há guirlandas para levar para casa, nem um pouco do pelo e muito menos um pouco do seu sangue: não resta nada. No rito da Páscoa, se houvesse alguma sobra ela deveria ser eliminada: nada sobra para o dia seguinte. Alguma coisa material que seja celebrada hoje atesta CONTRA a perfeição e a completude do sacrifício substitutivo do Senhor Jesus.

E por último, o sangue que há no corpo de um pintinho que acabou de sair do ovo não foi entregue a ele pela galinha, mas desenvolvido nele a partir do desenvolvimento natural do ovo. Isso é verdade também no desenvolvimento fetal do ser humano: não há comunhão de sangue entre o feto e a mãe, mas apenas trocas de materiais por meio da placenta. Esses materiais são coisas de que o feto precisa, mas ele não precisa de material genético porque já veio com isso pronto por meio da fecundação do óvulo. É por isso que é possível fazer a inseminação artificial em barrigas de aluguel, como se faz usualmente com a criação de gado.

Deus implantou no útero da Maria, uma barriga de aluguel especial por ser descendência de Davi, um óvulo, ou melhor, um ovozigoto com um DNA perfeito para ser desenvolvido, que nasceu no tempo certo de desenvolvimento. Ele não recebeu em Si nenhuma contribuição de Adão, nenhum pecado. Por isso Ele pôde ser o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”.

Ele foi Deus encarnado integralmente. Não foi um homem normal que se tornou aceitável a Deus, não foi uma mistura entre Deus e Maria, não foi um semideus, e muito menos um homem com o mesmo DNA de Adão. Adão era a obra de arte criada a partir de um modelo e Jesus era o próprio modelo usado para criar Adão, Ele era mais perfeito que Adão. Os sentimentos de Jesus eram mais perfeitos, o raciocínio e a memória dEle eram melhores, sua dor era mais profunda, Ele era o Ser Humano perfeito, o Último Adão.

O seu Cristo talvez seja muito pequeno. Sempre ouvimos que Jesus era 100% homem e 100% Deus e isso é verdade, mas não do jeito que a teologia mostra. Ele não é 100% homem porque nasceu de Maria, mas porque a humanidade tem nEle o modelo da forma que tomou. Se você achar que Ele era 100% homem porque recebeu a sua humanidade de Maria, então o seu Cristo é muito pequeno e essa visão o forçará a um entendimento errado de Quem Ele é. Essa visão equivocada o levará a um caminho equivocado cheio de equívocos alinhados ao primeiro equívoco. Está tudo alinhado, mas está tudo errado.

Isso quer dizer que qualquer coisa que represente Cristo, como o pão e o vinho nas cerimônias de Ceias hoje, atesta CONTRA a sua natureza porque Ele veio do céu e para lá voltou. Não há qualquer matéria que possa ser tomada para representar o Messias ressuscitado, nem símbolos que já foram cumpridos na vida dEle e muito menos símbolos novos, já que nem deveriam ter sido criados.

O símbolo e a realidade

O pão sem fermento teve sua quebra encenada simbolicamente por centenas de anos na Páscoa, até que um dia Ele, o verdadeiro Pão do céu foi partido por nós. Há uma mesa posta e o pão servido é o único pão possível para dar vida, Cristo. Nossa comunhão é com Ele, é em Cristo (em + Ele = nEle). Ele não nos daria vida se estivesse morto. A Ceia feita nas reuniões e chamada de Santa Ceia proclama o contrário disso, que Ele está morto: “porque todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciais a morte do Senhor”.

Não há sentido em continuar a encenar um símbolo que anunciava e profetizava uma realidade que foi cumprida. A Páscoa apontava para o que Cristo iria fazer; agora que a realidade veio à existência, as coisas que a anunciavam deixam de ter o valor profético que tinham.

Seria como continuar frequentando as aulas do curso preparatório para alguma prova depois de já ter sido aprovado na prova, ou como pagar mais aulas de direção já tendo recebido a habilitação para dirigir, ou continuar fazendo pedidos de casamento já estando casado, ou continuar ligando para a portaria do prédio para deixarem subir um convidado que já está na sua sala. Se você, caro leitor, já deve ter ficado cansado com esses exemplos, imagina Deus vendo essa insanidade ser feita continuamente!

Jesus é o Cordeiro de Deus, só Ele poderia ser. Somente Ele não estava sob a mesma penalidade do culpado para preencher as condições de separação e identificação e para poder substituí-lo. Ele foi o pão partido por nós; Ele foi o Cordeiro morto por nós. O substituto só pode morrer uma e única vez pelo culpado porque a retirada do juízo precisa ser definitiva.

O que isso significa?

Significa que cada vez que partimos o pão declarando a morte do Senhor equivale a sacrificarmos um novo cordeiro e declara que o que o Senhor fez não foi definitivo, que precisa ser refeito, que é incompleto, que foi limitado. Significa que estamos estabelecendo um novo rito para perpetuar o que a Páscoa apontava em vez de crermos no seu cumprimento em Cristo. Significa que damos a elementos materiais mais valor do que a Cristo. Significa que estamos sendo idólatras, a repreensão de Paulo do capítulo 8 até o capítulo 11.

A Páscoa era o símbolo que anunciava a realidade que é Cristo Jesus: “Porque a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida” (João 6:55). Como hoje vivemos a realidade de Cristo, não há mais lugar para os símbolos, cuja função era apontar para Cristo.

Paradigma

Temos a dificuldade doparadigma: a janela pela qual olhamos o mundo. Quando usamos óculos azuis, tudo toma um tom azulado. Para vermos como as coisas são é necessário ver SEM os óculos. Mas mesmo assim teríamos dificuldade se tivermos uma deficiência de visão. O mesmo ocorre com nossa visão de mundo, e em especial com a teologia: é difícil se acostumar com as cores reais quando tiramos os óculos. Só há um lugar de liberdade, Cristo. Para Naamã (1Reis 5), o general leproso do Reino da Síria que foi curado pela intervenção de Eliseu, apesar de tudo ter sido contrário ao seu padrão de crenças, ele estava são. Ele voltou sem óculos para sua terra.

Uma releitura pode contribuir para o melhor entendimento. Que o Senhor seja a luz de nossos olhos na procura pela Verdade.

O que fazer agora?

Agora que sabemos que a Igreja de Cristo, o Corpo de Cristo e não as religiões, não possui nenhuma ordenança de fazer rituais alimentares com pretensões místicas, tanto de presença de Cristo quanto de unidade da Igreja, e sabendo que quem o fez foi repreendido por estar propondo uma idolatria ao reduzir o Deus vivo a elementos físicos, o que fazer?

Enquanto identificação geral, podemos classificar grosseiramente a cristandade em dois grandes grupos religiosos: os Católicos, romanos e ortodoxos, e os Protestantes.

Para os católicos, o jeito é sair, mesmo, porque a Eucaristia é o elemento fundamental da missa, é o próprio sacrifício incruento de Cristo sendo refeito em cada missa. Não existe missa sem o rito da Eucaristia e não existe catolicismo sem missa e sem Papa; e como o Papa não erra[8] e a missa é essencial, então não restam opções.

Os protestantes também estão com problemas porque herdaram a doutrina da Ceia, em medidas maiores ou menores do catolicismo. Todavia, há uma esperança: podem ressignificar o momento em que o ritual é feito e compartilhar com os outros a alegria de saber que Cristo vive. Talvez não consigamos mudar as coisas, mas podemos mostrar as incoerências, os absurdos, as verdadeiras heresias. Nossa esperança é que alguns se movam um pouco mais na direção de Cristo. Não se trata de abandonar os irmãos com quem você congrega por conta do entendimento que eles têm, mas de manter-se juntos a eles, como Josué e Calebe fizeram no deserto.

Que nossos olhos sejam abertos para ver que nosso Salvador está vivo e que cada Ceia é uma proclamação do contrário disso. Mas não podemos ignorar a força das tradições: nem todos aceitarão, ainda que não consigam argumentar contra a verdade. Nem sempre a verdade é bem-vinda porque ela gera desconforto.

Então, terminando por aqui, não faz sentido fazer alguma coisa que não foi ordenada para nós, nem reproduzir uma Ceia que não somos dignos de comer porque não somos judeus, mas Igreja, nem comer nada em memória de quem está vivo, nem fazer isso pensando que Ele ainda não voltou. É importante comermos juntos, sim, mas não como ritual. É importante compartilharmos o pão da comunhão por sermos o Corpo de Cristo, e não um pão como símbolo material dEle porque nossa declaração não é de que Ele está morto, mas que está vivo para sempre!

Porventura o cálice de bênção, que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é porventura a comunhão do Corpo de Cristo? (I Coríntios 10:16).

Há uma comunhão, um “comer juntos”, um partir de pão: a vida em corpo, a Igreja. Que o Senhor ilumine a todos nós que fomos remidos por Seu sangue e que Ele mesmo batizou, imergiu, em Seu corpo, que é a Igreja.

Palavras Finais

A Ceia é uma cerimônia que cumpre o propósito não-cristão de associar o material ao espiritual lançando sobre as pessoas um peso, como se fosse ordenada por Cristo Jesus, algo a ser feito, como se sua instituição não tivesse sido orquestrada para atender aos interesses de apóstatas, e existe para manter as pessoas no erro, na culpa, no medo: mantê-las sob controle. Por isso também foi mantida na Reforma Protestante.

A Ceia é uma prática que direciona nossa atenção para o lado errado, como a distração que o mágico faz para não vermos o seu truque. Há um pão, só que o Pão é o Cristo que está vivo e que está no céu, sem símbolos que O represente e muito menos coisas materiais em que Ele esteja, que O materialize, exceto na única coisa material que Ele tem: o Seu Corpo na terra formado por todos os que nEle creem, os quais O têm dentro de si, dentro de seus espíritos.

Não existe mérito em fazer uma idolatria nem há pureza em realizar algo que está misturado. O leitor já deve ter percebido que estamos em um lamaçal de mentiras…

A Ceia é uma prática contrária à fé em Cristo e desmente Deus por declarar que Jesus está morto, sendo que Ele vive, o que é o motivo de nossa redenção. Ela também atribui a coisas naturais poderes sobrenaturais e promove a crença em coisas que não existem, e no fim se revela uma idolatria.

Sua prática não tem razão de ser, pois se refere a alguém morto, MAS Cristo está vivo; seria em obediência a um novo mandamento, MAS Cristo não deu esse novo mandamento; seria uma substituição ou continuidade da Páscoa, MAS a Páscoa se cumpriu em Cristo e não precisa ser substituída nem continuada; seria até sua volta, MAS Ele já voltou da morte para onde havia ido; seria para promover a unidade, MAS promove a desunião; seria para dar testemunho público de Cristo, MAS de nada serve um testemunho de que Ele está morto por ser uma coisa comum a todos e o que O diferencia é o contrário disso, que Ele está vivo; seria para materializar a comunhão que temos em Cristo, MAS essa comunhão é espiritual e não há elementos materiais nela.

No fim, sobra da Ceia só a idolatria, como foi denunciada por Paulo.

Recapitulando

Revisão dos principais pontos abordados

Nesta Unidade, nossa atenção se voltou para a prática da Ceia do Senhor, um dos rituais mais centrais e, por vezes, mais debatidos na cristandade. Buscamos examinar suas origens, seu significado, sua utilidade e as interpretações que moldaram sua observância ao longo da história, especialmente à luz da carta de Paulo aos Coríntios.

1. Contextualização da Ceia – A Páscoa Judaica e a Última Refeição de Jesus: Iniciamos por definir o que é uma “ceia” em seu sentido original e exploramos o pano de fundo da Páscoa judaica, a refeição que Jesus compartilhou com Seus discípulos na noite em que foi traído. Argumentamos que a Ceia do Senhor, como entendida por muitos, alega ter como base este evento específico, mas que uma análise mais detida do texto bíblico, especialmente I Coríntios, revela nuances importantes.

2. Análise Crítica das Interpretações Tradicionais (Católica e Protestante): Dedicamos uma parte significativa a examinar as visões católica (transubstanciação, sacramento) e protestante (ordenança, memorial) sobre a Eucaristia/Ceia. Questionamos a ideia de “sacramento” como um “super mandamento” e a noção de que a Ceia seria uma ordem a ser repetida ritualisticamente pela Igreja. Argumentamos que a interpretação de I Coríntios 11 por Paulo não estabelece um ritual, mas corrige abusos em uma reunião específica dos coríntios.

3. A Estrutura da Resposta de Paulo em I Coríntios: Analisamos a estrutura da carta de Paulo aos Coríntios, destacando como ele responde a diversas questões levantadas pela igreja local. Argumentamos que a seção sobre a Ceia (principalmente I Coríntios 11:17-34) faz parte de uma repreensão maior sobre a desunião e a idolatria, e não de uma instituição de um novo rito. Os “porquês” de Paulo, segundo nossa análise, são razões para não fazer o que os coríntios estavam fazendo, em vez de serem instruções para fazer o ritual de uma Ceia como vemos hoje na cristandade.

4. “Fazei isto em memória de mim… até que eu venha”: Propusemos uma reinterpretação das palavras de Jesus “fazei isto em memória de mim” e “até que venha”. Argumentamos que o “fazei isto” se referia àquela noite específica e aos dias imediatos em que Jesus estaria morto, e o “até que venha” se referia à Sua ressurreição (Sua volta da morte), e não à Sua segunda vinda. Portanto, continuar a anunciar a morte do Senhor através de um ritual após Sua ressurreição é um testemunho equivocado, um testemunho da morte apenas porque como faríamos algo em memória de alguém se essa pessoa estiver viva?

5. As Duas Repreensões Principais de Paulo: Identificamos duas repreensões centrais de Paulo aos coríntios em relação às suas reuniões: a desunião (desprezo pelos mais pobres, cada um tomando sua própria Ceia) e o testemunho errado (anunciar a morte de um Senhor que já ressuscitou, beirando a idolatria ao participar de rituais que ecoavam práticas não-cristãs de comunhão com demônios).

6. O Verdadeiro “Comer o Corpo e Beber o Sangue”: Concluímos que a verdadeira participação no corpo e sangue de Cristo não se dá através de um ritual com pão e vinho, mas pela fé em Sua obra consumada e pela vivência da unidade do Corpo de Cristo, a Igreja. A ênfase recai sobre a realidade espiritual e não sobre o símbolo ritualístico.

Pontos de Atenção

Ao refletir sobre esta Unidade acerca da Ceia, você é convidado, caro leitor, a ponderar sobre:

  • A distinção entre a refeição pascal original de Jesus com Seus discípulos e as práticas rituais da Ceia desenvolvidas posteriormente.
  • A força dos argumentos de Paulo em I Coríntios como uma correção de abusos e um alerta contra a idolatria, em vez de uma prescrição para um novo ritual.
  • O significado das expressões “em memória de mim” e “até que venha” no contexto imediato da morte e ressurreição de Cristo.
  • As implicações de anunciar a “morte do Senhor” em um ritual quando a fé cristã se baseia fundamentalmente em Sua ressurreição e vida.
  • A natureza da verdadeira comunhão com Cristo e com Seu Corpo, a Igreja, para além da participação em cerimônias.

Esta Unidade sobre a Ceia procurou desafiar interpretações consagradas, incentivando uma leitura mais atenta e contextualizada das Escrituras, com o objetivo de resgatar o significado original dos ensinamentos. Que este estudo o motive a buscar uma adoração e uma prática de fé que sejam verdadeiramente espirituais e bíblicas.

Perguntas e Respostas

Elaboramos algumas questões e suas respostas para ajudar na compreensão do tema exposto nesta Unidade:

❶. Como se diferencia a “ceia” como uma refeição comum e a “Ceia do Senhor” como um ritual? Qual a importância da Páscoa judaica como pano de fundo para a última refeição de Jesus?

O capítulo estabelece uma distinção fundamental entre a “ceia” como uma refeição comum e a “Ceia do Senhor” como um ritual institucionalizado. A refeição que Jesus compartilhou com seus discípulos era uma verdadeira refeição, a celebração da Páscoa judaica, com o propósito de nutrição, comunhão e obediência à lei. Em contraste, o que posteriormente se tornou conhecido como “Ceia do Senhor” evoluiu para um ritual simbólico com pequenas porções de pão e vinho, desconectado de seu contexto original de refeição. O livro argumenta que esta transformação não foi intencionada por Jesus, mas resultou de interpretações posteriores. Quanto à importância da Páscoa judaica como pano de fundo, o texto enfatiza que esta conexão é crucial para a compreensão correta do significado da última refeição de Jesus. A Páscoa comemorava a libertação de Israel da escravidão no Egito, particularmente o sangue do cordeiro que protegeu os primogênitos israelitas. Jesus reinterpretou esta celebração, identificando-se como o verdadeiro Cordeiro Pascal cujo sangue traria libertação definitiva. O capítulo sugere que entender este contexto pascal revela que Jesus não estava instituindo um novo ritual, mas dando o verdadeiro significado da celebração, apontando para o cumprimento de seu propósito em sua morte sacrificial.

❷. Quais são as principais críticas que o capítulo levanta contra as interpretações católica (transubstanciação) e protestante (ordenança memorial) da Ceia?

O capítulo apresenta críticas tanto à interpretação católica da transubstanciação quanto à interpretação protestante da Ceia como ordenança memorial. Quanto à transubstanciação (a doutrina de que o pão e o vinho se transformam literalmente no corpo e sangue de Cristo), o texto critica: primeiro, a falta de base bíblica para tal transformação literal; segundo, a transformação da Ceia em um sacrifício incruento contínuo (a Missa), contradizendo a natureza única e suficiente do sacrifício de Cristo; terceiro, a elevação do sacerdote como mediador necessário, contrariando o sacerdócio universal dos crentes; e quarto, a tendência para idolatria na adoração dos elementos. Quanto à interpretação protestante da Ceia como ordenança memorial, o capítulo critica: primeiro, a transformação de uma refeição significativa para os judeus em um ritual simbólico; segundo, a interpretação literal do comando “fazei isto em memória de mim” sem considerar o contexto cultural, linguístico e lógico, pois ninguém faz algo em memória de quem está vivo; terceiro, a institucionalização que frequentemente esvazia o significado original de comunhão; e quarto, a manutenção de uma prática ritualística que Paulo estava na verdade criticando em I Coríntios 11. O capítulo sugere que ambas as interpretações, embora diferentes, compartilham o erro fundamental de transformar o que era uma refeição significativa em um ritual religioso, algo que o texto argumenta não ter sido a intenção original de Jesus, e que Paulo aborda em sua resposta aos coríntios sobre a idolatria.

❸. O texto argumenta que os “porquês” de Paulo em I Coríntios 11 são motivos para não fazer a Ceia ritualística. Explique essa linha de raciocínio com base na análise textual apresentada.

O capítulo apresenta uma interpretação não convencional de I Coríntios 11, argumentando que os “porquês” mencionados por Paulo não são razões para realizar a Ceia como ritual, mas motivos pelos quais os coríntios não deveriam continuar a fazer tais práticas. A análise textual apresentada foca especialmente nos versículos 17-34, onde Paulo critica as reuniões dos coríntios. O texto argumenta que quando Paulo diz “Porque eu recebi do Senhor” (v. 23), ele não está introduzindo uma ordenança positiva, mas explicando por que as práticas dos coríntios eram problemáticas. Segundo esta interpretação, Paulo está contrastando a última refeição de Jesus (caracterizada por unidade, igualdade e amor) com as reuniões dos coríntios (marcadas por divisões, desigualdade e egoísmo). O livro sugere que quando Paulo diz “fazei isto em memória de mim”, ele está citando Jesus no contexto da Páscoa, não instituindo um novo ritual. Da mesma forma, quando Paulo menciona “anunciar a morte do Senhor até que ele venha”, o capítulo interpreta isso como uma descrição do significado da refeição compartilhada, não como uma instrução para um ritual contínuo. A linha de raciocínio conclui que Paulo estava criticando a ritualização da refeição do Senhor, não endossando-a, e que seu objetivo era restaurar o verdadeiro significado da comunhão cristã expressa através de refeições genuínas compartilhadas em igualdade e amor.

❹. Como a Unidade interpreta as frases “fazei isto em memória de mim” e “anunciais a morte do Senhor, até que ele venha”? Qual o impacto dessa interpretação na compreensão da Ceia?

A Unidade oferece uma interpretação distinta das frases “fazei isto em memória de mim” e “anunciais a morte do Senhor, até que ele venha”. Quanto à primeira frase, o texto argumenta que “fazei isto” refere-se à refeição completa, como um todo, incluindo as ervas, as carnes e as frutas, não apenas ao ato de comer pão e beber vinho. “Em memória de mim” não é um comando para um ritual comemorativo, mas como uma reorientação do significado da Páscoa: em vez de lembrar apenas a libertação do Egito, os discípulos deveriam ver em Jesus o verdadeiro Cordeiro Pascal e a libertação definitiva porque Ele estaria ausente nos dias que se seguiriam imediatamente após aquela reunião. Quanto à segunda frase, “anunciais a morte do Senhor, até que ele venha”, o capítulo a interpreta não como uma instrução para proclamar verbalmente a morte de Cristo em um ritual, mas como uma descrição do que naturalmente acontece quando cristãos compartilham refeições “in memoriam” por declararem nesse momento que a pessoa está, ausente pela morte, o que ocorreu nos dias seguintes à crucificação, mas não é mais verdade hoje. O impacto desta interpretação na compreensão da Ceia é profundo: transforma-a de um ritual religioso obrigatório para um erro ao declarar que o Cristo vivo está morto, erro que leva o crente para perto de uma idolatria profunda em que o Deus vivo se reduz a elementos materiais.

❺. Quais foram as duas principais repreensões de Paulo aos coríntios em relação às reuniões para comer, e como elas se conectam com a questão da idolatria?

O capítulo identifica duas principais repreensões de Paulo aos coríntios. A primeira, diz respeito às divisões e desigualdades: os coríntios estavam se reunindo de maneira que reforçava as distinções sociais, com os ricos comendo abundantemente enquanto os pobres passavam fome porque cada um trazia para a reunião apenas para si. Paulo condena isso, pois contradiz o espírito de igualdade e unidade que a morte de Cristo estabeleceu. A segunda repreensão refere-se à falta de discernimento do “corpo do Senhor”: os coríntios não estavam reconhecendo que a igreja é o Corpo de Cristo, e que maltratar membros desse corpo (especialmente os mais vulneráveis) é falhar em discernir a natureza da Igreja. O texto conecta estas repreensões quanto à questão da idolatria argumentando que as práticas dos coríntios refletiam valores idólatras da cultura greco-romana, onde banquetes frequentemente reforçavam hierarquias sociais e eram associados a cultos das religiões da época. Ao reproduzir estes padrões, os coríntios estavam, efetivamente, praticando uma forma de idolatria, colocando valores culturais acima dos valores do Reino de Deus. O capítulo sugere que Paulo viu nas reuniões dos coríntios não apenas problemas práticos, mas uma contradição fundamental ao evangelho: enquanto professavam adorar um Cristo que se sacrificou pelos outros, suas práticas à mesa glorificavam as posições sociais e o egoísmo, os mesmos valores idólatras de que Cristo veio nos resgatar. Paulo também mostra como seu argumento máximo que as palavras do Senhor naquela noite em que foi traído se referia à sua ausência nos próximos dias da festa dos pães ázimos por causa da morte que sofreria, período em que aqueles que estavam com Ele naquela noite passariam a comer as refeições em memória dEle até que Ele voltasse, o que se cumpriu após três dias e três noites, quase quatro noites completas. E, por fim, ele vincula a prática de uma cerimônia de origem judaica no contexto da Igreja como idolatria, concluindo assim no fim do capítulo 11 sua abertura do assunto iniciado no capítulo 8, porque a manifestação plena de Deus foi por meio de Jesus Cristo e atribuir a presença dEle em coisas materiais, como o pão e o vinho, é um retrocesso porque serviam para anunciar a vinda do Messias, que já se cumpriu. Ter tais materiais como sagrados é a pior das idolatrias porque não representa uma divindade pela qual se idealiza e se espera, como os demais ídolos, mas reduz a manifestação plena já ocorrida do único Deus a elementos da matéria que Ele criou. O erro é muito grande e por isso Paulo gastou grande parte de sua carta aos coríntios para corrigi-los.

❻. Se a Ceia não é um ritual a ser repetido, qual seria, segundo a Unidade, a maneira correta de “comer o corpo” e “beber o sangue” do Senhor e de discernir o “corpo do Senhor”?

A Ceia não é um ritual a ser repetido; a maneira correta de “comer o corpo” e “beber o sangue” do Senhor e de discernir o “corpo do Senhor” é multifacetada e integrada à vida comunitária cristã. Paulo define o significado desses termos com perguntas em I Coríntios 10:16-17: “16 – Porventura o cálice de bênção, que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é porventura a comunhão do Corpo de Cristo? 17 – Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão” O Pão é Cristo e o vinho é Cristo. “Comer o corpo” e “beber o sangue” não são atos rituais literais ou simbólicos, mas metáforas para a apropriação pessoal e comunitária da vida e sacrifício de Cristo e da plena comunhão com o Seu Corpo, a Igreja. Isto acontece quando: primeiro, os crentes internalizam os valores de auto-sacrifício e amor demonstrados por Cristo na cruz; segundo, vivem em comunhão genuína uns com os outros, compartilhando recursos e vida, inclusive participam de refeições comunitárias caracterizadas por igualdade, generosidade e inclusão. Quanto a discernir o “corpo do Senhor”, o capítulo argumenta que isto não se refere a reconhecer Cristo nos elementos do pão e vinho, como tradicionalmente é ensinado, mas a reconhecer a Igreja como o Corpo de Cristo e tratar cada membro com o devido respeito e cuidado. Discernir o Corpo significa reconhecer a unidade fundamental de todos os crentes em Cristo; valorizar igualmente todos os membros, independentemente de condição social ou econômica; praticar a hospitalidade e generosidade, especialmente com os mais vulneráveis; viver de maneira que reflita a nova humanidade criada pela morte e ressurreição de Cristo, reconhecer, por fim, o pertencimento pela Graça e misericórdia de Deus ao mesmo Corpo a que o outro irmão pertence.

❼. Como a compreensão da Ceia se relaciona com os temas da Unidade, da igualdade e do testemunho cristão discutidos por Paulo em I Coríntios?

A compreensão de que a Ceia não é para ser feita se relaciona intimamente com os temas da igualdade e do testemunho cristão discutidos por Paulo em I Coríntios. A verdadeira Ceia do Senhor, a comunhão do corpo e a comunhão do sangue (I Coríntios 10:16-17) deve expressar e fortalecer a unidade do Corpo de Cristo, em contraste com as divisões que Paulo criticou em Corinto (I Coríntios 1:10-17; 11:18). As refeições cristãs deveriam transcender barreiras sociais, étnicas e econômicas, manifestando a nova humanidade unificada em Cristo e nunca deveriam ser um ritual. Quanto à igualdade, as refeições em conjunto compreendidas corretamente subvertem as hierarquias sociais e econômicas que prevaleciam nos banquetes greco-romanos da época e continuam a existir culturalmente hoje. Paulo condenou os coríntios precisamente porque suas refeições reforçavam desigualdades (I Coríntios 11:21-22) em vez de expressarem a igualdade radical estabelecida pela cruz, onde todos são igualmente dependentes da graça de Cristo e por tentarem restabelecer uma prática ritual cujo significado já tinha se cumprido e que cabia apenas a judeus praticar, cujos desvios estavam levando os irmãos à idolatria. Quanto ao testemunho cristão, o capítulo sugere que a maneira como os cristãos comem juntos constitui uma proclamação visível do evangelho, de um Cristo vivo que os une em Seu Corpo. O texto conclui que esta compreensão da Ceia está alinhada com o tema central de I Coríntios: a sabedoria da cruz (I Coríntios 1:18-25) que inverte os valores do mundo e cria uma comunidade caracterizada por amor sacrificial em vez de status e poder.

Apêndice

1 – Maria Madalena

Estamos no dia da crucificação, uma quarta-feira, véspera de um feriado, um sábado, uma Santa Convocação. Ontem o Messias jantou com os discípulos. Mais tarde naquela noite foi preso. Passou a madrugada com o Anás e Caifás. Ao amanhecer foi levado a Herodes e depois a Pilatos. Foi crucificado às 9h da manhã, houve trevas ao meio dia e morreu às 15h, no mesmo horário em que o cordeiro pascal era sacrificado no Templo, exato momento em que o véu do Santíssimo Lugar se rasgou de alto a baixo. O véu era a terceira porta do Templo, sendo a primeira porta chamada de O Caminho, e a segunda porta chamada de A Verdade. Naquele momento a Vida, a terceira porta, foi rasgada e era necessário que o símbolo revelasse o que ocorreu com sua fonte. No Templo foi visto o que estava dentro do véu; no Calvário foi visto o que estava dentro do véu da Sua Carne, testemunhado pelo Centurião e seus soldados: “Verdadeiramente este era o Filho de Deus”.

Mais ou menos às 16h, uma hora depois da Sua morte, houve a confirmação da morte junto a Pilatos e a liberação do corpo. Ele foi retirado da cruz lá pelas 17h, enrolado em um pano e besuntado por José de Arimatéia com alguns quilos de perfumes. Colocaram-no no sepulcro por volta das 17h30 e correram para suas casas antes que se iniciasse o sábado; o sol se pôs, acabou o dia na contagem judaica.

Esses horários acima não são os que nós usamos hoje, como o início do dia no ponto central da noite, mas lá em Israel a contagem do tempo era diferente porque um dia começa com o início da noite para os judeus. Para os romanos era com o nascer do dia. Você pode rever este assunto no título Ato Profético ou In Memoriam.

***

Havia iniciado o feriado, chamado de sábado, shabat, Santa Convocação. Não era o sábado semanal, mas o sábado-feriado, da Páscoa.

Hoje, no sábado em que estamos e que acabou de começar com o pôr-do-sol, foi a primeira noite em que os discípulos jantaram sem o Senhor com eles. Ainda faltariam mais três noites, mas eles se esqueceram de que Ele havia dito que voltaria para eles. Isso estava oculto aos seus olhos naquele momento. Estavam sem Jesus e comeram lembrando-se dEle. In memoriam dEle porque Ele estava morto. Então dormiram tristes e sem Jesus.

***

Amanheceu o dia de feriado. O dia estava claro como devia ser para esta época do ano. As pessoas estavam alegres com o feriado, o sábado especial, o feriado, a Santa Convocação. A cidade estava cheia de peregrinos.

O Sinédrio se reuniu na casa de Pilatos e pediu guardas para o túmulo.

Na casa de João o desjejum foi forçado, meio amargo. Jesus não estava lá para comer junto. A primeira noite passou; esta era a primeira manhã sem Jesus. Partiram o pão ázimo sozinhos e por obrigação por causa da Festa dos Pães Ázimos. Lembraram-se dele. Ele sempre partia o pão e o ato agora feito por eles causava-lhes dor. O dia foi de recolhimento para os discípulos.

***

Anoiteceu: início da segunda noite sem Jesus. Os discípulos comeram o pão ázimo – era necessário comer por estarem no período da Festa dos Pães Ázimos – com tristeza e se lembraram do Senhor porque O tinham agora apenas em suas memórias. Comeram In Memoriam.

***

Amanheceu o dia útil após o feriado. Maria Madalena saiu para comprar perfumes e preparar bálsamos para Jesus. Ela não pôde comprá-los prontos como o José de Arimatéia e Nicodemos fizeram após a crucificação nem na quantidade que compraram, cerca de 30 Kg, porque não tinha dinheiro para isso nem condições psicológicas de fazer isso naquele momento. Mas agora ela tinha um plano. Então comprou um pouco de material e passou o dia preparando os unguentos e vai usar o sábado normal, amanhã, para curtir as misturas.

Os demais continuavam tristes demais e a cada refeição a dor da ausência era maior. Uns foram à casa do João, mas não foi para festejar. Cada vez que partiam o pão para comê-lo eles se lembravam do Senhor Jesus. Cada rasgo no pão ázimo lhes doía porque declarava que o Pão Vivo tinha sido rasgado também. Comiam sem esperança, comiam in memoriam.

***

Anoiteceu. Início da terceira noite sem Jesus. Estavam jantando agora sem Ele, com pesar no coração, com gosto amargo na boca. As muitas lembranças tumultuam a mente. João havia recolhido Maria em sua casa como o Senhor o havia instruído na crucificação e ambos comiam devagar o pão ázimo. Na mente de João ressoavam ainda as palavras dAquele sobre o peito de Quem ele havia reclinado dias atrás, palavras que deram o sentido ao que se praticava há muitos anos, não apenas desde ele que era criança, mas desde seus antepassados, desde Moisés…

Nunca a Ceia de Páscoa tinha sido tão bem explicada: o pão apontava para Ele, que agora havia chegado. O vinho apontava para Ele, que agora havia chegado. Mas em seguida Ele foi tirado… Logo agora que entenderam, houve a perda.

A partir daquela noite não faria mais sentido partir o pão porque o símbolo havia se tornado realidade, a profecia havia se cumprido: ele foi partido. Mas Ele havia falado que daquela noite em diante ele, João, e os demais discípulos deveriam comer o pão em memória dEle. João não havia entendido na hora porque como eles deveriam comer em memória estando Jesus sentado bem ali? Entenderam no dia seguinte. Entenderam a cada nova refeição. Entenderam plenamente o que era comer em memória dEle. Entenderam a dor, entenderam sem dúvida alguma de que Ele não estava mais com eles e teriam que comer sozinhos, comer por obrigação, comer in memoriam.

Agora João sabia. A cada pedaço de pão partido com Maria, ele sabia. É a única coisa que sobrou daquela noite trágica: comer em memória do Mestre. Cada rasgo no pão, um rasgo na Carne do Senhor, cada vez que moía o pão entre os dentes lembrava de como Ele foi moído por nossas transgressões. Não tinha como não comer em memória dEle. Maria comia em silêncio, João comia em silêncio. Comiam com lágrimas. O comer já gritava muito alto que Ele estava morto!

***

Anoiteceu: iniciou-se o sábado comum, o semanal, e foi a terceira noite sem o Senhor. Antes este era um dia feliz, um dia de descanso… Agora, seria só mais uma noite mal dormida.

Amanheceu o terceiro dia. Há pouco houve a troca de guarda do sepulcro. Os guardas reclamavam entre si a inutilidade daquele trabalho, principalmente os do turno do dia. Nunca se tinha visto isso: guardar fortemente um cemitério, ou melhor, um único túmulo de um cemitério. Inutilidade. Mas fazer o quê? Pelo menos era como ter um dia de folga no trabalho. O pessoal da noite que voltaria só ao pôr-do-sol é que estava mal porque é mais fácil virar a noite acordado quando há alguma agitação, e em um cemitério agitação não existe.

Os discípulos haviam sido espalhados pela força da profecia, mas agora começaram a se encontrar. Uns na casa de João, outros na casa de Marcos, onde tinha ocorrido a última Ceia deles com o Mestre. Não podiam ir às reuniões festivas que estavam acontecendo no Templo porque não estavam em clima de festa e também tinham medo de serem mortos como o Mestre.

O sábado tinha começado no pôr-do-sol anterior e por força da Lei não se pode fazer trabalhos neste dia reservado ao descanso. Maria Madalena tinha um plano: levar aquela composição de perfumes que fez e ungir com ela o corpo do Senhor. Era uma coisa meio doida porque amanhã quando o sol nascer já será a quarta noite de sepultamento e, assim como Lázaro, já estará com mau cheiro. Mas por isso mesmo era necessário o perfume, era o que ela podia fazer. Ela sabia da profecia de que Deus não deixaria o corpo do Messias entrar em corrupção, putrefação: pelo menos no que dependesse dela a profecia seria cumprida. Um ato de fé para nós hoje, mas um ato de desespero para ela naquele momento. Era só o que podia fazer, e ela faria tudo o que podia fazer.

Terceiro dia. Já era o terceiro dia. Toda vez que comiam, lembravam-se do Mestre, mas o que queriam esquecer era da tragédia. Toda vez que comiam anunciavam que Ele morreu, que os sonhos morreram, que a esperança morreu, que estavam enganados em todas as profecias, que os certos eram aqueles que os oprimiam há muito tempo, que os zombadores ganharam, que as esperanças morreram, que havia morrido o propósito de existir. Toda vez que comiam, anunciavam para si e para os outros a verdade trágica da Sua ausência. Não era necessário falar: o ato de come o pão em si mostrava que o Pão Vivo que desceu do Céu tinha sido rasgado pelo chicote com que foi açoitado da mesma forma que o pão em suas mãos era rasgado ao ser mordido. Ele tinha sido furado pela lança assim como o dente canino fura o pão, e que tinha sido recolhido à escuridão do sepulcro assim como o alimento nos desce pela garganta. Mas era necessário comer. Comeram.

***

O sol se pôs iniciando um novo dia judaico, o quarto dia; acabou o sábado e foi dado início ao primeiro dia da semana. Agora podiam fazer o trabalho de moer os grãos para fazer pães novos, podiam andar mais livremente e outras tantas coisas. Na casa do João e seu irmão Tiago, Maria fez algo no fogão depois que esmagou o suficiente para o pão que seria comido no jantar. Não queria esmagar mais porque lembrava de como Jesus tinha sido esmagado.

A tropa da noite chegou no local do sepulcro. “Quarta noite desde a crucificação, nossa terceira noite sem dormir! Que trabalho mais inútil! Maldito Sinédrio!” A tropa do dia foi se afastando feliz por terem concluído o dia… “Até quando teremos que ficar nesse servicinho besta?!”, reclamavam os que iniciavam o serviço.

Em sua casa, Maria Madalena avaliou que até podia ir ao sepulcro concluir seu plano, mas como estava de noite teria que esperar o amanhecer. Colocou tudo de que precisava em um saco e deixou perto da porta para pegar na hora que fosse sair. No que dependesse dela o Senhor não veria a corrupção, como dizia no Salmo!

Ninguém naquele momento sabia o que sabemos hoje que iria acontecer. Os que mais “sabiam” eram os do Sinédrio, motivo pelo qual haviam pedido a Pilatos uma tropa para guardar o sepulcro. Os descrentes, às vezes, entendem melhor o que é falado: eles se preveniram.

Os três dias e três noites do sinal de Jonas terminaram naquele pôr-do-sol. Jesus pode ressuscitar a qualquer momento antes do próximo amanhecer. Só não pode ser depois do alvorecer para não quebrar o sinal, pois passariam a ser 4 noites e três dias nesse caso. Mas isso não vai acontecer, como bem sabemos. Sabemos também que Jesus morreu 3 horas antes de se iniciar a primeira noite e que o período de três dias e três noites precisava ser completo, por isso não faz sentido pensar que Ele tenha ressuscitado antes do pôr-do-sol do sábado semanal, mesmo porque Ele não teria nada para fazer dentro do sepulcro. Por simetria, Ele deve ter ressuscitado umas três horas antes do nascer do sol do quarto dia, o primeiro dia da semana deles, hoje conhecido por nós como domingo, que lá havia se iniciado com o pôr-do-sol anterior.

Na casa de João, comeram em silêncio naquela noite de domingo. Pedro comeu em silêncio também. Mateus, Tiago, Judas Zelote, Alfeu, Natanael, todos comeram em silêncio e in memoriam. Jesus tinha razão novamente: nos dias que se seguiram àquela última Ceia todos iriam comer em memória dEle até que Ele voltasse. Comiam com tristeza porque Ele estava morto. Cada vez que comiam, anunciavam, proclamavam, garantiam, lembravam, confirmavam que Ele estava morto.

Comeriam para sempre desse jeito até que Ele voltasse de onde tinha ido, mas como voltar da morte? … a não ser que… Ele é a ressurreição e a vida, mas… não: comeriam para sempre tristes, com certeza. A não ser que… que… que Ele ressuscitasse. Mas já passou o terceiro dia completo, três dias e três noites… Quatro noites, na verdade… não, a perda foi total. Adormeceram chorando na casa de João.

***

Quarta manhã. Farinha, água, sal, amassar, abrir a massa, colocar sobre uma pedra no fogão que faz ao mesmo tempo um chá; assistir o pão corando, o cheiro, o prato, a mesa. Mecanicamente cada um pega um pedaço e o come lembrando-se dEle que sempre pegava o pão inteiro e partia ficando sem nada e só comia quando recebia de volta um pedaço de alguém. Ele sempre dava tudo. Deu Sua vida também para protegê-los dos guardas lá no Jardim das Oliveiras. Lágrimas correm, os olhos baixam ao chão, o silêncio… o silêncio da dor, o silêncio da morte, das trevas, do sepulcro… Silêncio quebrado de repente com a porta batendo forte ao ser aberta pelo ímpeto da Maria Madalena e outras mulheres!

Ela conta que tinha ido ao sepulcro junto com Salomé, Maria, mãe de Tiago e as demais para juntas untarem o corpo do Senhor com os bálsamos que ela havia preparado com o que comprou na sexta-feira. A preocupação era como iriam rolar a pedra, mas quando chegaram lá ao amanhecer a pedra já estava rolada e o túmulo… estava vazio.

― Havia uns 5 guardas que não falavam coisa com coisa e outro tanto que estava dormindo em posições estranhas, como se tivessem caído duros no chão… Cada uma correu para sua casa; eu vim para cá porque tinha um jovem dentro do túmulo que falou que o Mestre ressuscitou e que iria para a Galileia e que avisássemos aos discípulos, a vocês… e a você também, Pedro!

Pedro teve um sobressalto. “Eu?!”, pensou. Pedro e João saíram correndo deixando para trás a porta aberta. Madalena os seguiu como pôde… João, mais jovem, correu mais rápido e chegou ao sepulcro primeiro, agora sem nenhum dos guardas, e parou na entrada do túmulo; Pedro chegou e entrou.

Quando estavam descendo de volta para casa passaram por Madalena que subia; o espanto estampado no rosto deles deu a ela força para chegar. Chegou, sentou-se à entrada do túmulo e chorou muito. Então…

―”Maria!”.

A porta da casa se abriu minutos depois com um estrondo maior do que o da primeira vez, ao susto de todos!

― Ele está vivo!

Madalena ria, bebeu água, pegou um pedaço de pão e contava que havia visto o Senhor. Os demais ouviam espantado, sem acreditar de todo, mas realmente tinham conferido que o corpo não estava mais no túmulo, em que somente ficou o lençol que o envolvia todo sujo de sangue e o lenço que havia sido colocado sobre seu rosto, o qual estava dobrado à parte assim como se coloca o guardanapo dobrado para indicar que a refeição não acabou, que quem está comendo precisou sair da mesa e já volta.

A ansiedade estava alta, todos tristes, preocupados, chorosos, e Maria sorrindo. Um sorriso incômodo… “em uma situação dessas, com nossas vidas em jogo; e ela sorrindo?! Sorrindo e comendo… puxa, que fome que essa mulher tem..”

Há dias ninguém comia muito bem porque era um sacrifício fazer isso, era triste, era amargo, era incômodo, era em memória dEle. Mas agora, Ele está vivo!! Maria ficou por ali, rindo e comendo. Era necessário que Jesus viesse para falar com seus discípulos e ela não ficaria longe deles, pois queria vê-Lo novamente.

Para Maria Madalena o luto acabou! Ele vive! Ela não iria comer mais nada in memoriam porque Ele não está mais morto como esteve nos últimos dias, mas vivo; Ele voltou da morte e agora está eternamente vivo!

Aleluia! Ele vive!

O resto, de como Ele apareceu a Cléopas e a outro discípulo no caminho de Emaús das 16h às 18h e como desapareceu após ser identificado lá pelas 18h, de como eles voltaram correndo para Jerusalém e como chegaram suados lá pelas 19h-19h30 e se reuniram com os demais, de como Maria Madalena mantinha seu sorriso e como estava comendo mais do que todos, de como estava toda serelepe e era em si um sinal para os demais, de como Jesus apareceu no meio deles para o espanto de todos, menos para Maria que O esperava com alegria e com boca cheia, de como Jesus comeu algo do que Maria Madalena deixou sobrar do jantar que tinha sido in memoriam dEle – exceto pela Maria Madalena que já devia ter engordado tudo o que emagrecera nos dias anteriores –, de como o aparecimento se repetiu 7 dias depois, de como apareceu de uma vez só a 500 dos seus discípulos, de como ficou mais 40 dias com os discípulos até sua elevação aos Céus, e de como aconteceram outras tantas coisas, não falaremos.

Basta lembrar-se de que os discípulos nunca mais precisaram comer nada em memória de Jesus, pois como fariam algo in memoriam de Cristo se Ele não está morto, mas vivo para sempre?!

***

2 – O Tema Ceia para a Teologia Corrente

Para nós, protestantes, a Ceia do Senhor (também chamada de Santa Ceia ou Comunhão) é muito mais do que um simples ritual. Ela é um ato de obediência ao mandamento de Jesus (“Fazei isto em memória de mim”, Lucas 22:19), um memorial da sua morte sacrificial na cruz e uma proclamação da sua volta. Através da participação nos elementos – o pão e o vinho (ou suco de uva, em algumas tradições) – os crentes lembram e reafirmam a sua união com Cristo e a sua participação nos benefícios da sua expiação.

A Ceia não é uma repetição do sacrifício de Cristo (como creem os católicos na doutrina da transubstanciação), pois cremos que o sacrifício de Jesus foi único e suficiente para a redenção da humanidade (Hebreus 9:28; 10:10).

Para a tradição Batista, a Ceia é primariamente um memorial simbólico. O pão representa o Corpo de Cristo partido por nós, e o vinho (ou suco de uva) representa o seu sangue derramado para a remissão dos nossos pecados. A participação é um ato de fé e de comunhão com Cristo e com os outros crentes, um testemunho da nossa identificação com a sua morte e ressurreição, e uma antecipação da Ceia celestial no Reino de Deus.

A tradição presbiteriana, influenciada pela teologia reformada, frequentemente adota uma visão da presença real espiritual de Cristo na Ceia. Embora não acreditemos na transubstanciação (a mudança literal do pão e do vinho no corpo e sangue de Cristo) nem na consubstanciação (a presença física de Cristo “em, com e sob” os elementos, como defendido por Lutero), cremos que, pela fé e pela obra do Espírito Santo, os crentes verdadeiramente participam de Cristo e dos benefícios da sua morte e ressurreição de uma maneira especial e misteriosa durante a Ceia. João Calvino, em particular, enfatizou que Cristo se comunica espiritualmente aos crentes que participam da Ceia com fé.

As perspectivas Calvinista e Arminiana, dentro do espectro Protestante, geralmente se alinham com as visões reformada e Batista, respectivamente. Os Calvinistas tendem a enfatizar a presença real espiritual de Cristo, enquanto os Arminianos se inclinam mais para a visão memorialista e simbólica.

Em contraste, a Igreja Católica Romana professa a doutrina da transubstanciação, segundo a qual, no momento da consagração pelo sacerdote, o pão e o vinho se transformam no verdadeiro corpo e sangue, alma e divindade de Jesus Cristo, permanecendo apenas as aparências (acidentes) de pão e vinho. A Eucaristia é vista não apenas como um memorial, mas também como a renovação incruenta do sacrifício de Cristo.

Para nós, protestantes, a Ceia é um momento solene de autoexame, de confissão de pecados, de renovação da nossa fé e do nosso amor por Cristo e pelos nossos irmãos. É uma oportunidade de fortalecer a nossa comunhão com Deus e uns com os outros, enquanto aguardamos a sua vinda gloriosa.

Em resumo, a Ceia do Senhor é um sacramento essencial para a fé protestante. Embora as interpretações específicas possam variar entre as tradições Batista e Presbiteriana, e em contraste com a visão católica da Eucaristia, para nós, ela é um memorial da morte sacrificial de Cristo, um meio de comunhão com Ele e com a comunidade dos crentes, e uma proclamação da sua promessa de retorno.

3 – Crítica Interna da Teologia Corrente

A teologia atual tem questões sem respostas sobre este tema. Seguem algumas críticas internas do arcabouço teológico corrente:

•  A natureza da presença de Cristo na Ceia: A natureza da presença de Cristo nos elementos (memorial simbólico, presença real espiritual, transubstanciação, consubstanciação) é um ponto central de divergência teológica. Cada visão opera com diferentes interpretações das palavras de Jesus (“Isto é o meu corpo”, “Isto é o meu sangue”) e com diferentes compreensões da relação entre o material e o espiritual.

•  A eficácia da Ceia: Qual é o efeito da participação na Ceia para o crente? É meramente um ato memorial, ou há uma graça especial comunicada? As diferentes tradições oferecem respostas variadas, dependendo da sua compreensão da presença de Cristo e do papel dos sacramentos como meios de graça.

•  Participação na Ceia: Quem pode participar da Ceia? As diferentes igrejas têm diferentes critérios para a participação na Ceia (membros batizados, profissão de fé, etc.), refletindo suas eclesiologias e compreensões da natureza da comunhão.

Nossa resposta:

As principais críticas internas sobre a Ceia pressupõem sua necessidade. Entendemos que esse ritual é um erro de interpretação de forma que não há como responder às perguntas porque versam sobre uma base equivocada, pois são questões levantadas sobre algo que não deveria ser realizado. É como perguntar qual a melhor isca para pescar peixes em um campo de futebol. Mas vamos tomar cada questão e respondê-la:

1 – Como Cristo se faz presente nesse ritual? Ele não se faz presente nem nos elementos, nem por representação, nem em memória, de nenhuma forma Ele se associa a esse ritual que foi incorporado à tradição cristã. É uma forma de idolatria dissimulada tratada longamente por Paulo na carta aos Coríntios.

2 – Qual a eficácia desse ritual? Nenhuma que seja positivo para Deus, nem para a Igreja, nem para os santos. Por que fazer alguma coisa que Ele falou para não fazer traria algum benefício? A única coisa que resulta de um rito de Ceia é a declaração de que Cristo está morto, “porque todas as vezes que partis o pão e bebeis o vinho anunciais a morte do senhor”, uma declaração agrada somente ao inimigo de nossas almas, pois o que nos dá ânimo é que Ele ressuscitou, e não que Ele morreu. Ninguém nunca foi punido por declarar que Jesus morreu, mas todos sofrem ao testemunhar que Ele vive, motivo pelo qual esse ritual não possui eficácia alguma para os crentes, mas é de absoluta necessidade aos dominadores deste mundo tenebroso para impor o medo, culpa e limitações ao Corpo de Cristo.

3 – Quem deveria participar desse ritual? Ninguém. Haveria por acaso alguma condição ou preparação, como batismo, curso, idade, frequência em reuniões, etc., que nos permitiria participar de um ritual que declara que a morte de Jesus e sua presença neste mundo material sob a forma de coisas que em seguida são comidas? Não, por óbvio. Em nosso entendimento só tem uma coisa que justificaria nossa presença ou participação em um ritual: nossa intenção de ajudar a resgatar as pessoas que estão ali presas por desconhecimento. Imagine uma casa pegando fogo: o que faria alguém entrar ali onde só há destruição? O amor por alguém que está lá dentro. Da mesma forma, e voltando à questão, só deveria “participar” quem tem a intenção de tirar, por amor, as pessoas desse entendimento errado.


[1] Abordaremos mais detalhadamente a cronologia no volume 2 – O Cenário, assim como o mal e a cosmologia.

[2] As formas de Deus tratar o Homem ao longo da História: Inocência, Consciência, Governo Humano, Promessa, Lei, Graça, Reino.

[3] Chamadas no Brasil genericamente de igrejas evangélicas (Batistas, Presbiterianos, Luteranas, Calvinistas, Metodistas, Assembleias de Deus, Quadrangulares, etc.)

[4] Isaías 29:13 O Senhor disse: Visto que este povo se aproxima de mim e com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim, e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, que maquinalmente aprendeu, continuarei a fazer obra maravilhosa no meio deste povo; sim, obra maravilhosa e um portento; de maneira que a sabedoria dos seus sábios perecerá, e a prudência dos seus prudentes se esconderá.

[5] https://padrepauloricardo.org/blog/transubstanciacao-um-guia-para-iniciantes, consultado em 02/07/2022

[6] O artigo é de Hendro Munstermann, professor de Teologia na França, publicado por Nederlands Dagblad e La Croix International, 17-11-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo. Foi obtido na página https://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/614584-o-problema-com-a-transubstanciacao, consultado em 02/07/2022

[7] Obtido no site https://www.vatican.va/content/paul-vi/pt/encyclicals/ documents/hf_p-vi_enc_03091965_mysterium.pdf, consultado em 02/07/2022.

[8] https://pt.wikipedia.org/wiki/Infalibilidade_papal

Conclusão deste volume

Neste primeiro volume de O Livro Roxo da Teologia Sistemática, lançamos A Base para a jornada teológica que propomos. Percorremos juntos cinco temas cruciais que alicerçam nossa compreensão da fé cristã. Primeiramente, mergulhamos na profundidade de Deus, buscando entender não apenas quem Ele é, mas também o que Ele quer e por que nos criou. Desafiamos algumas noções tradicionais, como a da Trindade, que nos parece ter sido influenciada por teologias não-cristãs, e propomos um retorno a uma interpretação mais contextualizada das Escrituras.

Em seguida, enfrentamos a questão do Pecado, não como um acidente de percurso, mas como um desequilíbrio inevitável no plano divino. Exploramos a originalidade do Pecado Original e suas implicações para a nossa existência, argumentando que ele não é uma falha no projeto de Deus, mas parte de um plano maior. Morte, frequentemente vista como o fim, foi por nós examinada como uma transição, um portal para o pós-morte, com implicações distintas para crentes e incrédulos. Desmistificamos o medo do desconhecido, buscando nas Escrituras a certeza da vida após a morte e a esperança da ressurreição.

A Igreja, longe de ser apenas uma instituição humana, revelou-se como a noiva do Cordeiro, o Corpo de Cristo na terra. Discutimos sua origem em Cristo e sua relação com Israel, enfatizando a unidade entre judeus e gentios no plano divino.

Por fim, revisitamos a Ceia, uma prática central na cristandade, buscando compreender seu significado à luz das Escrituras e questionando a tradição que, ao nosso ver, se distanciou do propósito original.

Ao longo deste volume, procuramos lançar luz sobre temas que muitas vezes são negligenciados ou mal compreendidos pela Teologia Corrente. Não pretendemos ter a última palavra, mas sim abrir caminhos para uma reflexão mais profunda e um entendimento mais completo de Deus e de Seu plano para a humanidade. Que esta Base que construímos nos impulsione a buscar um relacionamento mais íntimo com o Pai, a viver de acordo com a verdade e a aguardar com esperança a plenitude da vida em Cristo.

Glossário

• A Base, O Cenário, O Fluxo: São os nomes dos três volumes que compõem a obra “O Livro Roxo da Teologia Sistemática”, representando uma organização temática diferente da tradicional para os assuntos da Teologia Sistemática. O volume 1, “A Base”, foca nos fundamentos do entendimento teológico e aborda os temas centrais: Deus, Pecado, Morte, Igreja e Ceia.

Adão: O primeiro homem criado por Deus. Sua criação foi feita à imagem e semelhança de Deus, sendo Jesus o modelo usado para essa criação. A história de Adão, incluindo sua queda no pecado, é fundamental para a compreensão da condição humana, da origem do Pecado Original e da necessidade de redenção.

Aliança: Refere-se a um acordo estabelecido por Deus com a humanidade, que é progressivo e culmina em Jesus Cristo. Há uma distinção entre a Antiga Aliança, sob a Lei de Moisés, e a Nova Aliança. A Nova Aliança, iniciada com a morte de Jesus na cruz, é espiritual e única, formando a Igreja como o Corpo de Cristo na terra.

Alteração de Significado: Uma “mágica” pela qual o sentido de textos bíblicos é distorcido para apoiar doutrinas pré-concebidas, como a Trindade, ou para ocultar a verdade. Essa alteração muda o “referente”, sendo o referente absoluto Cristo. O livro adverte que ler errado induz ao erro, e que a Bíblia pode ser “usada” a favor de uma teologia inserindo nela textos ou reinterpretando-os.

Anjos Caídos e Demônios: Os demônios são espíritos impuros, resultado da mistura ocorrida em Gênesis 6, onde anjos se materializaram e tiveram relações com mulheres. Contrariando a ordem divina de que cada vida deveria se perpetuar “conforme a sua semente”, esses seres híbridos se tornaram os demônios após suas mortes. Os Anjos caídos envolvidos nessa corrupção da humanidade foram presos no Tártaro após o dilúvio.

Antiga Aliança / Velho Testamento: Refere-se ao pacto sob a Lei de Moisés, firmada com sangue de animais. Jesus viveu sob esta aliança em Sua carne e a cumpriu. Caracterizava-se por ser material, com ritos, locais e objetos físicos, e foi anulada pela Nova Aliança, que começou com a ressurreição do Senhor Jesus. A página em branco entre o Antigo e o Novo Testamento nas Bíblias impressas é criticada por induzir ao erro de misturar as alianças com a compilação dos livros.

Barriga de Aluguel/Maria: Termo usado para descrever a concepção de Jesus, enfatizando que Maria serviu como um meio para que Deus implantasse uma célula criada do nada em seu útero, sem participação genética dela ou de Adão. Isso significa que Jesus é totalmente celestial e não herdou o DNA de Adão.

Batismo: Rito de imersão ou aspersão com água. O livro analisa o batismo de Jesus e discute sua relevância e significado (como purificação, arrependimento, identificação com Cristo). Para a Igreja, o batismo foi usado para mostrar que a pessoa estava saindo do poder do judaísmo e era um sinal externo de mudança ou conversão, não um sacramento.

Carne: No contexto do Velho Homem, a carne refere-se à vida biológica que domina a alma, um corpo natural que não é mais dominado pelo espírito. É o que deve ser mantido crucificado com suas paixões e desejos, conforme Romanos 6 e Gálatas 5.

Ceia / Santa Ceia / Eucaristia: Um dos cinco temas do volume 1. Condenamos as práticas tradicionais desse rito porque não deveria ser feito atualmente. É um símbolo que anunciava a morte do Senhor e perde o sentido ao ser encenado após Sua ressurreição, pois não se faz algo “in memoriam” de quem está presente, mas somente para quem está ausente. É associada à idolatria por Paulo em I Coríntios, pois reduz o Deus vivo a elementos físicos e perpetua um ritual judaico (a Páscoa) que já se cumpriu em Cristo. A instrução de Paulo em I Coríntios 11 é uma repreensão aos coríntios por abusos e desunião, e não como uma ordem para praticar o rito.

Clonagem Humana: Mencionada no índice como um subtópico da Unidade “Morte”.

Comma Joanina / As Três Testemunhas: Nome dado a um inciso ou interpolação no texto de I João 5:7-8, que adiciona a menção do Pai, a Palavra e o Espírito Santo no céu. O livro, citando fontes, afirma que essa passagem foi uma interpolação feita no Século XVI e não aparece em manuscritos gregos antigos, portanto, não deve ser usada para provar a doutrina da Trindade.

Corpo de Cristo / Igreja: Refere-se à Igreja, o conjunto de todos os crentes que foram selados com o Espírito de Cristo, tanto judeus quanto gentios, os “batizados” nEle pelo Seu Espírito. A Igreja é a Noiva do Cordeiro, o “novo homem”, e a manifestação visível de Cristo no mundo. Não se trata da Sua Carne, mas do Seu Corpo místico. É a única coisa material que Deus tem na terra, sendo Sua embaixada.

Cosmologia Bíblica: A concepção da Bíblia de que a terra é o centro de tudo. Os lugares espirituais são relacionados a essa estrutura.

Criação: Ato de Deus de trazer à existência o tempo, espaço, matéria e a dimensão espiritual. O Homem é o centro da criação, que foi feita para expressar o amor de Deus e para testar o caráter humano. Foi feita por e para Jesus, a Imagem Visível de Deus.

Destinos Finais: São os destinos após o Juízo Final. Para os vivos na terra, o Reino Eterno ou o Inferno. Para os mortos que foram reintegrados aos seus corpos, o reino eterno com o Criador ou o Inferno (Lago de Fogo).

Deus: O Ser supremo, eterno e não-criado, que transcende o tempo, o espaço e a matéria. Foi descrito como um “ponto” adimensional que simplesmente “é” (“Eu Sou”). É amor em essência e plenamente justo. Revela-Se como espírito e pessoa para ser compreendido pelos humanos. Sua expressão máxima para sua criação é Jesus, Sua Imagem visível. Há apenas Um e Único Deus.

Doutrinas Cristãs: Embora o livro não defina “doutrinas cristãs” como um termo isolado, ele aborda e revisita os principais temas da Teologia Sistemática (como Doutrina de Deus, Cristologia, Pneumatologia, Criacionismo, Hamartiologia, Soteriologia, Eclesiologia, Bibliologia, Escatologia) para apresentar uma nova abordagem que discorda das visões tradicionais em alguns pontos.

Dualidade: Uma condição criada por Deus para testar o Homem, oferecendo escolhas entre o bem e o mal. É diferente do dualismo (que sugere dois deuses em conflito), pois a dualidade estabelece Deus como a origem de tudo, inclusive do mal, para um propósito de juízo perfeito e para que o homem se convença do juízo divino.

Encarnação: O ato de Deus se tornar homem, Jesus, a Imagem Visível de Deus. Ele é plenamente humano porque o primeiro homem foi feito à imagem dEle, e não o contrário. Foi o máximo que Deus pôde fazer para Se comunicar com o homem, expressando plenamente Seu amor.

Escamas: Utilizamos a metáfora de escamaspara descrever como as revelações de Deus são progressivas e apontam para Jesus Cristo, o homem perfeito, o Deus visível. A capa do livro, com a imagem de fundo que remete a escamas, reforça visualmente essa ideia de revelação progressiva e de um mosaico de verdades que, juntas, formam uma imagem completa e coerente de Cristo.

Espírito Santo / Espírito de Deus / Espírito de Cristo: É a manifestação no mundo criado da vida incriada (o Pai e o Filho). Não é uma pessoa separada, mas a forma espiritual de Deus atuando. É o mesmo Espírito, independentemente de ser referido como Espírito de Deus, Espírito Santo ou Espírito de Cristo. Atua capacitando, guiando e santificando os crentes, sendo o selo de Deus neles. Sua atuação é essencial na regeneração e na formação da Igreja.

Evangelho nas Estrelas: A forma como Deus “pregou as boas novas nas constelações”. Os símbolos do Zodíaco (que não vem de “animais” (zoo), mas de “caminho” em árabe) contam a história da salvação, dividida em quatro grupos, e o signo de Libra simboliza a justiça de Deus e a segurança da salvação em Cristo.

EX/Existência: O prefixo “EX” em “existir” é analisado para indicar algo “posto para fora” ou “criado por Deus”. O livro argumenta que Deus não “EXiste”, nem “INiste”, mas simplesmente “iste” ou “é” (“Eu Sou”), pois não foi criado e transcende a criação.

: Confiança e crença fundamental em Deus e em Suas revelações, especialmente em Jesus Cristo como o Filho de Deus e Salvador. É o meio essencial pelo qual os indivíduos recebem a graça divina e a justificação. A fé é descrita como a certeza das coisas que não se veem e uma regra do Reino. A fé não é a ausência de lógica, mas a confiança na lógica divina.

Filho de Deus (Jesus): A Imagem Visível de Deus para Sua criação, gerado no sentido de ser o reflexo de Deus em Sua criação (não criado como as demais coisas criadas) na eternidade como a imagem do Pai, que é invisível. Jesus é o Deus completo em Sua Carne, o Deus perceptível para a criação, a expressão exata de Deus na terra. Ele foi o modelo usado para a criação de Adão e é a ideia/imagem que Deus teve. Ele é distinto do Pai, mas eles são um, sendo o Pai maior porque é além da criação. Jesus é o “Pão do Céu” que se materializou para consumar o propósito de Deus expandir o Seu amor.

Graça: O período da Graça é o Novo Testamento, oposto à Lei, e se baseia na fé. É a revelação plena de Deus, materializada no próprio Cristo. A graça encerrou toda maldição e bênção da Lei. A salvação é de graça, e a graça de Deus também capacita o ser humano a responder em fé.

Heresia: Uma divergência em ponto de fé ou de doutrina religiosa; um dito ímpio ou insultante contra o sagrado; uma opinião contrária às ideias recebidas; ou algo contrário à razão e ao bom senso. O livro critica o uso da palavra para proteger um sistema de entendimento. O Apêndice 1 da Unidade 1 – Deus lista e discute diversas heresias históricas sobre Deus e Cristo, apresentando os reais motivos de sua condenação pela Teologia Corrente.

Identificação (com Cristo): Refere-se à capacidade de Cristo se colocar como substituto perfeito e representante da humanidade devido à Sua natureza única. Ele se identificou plenamente com a Sua criação ao nascer como homem para nos levar a sermos parte dEle, como Seu Corpo coletivamente tomado. Essa identificação permite que, ao estarmos em Cristo, nos apropriemos da Sua vitória sobre o pecado e o “velho homem”.

Igreja: {veja: Corpo de Cristo}.

Inferno / Lago de Fogo / Geena: Distinguimos o Inferno (Lago de Fogo) como destino final para os incrédulos daquele destino transitório das “Trevas Exteriores”. Foi originalmente preparado para o diabo e seus anjos, não para o homem. No Inferno, os que para lá forem enviados tomarão emprestado esse lugar que não era destinado a eles, com caráter de tormento eterno ou função de destruição. Representa a “segunda morte” e a destruição total e eterna, sem meios-termos ou gradações de pena. É distinto do Sheol.

Judeus / Israel: O livro analisa a distinção fundamental entre Israel e a Igreja, entendendo que a Igreja não está sujeita às mesmas leis dadas a Israel. Israel, o povo de Heber, serviu como canal para a vinda do Messias e foi preservado geneticamente da corrupção dos anjos. O livro afirma que os judeus que rejeitam Jesus como Messias são “inimigos de Cristo” teologicamente, conforme Romanos 11:28, mas essa inimizade é teológica, não pessoal ou étnica. Quando um judeu se converte, ele se torna parte da Igreja, perdendo a distinção judaica dentro do Corpo de Cristo.

Juízo Perfeito: Processo pelo qual Deus julga cada pessoa com base em suas escolhas e sua vida, em um contexto de dualidade, para que o veredito seja reconhecido como justo pelo próprio indivíduo. É necessário que o homem viva e faça escolhas para que possa concordar com o juízo divino.

Lago de Fogo: {veja: Inferno}.

Lei de Moisés / Lei do Sinai: Refere-se à Antiga Aliança, firmada com sangue de animais e caracterizada por ser material, com ritos e objetos físicos. Jesus nasceu e viveu sob a Lei e a cumpriu. A Lei teve fim quando foi cumprida em Cristo, e não mais cabe à Igreja.

Lógica: Embora não seja um termo teológico definido isoladamente, enfatizamos que Deus age com lógica em Sua criação e em Seu plano, e que a fé é uma confiança baseada nessa lógica divina, e não na ausência de raciocínio. Criticamos construções teológicas que contêm erros lógicos.

Lugares do Além: Descrevemos diversos locais no pós-morte, incluindo o Sheol, Paraíso, Tártaro, Abismo, Trevas Exteriores e Inferno.

Lugares do Além: O livro descreve diversos locais no pós-morte, incluindo o Sheol/Hades (lugar de espera), o Paraíso (para os justos), o Tártaro e o Abismo (para anjos e demônios), e o Inferno/Lago de Fogo (destino final dos não-salvos).

Mentira: É uma tentativa de esconder ou alterar o referente, e levado ao limite, o referente absoluto, que é Cristo.

Milênio: Período de mil anos de governo de Cristo na terra. No contexto do Tribunal de Cristo, os crentes não infiéis podem ser retidos nas Trevas Exteriores {veja: Tribunal de Cristo} durante este período, sendo que essa disciplina pode se estender por até mil anos. É um período que antecede o Juízo Final.

Modelo: Jesus é o modelo usado por Deus para a criação de Adão e, por extensão, da humanidade. Ele é a ideia/imagem que Deus teve, e é por isso que os humanos são feitos à imagem de Deus.

Morte: Um dos cinco temas do volume 1. É explorada desde sua origem como consequência do pecado (e do desequilíbrio entre o material e o espiritual) até os destinos finais. Distingue a morte física da segunda morte ({veja: Inferno}), sendo uma transição e a penalidade máxima sobre a vida física.

Morte: Um dos cinco temas do volume 1. É explorada desde sua origem como consequência do pecado (e do desequilíbrio entre o material e o espiritual) até os destinos finais. Distingue a morte física da segunda morte (Inferno), sendo uma transição e a penalidade máxima sobre a vida física. A morte é parte do plano divino para o juízo perfeito e a expansão do amor de Deus. A forma da morte importa. No caso de Deus, o Seu nome aponta para a morte de cruz.

Nome de Deus/Oração em Meu Nome:

Nome de Deus: Revelado no tetragrama hebraico, cujo significado pictográfico (“Mão/Olhe/Prego/Olhe”) aponta para Cristo e Sua crucificação, significando “O Poder de Deus para Salvar” (Yahushua/Jesus). É o único nome pelo qual os homens podem ser salvos.

Nova Aliança / Novo Testamento: A aliança imaterial e espiritual estabelecida pelo sangue de Cristo na cruz, inaugurando o período da Graça. É a revelação plena de Deus, materializada no próprio Cristo. Os livros bíblicos compilados como “Novo Testamento” são vistos mais como instruções e exortações para viver sob a Graça, e não a aliança em si.

Nova Vida / Novo Homem: O conceito paulino do “novo homem” refere-se à transformação que ocorre na vida do crente por meio da identificação com Cristo. Quem está em Cristo é uma nova criatura. A nova vida é uma vida espiritual de fé, possibilitada pela ressurreição de Jesus, que encerrou em Si o desequilíbrio entre o material e o imaterial e iniciou uma nova concepção de vida.

Oração em Meu Nome: Pedir “em meu nome” não é uma fórmula mágica, mas uma identificação espiritual com Cristo. Significa que o pedido deve estar alinhado com os propósitos de Deus, que agradam a Ele, e não para o benefício exclusivo do que pede. No contexto da oração, é como se fosse a própria pessoa de Jesus pedindo, com Sua autoridade e em alinhamento com Sua vontade.

Pão do Céu: Jesus é identificado como o verdadeiro Pão que desceu do céu, o Maná. A Ceia feita nas reuniões é criticada por proclamar a morte de Jesus, quando Ele, o verdadeiro Pão do céu, está vivo. A verdadeira comunhão é com Cristo, o Pão espiritual, e não com um pão material.

Paradigma: Utilizado para ilustrar a dificuldade em mudar a forma de ver as coisas, como olhar através de lentes coloridas. Para perceber a verdade (especialmente em assuntos como a Ceia), é necessário ver lentes coloridas, ou seja, sem paradigmas pré-estabelecidos.

Paraíso: Um lugar específico de descanso e espera para os justos (crentes em Deus) no pós-morte. Foi criado por “acidente” após o ato de Caim e a morte de Abel. Antes da ressurreição de Cristo, ficava debaixo da terra (Sheol), mas foi levado por Cristo para o céu, onde os crentes acordados aguardam o Tribunal de Cristo. É considerado um “quarto VIP do grande hotel Sheol“.

Pecado / Pecado Original: O Pecado Original é um “desequilíbrio intrínseco” inerente à criação humana. Esse desequilíbrio existia em Adão antes da queda e, de forma única e sem pecar, também esteve presente em Jesus, tornando Sua tentação e vitória significativas. O pecado não é um erro aleatório, mas se encaixa no propósito divino de um juízo perfeito e expansão do amor de Deus. O pecado é um desvio de alvo, que pode ser causado por imperícia, imprudência ou negligência. O livro argumenta que o pecado sempre foi inevitável e indissociável do plano de Deus para se introjetar na criação.

Pedir em Meu Nome: No contexto da oração, significa que o pedido é feito como se fosse a própria pessoa de Jesus pedindo, com Sua autoridade e em alinhamento com Sua vontade. Não é uma fórmula mágica, mas uma identificação espiritual com Ele.

Pena de Morte: Abordada em diferentes contextos: como execução humana por crimes extremos, como decisão em casos de suporte de vida (desligamento de máquinas), ou como resultado de guerras. O livro argumenta que a vida é tirada por Deus, direta ou indiretamente, pois só Ele tem o poder sobre a vida e a morte, e Ele não terceiriza esse trabalho.

Pós-Morte: O que acontece após a morte física, sendo um período de continuidade da existência consciente. O livro busca desmistificar o medo do desconhecido sobre este tema.

Predestinação e Livre Arbítrio: Duas faces da mesma moeda, que coexistem e não podem ser separadas. Deus, em Sua presciência, conhece o futuro e todas as escolhas, mas isso não anula a liberdade genuína de escolha e a responsabilidade humana. É necessário que o homem viva a experiência para que o juízo de Deus seja justo aos seus próprios olhos.

Profundezas da Terra: Referência a locais subterrâneos que fazem parte da cosmologia bíblica, onde se encontram o Sheol, o Tártaro e o Abismo.

Reino Eterno / Reino de Deus / Reino dos Céus / Reino Milenar: O destino final para os salvos, uma existência eterna em plena comunhão com o Criador. Enfatizamos que a salvação é de graça, mas o acesso pleno ao Reino é por esforço e fidelidade. Crianças e inocentes são declarados como sendo do Reino dos Céus. A Igreja é a embaixada desse Reino celestial.

Roxo: A cor roxa é tradicionalmente associada à realeza, nobreza, espiritualidade, sabedoria e mistério. É uma cor derivada da mistura do azul (que frequentemente simboliza a divindade, o céu e a transcendência) e do vermelho (que pode representar o amor, a paixão, o sacrifício e a humanidade). No contexto de “O Livro Roxo da Teologia Sistemática”, essa cor simboliza a profundidade e a “singularidade” das perspectivas teológicas apresentadas, que buscam ir além do convencional para revelar verdades mais profundas sobre a realeza de Deus, o mistério de Sua obra e a nova abordagem para a Teologia Sistemática.

Ruach: Palavra hebraica no Antigo Testamento que é traduzida como “espírito” e significa “sopro”, “vento” ou “fôlego”. Destacamos que sua tradução posterior para “espírito” foi influenciada por culturas que associavam o termo a seres não-materiais como demônios, diferenciando-o da natureza única e incriada do Espírito de Deus.

Sacramento: Um mandamento especial, conceito que criticamos, especialmente em relação à Ceia. Argumentamos que o termo é uma convenção humana para destacar certos mandamentos como “sagrados” ou “especiais”, sem base divina para tal distinção na Nova Aliança. Afirmam que, no contexto da Igreja, não existem sinais externos materiais (“sacramentos”).

Sacrifício Humano: Deus abomina sacrifícios humanos. Aqueles que o praticam agem contra a vontade divina.

Sacrifício Perfeito: O sacrifício de Jesus Cristo é o único sacrifício perfeito, definitivo e eficaz. Jesus pôde ser o substituto perfeito porque Sua matéria essencial não foi tirada da matéria já criada, Adão, mas veio “do alto”, sendo “TODO celestial”. Ele veio em carne, na carne dEle. Maria foi o útero que proporcionou o ambiente para o desenvolvimento do corpo implantado nela, sem a participação genética dela nesse processo. Jesus não é humano por ter nascido de Maria, porque Adão foi criado tendo Jesus como modelo: nós somos humanos por causa de Jesus, a Imagem Visível de Deus.

Salvação: Processo pelo qual Deus resgata a humanidade por meio da obra redentora de Jesus, culminando na formação da Igreja. Envolve a redenção do espírito (salvo no passado), da alma (sendo salva por uma vida de caminhada e esforço), e do corpo (será salvo na ressurreição com um corpo celestial).

Sheol / Hades: O Sheol é o lugar para onde vão as almas dos que morrem, localizado debaixo da terra, onde ficam aguardando o julgamento, como que em suspensão. Não há espaço para arrependimento nesse período. Antes da ressurreição de Cristo, o Paraíso ficava dentro do Sheol. Após a ressurreição de Cristo, o Paraíso foi levado para o céu, restando apenas o Sheol sob a terra para os não salvos. No Sheol, as pessoas ficam sozinhas e ensimesmadas, não havendo demônios torturando-as, como normalmente se vê nos filmes. Qualquer punição somente será feita após o réu ser completamente julgado no juízo do Trono Branco, no final de tudo.

Sheol Restrito: Chamamos assim uma parte do Sheol, antes da ressurreição de Cristo, destinada aos crentes “carnais” ou “injustos” (que agiram sem amor e misericórdia) para correção temporária, um “lugar com gostinho de Inferno”, mas não o Inferno eterno. Ficava sob a terra e foi esvaziado por Ele na ressurreição. Depois do Tribunal de Cristo haverá algo semelhante para os que ficarem fora do Milênio.

Sinal de Jonas (Três Dias e Três Noites): Jesus usou o período de Jonas no ventre do grande peixe como um sinal para Sua própria morte e ressurreição, indicando que passaria três dias e três noites completos na terra. Esse período é crucial para a compreensão da “volta” de Cristo mencionada no contexto da Ceia. Ele voltou do túmulo para onde tinha ido. Em resumo, se não fosse isso Ele ainda estaria morto.

Substituição (de Cristo): A salvação é alcançada porque Jesus nos substituiu na cruz, morrendo em nosso lugar e nos representou ao levar sobre si o nosso velho homem e o pecado. Ilustrando o princípio da substituição, o cordeiro ficou com a morte que cabia a Adão, e Adão ficou com o suprimento que cabia ao cordeiro. Cristo foi o substituto perfeito porque não era descendente de Adão e, portanto, não estava no mesmo “fosso do pecado” que nós.

Teologia Corrente: A teologia predominante hoje na cristandade, a qual criticamos em vários aspectos por frequentemente e apresentar Jesus sob uma perspectiva equivocada, além de não abordar certos assuntos ou fazê-lo de forma inadequada.

Teologia Sistemática: Uma das áreas de estudo da teologia que visa apresentar de forma ordenada o conhecimento sobre Deus. É o assunto central desta obra, apresentada sob nova organização e perspectivas e cujo objetivo reconduzir nossa atenção a Cristo.

Teologia: Um instrumento criado pelo homem para tentar entender melhor sua relação com Deus. Criticamos quando essa ferramenta é usada para desmerecer Deus e para prender pessoas a conceitos errados.

Tetelestai: Palavra grega dita por Jesus na cruz, que significa “Está consumado” ou “Está pago”. Enfatizamos que a obra redentora de Cristo na cruz foi completa e definitiva, não precisando de continuidade ou repetição através de rituais como a Ceia/Eucaristia, sacerdotes, festas religiosas, objetos sagrados etc.

Transubstanciação: Doutrina da Igreja Católica que afirma a conversão substancial do pão e do vinho da Eucaristia (ou Ceia) no corpo e sangue de Cristo, mantendo apenas as aparências (acidentes). Criticamos isso como um “show de mágica” e uma heresia sem base bíblica, destinada a reforçar o misticismo e o domínio eclesiástico, além de atentar contra a capacidade lógica com que Deus nos criou.

Trevas Exteriores (As): Lugar ou estado de correção para crentes “mornos” ou “maus servos” que não se prepararam adequadamente ou agiram sem amor e misericórdia. É uma disciplina divina para aqueles que, tendo a oportunidade de se autocorrigir, não o fizeram. É uma disciplina temporária com gradação de penalidades e pode durar até mil anos, equivalente à duração do Milênio. Não é o Purgatório da teologia católica.

Tribunal de Cristo: Um juízo específico para os crentes, não para determinar salvação (que já está garantida pela fé), mas para avaliar a qualidade do serviço e da fidelidade demonstrados durante a vida terrena. Resulta em recompensas ou em perdas sobre a salvação da alma, embora o crente em si seja salvo “como pelo fogo”.

Trindade: Doutrina não bíblica introduzida na cristandade por influências não-cristãs (como o Concílio de Niceia em 325 d.C.) e por propósitos de domínio e união de territórios pelo Império Romano. É um insulto à inteligência, além de uma blasfêmia, pois atenta diretamente contra a autodescrição de Deus que se declara como Um e Único, não um consórcio de três pessoas. Só teve sucesso pela força usada pelo Império Romana em sua implantação.

Velho Homem: Conceito paulino de a condição inerente de desequilíbrio entre o material e o espiritual na natureza humana, em oposição ao Novo Homem. Essa condição existia em Adão antes da queda e, de forma única e sem pecar, também em Jesus. Pela ressurreição Cristo venceu o desequilíbrio e agora tem um Novo Homem. Não é a “natureza caída” adquirida após o pecado de Adão. Foi crucificado com Cristo, permitindo a nova vida em Cristo.

Verdade Absoluta (Cristo): Cristo é a verdade última e o ponto de referência final para todo significado. Toda comunicação se faz por símbolos que contêm significados e se referem a uma coisa real, o referente, a realidade ou verdade à qual um símbolo aponta. Toda mentira é uma tentativa de esconder ou alterar o referente, e o referente absoluto é Cristo. A Igreja de Cristo caminha para a liberdade que há em Cristo, e não para dogmas que impedem o uso crítico do pensamento, pois a fé busca a verdade.

Zodíaco: {veja: Evangelho nas Estrelas}.

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